À maneira das revistas da moda. Há quem seja
indiferente. Há os que apreciam. Mas estão na moda as vidas familiares, para
amenizar outras da tragédia universal…
“Herdeiros” em causa própria
Sempre me interroguei sobre a
responsabilidade do legado recebido. Faz-se caso ou faz-se de conta? Os que se
sucedem numa família, filhos, netos, olham para trás inspiram-se, ou... seguem
em frente?
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 09
jul. 2025, 00:221
1Assumo: é uma causa própria. Mas gosto
muito da palavra “legado”. Pelo que significa e pelo que pode representar como responsabilidade
ou recusa. Orgulho ou banição. Tradição ou contestação. Continuação ou fim.
Do mesmo modo que há que honrar os
talentos recebidos, sempre me interroguei sobre a responsabilidade do
legado recebido. Faz-se caso
de um legado ou faz-se de conta? Os
que se sucedem numa família, filhos, netos, bisnetos, olham para trás
inspiram-se, ou… seguem em frente? Partem
para a vida facetados pela “cultura” da casa onde nasceram, tendo no visor o
passado e a passada dos pais, do que fizeram, e representaram? Ou seja, saíram
de casa com a responsabilizante intenção de “continuar” – ampliando e inovando
– alguma coisa já começada? Ou decididos a partir para outra, escolhida por
eles?
Falo obviamente de um legado lato senso:
cultural, politico, social, mais do que apenas profissional. Civilizacional,
talvez, numa palavra.
Decidi perceber melhor tudo isto. A
seguir propus a esta “casa” uma nova série de podcast, e a seguir parti para a
empreitada. Logo na primeira esquina estava o embaraço da escolha à minha
frente: largo era o leque da escolha!
E depois, como em tudo – isto é, após trabalho e critério – apurou-se uma
escolha. Tal como um cozinhado ao lume, à
procura do melhor “ponto” em que sabor e apuro se encontram.
2Em resumo: de que se tratava afinal? Tratava-se
de conversar com os filhos/filhas de pais que tiveram intervenção pública
relevante em várias áreas do país e cujos filhos possuem hoje — tendo ou não
seguido as pisadas maternas ou paternas nas mesmas áreas de intervenção – o
mesmo grau de qualidade e notoriedade pública.
Não só poderia ser interessante dar voz – ampliando a que já têm – a uma
outra geração de boa colheita, como pôr em relevo a importância da cultura da
“casa” onde nasceram e o que trouxeram consigo desse legado de valores,
princípios, costumes, modos de vida. E sobretudo, de como o
interpretam hoje – ou não – ou dele se inspiram ou não – nas suas profissões,
intervenções ou mesmo decisões.
No fundo era uma espécie de
“dois-em-um”: ouvir as muito variadas histórias do elenco destes “filhos”
inseridos no Portugal de hoje – e ao mesmo tempo recordar o valor da “marca”
ontem impressa pelos pais, no país.
3Acabou esta semana e foi uma grande viagem.
Findou com o formidável João Vieira de Almeida – também
alpinista e baterista e apaixonado de rugby –, começou em Abril com o adorável chef António Lobo Xavier. João seguira o legado do pai Vasco, fazendo de um escritório que então
contava apenas meia dúzia de advogados uma marca internacional com cerca de 500
causídicos. António, não:
rejeitara as leis e trocara-as pelos fogões onde, com 27 anos, muito se tem
apurado entre tachos e receitas que aprimora ou reinventa.
No fundo o que importava era apenas que
todos eles e elas me quisessem falar de “legados”. Quiseram
todos. E contaram muito.
4Na hora despedida e pelos magníficos
momentos que passei com os “Herdeiros” deixo
brevíssimas aguarelas de homenagem.
A seguir ao dotado cozinheiro “Xavi”
Lobo Xavier, que já vai no terceiro restaurante de que é sócio,
que passou a pandemia na casa da família em Penafiel, a cozinhar com o pai, e é
muito parecido com ele e esbanja simpatia, a série seguiu com Isabel
Moreira, filha de
Adriano Moreira. Momento forte. Percebi que iria ouvir mulheres
inteligentes, talentosas, intensas, inteiras. Com aquela criativa e sempre
inesgotável capacidade de desmultiplicação e decisão que é um ex-libris
feminino. Deixarão assinatura – não
duvido – nas diversas áreas onde intervêm.
5Isabel Moreira, activista
e deputada socialista e ex-dirigente do PS, abriu as suas memórias afectivas,
os seis irmãos, os pais, uma casa-porto-de-abrigo. E as escolhas políticas,
tendo em pano de fundo o culto pelo pai. E a sua bênção sempre explícita. No dia em que Adriano Moreira soube que a
sua filha Isabel iria filiar-se no PS, convidou-a para “irem lanchar fora”.
E lá foram, os dois. Os dois como sempre até aí.
Em casa de Joana Carneiro, filha de
Roberto Carneiro e de Rosário Amaro da Costa, os oito filhos aprenderam música quase no berço mas o talento de
Joana levou-a a fazer da música uma história e um destino. Aqui e mundo
fora assume a direcção de grandes orquestras mesmo que com frequência viva
entre aviões, palcos e hotéis. Com uma condição: leva quase sempre os quatro filhos com ela.
Conselheira de Estado,
“prepara-se meticulosamente”, lê, estuda, fala com quem sabe mais. E quando
está actuar fora do país, junta-se ao Palácio de Belém por interposto écran.
Des-cumprir é que não.
Filipa Roseta tem a
ponderação e a cultura do pai Pedro e a energia e capacidade de trabalho da mãe
Helena
e
faz o melhor com tudo isso. Arquitecta
premiada, professora doutorada, vereadora na autarquia lisboeta, voa sobre as
palavras mas sabe o que diz. Um diálogo tão vertiginoso quanto saboroso.
Patrícia Vasconcelos, filha do
realizador António Pedro de
Vasconcelos, é acolhedora, doce, e uma grande profissional. Guerreira,
diria eu. “O casting é a minha paixão”, contou ela. Sim é uma sábia na delicada
arte da escolha, na formação de actores – criou uma escola –, na contratação
com sucesso de muitos deles para filmarem fora aqui. No universo da cultura
ninguém lhe ignora nem o nome nem o estatuto. Um dia vê-la-emos a filmar?
Para Teresa Nogueira Pinto, filha de
Maria José e Jaime Nogueira Pinto, o legado familiar conta e marca: “pelo que
representa na forma como se cresce e de como se decide o que fazer com a vida”.
Mestre em Relações Internacionais e Doutorada em Estudos sobre a
Globalização pela Universidade Nova, investigadora e professora
universitária, uma das suas máximas veio de casa: “fazer o que se deve e estar no que se faz”.
(Pequeno desabafo: hesitei em
convidá-la: sendo filha de uma irmã minha – a Maria José partiu num
mesmo 6 de Julho como este em que escrevo estas linhas – acabei decidida:
porque não havia de o fazer se um dia, há já muitos anos, Ricardo Costa, então
director de informação da Sic, ainda em Carnaxide, me dera uma expedita “guia de marcha” para entrevistar a minha
própria irmã (!) que subitamente se candidatara à câmara de Lisboa. Não
estava eu já a entrevistar os outros candidatos? Então? Não era agora
“obrigatório” acrescentar mais esta candidata? Conclusão: quem entrevista uma
irmã, dialoga facilmente com uma sobrinha….)
6Então e os cavalheiros? Não foi só
o camarote feminino que brilhou, foi a galáxia. Os cavalheiros recomendam-se,
claro. Cada um com a sua natureza e o seu poiso, todos com bons ventos.
Chamam-se Francisco Alegre Duarte, Salvador Gouveia, Martim
Sousa Tavares, António Portela, João Vieira de Almeida, António Lobo Xavier.
Evoquei já os dois últimos no início
desta crónica enternecida com todos eles, sigo para os outros.
Francisco, filho de Manuel Alegre, é
diplomata, sendo hoje embaixador em Luanda, após ter estado em muitas geografias.
Nasceu num berço político, crescendo na grande admiração do pai. Tal como ele,
ama muito a política. Escolheu foi servi-la de outra maneira.
Salvador, filho de António Patrício Gouveia
tragicamente desaparecido no desastre que vitimou Sá Carneiro, recebeu a melhor
herança do seu pai: “a ética”.
Estudou Ciência Política mas o legado
dos museus familiares do Caramulo mudaram-lhe a vida. Hoje, com irmãos e
primos, está a fazer do Caramulo uma marca. E está mesmo. E ainda há a
música, o coleccionismo, o empreendedorismo… E a História.
O Martim, filho de Laurinda Alves e de Miguel Sousa Tavares,
teve talvez a frase mais bela desta serie:” sou uma porta aberta para a
beleza.” E é: maestro e pianista, fundou uma orquestra, dirige
duas, divulga a música cruzando artes e ideias, e escreveu um livro notável em
2024. Uma vocação sempre em partilha com os outros.
António Portela, filho de
Luís Portela é a 4ª geração aos comandos da Bial, maior empresa farmacêutica
inteiramente nacional, de imenso prestigio além-fronteiras. António também foi
filho que soube nadar. E duplamente: foi
o responsável pela entrada da Bial em novos países e lançamento de novos
produtos a nível internacional e foi várias vezes campeão nacional de natação.
Modalidade onde ainda compete e por isso, esteja onde estiver, nada três
vezes por semana. Hotéis no estrangeiros só com grandes piscinas ou clubes
desportivos por perto. Dupla vitoriosa.
7Ficou a galáxia, deixo o meu obrigado,
levando comigo este friso que honra o país.
Viva o mérito!
FILHOS FAMÍLIA LIFESTYLE RÁDIO
OBSERVADOR
OBSERVADOR
COMENTÁRIOS
GateKeeper: Pois
a MJA está a tratar cada vez pior o seu próprio legado, enfim. Saber retirar-se
a tempo é a horas é, na maior parte dos casos uma autêntica bênção. MJA não
foi, infelizmente, abençoada com essa tal "propriedade química".
Ricardo Ribeiro: Viva o mérito e o inegável talento que alguns
deles têm (Isabel Moreira?, por amor da santa!) . Mas nota-se que se encontra
na sua zona de conforto, a convivência com a "elite", la creme de la
creme. Não seria mais desafiador para si este tipo de trabalho com pessoas cujo
talento e trabalho árduo fizeram subir de nível de vida e reconhecimento a
pulso, vindos de origens mais "modestas"? Sim eu sei, seria mais
complicado pois neste país a bolha elitista dificilmente deixa entrar um que
não seja dos "seus", mas que os há, há!
Nenhum comentário:
Postar um comentário