domingo, 6 de julho de 2025

Mundo absurdo

 

Espanta o escrúpulo preconceituoso, sobretudo em povos que admitem casamentos entre adultos e adolescentes – o que parece um acto criminoso, que não é punido mas apoiado por leis.

Orgulho e preconceito

Para Andrew Sullivan, católico e homossexual, o problema do movimento LGBTQ+ é o facto de ter passado do clamor inicial por igualdade e tolerância à “exigência de uma completa mudança social”.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 05 jul. 2025, 00:1847

Foi há mais de meio século, no dia 28 de Junho de 1969, que Stonewall Inn, em Greenwich Village, se tornou um símbolo. Stonewall Inn era um bar, como muitos da zona, propriedade de mafiosos. Era frequentado por homossexuais pobres, dragqueens, transexuais, comunidades então marginalizadas e perseguidas.

Ao contrário de outras rusgas em boîtes e bares homossexuais, em que a polícia de Nova Iorque, em cumplicidade mafiosa, se entendia com os donos e os punha de sobreaviso, esta incursão policial aconteceu inesperadamente e numa noite de sexta-feira, com o bar cheio. Também por isso, houve resistência à polícia e às detenções que a polícia quis fazer.

Em consequência, houve, nos dias e semanas seguintes, manifestações da comunidade homossexual de Greenwich Village. É preciso lembrar que, nesse final dos anos 60, viviam-se, na sociedade americana, grandes tensões, com a luta pelos direitos civis dos negros, os protestos anti-Vietname e o ambiente pró-amor livre e de defesa das minorias sexuais.

Stonewall passou assim a ser um marco da luta pelos direitos civis de uma comunidade que até então se sentia discriminada, perseguida, ridicularizada, marginalizada. E o mês de Junho passou também a ser o mês do chamado Orgulho Gay.

Não se pode dizer que haja hoje, no mundo euroamericano, qualquer tipo de perseguição a estas minorias; pode até dizer-se que, talvez pela influência e poder adquiridos em sectores chave da formação da opiniãona Academia, nos Media, no mundo editorial muitos terão passado do orgulho ao preconceito, ou de vítimas de preconceito a preconceituosos, eles mesmos, condenando prontamente toda e qualquer reserva perante a longa lista de opções sexuais não-tradicionais que hoje compõem o vasto movimento LGBTQIA+.

Sublinhe-se que isto se passa exclusivamente no mundo euroamericano de raiz judaico-cristã que evoluiu para o liberalismo laico dos séculos XIX e XX. No mundo do Islão e nas sociedades da África subsariana mais conservadoras o panorama é bem diferente. Há na Ásia, incluindo o Médio Oriente, 21 países com sanções penais ou legislações anti-homossexuais e 31 países africanos alinham na mesma discriminação. Mesmo assim, nos últimos 20 anos, o número de países com leis discriminatórias passou de 92 para 64.

No entanto, como noutras situações e circunstâncias históricas, as vítimas tendem a transformar-se em senhores. E hoje, em consequência do fenómeno humano da reversão de posições, os “desfiles Pride”, sempre em Junho, com a passagem das bandeiras com as cores do arco-íris e todo o espectáculo exótico do exibicionismo das várias categorias LGBT, assemelham-se mais a uma marcha vitoriosa sobre um povo vencido do que a uma revolta por direitos reivindicados.

Por isso, a proibição pelo governo húngaro da Marcha sobre Budapeste voltou a dar aos organizadores o que eles já quase davam por perdido: a perseguição, a proibição, logo, o martírio, mas um martírio suave, seguro, já que os perseguidores prometiam ser “civilizados”.

Como a lei húngara de 2021 proíbe, em nome da protecção de menores, “a exibição ou promoção da homossexualidade”, o presidente da Câmara de Budapeste, Gergely Karacsony, do partido “verde” da oposição, viu a janela política de oportunidade e decidiu promover na capital da Hungria o desfile do Orgulho Gay. Frau von der Leyen, a partir de Bruxelas, apressou-se a solidarizar-se com o evento, despachando 70 parlamentares europeus que marcharam ao lado de uns 150 mil participantes. Orban foi “civilizado”: não mandou a polícia para perturbar os festejos e a mesma polícia teve o cuidado de encaminhar por outro percurso uma contra-manifestação, certamente reaccionária.

Porém, este episódio húngaro vem a contra-corrente, ou seja, vem numa altura em que as coisas parecem estar a mudar, sobretudo depois da vitória de Trump nos Estados Unidos e o consequente “defunding” federal de muitas iniciativas pró-LGBT, pagas pelos contribuintes norte-americanos à revelia dos mesmos. Com o vento a mudar em Washington, muitos bancos e grandes companhias, envolvidas no apoio financeiro a estes projectos, estão a abandonar a causa ou as causas: segundo Garreth Roberts em End of the Rainbow” (The Spectator, 31 de Maio) a Master Card, a Pepsi, a Nissan, a Price Waterhouse e a Deloitte, entre outras grandes companhias, deixaram de subsidiar eventos LGBT.

O que tem vindo a acontecer é que as propostas radicais do wokismo, claramente minoritárias e em choque com o pensamento e o sentido de realidade de maioria das pessoas, começaram a exasperar essa maioria e a minar as relações, as instituições, as próprias empresas. Ora as empresas, que vivem dos consumos do público, acharam agora por bem refrear os seus antigos ímpetos radicais. Vai nesse sentido o texto de Nathanael Meyerson, na CNN Business de 4 de Junho: 39% das empresas inquiridas prevêem baixar os seus planos de apoio ao Gay Pride e a iniciativas do género.

As marcas de consumo público não querem agora ofender a maioria dos seus clientes nem incorrer no desfavor da Administração Trump. E tal como, no passado, não querendo incorrer no desfavor da Administração Biden, se tinham juntado ao esforço nacional de endoutrinar os renitentes, arrepiam agora caminho. Já havia sinais de mudança: a Bud Light, uma cadeia de armazéns de roupa ligada à promoção de fatos de banho trans, já se vinha a confrontar com um progressivo decréscimo de vendas; outra companhia, a Target, embora mantendo produtos Pride, já tinha passado a vendê-los só em “armazéns selecionados” ou apenas online.

Do outro lado do Atlântico, no Reino Unido, também o Supremo Tribunal veio pôr termo às dúvidas sobreo que é um homem” e “o que é uma mulher”, decidindo por unanimidade que, para os propósitos da Equality Act, “o sexo é biológico”.

Para Andrew Sullivan, em “How the Gay Rights Movement Radicalized and Lost its Way”, (The New York Time, 26-6-2025) é a radicalização e o seu quase endossamento oficial que estão na base da crise. Sullivan é católico e assumidamente homossexual; um “republicano” que o “conservadorismo social” ou a agenda conservadora nos costumes dos republicanos afastaram do republicanismo. Para ele, o problema do movimento LGBTQ+ é o facto de ter passado do clamor inicial por igualdade e tolerância à “exigência de uma completa mudança social”. Foi, para Sullivan, essa radicalidade ideológica que traiu e comprometeu os objectivos iniciais do movimento, catapultando-o de uma justa reivindicação de direitos para uma pretensa hegemonia moral com reflexos e práticas de autoritarismo asfixiante.

Do orgulho ao preconceito, diríamos.

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COMENTÁRIOS (de 47)

Antonio Melo: Na minha opinião, a homossexualidade e suas variantes sempre foi um não assunto. Se querem fazer manifestação, façam. Trabalham como os outros? Pagam impostos? São honestos? Então devem ter os mesmos direitos (e deveres ). A politização destes grupos, não faz qualquer sentido.                      Glorioso SLB: Ñ acho nada q o apoio ao gaysmo esteja a recuar. Ainda ontem na RTP2, num programa dedicado a crianças entre os 8 e os 12 anos, o Radar XS, falou-se dessa marcha e cm há meninas q nasceram em corpos de meninos e outras alarvidades. E mostrou todo o carnaval q é. Numa estação pública e para crianças, ñ achei admissível.                      Maria Nunes: Excelente artigo. Quando alguns exageram nos seus direitos há sempre um movimento contrário da própria sociedade. As marchas de orgulho gay são caricatas no seu exibicionismo.                    S N: Excelente e pertinente artigo                       Maria: Estas mesmas associações nunca deveriam ter apoio público, quem quer que pague cotas. Caso do evento que essas mesmas associações concorreram com a Alemanha para acolherem o mesmo, e que depois de ganhar a representação para lisboa, desertaram e quem teve que assumir custos foi CML. Gente mal formada sem carácter apoiada pelos wokismos da esquerda                    Rui Lima: O mais grave é que o Estado também regula essa área obrigando todos a concordar com o orgulho gay ( coisa que nunca percebi) sob pena de sofremos as consequências . O Estado não deve intervir em todos os domínios da vida social através de regulamentação sistemática em defesa de grupos , mas basta defender este princípio hoje, logo dizem que é discurso radical , sempre pensei que entre adultos cada um é livre e escolhe quem quer e não precisa de o mostrar em manifestações.                 Miguel Magalhães: Subscrevo inteiramente a sua análise. Nestas questões, importam pouco os posicionamentos políticos herdados dos séculos moderno e contemporâneo. Qualquer pessoa que defenda o Ocidente, as suas instituições, os seus usos e costumes não pode deixar de detestar o oportunismo de quem se dedica a combater precisamente as sociedades que mais se abriram à evolução desses usos e costumes. Há um chão comum que subjaz às sociedades menos injustas, menos radicais, menos opressivas e mais prósperas e quem gosta de viver nelas só pode considerar os activistas das chamadas causas fracturantes os "idiotas úteis" ou a 5ª coluna ao serviço dos nossos inimigos mais perigosos, incluindo o terrorismo.          José Cortes: O ar dos tempos. Crónica com o alto nível a que estamos habituados. Obrigado.         Carlos Chaves: Nunca percebi porque é que esta gente tem que se exibir, porque é que não vivem as suas vidas normalmente? Quero lá saber se são homossexuais, heterossexuais, passando por todas as versões LGTBI++, GT plus, direct cooling com fuel injection... cada um que viva como quer e como achar melhor... e que não imponha a sua visão aos outros. Ponto!                 Maria Cordes: Sempre que o leio, fico mais esclarecida e com a cabecinha mais arrumada. A homosexualidade é aceite, nos nossos tempos, mesmo nas estruturas mais conservadoras. Ninguém é discriminado por ser homossexual. Daí a criarem-se lobys, incluindo em ministérios e departamentos públicos vai um passo, que deveria ser sujeito a crítica. Os desfiles, são de um mau gosto indiscutível, e a exibição dos LGBT é uma macacada agressiva. Não havia necessidade.                  João Floriano: Na mouche. É isso mesmo que se passa. Os movimentos LGBTI+ tornaram-se tão exigentes, tão dogmáticos na defesa das suas posições, que se isolaram, encapsularam e cortaram o diálogo e o debate com quem pensa de modo diferente. Nesse contexto a aproximação entre extrema esquerda e LGBTI+ é grande. Para  a extrema esquerda tudo é fascismo desde que não alinhe com as suas posições políticas, para os LGBTI todos são homofóbicos. Valha-nos mentes brilhantes como a de Carlos Moedas que abriu a bolsa da autarquia para subsidiar o Europride, sem que se saiba qual o proveito que se obteve. Nestas coisas metem-nos sempre a rolha com o argumento de que do investimento sairá lucro. Qual o proveito, os dividendos, que retiramos do Europride? Estamos à espera da resposta. Conheço vários homosexuais, uns assumidos com casamento ou uniões de facto, outros mais discretos, mas que deixaram de fazer segredo das suas escolhas ou essência. Não conheço um único que se identifique com o activismo actual dos LGBTI+.     Maria > Rui Lima: Completamente de acordo, sendo manifestações de péssimo gosto estético e expondo ao ridículo e nunca orgulho                   Manuel Lisboa: Bem visto e bem contado. A propósito, continuo a não entender o que o "orgulho" tem a ver com a homossexualidade, hoje em dia no mundo ocidental. No quadro legal dos direitos individuais, deve ser inquestionável a liberdade e a privacidade de adultos em escolher os próprios afectos. Tudo o resto, na actualidade, tem revelado exageros de imagens excessivas e frequentemente chocantes pelo muito mau gosto.       antonyo antonyo: Serem gays, é lá com eles, mas orgulho de quê ? Porquê?               Rosa Graça: Excelente                       Carminda Damiao: Costuma-se dizer que o que é demais cheira mal e é o que acontece com as exigências e o exibicionismo do orgulho gay. As marchas do orgulho gay são ridículas e a negação da Biologia na determinação dos sexos é de loucos.         Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!              Tim do A > Antonio Melo: Sim, mas querem impor aos outros a sua "normalidade" querem ter privilégios de minorias. Impõem-se nas escolas às nossas crianças. Não. Não quero esse normal imposto, que não o é.

 

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