segunda-feira, 28 de julho de 2025

A confiança também é imprescindível

 

No saber alheio, é claro. Às vezes, as pausas, como a de Melinde, também servem para ficarmos a saber mais das coisas:

"Contar-te longamente as perigosas

Coisas do mar, que os homens não entendem:

Súbitas trovoadas temerosas,

Relâmpagos que o ar em fogo acendem,

Negros chuveiros, noites tenebrosas,

Bramidos de trovões que o mundo fendem,

Não menos é trabalho, que grande erro,

Ainda que tivesse a voz de ferro.

 

Não ver para crer

Garantem-nos que duas linhas rectas paralelas nunca se encontrarão, e não precisamos de ir lá ver como se comportam quando não as estamos a ver.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 27 jul. 2025, 00:151

Num momento menos guardado, o Apóstolo protestou que a menos que visse certas coisas claramente vistas não acreditaria nelas. Esta observação, da qual não obstante se retrataria logo na semana seguinte, traduz o tipo de confiança nos sentidos que marca os grandes acessos de estupidez histórica. É característico de um certo tipo de pessoa apontar para os seus próprios olhos para convencer terceiros de que deviam estar a ver a mesma coisa. Nesses casos porém apontar piora as coisas, visto que ao apontar para os nossos olhos estamos realmente a apontar para coisas que se passaram na nossa cabeça, e a que mais ninguém tem acesso.

A situação pode não melhorar se em vez de apontarmos para os nossos olhos apontarmos para aquilo que acabámos de ver. O que alguém viu é frequentemente para terceiros como uma forma numa nuvem. Quem a viu garante a pés juntos que viu uma bruxa, uma abelha ou um camelo; e quem a tenta ver só consegue ver um peixe ou um sabonete ou o dedo a apontar. Mesmo em circunstâncias mais familiares, como quando um médico ou um utente vêem o mesmo furúnculo, a experiência de ver é de ajuda cognitiva ténue. O que distingue o médico do doente impreparado não é ver o furúnculo: é o que vê no furúnculo. Aquilo que o médico vê no furúnculo, o doente, atarefado com as suas percepções e confundido pelas suas dores, não consegue ver.

Garantem-nos que duas linhas rectas paralelas nunca se encontrarão num mesmo plano, mesmo que as prolonguemos até ao estrangeiro. Não precisamos de ir lá ver como se comportam quando não as estamos a ver. Essa garantia dá-nos uma tranquilidade comparável à que sentimos depois de uma opinião técnica sobre o nosso furúnculo: a tranquilidade que torna ociosas as verificações, e que torna escusado suspeitar da rectidão das rectas. Sabemos que se as linhas são rectas, e são paralelas, e estão num mesmo plano, nunca se encontram; e que, como nos descansou o maior especialista neste mistério, não se podem encontrar.

Dezenas de outros tipos de confiança, por exemplo as muitas variedades da nossa confiança no futuro, dispensam até os especialistas. É o caso da confiança que temos em que o sol se levantará amanhã, e que certas pessoas têm a intenção de cumprir aquilo que prometeram, e que o autocarro que diz Monsanto não se destina secretamente ao Lumiar. Não é só em matérias da chamada fé que não precisamos de ver as coisas; ou, postas essas mesmas coisas de um modo melhor, as matérias de fé não são uma excepção ao nosso modo normal de ver as coisas: não resultam das férias da linguagem ou da razão. Ao contrário daquilo em que temporariamente acreditou o Apóstolo, o nosso modo mais normal de vermos é não precisarmos de ver coisa nenhuma.

ERRO EXTREMO       OBSERVADOR

COMENTÁRIOS:

ANTONIO MARIA REGO DE MELLO E CASTRO:  Ahahaha imagino o gozo do autor destas linhas ao escrever estas furunculadas....

 

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