I TEXTO: MOÇÁRABES – FUNDAÇÃO DE PORTUGAL
Moçárabes: os cristãos que não
sobreviveram à (re)conquista
Os moçárabes não foram agraciados com
estatuto jurídico específico, ao contrário do que sucedeu com muçulmanos e
judeus.
PAULO ALMEIDA FERNANDES Historiador da Arte. Museu de Lisboa – EGEAC e
Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa
OBSERVADOR, 16 jan. 2025, 00:137
No dia 1 de julho de 1147, os
lisboetas assistiram ao início do cerco à cidade por um exército conjunto de
portugueses e de cruzados do Norte da Europa. Nos dias anteriores, do topo das muralhas, o alcaide muçulmano acompanhou
com o olhar a montagem dos arraiais inimigos e ter-se-á certamente lamentado
pelo destino que aguardaria a sua cidade. A seu lado, estavam as
principais autoridades de al-Ushbuna, incluindo o bispo. O cronista inglês que narrou os acontecimentos caracterizou
esta personagem como um ancião, dando a entender que estaria investido nas
funções episcopais há várias décadas e que, por isso, a comunidade cristã era
uma realidade social e religiosa estável sob domínio muçulmano.
O facto de os cristãos lisboetas estarem ao lado dos muçulmanos no
cerco à cidade não deve ser motivo de surpresa. Desde
pelo menos o final do século XI que muitos moçárabes preferiam manter-se na
metade islâmica da Península Ibérica, em vez de contribuir para a expansão
territorial empreendida pelos seus supostos “irmãos” (porque também cristãos)
portugueses, leoneses, castelhanos, navarros ou aragoneses.
(IMAGEM: Conquista de Lisboa, Alfredo
Roque Gameiro (1917)).
Existiram várias razões para esta
opção. Em
1080, no Concílio de Burgos, o rei de Leão Afonso VI aboliu a liturgia hispânica, em benefício
de uma reforma religiosa alinhada com o Papa e com a Ordem de Cluny, que mais
facilmente atrairia à Península Ibérica nobres e religiosos da Europa de
além-Pirenéus. Esta
reforma mudava a liturgia, mas implicava também alterações substanciais na
hierarquia e na regulação do clero, bem como a parcial substituição do
calendário religioso, abandonando-se antigas devoções em favor de santos
cultuados pelos novos habitantes. Na prática, pretendia-se substituir uma
organização religiosa por outra, sem necessidade de destruir monumentos,
extinguir comunidades monásticas ou promover a criação de novos grupos
maioritários de fiéis.
A
dimensão religiosa era apenas uma parte do problema. Por outro lado, e apesar
de o emirato almorávida ter representado uma maior intolerância em relação às
minorias cristã e judaica do centro e sul da Península Ibérica, era longa a
tradição de permanência das comunidades cristãs no al-Andalus.
Quer isto dizer que, sob domínio islâmico, ao longo dos séculos VIII a XI, os
cristãos não só haviam prosperado, como lhes tinha sido permitido manter o seu
protagonismo de grupo social específico e a sua identidade religiosa.
A partir de 1080, caso os
moçárabes fossem absorvidos pelos reinos cristãos do norte peninsular, havia
ainda questões sociais, culturais e fiscais que determinavam a perda de
identidade comunitária para engrossar as fileiras inferiores da sociedade
senhorial e concelhia.
O bispo moçárabe de Lisboa morreu às
mãos dos invasores no dia 24 de outubro de 1147. Estava acompanhado por um número considerável de homens e mulheres
que, prostrados aos pés dos cruzados, invocavam o nome da Virgem Maria,
querendo com isso afirmar a sua condição de cristãos. Apesar da
rendição incondicional dos lisboetas, uma parte da população que resistiu
dentro das muralhas foi morta – os
cristãos mus-arab, palavra surgida no século XI, no reino de Aragão, para
designar aqueles que queriam ser árabes, ou permanecer entre os árabes.
Voluntária ou casual, a morte do
bispo de Lisboa evitou problemas semelhantes aos ocorridos em Coimbra décadas
antes. Nesta
cidade, onde a presença moçárabe era uma marca identitária desde os tempos do
alvazil Sesnando (governador da cidade entre 1064 e 1092), a reforma
romano-cluniacense demorou a consolidar-se. Em 1115, no fim de uma
extensa revolta ocorrida quatro anos antes (o mesmo ano em que os almorávidas conquistaram Santarém), o Papa
Pascoal II emitiu uma bula exortando os habitantes da cidade a obedecer ao seu
bispo legítimo e a «corrigir os seus costumes», expressão que denuncia a
renúncia deliberada dos fiéis em abandonar o velho calendário litúrgico e o
rito hispânico.
Duas
décadas e meia depois, há notícia de mais moçárabes em Coimbra. No verão
de 1139, D. Afonso Henriques entrou triunfante na sua “capital”, vitorioso
sobre uma força conjunta de cinco líderes muçulmanos e investido do estatuto de
rei de Portugal. Desfilou à
frente de um exército que exibia pelas ruas da cidade um grupo de escravizados composto por mil
homens moçárabes, sem contar mulheres e crianças. No
rescaldo da expedição genericamente conhecida por Batalha
de Ourique (em torno da qual se haveria de gerar um mito
fundador do reino de Portugal), só aparentemente uma pessoa ousou
questionar a justeza dos actos de Afonso Henriques: o prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, D.
Teotónio, que terá mesmo admoestado o monarca por reduzir à escravidão tão
numeroso número de cristãos.
(IMAGEM Azulejo moçárabe – colecção
Viúva Lamego.)
Os moçárabes aprisionados em
Ourique por Afonso Henriques foram libertados e colocados na dependência do
mosteiro de Santa Cruz. Alguns terão permanecido em Coimbra, mas
outros regressaram a solo controlado por muçulmanos. O biógrafo de São Teotónio que narrou
estes acontecimentos esclareceu que o acolhimento proporcionado pelo mosteiro
era essencial, pois estas pessoas estavam desprotegidas, não sendo abrangidas
pelos costumes da terra portuguesa. Ou seja, constituíam um grupo social
distinto, mas não havia diploma legal que reconhecesse essa diferenciação.
No caminho para a afirmação de
Portugal como reino independente, os moçárabes não foram agraciados com
estatuto jurídico específico. Ao
contrário do que sucedeu com muçulmanos e judeus, a minoria cristã que
escolhera viver no al-Andalus e que, por vicissitudes da (re)conquista, acabou
por ser integrada no reino português, não dispôs de foral, ou outro instrumento
que a protegesse e estabelecesse as normas de relacionamento com a Coroa e com
os poderes maioritários.
Uma tal ausência contrasta com o que
sucedeu em outros reinos peninsulares. Em Leão, a comunidade autóctone
cristã de Toledo recebeu foral em 1101,
diploma que pretendia colocar fim a década e meia de marginalidade promovida
pelo bispo francês Bernardo e pela rainha D. Constança. Em Aragão, o rei Afonso I concedeu em 1126 um foral a todos os
muçulmanos e moçárabes do sul do reino,
pretendendo assim proteger as importantes comunidades cristã e islâmica da
região de Saragoça.
A falta de enquadramento jurídico no
reino de Portugal permanece por explicar. Apesar
de constituírem uma realidade social distinta e por vezes individualizada, à
medida que os moçárabes foram sendo integrados, só lhes foram proporcionadas
duas opções: integrar-se, diluindo-se na sociedade, ou emigrar.
Os
últimos moçárabes desaparecem da documentação portuguesa nos séculos XII e
XIII. Apesar de sua arreigada identidade religiosa hispânica, tão resiliente ao
longo de séculos, não conseguiram resistir à força da reforma
romano-cluniacense. Foram os cristãos que a (re)conquista aniquilou.
[Os artigos da série Portugal 900
Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de
Portugal.]
PORTUGAL 900
ANOS HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 7)
José Martins de Carvalho, 16/01/2025: Parece que o autor vê os moçárabes como uma
comunidade de cristãos que preferiam viver no meio dos muçulmanos, onde eram
felizes e prósperos. Chega mesmo a dizer que "muitos preferiam manter-se
na metade islâmica da Península Ibérica" à medida em que decorria a
Reconquista, como se tal opção fosse fácil e lógica. Outros estudiosos do
tema referem que a tolerância do Islão após 711 foi diminuindo
progressivamente, não sendo permitido aos moçárabes nem sequer tocar os sinos
das igrejas, muito menos construir novos templos, havendo conversões forçadas
(por exemplo os Mártires de Córdoba), impostos punitivos e, finalmente,
deportação para o Norte de África, em 1126. Independentemente da
polémica há um facto: os
moçárabes, que ao princípio eram obviamente a maioria, foram ao logo das
gerações desaparecendo por conversão ao islamismo, basicamente para fugir aos
impostos. Duvido que fossem assim felizes com as mesquitas, a sharia, e sem
poder comer presunto!
José Tomás 16/01/2025: Os moçárabes, foram os cristãos que a reconquista (o
"re" estar entre parêntesis no texto diz tudo acerca do viés do
autor) "aniquilou", e felizmente. Como os nossos antigos sabiam (e
alguns, "modernos", querem que esqueçamos), a miscigenação entre
os vários povos que formaram Portugal (cristãos do norte e do sul, árabes e
berberes, judeus, negros e indianos, cujos traços se fundem nas nossas caras e
na nossa cultura) é, e sempre foi, a sua maior força.
hugo Carreira, 16/01/2025: A origem de Portugal é de 868 quando foi estabelecido
o Condado de Portugal, dado ao Vimara Peres (o primeiro Conde), fundador de
Guimarães (dai os seus naturais serem chamados de "Vimaranenses") e
que durou até 1072, quando o Conde de então (Nuno Mendo) foi derrotado por Garcia II,
que após a batalha se proclamou Rei da Galiza e de Portugal (no seu
túmulo estava escrito H[ic] R[equiescit] DOMINUS GARCIA REX PORTUGALLIAE ET
GALLECIAE. FILIUS
REGIS MAGNI FERDINANDI.) O condado
foi restabelecido em 1090 para o famoso
conde D.Henrique, e o seu filho
Afonso Henriques materializou uma vontade e um sentimento que já
existia
Ricardo M, 16/01/2025: Muitíssimo interessante. A conjuntura que levou à
criação de Portugal é pouco conhecida mesmo pela população mais educada, para
além de umas generalidades que se aprendem na infância.
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