Ou a importância das aparências, ou do “le
style c’est l’homme” - até mesmo – ou sobretudo – em democracia. Zelensky que
se cuide. Para além doutras suas funções, que deram bem que falar, muito antes das
interferências de Trump a respeito das roupagens do ucraniano.
Anadolu via Getty Images
A frustração com Putin, o relançar da
ofensiva e a nova abordagem de Zelensky. O que levou Trump a mudar de posição
sobre a Ucrânia?
▲Volodymyr
Zelensky e Donald Trump encontraram-se durante a última cimeira da NATO.
Presidente norte-americano terá gostado de que o homólogo estivesse vestido
"como um ser humano normal"
OBSERVADOR, 15/7/25
Trump
anunciou um pacote de ajuda a Kiev e ameaçou com sanções à Rússia — algo inédito desde que é Presidente.
Entre a intervenção dos aliados e a posição de Putin, até Zelensky usar fato contribuiu.
14 jul. 2025, 19:0815
ÍNDICE
PRESSIONAR PUTIN A PARAR COM AS
“TRETAS”
PREVENIR A OFENSIVA DE VERÃO DA
RÚSSIA, SEM ENVOLVER OS ESTADOS UNIDOS
A NOVA ABORDAGEM DE VOLODYMYR
ZELENSKY E MARK RUTTE
“É
uma coisa esperta. Se eu for amigável com as pessoas, se puder ter uma relação
com as pessoas, é uma coisa boa.” As
palavras foram proferidas por Donald Trump acerca da sua relação com Vladimir
Putin durante a campanha eleitoral de 2024. Cerca de seis meses depois de ter
regressado à Casa Branca e sem um fim para a guerra na Ucrânia à vista, a
“amizade” deu lugar à “frustração”, os elogios a Putin deram lugar a ameaças de
tarifas e os insultos a Volodymyr Zelensky deram lugar a um pacote de ajuda
militar para Kiev.
A mudança de posição foi
formalizada esta segunda-feira — data para a qual Trump já tinha prometido um “anúncio muito grande”. Ao lado de Mark Rutte, secretário-geral da NATO, o
Presidente anunciou que os países
aliados vão comprar armamento aos Estados Unidos, para enviar para a Ucrânia. “Fazemos os melhores mísseis, os países
europeus sabem disso. Nós fizemos um acordo [esta segunda-feira] em que nós
lhes vamos enviar armas e eles vão pagar por elas. Vamos construi-las e eles
vão pagá-las”, declarou.
O
envio de armas inclui não só os mísseis
Patriot que já tinha
prometido na semana passada, mas vários sistemas completos de defesa
anti-aérea. Para
acelerar este processo — e por sugestão de Mark Rutte, detalhou Trump — alguns
países europeus irão começar a enviar os sistemas e mísseis que já possuem para
a Ucrânia. Posteriormente,
os sistemas que já possuíam serão substituídos por armamento do arsenal
norte-americano. “A Ucrânia
terá em mãos números enormes de equipamento militar, tanto para defesa aérea,
como mísseis e munições”, declarou
Mark Rutte esta segunda-feira.
Os dois líderes relataram
ainda que o processo será coordenado pela NATO, mas que a maior parte das
negociações dentro da Europa foram conduzidas pela Alemanha, que, aliás, já se
tinha mostrado disponível para participar neste plano. Neste sentido, o ministro de Defesa alemão, Boris Pistorius,
e o secretário norte-americano da Defesa, Pete Hegseth, também
se reuniram esta segunda-feira. Para além da Alemanha, a
Finlândia, a Dinamarca, a Suécia, a Noruega, os Países Baixos, o Reino Unido e
o Canadá já declararam que vão integrar o plano, anunciou Rutte
▲Rutte
e Trump coordenaram o novo plano de ajuda à Ucrânia YURI GRIPAS
/ POOL/EPA
(ÍNDICE)
Ainda
que, na conferência de imprensa, Rutte e Trump tenham apresentado poucos
detalhes sobre o tipo de armamento que vai ser enviado — para além dos
Patriot, falou-se apenas em “mísseis e munições” — o Axios e a Reuters
adiantaram que os pacotes
que vão rumar à Europa podem incluir mísseis ofensivos de médio e longo
alcance, suficientes para atingir alvos em território russo. Mesmo sem detalhes, a decisão é inédita para Donald Trump que, até agora, se limitara a enviar armas que já
tinham sido aprovadas pela anterior administração. Em três
ocasiões, em menos de seis meses, as entregas chegaram mesmo a ser suspensas
pelo Pentágono.
Paralelamente à ajuda à Ucrânia,
Donald Trump ameaçou a Rússia com a imposição de “tarifas secundárias a 100%”,
caso Moscovo não chegue a um acordo para pôr fim à guerra num prazo de 50 dias. Ao mesmo tempo, voltou a mostrar o seu
apoio a um projecto
de lei no Senado que pretende impor tarifas de 500% a todos os países que importem urânio, petróleo
ou gás natural russo — o que é
relevante, uma vez que o líder republicano no Senado já tinha afirmado que só
avançaria para uma votação do projecto com o aval do Presidente. Mas, afinal, o que levou Trump a mudar a sua opinião
sobre a guerra?
Pressionar
Putin a parar com as “tretas”
Os primeiros passos de Donald Trump na sua segunda passagem
pela presidência foram dados na direcção da Rússia. Entre repetidas chamadas
telefónicas com Vladimir Putin e
visitas do seu enviado, Steve Witkoff, a
Moscovo, Trump
procurou cumprir a sua promessa eleitoral de pôr fim à guerra na Ucrânia pela
via diplomática e do diálogo com o Kremlin.
Os Estados Unidos chegaram a apresentar propostas para tréguas
temporárias que não deram frutos — esta
segunda-feira, Trump afirmou que se esteve próximo de um acordo em
quatro ocasiões. Quando
Kiev insistiu que Putin não estava interessado em pôr fim à guerra, Trump
declarou a sua confiança no homólogo russo.
“Sempre tive uma boa relação com Putin. Acho que ele quer acabar com a
guerra“, afirmou, no início
de março, na mesma ocasião em que considerou
ser “mais difícil lidar com a Ucrânia”.
Quando as negociações não deram frutos, Trump começou a expressar a sua “frustração” com Putin — a frustração com Zelensky já era pública — e deu um passo atrás. “Às vezes, é melhor
deixá-las lutar durante um bocado”, afirmou já em junho, comparando os dois
líderes a “crianças a lutar num parque“.
Uma chamada entre Trump e Putin que
terminou “sem progressos”, no dia
3 de julho, parece ter sido a gota de água para o Presidente norte-americano. Desde aí, as críticas a Putin cresceram de tom. “Putin
atira-nos com muitas tretas”; “Ele é sempre muito simpático, mas depois [as palavras]
são vazias”; “Ele fala muito bem e depois bombardeia toda a gente durante a
noite. Há um pequeno problema aqui”,
declarou em várias ocasiões da última semana, ao mesmo tempo em que os
ataques nocturnos russos contra a Ucrânia se intensificaram.
Richard
Blumenthal, senador democrata responsável por projecto de lei para tarifas a
500% à Rússia
(ÍNDICE)
“Trump está mesmo lixado com Putin“, resumiu Lindsey
Graham, senador
da Carolina do Sul e impulsionador do projecto de lei para aplicar as tarifas a
500%, ao Axios. Richard
Blumenthal, senador democrata que partilha com Graham a responsabilidade por
esta proposta, argumentou que a mudança de Trump tem um cunho
pessoal. “Pelo
que vi publicamente e ouvi em privado, ele está a reconhecer que Putin está a
fazê-lo a ele e aos Estados Unidos passarem por tolos. Acho que, com razão, ele
se sente pessoalmente afrontado e que Putin tem andado a arrastar-se e a
bloquear os Estados Unidos”, comentou à revist New Yorker.
A
leitura do senador democrata é partilhada por várias pessoas próximas do Presidente
que relataram ao New York Times que
este sente que se deixou arrastar por Putin. O mesmo jornal adianta que
os conselheiros de política externa
de Joe Biden já tinham alertado, várias vezes, os seus sucessores para esta
possível jogada de Vladimir Putin. O
anúncio desta segunda-feira é, neste sentido, uma resposta directa às suas
“tretas”. “[Trump]
quer mostrar que está a falar a sério sobre pôr fim à guerra e talvez isto
mostre a Putin que é altura de começar a negociar”, avançou um responsável
norte-americano à CNN.
Prevenir
a ofensiva de verão da Rússia, sem envolver os Estados Unidos
Apesar de a admiração se ter
transformado em frustração, os sentimentos pessoais de Donald Trump face a
Vladimir Putin não são a única explicação para a mudança de posição formalizada
esta segunda-feira. O seu
último telefonema para Moscovo, no dia 3 de julho, terá levado o chefe de
Estado norte-americano a aceitar os avisos de Kiev, de que Putin não tenciona
pôr fim à ofensiva na Ucrânia em breve. “[As conversas com Putin] não significam nada“, declarou esta segunda-feira.
No
seu relato da conversa, o
conselheiro do Kremlin, Yuri Ushakov,
afirmou que Putin deixou
claro que a Rússia não irá abdicar dos seus objectivos militares na Ucrânia. Ou, na leitura de Donald Trump: “Ele quer ficar com tudo“. As palavras terão sido ditas pelo
líder norte-americano ao Presidente francês Emannuel
Macron acerca da
conversa com Putin, avançou uma fonte com conhecimento da conversa ao Axios. Vladimir Putin estará confiante na
superioridade militar das forças russas no campo de batalha e na sua capacidade
de derrotar as forças ucranianas nos próximos meses, relataram duas fontes
próximas do Kremlin ao New York Times.
O Axios declara que Putin foi ainda mais concreto e terá apontado que a Rússia irá relançar a ofensiva na Ucrânia nos
próximos 60 dias.
Além
desta conversa, a situação no campo de batalha e a sua cobertura noticiosa, que
mostra imagens de cidades ucranianas destruídas depois dos ataques
noturnos russos, terão incomodado Donald Trump, motivando-o a agir, relatou uma
pessoa próxima do Presidente ao New York Times. A abordagem escolhida procura forçar Putin
a negociar, sem envolver os Estados Unidos directamente na guerra e, se
possível, recolhendo benefícios — quer
políticos, quer económicos — a nível interno, relataram
responsáveis norte-americanos à CNN.
▲Os Patriot
que estão na Alemanha devem ser os primeiros a ser enviados MARTIN DIVISEK/EPA
(ÍNDICE)
Por
um lado, o facto de tratar a entrega de armamento a Kiev como um “negócio”,
como o próprio Trump fez questão de sublinhar, trará benefícios económicos — ou
pelo menos, não trará prejuízos — aos Estados Unidos. O líder norte-americano garantiu ainda que os
países da NATO envolvidos nesta transação iam “pagar a 100%” os
equipamentos comprados. Entre esses equipamentos, Trump fez questão de
assinalar, várias vezes, um que “eles precisam desesperadamente”: os sistemas de
defesa anti-aérea Patriot,que
têm sido a defesa mais eficaz contra os mísseis balísticos e de longo alcance
lançados pela Rússia.
Por
outro lado, a entrega indirecta permite que Trump não quebre a sua promessa
eleitoral de impor a paz na Ucrânia e não envolver os Estados Unidos em guerras,
entende o Presidente. Uma terceira vantagem é o facto de esta
opção ser mais rápida: os
países europeus podem entregar à Ucrânia os seus equipamentos e comprar,
depois, substitutos entre o arsenal norte-americano, tal como explicaram Rutte
e Trump em conferência de imprensa.
Na
verdade, o plano que Donald Trump anunciou esta segunda-feira já estava a
ser discutido entre os membros da NATO desde a cimeira de Haia, no final de
junho. Mas o ponto de viragem para o líder norte-americano o ter
aceitado terão mesmo sido as chamadas telefónicas com Vladimir Putin e,
posteriormente, com Emmanuel Macron.
A nova abordagem de Volodymyr
Zelensky e Mark Rutte
O plano para membros da Aliança
Atlântica comprarem armas aos Estados Unidos para dar à Ucrânia pode ter sido
discutido com os representantes norte-americanos na cimeira da NATO em Haia. Mas, na Europa, trabalhava-se neste plano
desde a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de novembro de 2024.
Os líderes europeus temiam que, depois
das críticas ao apoio de Biden à Ucrânia, o novo Presidente tivesse uma
abordagem diferente e planearam nesse sentido, relataram vários responsáveis
europeus ao New York Times.
O plano viria a revelar-se útil.
Porém, ao longo dos últimos meses, os aliados europeus somaram a esta
estratégia uma outra: a lisonja a Donald Trump. Inicialmente, Vladimir Putin também jogou com este
baralho e desdobrou-se em
elogios e prendas ao seu homólogo. Contudo, quando a estratégia deixou de
funcionar e a frustração subiu de tom, a lisonja da Europa tornou-se mais
apelativa.
"Zelensky
apareceu como um ser humano normal, não [como] louco, e estava vestido como
alguém que devia estar na NATO. Ele tinha um grupo de pessoas com ele que
também não pareciam loucas."
Responsável norte-americano sobre o
encontro entre Trump e Zelensky na cimeira da NATO
(ÍNDICE)
Esta
estratégia foi principalmente visível nas palavras de Mark Rutte
durante a cimeira da NATO, destaca o Politico. Desde ter chamado Trump de “daddy” a ter levado
os aliados a aprovarem a meta de 5% do PIB para investimentos em Defesa, tal
como Trump desejava, os elogios do secretário-geral da NATO ao líder
norte-americano foram visíveis. E parecem ter resultado. “Acho que ele
gosta de mim“, declarou Trump sobre o encontro. Esta segunda-feira, o tom
elogioso entre os dois líderes manteve-se.
Mas Mark Rutte não foi o único líder europeu que
descobriu a chave para lidar com Donald Trump. Depois de
uma relação atribulada e de uma discussão na Sala Oval, Volodymyr
Zelensky alterou a sua postura e conseguiu
encontrar uma forma de obter o apoio que tanto desejava. Em Haia, os dois líderes já tinham discutido
a compra de Patriots, numa conversa que foi relatada como positiva por ambas as
partes. A análise repetiu-se sobre uma chamada no início deste mês, logo a
seguir à chamada “sem progressos” entre Putin e Trump.
Mas a discussão na Sala Oval parece
continuar a ser a pedra de toque para a relação entre Kiev e Washington. E, depois
de ser criticado por JD Vance por não ter utilizado um fato nesse
dia,
Zelensky redimiu-se durante a cimeira da NATO, onde participou pela
quarta vez consecutiva — mas esta foi a primeira em que vestiu um fato. “Zelensky apareceu como um ser humano normal,
não [como] louco, e estava vestido como alguém que devia estar na NATO. Ele
tinha um grupo de pessoas com ele que também não pareciam loucas”, avaliou um
responsável norte-americano ao Axios.
GUERRA NA UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO DONALD TRUMP ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA NATO ARMAMENTO DEFESA SOCIEDADE RÚSSIA VLADIMIR PUTIN
COMENTÁRIOS (de 10)
Filipe Costa: Trump estava a levar baile do Putin, toda a gente via
e comentva, menos ele. Abriu os olhos.
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