sábado, 19 de julho de 2025

Gozar com quem trabalha


É o que é. Penoso também, até para os sem-abrigo, que não se queixam no seu reducionismo vivencial, merecedor, de resto, da atenção de inúmera gente dedicada que tanto se sacrifica por eles, quais máteres dolorosas do nosso espanto persistente. Mas o que mais espanta ainda é a desvergonha queixosa deste ser que dirigiu um país e que age hoje como clown, não, é certo, em esgares, mas em justificações definitivamente marginalizantes de nós próprios como nação que tal aceita e se revela em tal baixeza. De resto, o texto de ALBERTO GONÇALVES é totalmente humilhante para nós, como povo ludibriado, que aceita tais penúrias justificativas de uma abjecção nunca vista… ou pelo menos assim propalada.

 

Sócrates, filosofia de bolso

As trapalhadas do “eng.” Sócrates permitem, e inspiram, inúmeras graçolas. O que o “eng.” Sócrates significou e significa para o país não tem graça.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 19 jul. 2025, 00:207

Li que José Sócrates, o popular “engenheiro”, se emocionou no tribunal ao recordar os 450 mil euros que a mãe lhe dera para estudar em Paris. Compreendo perfeitamente: também me emociono sempre que recordo as vezes em que a minha mãe me deu 450 mil euros. Foram cerca de zero, mas a verdade é que nunca estudei em Paris, onde a vida deve ser caríssima para um universitário.

É fazer as contas, como recomendava o homem que lançou politicamente o “eng.” Sócrates e hoje lança condenações regulares contra Israel. Primeiro, vamos ignorar os milhões que o “eng.” Sócrates, que admitiu subsistir em relativa penúria, terá consumido das contas do amigo, fantástico amigo, Carlos Santos Silva. Depois, houve um empréstimo bancário de 120 mil euros para patrocinar a estadia parisiense, que segundo fontes alternativas foi de 150 mil. Por fim, os tais 450 mil euros maternos, com que o “eng.” Sócrates terá, ou não, pago o empréstimo anterior. No mínimo, os dois anos em França custaram-lhe, ou à pobre (força de expressão) mãezinha, quase 20 mil euros por mês – e isto com casa graciosamente fornecida pelo amigo Carlos Santos Silva ou, de acordo com o Ministério Público, por ele próprio. É imenso foie gras e bastante champanhe.

Ainda assim, nada de especial para quem gastava 18 mil num fim-de-semana em Formentera e, ao que consta e enquanto primeiro-ministro, 100 mil num par de férias em Veneza e Menorca. Em champanhe ou Riojas de reserva, a verba dá para uns três comas alcoólicos diários. E convém não esquecer os jantares das sextas-feiras num restaurante lisboeta, que juntava o “eng.” Sócrates a fiéis camaradas como os drs. Galamba e Vieira da Silva, além daquele Silva Pereira, cara e tiques chapados do “eng.”. O amigo Carlos Santos Silva, que não se sentava à mesa, recebia a conta com altruísmo, e a conta pesava. É por isso que há elites e há o povaréu, há ex-primeiros-ministros e ex-primeiros-ministros: na semana passada, jantei com Pedro Passos Coelho na capital por 41 euros. Cada um pagou o seu. Não sei se se nota que permaneço emocionado.

A emoção que sinto, e que se confunde levianamente com inveja, prende-se com a minha carência de amigos generosos, que conforme é obrigação deles financiam habitação decente, refeições de marisco, “vacaciones” e o que calha. Porém, vou às lágrimas sobretudo com os recursos da progenitora do “eng.” Sócrates. Não são apenas extraordinárias as origens da fortuna da senhora: mais extraordinária é a habilidade com que essas origens se alteram no discurso do filho, o filho pródigo e grato e amnésico e emocionado. Ora a senhora herdara milhões do pai (fortuna que, na sua desorientação, os procuradores não conseguiram encontrar), ora a senhora dispunha de prestigiados imóveis (que por coincidência suprema foram negociados com o amigo Carlos Santos Silva), ora a senhora possuía móveis prestimosos (sob a forma de um ou dois cofres). Gente avisada diversifica os investimentos: a mãe do “eng.” Socrates diversificava as poupanças. E diversificava-as tanto que a determinada altura perdeu-lhes o rasto, já que em telefonema de 2014 escutou-se a dona Adelaide Monteira confessar-se “depenadinha” e “à rasca”. Dada o amparo que dedicou ao primogénito, não admira.

Chega, não chega? As trapalhadas do “eng.” Sócrates permitem, e inspiram, inúmeras graçolas. O que o “eng.” Sócrates significou e significa para o país não tem graça. Durante uma eternidade, ele mandou em nós, não por decreto divino ou golpe de Estado, e sim por livre escolha dos eleitores, que o quiseram a liderar o governo. E quiseram-no em duas ocasiões, uma com o maior triunfo da história do PS e a outra em 2009, quando o “caso” Freeport alimentava há meses razoáveis desconfianças acerca da rectidão do “animal feroz”.

É lícito, e aconselhável, lembrar que o “eng.” Sócrates era peça talvez central de uma rede em que se penduravam políticos, advogados, banqueiros, construtores, empresários e compinchas em geral. Seria igualmente interessante não esquecer que, no governo, no parlamento e no partido, centenas e centenas de indivíduos e indivíduas lhe serviram a mitomania e o resto bem para lá das suspeitas e das evidências. Essas alminhas, que tarde e a péssimas horas tentaram esboçar pureza, não tiveram de ser cúmplices nos imbróglios que a Justiça investiga para serem cúmplices do desastre ético, psiquiátrico e económico então em curso. Nem uma alminha se demitiu a protestar o desastre.

Mas o que impressiona é de facto o povo, a considerável percentagem do povo que, por um inconcebível período, acreditou no “eng. Sócrates” à revelia do elementar bom senso, e que, além de acreditar, ofereceu-lhe promessas de fidelidade, hinos, devoção. E o voto. Ao longo de seis anos, com uns pozinhos adicionais após a queda, dois milhões de cidadãos seguiram cegamente os caminhos tortuosos que se desenhavam na cabeça da criatura, uma criatura de quem qualquer pessoa equilibrada não aceitaria de borla o proverbial carro usado.

Em suma, impressiona e assusta a facilidade com que o eng. Sócrates aldrabou os portugueses. Melhor (ou pior): é terrível a facilidade com que os portugueses se deixaram aldrabar, aliás uma tradição antiga e que não morreu. Muitos dos que se envergonharam de aclamar um trapaceiro aclamaram sem hesitações os trapaceiros seguintes. E repetirão a proeza com os próximos. O “eng.” Sócrates foi uma aberração? Não acho, e a realidade concorda comigo.

JOSÉ SÓCRATES       POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 7)

José Paulo Castro: O que me espanta mais é a impossibilidade do outro filho - e agora as sobrinhas de Sócrates - em reclamarem da mãe/avó igual tratamento.  Eu mandava-lhes perguntar se já tinham recebido algum do cofre da avó ou se JS era o filho preferido.  Uma família disfuncional, é o que é... 

Uiros Ueramos: José Sócrates foi Primeiro-Ministro de Portugal entre 2005 e 2011, eleito pelo Partido Socialista (PS). O caso de José Sócrates continua a ser, em termos de montante e notoriedade, o maior escândalo de corrupção envolvendo um político português na história contemporânea.  E mais, a dimensão dos casos de corrupção associados ao PS, tanto em valores financeiros, como em impacto político é a maior da história democrática portuguesa. 

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