É o que é. Penoso também, até para os sem-abrigo, que não se queixam no
seu reducionismo vivencial, merecedor, de resto, da atenção de inúmera gente
dedicada que tanto se sacrifica por eles, quais máteres dolorosas do
nosso espanto persistente. Mas o que mais espanta ainda é a desvergonha
queixosa deste ser que dirigiu um país e que age hoje como clown, não, é certo,
em esgares, mas em justificações definitivamente marginalizantes de nós
próprios como nação que tal aceita e se revela em tal baixeza. De resto, o texto
de ALBERTO GONÇALVES é totalmente humilhante para nós, como povo ludibriado, que
aceita tais penúrias justificativas de uma abjecção nunca vista… ou pelo menos assim
propalada.
Sócrates, filosofia de bolso
As trapalhadas do “eng.” Sócrates permitem, e inspiram, inúmeras
graçolas. O que o “eng.” Sócrates significou e significa para o país não tem
graça.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 19 jul. 2025, 00:207
Li que José Sócrates, o popular
“engenheiro”, se emocionou no tribunal ao recordar os 450 mil euros que a mãe
lhe dera para estudar em Paris. Compreendo perfeitamente: também me emociono
sempre que recordo as vezes em que a minha mãe me deu 450 mil euros. Foram
cerca de zero, mas a verdade é que nunca estudei em Paris, onde a vida deve ser
caríssima para um universitário.
É fazer as contas, como
recomendava o homem
que lançou politicamente o “eng.” Sócrates e hoje lança condenações regulares
contra Israel. Primeiro, vamos ignorar os milhões que o “eng.”
Sócrates, que admitiu subsistir em relativa penúria, terá consumido das contas
do amigo, fantástico amigo, Carlos
Santos Silva. Depois,
houve um empréstimo bancário de 120 mil euros para patrocinar a estadia
parisiense, que segundo fontes alternativas foi de 150 mil. Por fim,
os tais 450 mil euros maternos, com
que o “eng.” Sócrates terá, ou não, pago o empréstimo anterior. No
mínimo, os dois anos em França custaram-lhe, ou à pobre (força de expressão)
mãezinha, quase 20 mil euros por mês
– e isto com casa graciosamente
fornecida pelo amigo Carlos
Santos Silva ou, de acordo com o Ministério Público, por ele próprio. É imenso foie
gras e bastante champanhe.
Ainda assim, nada de especial
para quem gastava 18 mil num
fim-de-semana em Formentera e, ao que consta e enquanto
primeiro-ministro, 100 mil num par de
férias em Veneza e Menorca. Em
champanhe ou Riojas de reserva, a verba dá para uns três comas alcoólicos
diários. E convém não esquecer os jantares
das sextas-feiras num restaurante lisboeta, que juntava o “eng.”
Sócrates a fiéis camaradas como os
drs. Galamba e Vieira da Silva, além daquele Silva Pereira, cara e tiques chapados do “eng.”. O amigo Carlos Santos Silva, que não se
sentava à mesa, recebia a conta com
altruísmo, e a conta pesava. É
por isso que há elites e há o povaréu, há ex-primeiros-ministros e
ex-primeiros-ministros: na semana passada, jantei com Pedro Passos Coelho na
capital por 41 euros. Cada um pagou o seu. Não sei se se nota que permaneço
emocionado.
A emoção que sinto, e que se confunde levianamente com inveja, prende-se
com a minha carência de amigos generosos, que conforme é obrigação deles
financiam habitação decente, refeições de marisco, “vacaciones” e o que calha.
Porém, vou às lágrimas sobretudo com
os recursos da progenitora do “eng.” Sócrates. Não são apenas
extraordinárias as origens da fortuna da senhora: mais extraordinária é a
habilidade com que essas origens se alteram no discurso do filho, o filho
pródigo e grato e amnésico e emocionado. Ora a senhora herdara
milhões do pai (fortuna que, na sua
desorientação, os procuradores não conseguiram encontrar), ora a senhora
dispunha de prestigiados imóveis (que por coincidência suprema foram negociados
com o amigo Carlos Santos Silva), ora a senhora possuía móveis prestimosos (sob
a forma de um ou dois cofres). Gente avisada diversifica os investimentos: a
mãe do “eng.” Socrates diversificava as poupanças. E diversificava-as tanto que
a determinada altura perdeu-lhes o rasto, já que em telefonema de 2014
escutou-se a dona Adelaide Monteira confessar-se “depenadinha” e “à rasca”.
Dada o amparo que dedicou ao primogénito, não admira.
Chega, não chega? As trapalhadas do “eng.” Sócrates permitem, e
inspiram, inúmeras graçolas. O que o “eng.” Sócrates significou e significa
para o país não tem graça. Durante uma eternidade, ele mandou em nós, não por
decreto divino ou golpe de Estado, e sim por livre escolha dos eleitores, que o quiseram a liderar
o governo. E quiseram-no em duas ocasiões, uma com o maior
triunfo da história do PS e a outra em 2009, quando o “caso” Freeport
alimentava há meses razoáveis desconfianças acerca da rectidão do “animal feroz”.
É lícito, e aconselhável, lembrar que
o “eng.” Sócrates era peça talvez central de uma rede em que se penduravam
políticos, advogados, banqueiros, construtores, empresários e compinchas em
geral. Seria igualmente interessante não esquecer que, no governo, no
parlamento e no partido, centenas e centenas de indivíduos e indivíduas lhe
serviram a mitomania e o resto bem para lá das suspeitas e das evidências.
Essas alminhas, que tarde e a péssimas horas tentaram esboçar pureza, não
tiveram de ser cúmplices nos imbróglios que a Justiça investiga para serem
cúmplices do desastre ético, psiquiátrico e económico então em curso. Nem uma
alminha se demitiu a protestar o desastre.
Mas
o que impressiona é de facto o povo, a considerável percentagem do povo que,
por um inconcebível período, acreditou no “eng. Sócrates” à revelia do
elementar bom senso, e que, além de acreditar, ofereceu-lhe promessas de
fidelidade, hinos, devoção. E o voto. Ao longo de seis anos, com uns pozinhos
adicionais após a queda, dois milhões de cidadãos seguiram cegamente os
caminhos tortuosos que se desenhavam na cabeça da criatura, uma criatura de
quem qualquer pessoa equilibrada não aceitaria de borla o proverbial carro
usado.
Em suma, impressiona e assusta a
facilidade com que o eng. Sócrates aldrabou os portugueses. Melhor
(ou pior): é terrível a
facilidade com que os portugueses se deixaram aldrabar, aliás uma tradição antiga
e que não morreu. Muitos dos que se envergonharam de aclamar um trapaceiro
aclamaram sem hesitações os trapaceiros seguintes. E repetirão a proeza com os
próximos. O “eng.” Sócrates foi uma aberração? Não acho, e a realidade concorda
comigo.
COMENTÁRIOS (de 7)
José Paulo Castro: O que me espanta mais é a impossibilidade do
outro filho - e agora as sobrinhas de Sócrates - em reclamarem da mãe/avó igual
tratamento. Eu mandava-lhes perguntar se já tinham recebido algum do
cofre da avó ou se JS era o filho preferido. Uma família disfuncional, é
o que é...
Uiros Ueramos: José Sócrates foi Primeiro-Ministro de
Portugal entre 2005 e 2011, eleito pelo Partido Socialista (PS). O caso de José
Sócrates continua a ser, em termos de montante e notoriedade, o maior escândalo
de corrupção envolvendo um político português na história contemporânea.
E mais, a dimensão dos casos de corrupção associados ao PS, tanto em valores
financeiros, como em impacto político é a maior da história democrática
portuguesa.
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