No saber alheio, é claro. Às vezes, as pausas, como a de Melinde, também servem para ficarmos a saber mais das coisas:
"Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar, que os homens não entendem:
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpagos que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões que o mundo fendem,
Não menos é trabalho, que grande erro,
Ainda que
tivesse a voz de ferro.
Não ver para crer
Garantem-nos que duas linhas rectas
paralelas nunca se encontrarão, e não precisamos de ir lá ver como se comportam
quando não as estamos a ver.
MIGUEL TAMEN Colunista do Observador,
Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na
Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 27 jul. 2025, 00:151
Num momento menos guardado, o Apóstolo
protestou que a menos que visse certas coisas claramente vistas não acreditaria
nelas. Esta observação, da qual não obstante se retrataria logo na semana
seguinte, traduz o tipo de confiança nos sentidos que marca os grandes acessos
de estupidez histórica. É característico de um certo tipo de pessoa apontar
para os seus próprios olhos para convencer terceiros de que deviam estar a ver
a mesma coisa. Nesses casos porém apontar piora as coisas, visto que ao apontar
para os nossos olhos estamos realmente a apontar para coisas que se passaram na
nossa cabeça, e a que mais ninguém tem acesso.
A situação pode não melhorar se em vez
de apontarmos para os nossos olhos apontarmos para aquilo que acabámos de ver.
O que alguém viu é frequentemente para terceiros como uma forma numa nuvem.
Quem a viu garante a pés juntos que viu uma bruxa, uma abelha ou um camelo; e
quem a tenta ver só consegue ver um peixe ou um sabonete ou o dedo a apontar.
Mesmo em circunstâncias mais familiares, como quando um médico ou um utente
vêem o mesmo furúnculo, a experiência de ver é de ajuda cognitiva ténue.
O que distingue o médico do doente impreparado não é ver o furúnculo: é o
que vê no furúnculo. Aquilo que o
médico vê no furúnculo, o doente, atarefado com as suas percepções e confundido
pelas suas dores, não consegue ver.
Garantem-nos que duas linhas rectas
paralelas nunca se encontrarão num mesmo plano, mesmo que as prolonguemos até
ao estrangeiro. Não precisamos de ir lá ver como se comportam quando não as
estamos a ver. Essa garantia dá-nos uma
tranquilidade comparável à que sentimos depois de uma opinião técnica sobre o
nosso furúnculo: a tranquilidade que torna ociosas as verificações, e que torna
escusado suspeitar da rectidão das rectas. Sabemos que se as linhas são
rectas, e são paralelas, e estão num mesmo plano, nunca se encontram; e que,
como nos descansou o maior especialista neste mistério, não se podem encontrar.
Dezenas
de outros tipos de confiança, por exemplo as muitas variedades da nossa
confiança no futuro, dispensam até os especialistas. É o caso da confiança que
temos em que o sol se levantará amanhã, e que certas pessoas têm a intenção de
cumprir aquilo que prometeram, e que o autocarro que diz Monsanto não se
destina secretamente ao Lumiar. Não é só em matérias da chamada fé que
não precisamos de ver as coisas; ou, postas essas mesmas coisas de um modo
melhor, as matérias de fé não são uma excepção ao nosso modo normal de ver
as coisas: não resultam das férias da linguagem ou da razão. Ao contrário
daquilo em que temporariamente acreditou o Apóstolo, o nosso modo mais normal de vermos é não precisarmos de ver coisa
nenhuma.
COMENTÁRIOS:
ANTONIO MARIA REGO DE MELLO E CASTRO: Ahahaha
imagino o gozo do autor destas linhas ao escrever estas furunculadas....
Nenhum comentário:
Postar um comentário