terça-feira, 22 de julho de 2025

Já não é mau

 

Quando os livros de História não ocultam as conquistas históricas, que decorávamos e começavam assim: «Em 1418, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram a Ilha de Porto Santo. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu Perestrelo descobriram a Madeira…»

Mas julgo que sim, que ocultam. Foi chão que deu uvas, a memorização, já por conta da memória histórica, de indisfarçável crueldade, apagados os heroísmos, por trás de severo reposteiro da piedosa contrição hodierna, todavia, amante de árias, como as entoadas por cantores, a que a musicalidade disfarça a execrável violência aí subentendida.

É o caso dos da Vinci que repuseram alguns desses antigos feitos, embora coarctados dos nomes dos tais heróis descobridores. Ou conquistadores malvados, segundo as Mortáguas zelosas da nossa pureza nos costumes, mas certamente que apreciadoras dos garganteios, com os heroísmos que os cantores, todavia, se não escusam de referir – maneira expressiva de os propalar aos quatro ventos. E mesmo aos ventos colaterais, pese embora a indiferença ao nível geral:

Era um mundo novo
Um sonho de poetas
Ir até ao fim
Cantar novas vitórias
E ergueram orgulhosas bandeiras
Viveram aventuras guerreiras
Foram mil epopeias
Vidas tão cheias
Foram oceanos de amor
Já fui ao Brasil
Praia e Bissau
Angola, Moçambique
Goa e Macau
Ai, fui até Timor
Já fui um conquistador
Era todo um povo
Guiado pelos céus
Espalhou-se pelo mundo
Seguindo os seus heróis
E levaram a luz da cultura
Semearam laços de ternura
Foram mil epopeias
Vidas tão cheias
Foram oceanos de amor
Já fui ao Brasil
Praia e Bissau
Angola, Moçambique
Goa e Macau
Ai, fui até Timor
Já fui um conquistador
Já fui ao Brasil
Praia e Bissau
Angola, Moçambique
Goa e Macau
Ai, fui até Timor
Já fui um conquistador
Foram dias e dias
E meses e anos no mar
Percorrendo uma estrada de estrelas
A conquistar
Já fui ao Brasil
Praia e Bissau
Angola, Moçambique
Goa e Macau
Ai, fui até Timor
Já fui um conquistador
Já fui ao Brasil
Praia e Bissau
Angola, Moçambique
Goa e Macau
Ai, fui até Timor
Já fui um conquistador
Fui conquistador
Fui conquistador
Fui conquistador

 

Visões do Paraíso

Era bom que nas escolas se combatesse a ridícula ideia da inigualável perversidade do homem branco e não se inculcasse a ideia romântica, mas falsa, de paraísos africanos anteriores aos Descobrimentos.

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 21 jul. 2025, 00:1842

Alguns jornais deram a notícia do pequeno incidente e existem, a circular na internet e nas redes sociais, vários vídeos que o documentam. Por eles sabemos que há alguns dias, no Cacém, numa acção de pré-campanha do seu partido para as eleições autárquicas, o deputado André Ventura foi abordado por um senhor muitíssimo exaltado que se identificou orgulhosamente como “africano”. Esse homem, do qual nada sei, acusou Ventura, como se ele fosse a personificação de todo o mal que alguns africanos e ocidentais woke consideram que Portugal terá feito em África: “Eu tenho orgulho enquanto africano” — assumiu o senhor em causa. — “Você invadiu o meu país, o meu continente durante cinco séculos” — acusou. — “Cinco séculos de escravidão, Ventura sabe disso ou não? Ventura, durante cinco séculos… O que é que foram lá fazer? Foram roubar os nossos ouros, foram roubar os nossos diamantes, foram-nos escravizar. Fomos roubados, os ouros, os diamantes. A culpa é dos portugueses.” Estava tão exaltado que teve de ser contido pelo segurança do deputado, o que não o impediu de continuar no mesmo registo acusatório: “Você é ladrão, você é racista. Ventura é racista.”

Este episódio não tem em si mesmo muita importância. Trata-se, em suma, de um senhor muito zangado e mal informado que confronta um político com acusações mais ou menos descarriladas, o que é comum nas campanhas eleitorais. Todavia, quando olhado num contexto mais amplo percebe-se que não é um caso isolado, mas sim um sintoma de uma desinformação mais geral e a ponta de um iceberg que nos pode fazer naufragar mais à frente. Leio com frequência, na internet e nas redes sociais, as opiniões de vários africanos ou afrodescendentes que têm uma visão idêntica ou parecida, e sei que ela deve muito à propaganda woke, mas suponho que deva ainda mais aos bancos da escola. A forma como a História é ensinada em São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Moçambique ou na Guiné-Bissau não é da minha conta. Suspeito que seja em muitos casos uma História muito formatada ideologicamente e já escrevi sobre isso num artigo no Observador cujo título — “Não quero que se ensine esta História aos meus netosé claríssimo quanto ao que penso sobre esse assunto. É que, se nada tenho que ver com as versões da História que os governantes das ex-colónias portuguesas decidem que deverão ensinar-se às suas crianças, tenho tudo que ver com o que se passa nas nossas escolas.

Aí vejo, com preocupação, que versões próximas desta que o irritado senhor africano verbalizou no Cacém, na sua altercação com André Ventura, são transmitidas aos nossos alunos, não só por alguns professores, mas por curiosos com pretensões lectivas. Já se esqueceram que Mariana Mortágua foi a uma escola da Amadora dar uma espécie de aula/conferência sobre escravatura e transmitir várias asneiras e ideias erradas? É preciso que os responsáveis pelo Ministério da Educação estejam muito alerta, muito atentos, às versões da história colonial de Portugal que se transmitem nos programas lectivos para que não haja uma multidão de Marianas Mortáguas nas salas de aula das nossas escolas a produzir cabecinhas com ideias idênticas à do exaltado senhor que confrontou André Ventura, no Cacém.

Mas eu diria que esse é apenas um dos aspectos que é preciso acautelar. Há um outro, mais arreigado, que exige que se vá mais fundo. Refiro-me à necessidade de desfazer a ideia subjacente de que Portugal foi levar a violência e o arbítrio a mundos até então paradisíacos. As ideias da inocência e brandura do africano, que contrastariam com as da cobiça e agressividade dos europeus, são referenciais muito antigos que persistiram durante os séculos em que, salvo raras excepções, e por causa da febre-amarela e da malária, o homem branco não conseguiu passar da orla costeira. Já no século XVI João de Barros, referindo-se àquilo que designava por “Etiópia” — isto é, a África subsariana —, lamentava que estivesse cheia de “mortais febres” que impediam a penetração dos portugueses no seu interior, algo que, a não ser por causa dessas doenças, seria supostamente fácil visto os seus habitantes serem gente “pacífica, mansa e obediente”. Se bem que existisse uma outra imagem, menos rosada, dos africanos, este tipo de idealização da doçura ou brandura dos negros foi-se mantendo ao longo do tempo. Em Março de 1822, por exemplo, o jornalista de O Compilador, escrevia que os “incultos africanos” eram “mais virtuosos” e “mais inocentes” do que os portugueses. “Retirados lá nos seus bosques e choupanas” esses africanos nunca teriam forjado “nos seus sossegados desertos, pesadas correntes para virem manietar entes da sua espécie”, como faziam os brancos que lá iam para os arrancarem “da sua família, dos seus lares e da sua Pátria”.

Esta imagem é uma rematada fantasia romântica, mas curiosamente ainda é a que está subjacente à irritação do senhor africano que interpelou André Ventura, no Cacém, e à da gente woke que nos massacra os ouvidos com a culpa do homem branco. Dito de outro modo, a acusação feita aos brancos pressupõe um mundo idílico em África, que os intrusos teriam ido perturbar e desregular. Mas terá sido assim? Não será uma total ingenuidade pressupor uma coisa dessas?

Houve um tempo em que muitos adolescentes, seguindo a opinião supostamente científica e abalizada de adultos como Timothy Leary, acreditaram que certas drogas alucinogénias, na dose adequada, fariam com que uma pessoa atingisse outros níveis de consciência e se ligasse de forma mais harmoniosa com o que a rodeava, ou seja, que o consumo generalizado dessas drogas iria fazer do mundo um sítio melhor. Era a época da cultura psicadélica, em que as vedetas da música pop consumiam profusamente essas drogas e faziam a sua apologia. Foi nesse tempo, mais precisamente em 1968, que os Moody Blues, por exemplo, gravaram Visions of Paradise, uma canção sobre as visões deslumbrantes, os inigualáveis sons, a pureza de sentimentos e os imaginários paraísos a que o consumo de drogas psicadélicas os levava. Muitos dos jovens que viveram esse tempo sabem que então se acreditava que as flores, o LSD e o amor poderiam mudar para sempre as mentes das pessoas. Claro que a realidade era muito diferente dessa ilusão, o que cedo se percebeu quando, sob o efeito do LSD, houve pessoas com crises paranóicas que feriram outras para se defenderem de atacantes inexistentes, ou que se lançavam de janelas, convencidas de que voavam, ou, ainda, que viam baratas a subirem pelos seus corpos e gritavam, horrorizadas, por não conseguirem afastá-las. Ou seja, longe de abrir as portas a um paraíso as drogas alucinogénias podiam abri-las ao horror.

Algo de equivalente se passa com a imagem da África inocente e pacífica que teria supostamente existido antes da passagem do Bojador ou da época do Colonialismo. É uma vision of Paradise que não corresponde à realidade. Não, a África anterior a Gil Eanes ou a Diogo Cão não era um mundo pacífico e isento de maldade e de crueldade. Sim, havia por lá guerras, sacrifícios humanos, cobiça, escravatura. E, por isso, era bom que nas escolas, ao mesmo tempo que combatessem a ridícula ideia das inigualáveis perversidade e culpabilidade do homem branco, os professores procurassem desactivar, na cabeça dos seus alunos, esta espécie de LSD cultural woke que por mil meios — a escola, a Disney, etc. — constantemente lhes inculca a ideia romântica, mas redondamente falsa, de paraísos africanos (ou asiáticos ou americanos) anteriores aos Descobrimentos e que estes teriam ido desfazer e envenenar.

HISTÓRIA     CULTURA     ESCOLAS     EDUCAÇÃO     DESCOBRIMENTOS

COMENTÁRIOS (de 42)

Paulo Machado: Concordando com tudo, Gostaria apenas de chamar também a atenção para 50 anos de independência. E os paraísos de países com as rédeas na mão, estão longe de aparecer.      Rui Lima: Estas suas crónicas são de grande importância pelo seu saber e coragem, seria de toda utilidade delas fazer um livro. Antes da chegada dos europeus, as culturas africanas eram orais, o que dificulta reconstruir a história detalhada mas os estudos genéticos modernos (com ADN) ajudam a saber os movimentos e massacres dos povos . Os pigmeus que viviam no centro e oeste da África, que eram pequenos foram uns dos povos exterminados, a violência era a norma entre tribos. A chegada dos brancos a África tal como a chegada dos romanos à península ibérica foi fonte de progresso para os povos colonizados, senão ainda viveriam sem escrita …                     Maria Augusta Martins: O preto exaltado deveria ser recambiado para o muceque donde saiu, de forma idêntica aos que foram corridos (brancos e pretos) pela "descolonização exemplar" do Marocas.          João Marques > Rui Lima: Obrigado. Quanto à sua sugestão devo dizer que já existem três livros com as crónicas anteriores. São os seguintes : Combates pela Verdade (2020), Descobrimentos e Outras Ideias Politicamente Incorrectas (2023) e A Culpa do Homem Branco (2024). Estas crónicas mais recentes irão ser publicadas num novo livro que sairá em Outubro e cujo título será Reparações e Outras Penitências Históricas.                      Eduardo Gomes: A ideologia woke é muito mais perniciosa do que o LSD e outras drogas do género. Permitir que essa gente ande pelas escolas a doutrinar os alunos é uma irresponsabilidade, com grande culpa de quem nos tem (des)governado ultimamente.                  vitor gonçalves: O problema de África nos últimos 60 anos: não foram os colonizadores mas sim o Socialismo e as elites locais que roubaram o futuro dos Africanos. Aliás, existe uma ampla frente de jovens Africanos que denunciam que após 60 anos de Independência da maioria dos países da África SubSariana, quase todos estão em situação muito pior que antes do período colonial. Em 2014, ouvi em Luanda um discurso do Zedu, em que afirmava que seria naquela data que Angola iria atingir os níveis de produção agrícola de 1973. Está tudo dito. Relembro que a Nigéria recebeu das companhias petrolíferas em impostos cerca de 500.000 milhões de dólares que literalmente desapareceram da economia e encheram os bolsos das elites locais; aos nativos, a miséria do costume. Esta situação decorre do Socialismo aplicado na maior parte das ex-colónias com raras excepções, como é o caso do Botswana que tem níveis de vida dos mais altos de África.        Rosa Graça: Como sempre, Excelente.                 Francisco Almeida: O ministério da Educação começou por ser dominado, ainda no antigo regime, por uma aliança contranatura de comunistas e maçons. Hoje é pelos seus herdeiros e, já dominantes, por neomarxistas. Não que sejam maioritários mas actuam concertadamente face a uma maioria dispersa e amorfa. Dois ou três professores neomarxistas, com algum apoio de outros esquerdistas, conseguem dominar os conselhos pedagógicos das escolas e programar actividades extra-curriculares de que a palestra de Mariana Mortágua foi apenas uma que ganhou visibilidade. Não é nada de novo. Já tínhamos visto isso acontecer em 1975 com uma pequena minoria de oficiais comunistas a conseguir dominar o processo de descolonização. Observando o que se passa nas escolas públicas, que já vem de há mais de 50 anos, observando as prioridades do actual ministro, não vejo motivos para ter esperança no futuro.                 Paul C. Rosado: Muito bem. Nos seus artigos encontramos sempre a verdade. Acusar a sociedade europeia e ocidental de ter levado a violência para África é como acusar alguém de ter levado areia para a praia. O período menos violento, para quase todas as zonas de África, foi a época colonial.                 José Tomás: Para dar uma imagem do paraíso terreal que era África entregue aos seus temos o Mfecane, o movimento de povos em resultado da expansão dos Zulus sob o comando de Shaka, causador de 1 a 2 milhões de mortos (apesar de a recente vaga de "historiadores", também já ter martelado os factos - a culpa, afinal, foi, claro!, da pressão colonialista e esclavagista - e os números - neste caso, para baixo).                    Rui Lima  > João Marques: Muito obrigado pela sua resposta. Li há cerca de 10 anos o seu livro «Uma Fazenda em África », que encontrei numa livraria apreciei imenso e recomendo. Quando comecei a ler as suas crónicas no Observador, fiz a ligação. Como já não vou às grandes cidades e prefiro sentir o livro antes de o comprar, evito as compras online vou à procura dos títulos que referiu. E com o novo livro a sair em outubro, já tenho ideia para presentes de Natal… especialmente para amigos com um certo sentimento de culpa.                  Daniel Salgado Santos: Muito bom.                   João Floriano: Por curiosidade: quanto teria recebido o senhor africano vociferante pelo sua performance teatral? Já não tenho tanta curiosidade em saber quem lhe pagou porque tem todo o ar de ter sido uma dessas ONGs que por aí andam a apontar a dedo espetado a maldade dos portugueses, os responsáveis pela miséria de muitos africanos como os do Bairro do Talude em Loures. Colocar as responsabilidades em quem os aliciou e os convidou a entrar sem trabalho, sem casa, sem condições de vida digna, isso é que não. Se os portugueses ou europeus em geral tivessem sido tão malvados como os pintam mesmo nos manuais escolares, como se explica o êxodo de africanos que deixam os seus países de origem para procurarem uma nova vida junto dos agressores? Há aqui algo que não bate certo. Os seguranças deviam ter dado mais algum tempo e espaço ao senhor africano berrante, porque ele ainda iria falar na questão das compensações.         Maria Nunes: Muito bem, Dr. João Pedro Marques.                 Tristão: No fundo, é nada mais nada menos de O bom selvagem de Rousseau. Vi o podcast “Gungunhana. Quando Portugal Raptou um Rei”, produzido pela CNN Portugal que até acho que ganhou um prémio internacional. A autora é uma jornalista da casa cujo nome não me recordo, muito bem narrado, gostei bastante. Contudo, a autora foi incapaz de fugir dessa construção etílica do africano apesar de ao de leve falar em alguma violência praticada pelo rei, que mais não era que um zulu que foi corrido da região da África do Sul por um rei mais poderoso e que conquistou parte do território de Moçambique como se fez na Europa e em todo o lado: invadindo e matando ou escravizando os autóctones, até as sucessões dinásticas davam azo a guerras civis, enfim, a natureza humana é igual em todo o lado, ponto.               Mário Silva: É a velha táctica da vitimização e das queixas históricas — quando faltam argumentos, grita-se. Os brasileiros andam nisto há dois séculos; os gregos mostraram bem isso no tempo da troika. Do burgo, nem vale a pena falar.            Pedro: Mais em excelente texto do Prof. João Pedro Marques: claro, fundamentado e objectivo.              ANTONIO MARIA REGO DE MELLO E CASTRO: A ignorância não aproveita a ninguém, e a abusiva politização do ensino tampouco...          Carminda Damiao: Artigo de grande utilidade. Excelente.

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