quarta-feira, 30 de julho de 2025

Mas é pena


Tal incapacidade de aceitar o “outro”, sendo ele próprio um “outro”, superior, sem dúvida a muitos, numa escrita ponderada, mas toldada, por vezes, pela tal inútil e já antiga parcialidade vistosamente arrogante, com que eu própria, em tempos me confrontei. Mas continuo, fervorosamente, a lê-lo, aos sábados, ou domingos, graças a generosa cedência, pela minha irmã, desses Públicos onde escreve.

Às vezes me espanto, outras, me envergonho

A pulsão conspirativa e a aversão aos jornalistas são dois traços identitários de Pacheco Pereira. Confunde jornalismo com opinião, presença com influência e sucesso com conspiração.

RUI PEDRO ANTUNES Editor de Política do Observador

OBSERVADOR, 29 jul. 2025, 00:207

José Pacheco Pereira é um historiador de excelência, com obras publicadas de grande qualidade, como a biografia de Álvaro Cunhal. A associação Ephemera é um parente privado e selvagem da Torre do Tombo, que merece todos os elogios e que é de inegável interesse público. Isto significa duas coisas: Pacheco Pereira é óptimo a relatar e preservar o passado e é péssimo nas leituras que faz da actualidade, quase sempre toldado por uma irritação permanente com o jornalismo, os jornalistas e os seus ódios de estimação.

José Pacheco Pereira escreveu um artigo no jornal Público onde denuncia (ou melhor, decreta — porque como deus máximo do Intelectualismo, não exprime opiniões, mas dogmas) aquilo que chama de projecto político do Observador. Na cabeça do historiador, há uma mão invisível que controla um plano mais abrangente, que pretende manipular a opinião pública em torno de uma agenda da direita dura. Sugere, pelo meio, que os jornalistas do Observador são meros peões ao serviço dos lóbis dos accionistas e da chamada direita Observador (conceito utilizado pela bolha e em breve certamente ensinada nos cursos de Ciência Política). Incha, Tocqueville, esta não conheces tu.

No delírio do historiador — ao nível dos Iluminati, do homem não ter pisado a Lua, do Elvis estar vivo ou de uma versão da Conquista do Pão escrita por Joana Amaral Diasos outros órgãos de comunicação, em particular as televisões, ajudam o Observador a espalhar os tentáculos da sua influência. Pacheco Pereira diz, nesse mesmo artigo do Público, que as mesmas pessoas que comentam nos programas da manhã na Rádio Observador vão depois ao longo do dia às televisões, quais “falcões” (estilo The Birds, do Hitchcock) destruir em directo pombinhas do PS.

Participo muitas vezes nas manhãs da Rádio Observador e há cerca de dois anos que comento, como convidado, de forma regular num dos canais noticiosos. Não me arrogo do direito de me autoproclamar falcão, até porque suspeito que Pacheco Pereira não faz ideia de quem sou. E está tudo bem com isso. Também não lhe estou a responder em nome do Observador, nem de ninguém, com este artigo — porque necessitaria de autoridade para isso, que não tenho. Nem sequer espaço. Nesta coluna, sou o único responsável pelo que escrevo. Pode parecer estranho a Pacheco Pereira, mas os colunistas do Observador não articulam entre si o que escrevem ou deixam de escrever. Nem os da rádio, muitos deles em comum, concertam o que dizem. Aliás, sobre os ataques constantes ao Observador, o publisher José Manuel Fernandes respondeu, de forma oportuna e na medida certa, ao José Pacheco Pereira, num artigo que lhe dispensaria umas quantas sessões de terapia. É de 2021, mas continua actual.

Porque escrevo, afinal, sobre isto? É que José Pacheco Pereira nesta e noutras ocasiões faz uma confusão de conceitos que, de forma propositada ou não, podem levar os mais distraídos a pensar que tem razão. O historiador confunde opinião com jornalismo. E, quando parece estar a atacar as opiniões, Pacheco Pereira confunde tudo (ou finge confundir) e sugere que as notícias, o jornalismo, é colocado ao serviço de uma opinião colectiva, de um projecto maior.

Vamos então a um pouco de pedagogia. O Observador tem, de facto, uma secção de opinião que tem, no jornal, mais colunistas fixos do campo político da direitaalgo que foi assumido, ao jeito anglo-saxónico, desde o primeiro dia. Na Rádio Observador, é óbvio que é mais fácil o Alberto Gonçalves ter um espaço fixo na grelha do que o Francisco Louçã. Mas ninguém esperaria o contrário, precisamente, porque é algo que está assumido desde o início (mesmo que Pacheco Pereira continue a pedir um coming out direitista). Isto não significa, porém, que a rádio não tenha vozes como o Sérgio Sousa Pinto ou a Susana Peralta que dificilmente se podem rotular de direita.

Além da opinião, que tem naturalmente uma importância muito grande no Observador, há depois a parte jornalística ou, se quisermos, noticiosa. A separação que existe entre opinião e a redação faria parecer curta a faixa seca de Moisés no Mar Vermelho. Seguimos o princípio de Kapuściński de que “as opiniões são livres e os factos são sagrados”. O estatuto editorial do Observador diz que é um órgão de comunicação “independente e livre”. E é isso mesmo que é. E é todas as áreas, incluindo naquela que até poderia ser mais susceptível a pressões (a política). E sei do que falo. Sou editor de Política do Observador há cinco anos, estou na secção de política há nove e nunca houve qualquer pressão de cima para baixo para ir mais para a esquerda ou para a direita. Ou para favorecer mais este ou aquele. Nunca me foi pedido nada mais do que rigor, escrutínio e isenção. Qualquer jornalista que esteja ou tenha passado pelo Observador pode comprová-lo.

Pacheco Pereira, talvez por ainda ter na pele o modelo maoísta de organização (perdão, controlo) de uma redacção, acredita que os jornalistas do Observador, os de política e os outros, no mínimo fazem fretes ao accionistas, à direita populista e aos lobos neoliberais. Não o digo apenas por estas declarações — que são mais direccionadas ao comentário na rádio — mas pelas várias declarações que fez nos últimos anos sobre o Observador. Lamento, mas está enganado. Sugere, por exemplo, que houve alguma benevolência no caso Spinumviva. Facilmente desmentível por artigos dados em primeira mão pelo Observador como o que revelou que a Solverde era cliente, que a colaboradora da empresa tinha trabalhado para o secretário-geral do PSD ou que o principal cliente da Spinumviva era uma gasolineira de Braga cujo proprietário era o candidato do partido à câmara de Braga. Os comentários que se seguiram na Rádio sobre estes temas, como se imagina, não foram agradáveis para o primeiro-ministro.

Refere-se depois ao facto de, na semana do anúncio da não-recondução Mário Centeno do Banco de Portugal, terem saído artigos no Observador, como o da nova sede, pouco simpáticos para o governador de saída. É óbvio que as fontes têm sempre interesses. Todas elas. Em todas as áreas. Em todos os partidos. Que podem libertar a informação apenas em determinada e conveniente altura, mas isso não diminui o interesse jornalístico desses dados. Exemplo disso são os anos de autárquicas, como é 2025, em que os opositores colocam cá fora todos os podres dos municípios. Isso diminui o interesse dessas notícias? Zero. Desde que seja feito o contraditório, investigadas e confirmadas as denúncias, o interesse da fonte (seja de que partido ou que com motivação for) não elimina o interesse do jornalista — nem, mais importante, do leitor.

Sei que, desta vez, Pacheco Pereira até está mais incomodado com o tom dos programas da Rádio, que têm notas, outras avaliações e derivados. O historiador sugere, de forma que é ofensiva para quem aqui trabalha, que há figuras que são favorecidas em detrimento de outras dentro desse grande projecto político colectivo. Ora, sugiro ao historiador que crie na Ephemera um arquivo áudio dos podcasts da Rádio Observador (de programas como o Bom, Mau e o Vilão ou o E o Vencedor é) e — depois de terminada a compilação — constate como da esquerda à direita não há líder partidário que, em determinado momento, não tenha sido piñata humana das intervenções assertivas dos participantes nesses programas.

José Pacheco Pereira acerta quando diz que o Observador tem fontes privilegiadas no Ministério Público, nos partidos do Governo e no Governo, bem como nas confederações patronais. Tem razão. E também nos partidos da oposição, sindicatos e por-aí fora. A isso chama-se jornalismo. A relação com essas fontes tem o humilde propósito de conseguir notícias. Não compete ao jornalista sobreavaliar a ambição de uma fonte. Se um vice-presidente de uma câmara quiser derrubar o presidente e, por essa razão, denunciar um roubo do cofre do município ou o assédio de um funcionário, o jornalista deve recuar porque está a ser instrumentalizado? A resposta é: não. Até porque o jornalista até pode desconfiar da intenção da fonte, mas não lhe compete fazer esse juízo. Compete ser mais cuidadoso e escrupuloso por saber que existe um interesse deliberado da fonte. Só isso. De resto, não é nada com ele.

Por detrás de um benigno artigo carregado de engraçadismos e de um comedido fair play, Pacheco Pereira foi ofensivo com os jornalistas do Observador. Mesmo que o principal alvo fossem os comentadores, só chamar projeto político ao Observador é diminuí-lo como projecto jornalístico. Chegamos ao ponto: o problema do historiador é mesmo com jornalistas. E não é de agora. Na célebre “crise dos corredores”, em 1993, Pacheco Pereira, então líder parlamentar do PSD, defendeu com unhas e dentes a proposta da sua bancada para limitar o acesso aos jornalistas nos corredores Parlamento. Durante quase um mês não houve cobertura dos trabalhos parlamentares por protesto dos jornalistas e Pacheco e seus muchachos (na altura nem percebeu que Duarte Lima lhe estava a fazer a folha) deram argumentos a Mário Soares — que chegou a chamar os jornalistas a Belém — para atacar Cavaco Silva. Um desastre completo.

Mais do que acrimónia, há uma marca de água no percurso de José Pacheco Pereira de quase raiva contra os jornalistas. O Ponto Contraponto, programa que esteve durante oito anos no ar, foi em parte um tiro-aos-jornalistas (fui visado algumas vezes), num programa de tanto sucesso que, talvez por cortesia, se arrastou na grelha da SIC Notícias e chegou a ser emitido às quatro da manhã.

José Pacheco Pereira acaba o artigo a pedir que o Observador se assuma para ficar tudo bem. Do lado do Observador tudo é absolutamente cristalino: é claro o que é opinião e o que é jornalismo. A crise identitária é mesmo do próprio historiador. Continua a desacreditar os media e o espectáculo mediático, quando tem a sua presença mais relevante no primeiro e a alimenta a comentar o segundo.

Na política, também parece preso num tão problemático dilema. Em 2013, quando o seu partido enfrentava, no poder, um momento difícil não teve problemas em ir à Aula Magna atacar o Governo de Passos Coelho (o vídeo pode ser visto aqui no Esquerda.net). Não vai a um Congresso do PSD desde 2008 (quando participou no encerramento do Congresso que entronizou Ferreira Leite em Guimarães), mas entretanto já participou num Congresso do PS (em 2016, com o amigo António Costa). No PSD, quando se envolve ou toma partido, as coisas também não correm pelo melhor: apoiou e aconselhou Rui Rio e Ferreira Leite, mas nenhum deles “chegou lá”. Em 2009, como cabeça de lista em Santarém, não conseguiu ganhar nem na Marmeleira, freguesia ligada às origens do arquivo Ephemera, tendo o PSD conseguido apenas 23% dos votos nessa localidade, atrás do PS.

Apesar do insucesso que tem na vida partidária e da não identificação com a esmagadora maioria das direcções do partido (nem com as bases, já agora), ainda há pouco tempo disse, em tom provocador: “Não lhes faço o gosto de sair do partido”. O “lhes” era provavelmente dirigido a uma qualquer força superior que, conspirativamente, toma conta do PSD.

A pulsão conspirativa e a aversão aos jornalistas são assim dois traços característicos de Pacheco Pereira. Da minha parte, continuarei lê-lo no Público e a ouvi-lo na CNN, local onde provavelmente vê os tais falcões a voar. Também não deixarei, como é habitual, de me lembrar, sempre que o oiço, da célebre frase de Sá de Miranda que servia de mote para o blogue Abrupto: “M’espanto às vezes, outras m’avergonho”. Ou, em português contemporâneo: “Às vezes me espanto, outras envergonho-me”. A vergonha, diga-se, é alheia.

PACHECO PEREIRA      PAÍS      SOCIEDADE       JORNALISMO      MEDIA

COMENTÁRIOS:
João Melo de Sampaio: O Pacheco não merece tanta escrita... fede, não toma banho...

Ricardo Ribeiro: Dois esquerdoidos travestidos de direita à traulitada. Ó Pacheco vem cá ver isto, e ver como nós, assinantes do Observador, sofremos com a política editorial e noticiosa estar demasiado encostada à esquerda! Imagino o badagaio e a solipampa que te dava ao ler a maioria dos comentários e comentadores destas caixas, estas sim verdadeiras almas de direita em que eu me incluo                

Cadete Joao: Um tonto a escrever para outro... simples...

Ana Lucas: Excelente artigo a pôr os pontos nos is ao Pacheco Pereira, que é um homem arrogante e sem coerência, basta constatar que passou do Maoismo à Social-Democracia (idênticos!...) Para além disso, acha-se o máximo (não sei bem de quê, nem porquê).

José Paulo Castro: Pacheco Pereira tinha um blog a cujo título o acordo ortográfico não fez o favor de retirar o 'p'. Ficaria mais condizente como referência à personagem alter-ego, a dos idos de Março, de punhal escondido.

Liberales Semper Erexitque: Poderia até dar-se o caso de o referido Pereira ter "dificuldades relacionais" com os media, mas ser um grande colunista. Ora aqui este vosso esforçado compadre leitor foi assinante e leitor regular do "Público" durante cerca de três anos, e durante esse tempo um dos colunistas de pedra e cal por lá foi ... o Pereira! E posso dizer baseado na experiência que é raríssimo que o Pereira "dê uma para a caixa", em linguagem popular. De resto, só há um que eu gostaria de ter aqui sempre no Observador, o João Miguel Tavares, e não me importaria de poder ler o António Guerreiro, um esquerdoido sim, mas, ao contrário do Pavão Pereira, muito interessante.

Jorge Barbosa: Arrogante e ressabiado como o Pacheco Pereira só me lembro do Saramago (o mesmo que nomeado em 1975 pelo PCP/MFA para a direcção do DN , logo saneou todos os jornalistas não comunistas) São pessoas cuja intelectualidade se torna insana tal é o 

Nenhum comentário: