Espanta o escrúpulo preconceituoso, sobretudo em povos
que admitem casamentos entre adultos e adolescentes – o que parece um acto
criminoso, que não é punido mas apoiado por leis.
Orgulho e preconceito
Para Andrew Sullivan, católico e homossexual, o problema do movimento
LGBTQ+ é o facto de ter passado do clamor inicial por igualdade e tolerância à
“exigência de uma completa mudança social”.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 05 jul. 2025, 00:1847
Foi há mais de meio século, no dia 28 de Junho de 1969, que Stonewall Inn, em Greenwich Village, se tornou um símbolo. Stonewall Inn era um bar, como muitos da
zona, propriedade de mafiosos. Era frequentado por homossexuais pobres, dragqueens,
transexuais, comunidades então marginalizadas e perseguidas.
Ao contrário de outras rusgas em
boîtes e bares homossexuais, em que a
polícia de Nova Iorque, em cumplicidade mafiosa, se entendia com os donos e os
punha de sobreaviso, esta incursão policial aconteceu inesperadamente e
numa noite de sexta-feira, com o bar cheio. Também por isso, houve resistência à polícia e às detenções que a
polícia quis fazer.
Em consequência, houve, nos dias e semanas seguintes, manifestações da
comunidade homossexual de Greenwich Village. É preciso lembrar que, nesse final
dos anos 60, viviam-se, na sociedade americana, grandes tensões, com a luta
pelos direitos civis dos negros, os protestos anti-Vietname e o ambiente
pró-amor livre e de defesa das minorias sexuais.
Stonewall
passou assim a ser um marco da luta pelos direitos civis de uma comunidade que
até então se sentia discriminada, perseguida, ridicularizada, marginalizada. E
o mês de Junho passou também a ser o mês do chamado Orgulho Gay.
Não se pode dizer que haja hoje, no
mundo euroamericano, qualquer tipo de perseguição a estas minorias; pode até
dizer-se que, talvez pela influência e poder adquiridos em sectores chave da
formação da opinião – na
Academia, nos Media, no mundo editorial – muitos terão passado do orgulho ao preconceito, ou de vítimas de preconceito a preconceituosos, eles mesmos, condenando prontamente toda e qualquer reserva perante
a longa lista de opções sexuais não-tradicionais que hoje compõem o vasto
movimento LGBTQIA+.
Sublinhe-se que isto se passa
exclusivamente no mundo euroamericano de
raiz judaico-cristã que evoluiu para o liberalismo laico dos séculos XIX e XX. No mundo do Islão e nas sociedades da África
subsariana mais conservadoras o panorama é bem diferente. Há
na Ásia, incluindo o Médio Oriente, 21 países com sanções penais ou legislações
anti-homossexuais e 31 países africanos alinham na mesma discriminação. Mesmo assim, nos últimos 20 anos, o número de países
com leis discriminatórias passou de 92 para 64.
No entanto, como noutras situações e
circunstâncias históricas, as vítimas tendem a transformar-se em senhores. E hoje, em consequência do fenómeno
humano da reversão de posições, os “desfiles Pride”, sempre em Junho, com a
passagem das bandeiras com as cores do arco-íris e todo o espectáculo exótico
do exibicionismo das várias categorias LGBT, assemelham-se mais a uma marcha
vitoriosa sobre um povo vencido do que a uma revolta por direitos
reivindicados.
Por isso, a proibição pelo governo
húngaro da Marcha sobre Budapeste voltou a dar aos organizadores o que eles já
quase davam por perdido: a
perseguição, a proibição, logo, o martírio, mas um martírio suave, seguro, já
que os perseguidores prometiam ser “civilizados”.
Como a lei húngara de 2021 proíbe, em
nome da protecção de menores, “a exibição ou promoção da homossexualidade”, o
presidente da Câmara de Budapeste, Gergely Karacsony, do partido “verde” da oposição,
viu a janela política de oportunidade e decidiu promover na capital da Hungria
o desfile do Orgulho Gay. Frau
von der Leyen, a
partir de Bruxelas, apressou-se a solidarizar-se com o evento, despachando 70
parlamentares europeus que marcharam ao lado de uns 150 mil participantes.
Orban foi “civilizado”: não mandou a polícia para perturbar os festejos e a
mesma polícia teve o cuidado de encaminhar por outro percurso uma
contra-manifestação, certamente reaccionária.
Porém, este episódio húngaro vem a contra-corrente,
ou seja, vem numa altura em que as coisas parecem estar a mudar, sobretudo
depois da vitória de Trump nos Estados Unidos e o consequente “defunding”
federal de muitas iniciativas pró-LGBT, pagas pelos contribuintes
norte-americanos à revelia dos mesmos. Com o vento a mudar em Washington, muitos bancos e
grandes companhias, envolvidas no apoio financeiro a estes projectos, estão a
abandonar a causa ou as causas: segundo Garreth Roberts em “End of the Rainbow”
(The Spectator, 31 de Maio) a Master Card, a Pepsi, a Nissan, a Price Waterhouse e a Deloitte,
entre outras grandes companhias, deixaram de subsidiar eventos LGBT.
O que tem vindo a acontecer é
que as propostas radicais do wokismo, claramente minoritárias e em choque
com o pensamento e o sentido de realidade de maioria das pessoas, começaram a exasperar essa maioria e a minar
as relações, as instituições, as próprias empresas. Ora as
empresas, que vivem dos consumos do público, acharam agora por bem refrear os
seus antigos ímpetos radicais. Vai nesse sentido o texto de
Nathanael Meyerson, na CNN Business de 4 de Junho: 39% das
empresas inquiridas prevêem baixar os seus planos de apoio ao Gay Pride e a
iniciativas do género.
As marcas de consumo público não querem agora ofender a maioria dos seus
clientes nem incorrer no desfavor da Administração Trump. E tal como, no
passado, não querendo incorrer no desfavor da Administração Biden, se tinham
juntado ao esforço nacional de endoutrinar os renitentes, arrepiam agora
caminho. Já havia sinais de mudança: a Bud Light, uma cadeia de armazéns de
roupa ligada à promoção de fatos de banho trans, já se vinha a confrontar com um progressivo decréscimo de vendas; outra
companhia, a Target, embora mantendo produtos Pride, já tinha passado a vendê-los só em “armazéns
selecionados” ou apenas online.
Do outro lado do Atlântico, no Reino Unido,
também o Supremo Tribunal veio pôr termo às dúvidas sobre “o que é
um homem” e “o que é uma mulher”,
decidindo por unanimidade que, para os propósitos da Equality Act, “o sexo é
biológico”.
Para Andrew Sullivan, em “How the Gay Rights Movement
Radicalized and Lost its Way”, (The New York Time, 26-6-2025)
é a radicalização e o seu quase endossamento oficial que estão na base
da crise. Sullivan
é católico e assumidamente homossexual; um “republicano” que o
“conservadorismo social” ou a agenda conservadora nos costumes dos republicanos
afastaram do republicanismo. Para ele, o problema do movimento
LGBTQ+ é o facto
de ter passado do clamor inicial por igualdade e tolerância à “exigência de uma
completa mudança social”. Foi, para Sullivan, essa radicalidade
ideológica que traiu e comprometeu os objectivos iniciais do movimento,
catapultando-o de uma justa reivindicação de direitos para uma pretensa
hegemonia moral com reflexos e práticas de autoritarismo asfixiante.
Do orgulho ao preconceito, diríamos.
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA LGBTQ DIREITOS
HUMANOS SOCIEDADE HUNGRIA MUNDO
COMENTÁRIOS (de 47)
Antonio Melo: Na minha opinião, a
homossexualidade e suas variantes sempre foi um não assunto. Se querem fazer
manifestação, façam. Trabalham como os outros? Pagam impostos? São honestos?
Então devem ter os mesmos direitos (e deveres ). A politização destes grupos,
não faz qualquer sentido. Glorioso
SLB: Ñ acho nada q o apoio ao gaysmo esteja a recuar. Ainda ontem na RTP2, num
programa dedicado a crianças entre os 8 e os 12 anos, o Radar XS, falou-se
dessa marcha e cm há meninas q nasceram em corpos de meninos e outras
alarvidades. E mostrou todo o carnaval q é. Numa estação pública e para
crianças, ñ achei admissível. Maria
Nunes: Excelente artigo. Quando alguns exageram nos seus direitos há sempre um
movimento contrário da própria sociedade. As marchas de orgulho gay são
caricatas no seu exibicionismo. S N: Excelente e pertinente artigo Maria: Estas mesmas associações nunca
deveriam ter apoio público, quem quer que pague cotas. Caso do evento que essas
mesmas associações concorreram com a Alemanha para acolherem o mesmo, e que
depois de ganhar a representação para lisboa, desertaram e quem teve que
assumir custos foi CML. Gente mal formada sem carácter apoiada pelos wokismos
da esquerda Rui Lima: O mais grave é que o Estado
também regula essa área obrigando todos a concordar com o orgulho gay ( coisa
que nunca percebi) sob pena de sofremos as consequências . O Estado não deve
intervir em todos os domínios da vida social através de regulamentação sistemática
em defesa de grupos , mas basta defender este princípio hoje, logo dizem que é
discurso radical , sempre pensei que entre adultos cada um é livre e escolhe
quem quer e não precisa de o mostrar em manifestações. Miguel
Magalhães: Subscrevo
inteiramente a sua análise. Nestas questões, importam pouco os posicionamentos
políticos herdados dos séculos moderno e contemporâneo. Qualquer pessoa que
defenda o Ocidente, as suas instituições, os seus usos e costumes não pode
deixar de detestar o oportunismo de quem se dedica a combater precisamente as
sociedades que mais se abriram à evolução desses usos e costumes. Há um
chão comum que subjaz às sociedades menos injustas, menos radicais, menos
opressivas e mais prósperas e quem gosta de viver nelas só pode considerar
os activistas das chamadas causas fracturantes os "idiotas úteis" ou
a 5ª coluna ao serviço dos nossos inimigos mais perigosos, incluindo o
terrorismo. José
Cortes: O ar dos
tempos. Crónica com o alto nível a que estamos habituados. Obrigado. Carlos
Chaves: Nunca percebi
porque é que esta gente tem que se exibir, porque é que não vivem as suas vidas
normalmente? Quero lá saber se são homossexuais, heterossexuais, passando por
todas as versões LGTBI++, GT plus, direct cooling com fuel injection... cada
um que viva como quer e como achar melhor... e que não imponha a sua visão aos
outros. Ponto! Maria
Cordes: Sempre que o
leio, fico mais esclarecida e com a cabecinha mais arrumada. A homosexualidade
é aceite, nos nossos tempos, mesmo nas estruturas mais conservadoras. Ninguém é
discriminado por ser homossexual. Daí a criarem-se lobys, incluindo em
ministérios e departamentos públicos vai um passo, que deveria ser sujeito a
crítica. Os desfiles, são de um mau gosto indiscutível, e a exibição dos
LGBT é uma macacada agressiva. Não havia necessidade. João
Floriano: Na mouche. É isso mesmo que se
passa. Os movimentos LGBTI+ tornaram-se tão exigentes, tão dogmáticos na defesa
das suas posições, que se isolaram, encapsularam e cortaram o diálogo e o
debate com quem pensa de modo diferente. Nesse contexto a aproximação entre
extrema esquerda e LGBTI+ é grande. Para a extrema esquerda tudo é
fascismo desde que não alinhe com as suas posições políticas, para os LGBTI
todos são homofóbicos. Valha-nos mentes brilhantes como a de Carlos Moedas que
abriu a bolsa da autarquia para subsidiar o Europride, sem que se saiba qual o
proveito que se obteve. Nestas coisas metem-nos sempre a rolha com o argumento
de que do investimento sairá lucro. Qual o proveito, os dividendos, que retiramos
do Europride? Estamos à espera da resposta. Conheço vários homosexuais, uns
assumidos com casamento ou uniões de facto, outros mais discretos, mas que
deixaram de fazer segredo das suas escolhas ou essência. Não conheço um único
que se identifique com o activismo actual dos LGBTI+. Maria > Rui Lima: Completamente de acordo, sendo
manifestações de péssimo gosto estético e expondo ao ridículo e nunca orgulho Manuel
Lisboa: Bem visto e bem contado. A propósito, continuo a não entender o que o
"orgulho" tem a ver com a homossexualidade, hoje em dia no mundo
ocidental. No quadro legal dos direitos individuais, deve ser inquestionável a
liberdade e a privacidade de adultos em escolher os próprios afectos. Tudo o
resto, na actualidade, tem revelado exageros de imagens excessivas e
frequentemente chocantes pelo muito mau gosto. antonyo antonyo: Serem gays, é lá com eles, mas
orgulho de quê ? Porquê? Rosa
Graça: Excelente Carminda
Damiao: Costuma-se dizer que o que é demais cheira mal e é o que acontece com as
exigências e o exibicionismo do orgulho gay. As marchas do orgulho gay são
ridículas e a negação da Biologia na determinação dos sexos é de loucos. Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre! Tim do A > Antonio Melo: Sim, mas querem impor aos outros a sua
"normalidade" querem ter privilégios de minorias. Impõem-se nas
escolas às nossas crianças. Não. Não quero esse normal imposto, que não o é.
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