segunda-feira, 14 de julho de 2025

MINAS E ARMADILHAS


E outros processos e técnicas, para se matar com eficiência… Mas a frieza do relato parece monstruosa também. Mesmo com os robôs que atestam a inteligência humana.

 

A "guerra do futuro". Os ataques terrestres só com robôs que mudam o campo de batalha na Ucrânia

Ucrânia diz que robôs e drones capturaram soldados pela primeira vez. A guerra terrestre à distância pode mesmo vir a ser aposta do governo, que quer compensar a diferença de efectivos face a Moscovo.

ANDRÉ CERTÃ Texto

OBSERVADOR, 13 jul. 2025, 18:19

ÍNDICE

QUE OUTROS ATAQUES DO MESMO GÉNERO JÁ ACONTECERAM?

QUE IMPACTO PODEM VIR A TER NA GUERRA?

QUE ROBÔS SÃO ESTES?

QUEM É QUE TEM FEITO ESTES ATAQUES?

O vídeo publicado pela Terceira Companhia de Assalto do Exército da Ucrânia no Facebook mostra um pequeno carro, primeiro numa estrada abandonada e depois num terreno, a aproximar-se de um buraco tapado com ramos e troncos de árvores e que os militares marcaram como um esconderijo de soldados russos na frente de batalha da região de Kharkiv. De repente, quando ali chega o carro-robô, vê-se uma explosão. Logo a seguir, um drone aproxima-se de outro buraco na mesma zona e explode também.

As imagens mostram outros dois objectos telecomandados a aproximarem-se dos esconderijos e a explodirem. Os militares russos que estavam dentro do buraco, escreveram uma mensagem num papel: “Queremo-nos render“.

“O robô a seguir já estava a aproximar-se do abrigo destruído quando o inimigo se rendeu para evitar ser atacado”, escreve a brigada na publicação.

ÍNDICE

Segundo os militares ucranianos, foi a “primeira vez na história” que militares russos foram capturados através apenas do uso de drones e robôs controlados à distância. Ao Observador, o major-general Filipe Arnaut Moreira disse, que, embora já tenha havido rendições russas a drones ucranianos, estes ataques que combinam os meios aéreos com os terrestres comandados totalmente à distância são um sinal daquela que pode vir a ser a guerra do futuro”.

A Terceira Companhia de Assalto disse, no comunicado, ter feito uma “operação sem precedentesque não causou baixas, mas também não usou infantaria. As forças “atacaram bunkers inimigos na região de Kharkiv, libertaram-nas e capturaram os ocupantes” — o número de prisioneiros não foi especificadousando apenas drones kamikaze e “sistemas robóticos terrestres” armados com explosivos.

Neste caso, o uso deste tipo de armas foi mesmo essencial para a tomada das posições no terreno. As tropas de Kiev tinham tentado duas vezes atacar aqueles refúgios das tropas russas que invadem o leste da Ucrânia, sem sucesso. Só usando estes veículos à distância, é que o conseguiram. Pela primeira vez. Num momento histórico para o futuro da história das grandes battalhas.

QUE OUTROS ATAQUES DO MESMO GÉNERO JÁ ACONTECERAM?

Apesar desta captura de soldados do inimigo através de meios apenas automatizados ser nova, um ataque das forças ucranianas no terreno sem usar infantaria não é uma novidade total. O primeiro a ser registado ocorreu em dezembro de 2024 e na mesma região deste último: Kharkiv. De acordo com a revista Forbes, a 13.ª Brigada da Guarda Nacional usou “dezenas de unidades de equipamento robótico e não tripulado”, incluindo robôs com metralhadoras equipadas e drones aéreos comandados à distância para fazer um ataque com sucesso a posições russas perto da localidade de Lypski.

O inimigo foi apanhado completamente desprevenido”, contou um oficial da brigada que participou no ataque ao The Telegraph. “Estavam habituados a ataques de drones, mas, de repente, estavam também a ser atingidos por plataformas terrestres que explodiam e disparavam contra eles. Isto não tinha precedentes. O inimigo estava em pânico total“, disse o militar, identificado apenas como “Shuhai” pelo jornal.

Não foram só os ucranianos que fizeram ataques com estes veículos terrestres. De acordo com a Forbes, em março deste ano terá ocorrido uma outra estreia: a Rússia lançou um primeiro teste ao seu batalhão de robôs montados com lança-granadas perto da aldeia de Berdychi, na região de Donetsk, maioritariamente controlada pelas forças de Moscovo.

As informações sobre os resultados divergem. O blogger militar russo pró-Kremlin Denis Rozhin, citado pelo jornal espanhol El Confidencial, saudou a experiência e indicou que os robôs “mostraram bons resultados” no ataque. “A aplicação de combate destes veículos em Berdychi é, de facto, semelhante ao primeiro ataque de tanques durante a Primeira Guerra Mundial”, escreveu Rozhin no seu canal de Telegram. Porém, a Forbes desmentiu o blogger, indicando que o ataque correu muito mal e os veículos foram destruídos pela 47.ª Brigada Mecanizada do Exército Ucraniano.

Que impacto podem vir a ter na guerra?

De acordo com o major-general Arnaut Moreira, estes desenvolvimentos, apesar de serem baseados em notícias que contam muito pouco, colocam os olhos do mundo na Ucrânia e mostram um futuro com “uma guerra enterrada”. “O elemento humano estará enterrado em caves e em túneis,  onge daquilo que é a ameaça dos drones aéreos e conduzindo à distância, usando armas que não implicam uma presença física humana na frente de combate”, aponta.

A utilização de veículos não tripulados na guerra não é novo, com ambos os lados a usarem drones aéreos e navais desde o início da guerra após a invasão russa em 2022. O militar explica que estes foram os primeiros a terem maior desenvolvimento porque “a resistência é menor ao deslocamento”. A grande novidade nos últimos tempos está nos meios terrestres, onde a quantidade de obstáculos, tais como “árvores, ervas, buracos”, dificultavam mais a tarefa de criar estes robôs como os que foram usados nas operações automatizadas.

Porém, o “sucesso” das operações com veículos não tripulados nos outros campos permitiram à Ucrânia ir ganhando confiança e em, em 2024, “pensou que estaria na altura”de “desenvolver um conjunto de dispositivos que seriam úteis para o contexto terrestre”. De facto, o uso de robôs terrestres por Kiev é mais recente e tem-se intensificado desde o ano passado, com um crescimento da produção. Em março deste ano, a Ucrânia decidiu aumentar a quantidade de veículos não-tripulados no terreno de batalha para 15.000, contou ao órgão Economicha Pravda, Hlib Kanevskyi, o líder de departamento de contratação do Ministério da Defesa.

Em novembro do ano passado, a Reuters noticiava que as inovações para uma guerra à distância, quer através de drones ou de robôs, tem crescido à medida que a guerra na Ucrânia, actualmente no seu terceiro ano de combate, se vai prolongando, assim como as perdas.

Ao Observador, Arnaut Moreira apontou no mesmo sentido face a esta aposta especial da Ucrânia, já que “a Ucrânia não pode perder os mesmos soldados que a Rússia está a perder” e “não pode entrar numa guerra de atrito”, conta, explicando que a guerra de Kiev “tem de ser sempre diferente da conduzida pela Federação Russa“.

Assim, acrescenta o general, Kiev tem de procurar “soluções de natureza táctica que lhe permita evitar uma guerra assimétrica” com as forças de Moscovo, traçando um paralelo com a diferença das vitórias dos Estados Unidos e da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, conflito em que estavam aliados. “Enquanto na Segunda Guerra Mundial, os americanos ganharam essa guerra pela produção maciça de armas, os soviéticos ganharam essa guerra pela perda incomensurável de seres humanos. Isto é, enquanto na Federação Russa, as baixas têm um tratamento político que permite aceitar um enorme número de baixas, a Ucrânia não se pode dar a esse luxo“, explica o major-general.

Segundo o militar, a Ucrânia vai agora, cada vez mais, “procurar substituir na frente de combate, o elemento humano por elementos de natureza mecânica”, que podem mesmo vir a ser “controlados por inteligência artificial, que estará a dar os primeiros passos na identificação e na escolha dos passos para lhes dar uma maior autonomia”.

À revista britânica The Economist, um fabricante destes robôs ucranianos demonstrou bem que a Ucrânia não tem capacidade de efetivos para contrariar a desigualdade que existe quanto à Rússia, algo que os obrigou a inovar. “Não temos homens para contrariar a “onda de carne” da Rússia. Por isso, vamos enviar os nossos próprios “zombies” contra os deles“.

Que robôs são estes?

Os robôs destas operações são designados “veículos terrestres não-tripulados(UGVs), ou seja, como indica o major-general Arnaut Moreira ao Observador, dispositivos controlados à distância que “permitem a visualização do campo de batalha e das condições onde operam”.

A revista The Economist aponta três grandes tipos de utilização para drones terrestres: funções de logística, de apoio técnico e de combate.

Os robôs de logística ajudam as tropas no terreno a carregar água, combustível ou para ajudar à retirada de soldados feridos (ou até mortos). Segundo Arnaut Moreira, estes foram os primeiros a ser desenvolvidos pelo exército ucraniano, especialmente dedicados à recuperação de combatentes em situações “muito perigosas”, usando macas instaladas em cima da carroçaria, para as quais os soldados, mesmo que não consigam andar, conseguem para lá subir. “A recuperação destes soldados é importantíssima do ponto de vista da moral. Nós militares estamos habituados a não deixar os nossos camaradas para trás. Mesmo mortos, é preciso ir lá buscá-los”, diz o major-general.

A recuperação destes soldados é importantíssima do ponto de vista da moral. Nós militares estamos habituados a não deixar os nossos camaradas para trás. Mesmo mortos, é preciso ir lá buscá-los: Major-general Filipe Arnaut Moreira

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A função de apoio de engenharia militar, lê-se na revista, permite aos UGV ajudar às comunicações de soldados no terreno e ainda limpar ou plantar minas. Especialmente nesta última função, os robôs foram particularmente importantes numa altura em que “as minas voltaram à guerra actual” e são agora colocadas “na frente de batalha”. “Isto era feito pela engenharia mas em tempo de paz ou distanciados do inimigo. A colocação de minas não é uma tarefa evidente, é melhor feita por robôs autónomos”, diz Arnaut Moreira,

Por fim, no caso da função de ataque, esta pode ser de vários tipos, quer no lançamento de granadas, em ataques kamikaze ou com metralhadoras instaladas no topo e controladas à distância, que permitem fazer “ataques a posições fortificadas em que o elemento humano estaria extraordinariamente vulnerável”.

Muitos dos drones utilizados, conta, permitem fazer várias destas funções, já que têm uma plataforma em que podem ser montados vários acessórios — basta trocar o módulo. “Todos nos lembramos dos Legos. Crescemos com aqueles conjuntos“, comparou Oleksandr Yabchanka, chefe de robótica do Batalhão dos Lobos de Da Vinci, que utiliza estes robôs, à 

 O Liut e o Krampus, dois drones usados pelas forças ucranianas Ministério da Defesa da Ucrânia

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Ainda assim, há drones que não são multifunções a serem usados nos ataques da Ucrânia. O Liut (que significa “fogo” em ucraniano), é um UGV com carroçaria armada e com uma metralhadora montada em cima, destinado à frente de batalha. Foi lançado pela primeira vez na região russa de Kursk, durante a incursão que a Ucrânia lançou em agosto do ano passado.

Já o Krampus, aprovado este ano, tem um lança-chamas montada no topo, destinado a “destruir soldados inimigos e veículos blindados ligeiros”, lê-se no comunicado do ministério da aprovação do seu uso no terreno.

Quem é que tem feito estes ataques?

O primeiro ataque confirmado de dezembro foi protagonizado pela 13.ª Brigada da Guarda Nacional “Khartia” — Carta, em ucraniano —, uma unidade de voluntários criada em 2022 depois da invasão russa e que, em 2023, acabou reformada e integrada na Guarda Nacional da Ucrânia.

Já a Terceira Brigada de Assalto, protagonista do ataque ucraniano anunciado esta semana, foi fundada em 2023, nasceu da fusão dos batalhões especiais dos Azov, e tem como princípios os fundamentos dos Azov ainda no seu site: “Ucranianismo, tradicionalismo, hierarquia e responsabilidade“.

Em junho, a revista The Economist tinha destacado a Terceira Brigada de Assalto como “entre os pioneiros” no uso destes veículos, tendo-se estabelecido num “complexo” perto da cidade de Kiev, preparada para este tipo de robôs, a que chamam “Matadouro“. É onde está instalada a “Academia de UGV” da brigada, uma espécie de universidade para ensinar jovens na casa dos 20 anos.

Para além destas brigadas, envolvidas nos ataques só com drones a soldados inimigos, há outras unidades militares que têm e operam estes robôs no terreno. A The Economist conseguiu falar com dois dos elementos da 92.ª Companhia do Exército, identificados apenas como Shadow e Shura, que discutiram os prós e os contras de combater à distância.

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Apesar de todos estes avanços, Shura mostrou-se menos optimista sobre se o futuro significará uma substituição das botas no terreno por robôs. “Acho que vão apoiar a logística, obviamente, ajudando aqui e ali, disse, acreditando contudo que “nunca substituirão a infantaria”. Já ‘Shadow’ relata uma vantagem. “Podemos controlar o veículo com toda a situação mapeada em ecrãs à nossa frente. Um de nós pode estar a pilotar, o outro a beber Coca-Cola ou a fumar.”

Uma das principais dificuldades, explica a revista, é a comunicação entre a base e o robô no terreno. Actualmente, o serviço de internet Starlink é a principal forma de comunicação, um avanço face a tempos em que os operadores tinham de estar a menos de um quilómetro de distância — algo que aumentava significativamente o risco da morte. No entanto, a Starlink falha, especialmente em zonas onde o terreno é difícil e as árvores tapam a recepção da rede enviada pelos satélites lançados pela empresa de Elon Musk.

Por causa do passado e das dificuldades no terreno, explicam, há uma outra dificuldadea existência de poucos operadores que não tenham morrido entretanto, como conta Viktor, um engenheiro do departamento de investigação e desenvolvimento da empresa de armamento Burevii, “Temos muitos poucos que completaram missões suficientes e que estejam vivos“, revelou.

A guerra do futuro ainda depende muito de homens.

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