As próprias línguas são fruto,
em todo o sempre, de um processo viageiro passível de transformações, de acordo
com as características linguísticas e culturais dos povos receptores dos seus invasores,
não há que estranhar que tal aconteça com os nomes próprios, tal como com os
comuns nas respectivas modificações fónicas e gramaticais.
Nomes portugueses
A quase totalidade dos nomes tradicionais
portugueses foi importada de outros povos e culturas, ou seja, são nomes de
emigrantes.
OBSERVADOR, 26
jul. 2025, 00:1626
Caíram o Carmo e a Trindade quando o
líder do segundo maior partido na Assembleia da República leu, na sessão
plenária, os nomes próprios de crianças de origem estrangeira residentes em
Portugal.
Políticos, comentadores e cronistas
rasgaram, indignados, as suas imaculadas vestes, pois uma coisa é explicar, na
creche, que há meninos que afinal são meninas e vice-versa, o que é
perfeitamente normal e adequado à mentalidade de quem tem 3, 4 e 5 anos, mas é absolutamente obsceno, senão mesmo
criminoso, referir nomes próprios estrangeiros de crianças imigradas no nosso
país. Com efeito, antes dos seis anos, não há menor que não se questione
sobre a sua identidade de género, mas ouvir – embora, decerto, nenhum deles tenha
ouvido – o seu nome próprio ser
pronunciado na Assembleia da República é tão traumático que, em boa hora, os
apaixonados defensores da inocência infantil não tardaram em expressar,
publicamente, a sua justíssima indignação por tão execrável manifestação de
oportunismo político.
Sem querer desconsiderar o compungido
pranto das carpideiras do regime, talvez convenha lembrar que essa sua atitude
manifesta algum provincianismo, pois é prática corrente noutros países
europeus. Na Bélgica,
por exemplo, segundo dados recentes, nos primeiros dias dos anos 2023, 2024 e 2025,
havia, respectivamente, 36 218, 37 002 e 37 698 pessoas chamadas Mohammed, o
que indica uma significativa presença e paulatino crescimento das famílias
muçulmanas nesse país. Não consta, contudo, que a divulgação deste
dado tenha causado irreparáveis traumas nas crianças registadas com o nome do
profeta.
Em outros países europeus, as estatísticas, em relação a esse nome,
tipicamente islâmico, não são muito diferentes: em
França, Mohamed foi o 17º nome masculino mais popular a nível nacional, e está
entre os dez mais comuns em Paris. No
Reino Unido, também em 2023, há registos de 7097 crianças registadas com o nome
do profeta muçulmano. Na Alemanha, Mohammed foi o nome mais dado aos rapazes
nascidos em Berlim de 2022 a 2024. Também na Noruega, onde esse nome é o mais
comum desde 2014, Países Baixos, Suécia e Irlanda, o mesmo nome tem liderado os
respectivos registos masculinos.
Portanto, se o objectivo da referida
intervenção no hemiciclo era chamar a atenção para uma presença massiva, nas
escolas portuguesas, de crianças de outras nacionalidades e religiões, é óbvio
que cumpriu o seu objectivo, evidenciando
uma realidade sociológica que não é apenas portuguesa, mas europeia.
Pode gostar-se, ou não, desta presença numericamente tão significativa, mas não
se pode negar a sua realidade, porque os números não mentem.
Se, sob este aspecto, há que
reconhecer a pertinência dessa intervenção, o mesmo já não se pode dizer da
suposição de que há nomes próprios mais portugueses do que outros. Ou seja, por muito que custe aceitar aos
puristas da nossa ‘raça’, a quase totalidade dos nomes que hoje se podem
considerar como tipicamente portugueses foram importados de outros povos e
culturas, ou seja, foram, inicialmente, nomes de imigrantes.
Entre as diversas origens dos nossos
nomes, podem-se distinguir as seguintes etnias: hebraica,
grega, romana, anglo-saxónica, germânica, céltica e árabe. Ou seja, são muitos escassos, se os houver,
os nomes próprios originariamente portugueses!
Na medida em que Portugal nasce da Reconquista da Península Ibérica
aos mouros, é explicável a predominância de nomes de proveniência
judaico-cristã, alguns até com origem sobrenatural. Com efeito, os nomes Miguel,
Gabriel e Rafael correspondem,
segundo a revelação bíblica, aos três arcanjos. Casos houve até em que
um nome próprio foi objecto de uma inspiração divina, pois foi dito a Zacarias, pelo arcanjo São Gabriel, que o
seu filho se chamaria João.
Na Bíblia, também não faltam os casos
em que, a uma nova missão, corresponde um nome novo. Talvez o
mais representativo seja o de Simão,
filho de Jonas, a quem Jesus chamou Pedro, ao atribuir-lhe a chefia da Igreja.
Também aquele que, até à data da sua
conversão se chamara Saulo, ou seja, Saul, passou depois a usar esse mesmo nome
numa versão latinizada: é com o nome Paulo que a História o
evoca como sendo um dos principais apóstolos da fé cristã. A maioria
dos nomes dos primeiros cristãos eram os próprios daquele tempo e lugar, em que
também já se faziam sentir influências estrangeiras: Filipe, que foi um dos doze apóstolos, tinha um nome
de origem grega, que evoca o pai de Alexandre Magno, e um
famoso historiador judeu, de sua graça Josefo, antepôs ao mesmo um nome
tipicamente romano: Flávio.
Em Portugal, por respeito pela
sua condição divina, nunca se usou Jesus como nome masculino, mas sim feminino,
antecedido por Maria. São também bíblicos outros nomes muito comuns entre
nós, tais como José, Isabel, João, Jacob, Sara, Ester, Simão, Marta,
Madalena, etc.
Também não faltam os nomes próprios de origem grega, como Alexandre, André, Bárbara, Calixto, Catarina, Dâmaso,
Filomena, Helena, Heitor, Heliodoro, etc. Por sua vez, são de origem
romana Adriana, António, Augusta, Bonifácio,
Cláudia, César, Damião, Diana, Júlia, Emílio, etc.
Com as invasões dos povos ditos
bárbaros, introduziram-se em Portugal muitos nomes próprios de origem germânica, como, por
exemplo, Adelaide, Amália, Anselmo, Bernardo, Bruno, Carlos,
Hugo, Clotilde, Henrique, Guilherme, Hilda, Rodrigo, etc. Alfredo é, provavelmente, um nome
anglo-saxão, Brígida parece ser de origem celta, enquanto Cassilda é,
originariamente, um nome árabe.
Se,
em relação aos nomes próprios, não restam dúvidas quanto à sua origem
maioritariamente estrangeira, também em relação aos apelidos é curioso registar que, se por um lado não escasseiam
os de proveniência não lusitana, por outro são até os de origem forasteira os
que têm uma maior taxa de sobrevivência, talvez precisamente pelo seu carácter
exótico. Daun,
Holstein-Beck, O’Neill, Bourbon, Kopke, Schiappa, Drummond, Oom e Breyner são, entre muitos outros, alguns casos de
apelidos que, não obstante a sua origem estrangeira, não só vieram para ficar,
como até são especialmente prezados pelas famílias que assim se apelidam, como
são, por exemplo, a dos marqueses de Pombal, que usam Daun como apelido, e a
dos duques de Palmela, que se apelidam Holstein-Beck e que, longe de se
envergonharem dessa sua ascendência estrangeira, nela fazem especial gosto.
Saibamos acolher os imigrantes que
vêm por bem para Portugal, enriquecer não apenas a nossa sociedade, mas também
a nossa cultura, como recentemente escreveu, em excelente artigo de opinião, o Patriarca
de Lisboa. Os cristãos, não podemos esquecer que também Jesus, recém-nascido,
foi emigrante no Egipto; todos os
portugueses, sobretudo os mais patriotas, deveriam recordar que o Conde D.
Henrique de Borgonha, pai de el-Rei D. Afonso Henriques, fundador da nossa
nacionalidade, foi um estrangeiro, um ‘imigrante’ francês, e que vultos maiores
da nossa História também o foram, como a aragonesa Rainha Santa e a inglesa D.
Filipa de Lencastre, mãe da ínclita geração. Talvez por essa sua origem, seu
filho soube criar um país que, desde a sua origem, salvo algumas tristes
excepções, recebeu e integrou gentes de todas as nações.
COMENTÁRIOS (de 26)
Luís da Silva: A questão onomástica não
interessa nada em si mesma. O que importa, como aliás o Senhor padre
Portocarrero de Almada aqui acabou de provar, é que há uma invasão imigratória,
cultural e religiosa, mais expressivamente islâmica no resto da Europa, mas que
inclui Portugal. Invasão. Cultural, religiosa e política. Porque os
A-qualquer-coisa quando crescerem, não se integram, radicalizam, perseguem as
nossas filhas, querem substituir as nossas leis pela Sharia. A Igreja Católica, entretanto,
mete a cabeça na areia, fazendo crer que há possibilidade de integração. Não
há. Não quando o fenómeno atinge esta dimensão. As diferentes comunidades
imigrantes quando ultrapassam os 2% a 5% da população nativa constroem guetos,
vespeiros de inadaptados, desrespeitam os nossos costumes e modos de vida e, em
certos casos, promovem a violência e a insegurança que trazem dos seus países
de origem. Tanto assim é, que são os próprios imigrantes que já cá estão de
outro tempo e que se adaptaram que querem estancar as novas vagas de imigração.
Eles lá sabem.
Riaz Carmali: Com a Permissão de Deus Pai, A Única Realidade, O
Senhor de todos os Mundos. Sou Muçulmano Praticante e Português Patriota. Nasci
em Lisboa há 46 anos e nunca senti incompatibilidade alguma entre pertencer a
estes dois mundos. Nunca me perturbou a nossa terra ser um país
maioritariamente católico. No 5° ano de escolaridade os meus pais fizeram
questão que eu frequentasse a disciplina de "Religião e Moral
Católicas". Com isso os meus pais queriam que eu conhecesse a Religião do
país que acolheu os meus avós. O meu professor era padre. Já não tenho grande
memória dele mas lembro-me dele ser muito simpático e humano. O Mundo foi criado e
pertence a Deus Pai. Todos podemos conviver nele em Paz. Quando D. Afonso Henriques
conquistou Lisboa, ficou admirado com a convivência pacífica entre Muçulmanos,
Católicos e Judeus. Eu, como Teólogo Islâmico e Investigador de Religiões,
sempre respeitei e respeito a Igreja Católica, que conheço bem. Estudei o
Misticismo Católico e algo da sua Filosofia e sou o primeiro a defender a
Igreja – eu, um muçulmano – quando aparecem alegados escândalos de pedofilia.
Eu sou o primeiro a dizer que isso não abarca sequer 5% do Clero Católico. Na sua encíclica Frateli
Tutti, o Papa Francisco mostrou como pessoas de diferentes religiões conviviam
bem no Passado e o podem fazer Hoje. Nós, Muçulmanos, acreditamos em Jesus como um grande
Profeta de Deus Pai, acreditamos que Maria concebeu virgem e soube pelo texto
do sr Padre, que os Católicos também acreditam que Deus Pai ordenou ao Anjo
Gabriel para que Zacarias chamasse ao seu filho de João (Yahya em Árabe). O 19° Capítulo do Alcorão
chama-se Maria, precisamente em honra da Abençoada Virgem. Só lamento o
Chega querer acabar com este convívio pacífico de pessoas de Religiões
diferentes. Fica aqui um sentido abraço ao Padre Portocarrero de Almada por
este texto. Carlos
Correia > Riaz Carmali: Caro Riaz, desculpe lá, mas
não concordo consigo nalguns pontos. Portugal não é um país maioritariamente católico. É um
país católico. Ponto. Quanto ao Chega, são os únicos que querem que o convívio se mantenha
pacífico.
João Reis: Obrigado Pe. por uma vez mais nos deslumbrar, o texto brilha ao
desconstruir com precisão e erudição o mito da "pureza" ou
"originalidade portuguesa" dos nomes tradicionais. A enumeração detalhada das origens (hebraica, grega,
romana, germânica, etc.) dos nomes considerados hoje "típicos" é o
cerne do argumento e é incontestável. A demonstração de que até os fundadores
da nacionalidade (D. Henrique de Borgonha) e figuras icónicas (Rainha Santa
Isabel, D. Filipa de Lencastre) tinham origens estrangeiras é um golpe de
mestre contra o nativismo onomástico. 2. A ironia no início, contrastando o suposto trauma de ouvir nomes
estrangeiros no parlamento com a naturalização de discussões de género na
infância, é eficaz para expor a selectividade e o exagero da indignação
política e mediática. O texto identifica correctamente um certo
"proteccionismo" cultural baseado no desconhecimento histórico. 3. A apresentação de dados
concretos sobre a popularidade do nome "Mohammed/Mohamed" em vários
países europeus (Bélgica, França, Reino Unido, Alemanha, etc.) é crucial. Serve
para normalizar a presença de nomes estrangeiros como um fenómeno europeu, não
apenas português. Desmontar a ideia de que a
simples menção ou estatística destes nomes é intrinsecamente traumática ou
problemática. Mostrar que o "problema" levantado em Portugal é
desproporcional face à realidade do continente. 4. A ligação final entre o
acolhimento de imigrantes, a riqueza cultural, as figuras históricas
estrangeiras fundadoras e a própria narrativa bíblica (Jesus como refugiado) é
poderosa e coerente com o argumento histórico desenvolvido. Reforça a mensagem
central de abertura e integração com exemplos irrefutáveis da história
portuguesa e cristã. 5. O texto é bem escrito, combina ironia mordaz
(especialmente no início) com uma argumentação histórica séria e fundamentada.
A linguagem é clara e acessível, apesar de tratar de um tema com profundidade
histórica. O texto cumpre brilhantemente o objectivo de desafiar o preconceito
e promover uma visão mais informada, aberta e historicamente consciente da
diversidade onomástica e cultural em Portugal. É um contributo valioso para o
debate público.
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