Tal incapacidade de aceitar o “outro”,
sendo ele próprio um “outro”, superior, sem dúvida a muitos, numa escrita
ponderada, mas toldada, por vezes, pela tal inútil e já antiga parcialidade vistosamente
arrogante, com que eu própria, em tempos me confrontei. Mas continuo, fervorosamente,
a lê-lo, aos sábados, ou domingos, graças a generosa cedência, pela minha irmã, desses
Públicos onde escreve.
Às vezes me espanto, outras, me envergonho
A pulsão
conspirativa e a aversão aos
jornalistas são dois traços identitários de Pacheco Pereira. Confunde
jornalismo com opinião, presença com influência e sucesso com conspiração.
RUI PEDRO ANTUNES Editor de Política do Observador
OBSERVADOR, 29 jul. 2025, 00:207
José Pacheco Pereira é um historiador
de excelência, com obras publicadas de grande qualidade, como a biografia de
Álvaro Cunhal. A associação Ephemera é um parente privado e
selvagem da Torre do Tombo, que merece todos os elogios e que é de inegável
interesse público. Isto significa duas coisas: Pacheco Pereira é óptimo a relatar e
preservar o passado e é péssimo nas leituras que faz da actualidade, quase
sempre toldado por uma irritação permanente com o jornalismo, os jornalistas e
os seus ódios de estimação.
José Pacheco Pereira escreveu um artigo no
jornal Público onde denuncia (ou melhor, decreta — porque como deus máximo do Intelectualismo, não exprime opiniões,
mas dogmas) aquilo que chama de projecto político do Observador. Na cabeça do historiador, há uma mão
invisível que controla um plano mais abrangente, que pretende manipular a
opinião pública em torno de uma agenda da direita dura. Sugere, pelo meio, que
os jornalistas do Observador são meros peões ao serviço dos lóbis dos accionistas
e da chamada direita Observador (conceito utilizado pela bolha e em breve certamente
ensinada nos cursos de Ciência Política). Incha, Tocqueville, esta não
conheces tu.
No delírio do historiador — ao nível dos Iluminati, do homem não ter pisado a Lua, do Elvis estar vivo ou de uma versão da Conquista do Pão escrita por Joana Amaral Dias — os outros órgãos de
comunicação, em particular as televisões, ajudam o Observador a espalhar os
tentáculos da sua influência. Pacheco
Pereira diz, nesse mesmo artigo do Público, que as mesmas pessoas que comentam
nos programas da manhã na Rádio Observador vão depois ao longo do dia às
televisões, quais “falcões” (estilo The Birds, do
Hitchcock) destruir em directo pombinhas do PS.
Participo muitas vezes nas
manhãs da Rádio Observador e há cerca de dois anos que comento, como convidado,
de forma regular num dos canais noticiosos. Não
me arrogo do direito de me autoproclamar falcão, até porque suspeito que
Pacheco Pereira não faz ideia de quem sou. E está tudo bem com isso.
Também não lhe estou a responder em nome do Observador, nem de ninguém,
com este artigo — porque necessitaria de autoridade para isso, que não tenho.
Nem sequer espaço. Nesta coluna, sou o
único responsável pelo que escrevo. Pode parecer estranho a Pacheco
Pereira, mas os colunistas do
Observador não articulam entre si o que escrevem ou deixam de escrever. Nem os
da rádio, muitos deles em comum, concertam o que dizem. Aliás, sobre os ataques constantes ao
Observador, o publisher José Manuel Fernandes respondeu, de forma
oportuna e na medida certa, ao José Pacheco Pereira, num artigo que lhe
dispensaria umas quantas sessões de terapia. É de 2021, mas continua actual.
Porque escrevo, afinal, sobre isto? É
que José Pacheco Pereira nesta e noutras ocasiões faz uma confusão de
conceitos que, de forma propositada ou não, podem levar os mais distraídos a
pensar que tem razão. O
historiador confunde opinião com jornalismo. E, quando parece estar a atacar as opiniões,
Pacheco Pereira confunde tudo (ou finge
confundir)
e sugere que as notícias, o
jornalismo, é colocado ao serviço de uma opinião colectiva, de um projecto
maior.
Vamos então a um pouco de
pedagogia. O Observador tem, de facto, uma secção de opinião que tem, no
jornal, mais colunistas fixos do campo político da direita — algo que foi assumido, ao jeito
anglo-saxónico, desde o primeiro dia. Na Rádio Observador, é óbvio
que é mais fácil o Alberto Gonçalves ter um espaço fixo na grelha do que o
Francisco Louçã. Mas ninguém esperaria o contrário, precisamente, porque é
algo que está assumido desde o início (mesmo que Pacheco Pereira continue a
pedir um coming out direitista). Isto não significa,
porém, que a rádio não tenha vozes
como o Sérgio
Sousa Pinto ou a Susana Peralta que dificilmente se podem rotular de direita.
Além da opinião, que tem
naturalmente uma importância muito grande no Observador, há depois a parte
jornalística ou, se quisermos, noticiosa. A separação que existe entre opinião
e a redação faria parecer curta a
faixa seca de Moisés no Mar Vermelho. Seguimos o princípio de
Kapuściński de que “as opiniões são
livres e os factos são sagrados”. O estatuto editorial do Observador diz que é
um órgão de comunicação “independente e livre”. E
é isso mesmo que é. E é todas as áreas, incluindo naquela que até poderia ser
mais susceptível a pressões (a política). E sei do que falo. Sou editor de
Política do Observador há cinco anos, estou na secção de política há nove e
nunca houve qualquer pressão de cima para baixo para ir mais para a esquerda ou
para a direita. Ou para favorecer mais este ou aquele. Nunca me
foi pedido nada mais do que rigor, escrutínio e isenção.
Qualquer jornalista que esteja ou tenha passado pelo Observador pode comprová-lo.
Pacheco Pereira, talvez por ainda
ter na pele o modelo maoísta de organização (perdão, controlo) de uma redacção, acredita que os jornalistas do Observador,
os de política e os outros, no
mínimo fazem fretes ao accionistas, à direita populista e aos lobos neoliberais. Não
o digo apenas por estas declarações — que são mais direccionadas ao comentário
na rádio — mas pelas várias
declarações que fez nos últimos anos sobre o Observador. Lamento, mas está
enganado. Sugere, por exemplo, que houve
alguma benevolência no caso Spinumviva. Facilmente desmentível por
artigos dados em primeira mão pelo Observador como o que revelou que a Solverde era
cliente, que a colaboradora da empresa
tinha trabalhado para o secretário-geral do PSD ou que o principal cliente da
Spinumviva era uma gasolineira de Braga cujo proprietário era o
candidato do partido à câmara de Braga. Os comentários que se seguiram
na Rádio sobre estes temas, como se imagina, não foram agradáveis para o
primeiro-ministro.
Refere-se depois ao facto de, na
semana do anúncio da não-recondução Mário Centeno do
Banco de Portugal, terem saído artigos no Observador, como o da nova sede, pouco simpáticos para o governador
de saída. É óbvio que as fontes têm sempre interesses. Todas elas. Em
todas as áreas. Em todos os partidos. Que podem libertar a informação apenas em
determinada e conveniente altura, mas isso não
diminui o interesse jornalístico desses dados. Exemplo disso são os
anos de autárquicas, como é 2025, em
que os opositores colocam cá fora todos os podres dos municípios. Isso
diminui o interesse dessas notícias? Zero.
Desde que seja feito o contraditório, investigadas e confirmadas as denúncias,
o interesse da fonte (seja de que partido ou que com motivação for) não elimina
o interesse do jornalista — nem, mais importante, do leitor.
Sei que, desta vez, Pacheco
Pereira até está mais incomodado com o tom dos programas da Rádio, que têm
notas, outras avaliações e derivados. O
historiador sugere, de forma que é ofensiva para quem aqui trabalha, que há
figuras que são favorecidas em detrimento de outras dentro desse grande projecto
político colectivo. Ora, sugiro ao historiador que crie na Ephemera um
arquivo áudio dos podcasts da Rádio Observador (de programas como o Bom, Mau e o Vilão ou o E o Vencedor é…) e — depois de terminada a compilação —
constate como da esquerda à direita não
há líder partidário que, em determinado momento, não tenha sido piñata humana das intervenções assertivas dos participantes nesses programas.
José
Pacheco Pereira acerta quando diz que o Observador tem fontes privilegiadas no
Ministério Público, nos partidos do Governo e no Governo, bem como nas
confederações patronais. Tem razão. E também nos partidos da
oposição, sindicatos e por-aí fora. A isso chama-se jornalismo. A relação com essas fontes tem o humilde
propósito de conseguir notícias. Não compete ao jornalista sobreavaliar a
ambição de uma fonte. Se um vice-presidente de uma câmara quiser derrubar o
presidente e, por essa razão, denunciar um roubo do cofre do município ou o
assédio de um funcionário, o jornalista deve recuar porque está a ser
instrumentalizado? A resposta é: não. Até porque o jornalista até pode
desconfiar da intenção da fonte, mas não lhe compete fazer esse juízo. Compete
ser mais cuidadoso e escrupuloso por saber que existe um interesse deliberado
da fonte. Só isso. De resto, não é nada com ele.
Por detrás de um benigno artigo
carregado de engraçadismos e de um comedido fair play, Pacheco
Pereira foi ofensivo com os jornalistas do Observador. Mesmo que o
principal alvo fossem os comentadores, só chamar projeto político ao
Observador é diminuí-lo como projecto jornalístico.
Chegamos ao ponto: o problema do historiador é mesmo com jornalistas. E
não é de agora. Na célebre “crise dos corredores”, em 1993, Pacheco Pereira,
então líder parlamentar do PSD, defendeu com unhas e dentes a proposta da sua
bancada para limitar o acesso aos jornalistas nos corredores Parlamento. Durante quase um mês não houve cobertura
dos trabalhos parlamentares por protesto dos jornalistas e Pacheco e seus muchachos (na altura nem percebeu que Duarte Lima lhe estava a fazer a folha)
deram argumentos a Mário Soares — que chegou a chamar os jornalistas a Belém —
para atacar Cavaco Silva. Um
desastre completo.
Mais do que acrimónia, há uma
marca de água no percurso de José Pacheco Pereira de quase raiva contra os
jornalistas. O Ponto
Contraponto, programa que esteve durante oito anos no ar, foi em parte um
tiro-aos-jornalistas (fui visado algumas vezes), num programa de tanto sucesso
que, talvez por cortesia, se arrastou na grelha da SIC Notícias e chegou a ser
emitido às quatro da manhã.
José Pacheco Pereira acaba o artigo a pedir que o Observador se assuma
para ficar tudo bem. Do lado do Observador tudo é absolutamente cristalino: é
claro o que é opinião e o que é jornalismo. A crise
identitária é mesmo do próprio historiador. Continua a desacreditar os media e o espectáculo mediático, quando
tem a sua presença mais relevante no primeiro e a alimenta a comentar o segundo.
Na política, também parece preso
num tão problemático dilema. Em 2013, quando o seu partido enfrentava, no
poder, um momento difícil não teve
problemas em ir à Aula Magna atacar o Governo de Passos Coelho (o vídeo
pode ser visto aqui no Esquerda.net). Não vai a
um Congresso do PSD desde 2008 (quando participou no encerramento do Congresso
que entronizou Ferreira Leite em Guimarães), mas entretanto já participou num Congresso do PS (em 2016, com o
amigo António Costa). No PSD, quando se envolve ou toma partido, as coisas
também não correm pelo melhor: apoiou e aconselhou Rui Rio e Ferreira Leite,
mas nenhum deles “chegou lá”. Em 2009, como cabeça de lista em Santarém, não
conseguiu ganhar nem na Marmeleira, freguesia ligada às origens do arquivo
Ephemera, tendo o PSD conseguido apenas 23% dos votos nessa localidade, atrás
do PS.
Apesar do insucesso que tem na vida partidária e da não identificação
com a esmagadora maioria das direcções do partido (nem com as bases, já agora),
ainda há pouco tempo disse, em tom provocador: “Não lhes faço o gosto de sair
do partido”. O “lhes” era provavelmente dirigido a uma qualquer força superior
que, conspirativamente, toma conta do PSD.
A pulsão conspirativa e a aversão aos
jornalistas são assim dois traços característicos de Pacheco Pereira. Da
minha parte, continuarei lê-lo no Público e a ouvi-lo na CNN, local onde
provavelmente vê os tais falcões a voar. Também não deixarei, como é habitual,
de me lembrar, sempre que o oiço, da célebre frase de Sá de Miranda que servia
de mote para o blogue Abrupto: “M’espanto
às vezes, outras m’avergonho”. Ou, em português contemporâneo: “Às vezes me
espanto, outras envergonho-me”. A vergonha, diga-se, é alheia.
PACHECO
PEREIRA PAÍS SOCIEDADE JORNALISMO MEDIA
COMENTÁRIOS:
João Melo de Sampaio: O Pacheco não merece
tanta escrita... fede, não toma banho...
Ricardo Ribeiro: Dois esquerdoidos
travestidos de direita à traulitada. Ó Pacheco vem cá ver isto, e ver como nós,
assinantes do Observador, sofremos com a política editorial e noticiosa estar
demasiado encostada à esquerda! Imagino o badagaio e a solipampa que te dava ao
ler a maioria dos comentários e comentadores destas caixas, estas sim
verdadeiras almas de direita em que eu me incluo
Cadete Joao: Um tonto a escrever
para outro... simples...
Ana Lucas: Excelente artigo a pôr
os pontos nos is ao Pacheco Pereira, que é um homem arrogante e sem coerência,
basta constatar que passou do Maoismo à Social-Democracia (idênticos!...) Para além disso, acha-se o máximo (não sei bem
de quê, nem porquê).
José Paulo
Castro: Pacheco
Pereira tinha um blog a cujo título o acordo ortográfico não fez o favor de
retirar o 'p'. Ficaria mais condizente como referência à personagem alter-ego,
a dos idos de Março, de punhal escondido.
Liberales Semper Erexitque: Poderia até dar-se o caso de o referido Pereira
ter "dificuldades relacionais" com os media,
mas ser um grande colunista. Ora aqui este vosso esforçado compadre leitor foi
assinante e leitor regular do "Público" durante cerca de três anos, e
durante esse tempo um dos colunistas de pedra e cal por lá foi ... o Pereira! E
posso dizer baseado na experiência que é raríssimo que o Pereira "dê uma
para a caixa", em linguagem popular. De resto, só há um que eu gostaria de
ter aqui sempre no Observador, o João Miguel Tavares, e não me importaria de
poder ler o António Guerreiro, um esquerdoido sim, mas, ao contrário do Pavão
Pereira, muito interessante.
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