E o mundo, é o que provam as narrativas de uma Mulher de coração. E julgo
que de coragem também, que nele está contida.
“Está a querer cacimbar”
O Oeste é isto: os dias a quererem
“cacimbar”, destoando com galhardia de outros lugares onde há sol, mar, calor,
dias longos, noites doces. Coisas do verão, numa palavra. Mas aqui, aqui
“cacimba-se”.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 02 jul. 2025, 00:2228
1O verão. Ah o verão. Tão mais que uma
estação do ano… Anos após ano, a mesma espera, feita da mesma intacta e inteira
expectativa. Como quem espera “por uma
outra vida” dizia Ruy Belo e todos anos eu preciso de o lembrar aqui pela minha
absoluta, imutável, gloriosa devoção ao verão. E porque desde sempre
“pertenço” muito intimamente à poesia de Ruy Belo. Duas devoções maiores. O poeta também amava este Oeste onde costumo
escrevinhar estes e outros desabafos inocentes, amando as suas teimosas
neblinas, o cheiro a maresia, a espuma enraivecida das ondas, as praias
caprichosas. Como a Consolação que nos pode consolar, ou a de S.
Bernardino, que protege dos perigos. Ruy Belo amava este Oeste e os seus dias
tão próprios. Conheciam-se. Celebravam-se mutuamente. Aqueles dias onde se nos
cruzamos com alguém “daqui”, a quem podemos ouvir dizer com desarmante certeza
que “hoje está a querer cacimbar”. O Oeste é isto: os dias a quererem
resolutamente “cacimbar”, destoando com galhardia de outros lugares onde há
sol, mar, calor, dias longos, noites doces. Coisas do verão, numa palavra. Mas
aqui, aqui “cacimba-se”.
Ruy
Belo não se importava. O poeta necessitava de fazer sua
esta geografia singular mesmo que por vezes, muitas vezes, ela tapasse com o
seu véu, o esplendor luminoso da “única estação”.
Acompanho o poeta no seu entendimento do
que pode ser um verão assim. Tenho outros verões, é verdade, e também os
procuro, mas é este que impera. Ter ou
não ter uma alma Atlântica que nos traz e leva, talvez seja essa a
melhor explicação para a devoção. Mas só quem procura o Atlântico – sabendo porque o prefere ao caldo
azul do Mediterrâneo ou ao verde do Índico – pode perceber o que é uma alma Atlântica.
2O verão além de se trazer a
si mesmo como o mais grato dos dons, traz consigo os Festivais de Música. Junho e Julho, meses musicais. No norte e no sul, nas ilhas mais perto ou
até nas mais longínquas, são as notas musicais que como o ondulado das ondas do
mar, embalam os andamentos do verão. Tenho
um fraco muito forte pelo Festival dos Capuchos: fica
num maravilhoso convento guardado pelos seus soldados ciprestes olhando o rio
cá em baixo e ano após ano acolhe um festival de alta qualidade dirigido também
maravilhosamente pelo músico Filipe Pinto Ribeiro. Foi lá que
há dias “saboreei” uma “Truta” pescada por Schubert nas águas mais profundas da
sua celestial inspiração que nos foi servida pelo Schostakovich Ensemble onde
ao piano se sentava o próprio e magnífico Filipe Pinto Ribeiro.
Um memorável momento que ilusoriamente nos
faz acreditar na redenção de tudo. E por isso é breve e por isso é ilusório. Mas
aos Capuchos, há que voltar sempre. Chegam os dois ao mesmo tempo, o verão e o
festival.
E tenho mais dois gostos especiais mas
recomendo-os, não os quero apenas meus.
O Festival de Sintra dirigido
desde há dois anos com engenho e muita arte por Martim Sousa Tavares. Ambos se confundem: quem lá vai percebe de imediato
que “este” festival é um produto da singularidade com que o Martim sente, vive,
pratica e divulga a musica. Hélas! já terminou, voltará para o ano e a esta
hora já o Martim deve ter chegado a Paris onde foi de carro com a sua mulher
mostrar coisas belas à sua filha que acabou de nascer ainda não há três meses.
Um outro baptismo para a Helena.
E claro, há a SIPO, em Óbidos. A Semana Internacional
de Piano do Oeste, já com a legitimidade de alguns anos por aquelas paragens.
Uma legitimidade esteticamente cuidada que faz boa parceria com o cenário
natural: as inaugurações sempre precedidas de uma exposição de artes plásticas
– este ano, a 4 de Julho, é a vez de Maria Leal da Costa; as indispensáveis
“masterclasses” e os seus fecundos diálogos mestre/aluno diante de um teclado
pianístico; e as noites abertas ao público, ouvindo os músicos que durante o
dia ensinaram aos seus alunos os segredos do bem executar, ensinarem-nos agora
a nós a ouvi-los…E ah que saudade infinita do Paul
Badura Skoda e dos memoráveis serões que nos proporcionou, sentado
ao piano numa sala intramuralhas da Rua Direita.
Um regalo para habitantes, passantes e
visitantes. E vizinhos, como nós. A vila branca com sardinheiras terá sempre
esta dívida de gratidão para com a pianista
Manuela Gouveia fundadora da SIPO.
É
que a sua perseverança na continuidade da SIPO – concertos e masterclasses –
têm atravessado todos os ventos e todas as marés deste Oeste.
3Tomo sempre boa nota dos meus colegas
destas e doutras “páginas” pela elaboração
de listas de livros e depois pela sua “oferta” para que nos cultivemos ou
entretenhamos na “única estação”. A ideia, é indiscutivelmente boa e útil
mas há uma qualquer relutância em mim em “assinar” a ideia. Os livros são de todas as estações, um
carrossel que gira toda a roda do ano, vai girando, vamos lendo. Ignoro
se algum estudo, estatística, números de vendas, etc., tenha alguma vez provado
que “se lê mais no verão”. Talvez, pode ser. Por mim ofereço-lhes Ruy Belo. Escreveu muito e como (quase?)
ninguém. Evoquei-o acima, deixo-o convosco agora. Deixo-o aqui, num
esplendoroso dia de verão, pelo qual esperei — como pelo de ontem, como pelo de
amanhã – como por outra vida. Como faria o poeta. Vão ter com ele a “Todos os
Poemas” (Assírio e Alvim”) o livro de todos os livros de Ruy Belo, para todas estações e não só para a
“única”. Apesar de ele e eu sabermos que só
há uma.
VERÃO NATUREZA AMBIENTE CIÊNCIA CRÓNICA OBSERVADOR
COMENTÁRIOS (de 28)
Carlos Chaves: Se
estivesse de férias, leria esta crónica de uma outra maneira, como não é o
caso, resta-me a tristeza de em Viseu ser o primeiro verão sem a livraria
Leya, resta uma mísera Bertrand desvirtuada num canto do fórum Viseu!
Tratamos tão mal a cultura!
João Floriano: A Helena com três meses deve estar interessadíssima na Torre Eiffel ou na
Concorde! Viagens com bebés é das coisas mais estafantes para jovens pais,
sobretudo se não houver uma tia, uma avó ou uma babysitter para ajudar. Não sou
apreciador deste tipo de crónicas de Maria João Avillez em que escreve sobre
uma verdadeira bolha intelectual de gente super bonita, super inteligente,
super especial, mas que quando vão à casa de banho, o «producto» cheira tão mal
como os demais, os pindéricos, os feios, porcos e maus. Dantes não havia tanta
«cacimba» nas crónicas de Maria João Avillez. Mas só lê quem quer!
Marco Rodrigues > João Floriano: Caros, com todo o respeito, depois de ler os vossos comentários não
consegui evitar que me viesse à cabeça a imagem dos “velhos dos Marretas”. 😂
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