sábado, 5 de julho de 2025

As parcialidades

 

Das sensibilidades seguidoras das modas da afectividade, instiladas sobretudo de recalcamentos feitos de ódios e invejas, o altruísmo - de espectáculo - sendo falso e capcioso, de puro alarde exibicionista, ignaro e atrevido.

O ódio que não ousa dizer o seu nome

O sr. Mamdani, Bárbara Reis e restantes “anti-sionistas” não têm nada, nada, nada contra os judeus, excepto a possibilidade de que estes se sintam seguros.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 05 jul. 2025, 00:207

Na semana passada, escrevi aqui sobre Zohran Mamdani, o candidato dos democratas à câmara de Nova Iorque. Esta semana, Bárbara Reis escreveu no Público sobre a minha crónica. Quer dizer, sei que se trata da minha crónica porque Bárbara Reis a cita de alto a baixo, não porque me identifique enquanto o respectivo autor. Numa interpretação livre das normas básicas do jornalismo, Bárbara Reis apenas se refere, repetidamente e com ligeiras variações, a “um texto de opinião que li no Observador”. Embora desconfie, não consigo garantir os motivos da recusa de Bárbara Reis em nomear-me. Por mim, nomeio-a sem qualquer problema: Bárbara Reis, Bárbara Reis, Bárbara Reis. Quem é Bárbara Reis? Não faço ideia.

Dado que o meu conhecimento da senhora se limita ao artigo em questão, consigo discernir que Bárbara Reis aprecia o sr. Mamdani, muçulmano, filho de pais abonados e, suponho que à semelhança de Bárbara Reis, preponente da tese de que Israel está a cometer “genocídio” em Gaza. Para despachar o assunto, obviamente Israel não está a cometer genocídio nenhum, já que o termo, por muito que o estiquem, não se aplica a uma população que, nos últimos 25 anos, aumentou 118%. O resto do artigo de Bárbara Reis é uma divertida e confusa tentativa de contrariar o meu e demonstrar que, afinal, o sr. Mamdani é uma jóia de moço.

Não tenciono sujeitar os leitores a um suplício, pelo que serei breve na apreciação dos, digamos, argumentos de Bárbara Reis. Bárbara Reis declara que “a opinião precisa de factos”, que “deturpar ou inventar factos não vale”, e que “interpretar os factos é um dos papéis dos jornalistas e dos colunistas”. Vamos então aos factos, os que constam da realidade e os que habitam a cabecinha de Bárbara Reis.

Primeiro facto. Apesar de inúmeras oportunidades, o sr. Mamdani nunca foi capaz de condenar a “intifada” e a famosa “globalização da intifada”, pelo que não será abusivo pressupor ou que a apoia ou que sofre de deficiências cognitivas. A intifada é a “resistência” dos palestinianos a Israel, seja por que meios for. A globalização da intifada é a expansão da “resistência” a toda a parte onde haja “israelitas”, leia-se judeus. Às vezes a “resistência” manifesta-se através de meiguices, às vezes através de insultos, agressões físicas, homicídios. Evocar, a título de legitimação, o gueto de Varsóvia, como o sr. Mamdani evoca, é uma comparação grotesca e uma brutal inversão dos factos que tanto importam a Bárbara Reis.

Segundo facto. Já este ano, o sr. Mamdani rejeitou assinar duas resoluções da Assembleia do Estado de Nova York, uma a congratular Israel pelo 77.º aniversário, outra a condenar o Holocausto. Bárbara Reis jura que o sr. Mamdani aprovou ambas “oralmente”. O próprio sr. Mamdani informa que só aprovou uma, a do Holocausto, sem assinatura para não se conspurcar. Não encontrei registos de qualquer aprovação “oral”. Encontrei a informação de que as resoluções foram aprovadas por 145 dos 150 membros da Assembleia. O sr. Mamdani não esteve entre eles.

Terceiro facto. Bárbara Reis diz que o sr. Mamdani é anti-sionista e diz ser falso que o sr. Mamdani “não reconhece o direito de Israel a existir”. E prossegue Bárbara Reis: “O que ele diz é diferente: diz que Israel tem o direito a existir como Estado, mas é contra que seja um “Estado judaico”. A nuance é de uma ternura imensa, e igual a um autoproclamado feminista combater o direito de voto das mulheres. Ainda que me custe ensinar o que devia ser evidente, o sionismo é, na versão moderna e resumindo bastante, a defesa da existência de Israel. Logo, por mais cambalhotas e nós cegos que se dêem, ser anti-sionista não é criticar o governo de Netanyahu: é ser contra a existência de Israel. Quanto ao problema do “Estado judaico”, é no mínimo curioso que, com tantas ditaduras disponíveis em que o islamismo é a religião de Estado e que na maioria discriminam e perseguem e ocasionalmente enforcam hereges, o sr. Mamdani e Bárbara Reis deram em indignar-se com Israel, um território ínfimo e, com os defeitos das democracias, uma democracia.

Principalmente, o que parece ter afectado Bárbara Reis é o pormenor de eu ter classificado o sr. Mamdani de “anti-semita”. Por acaso não o fiz explicitamente, mas para simplificação de processos vou concordar. Bárbara Reis entende que “há uma diferença abismal entre ser-se ‘anti-sionista’ e ‘anti-semita’”, a ponto de o repetir no final do artigo: “Mamdani não é anti-semita, é anti-sionista, coisas muito diferentes.” O esforço de Bárbara Reis para isentar o sr. Mamdani de um epíteto que, na época adequada, o habilitaria a militar nas SS é, em simultâneo, um esforço para se ilibar a ela mesmo e à trupe dos “activistas” pela “Palestina”. Por azar, o esforço é, além de patético, incompatível com os – vejam lá a coincidência – factos.

O “anti-sionismo” é a versão polida do anti-semitismo tradicional. Odiar os “sionistas” é a forma cifrada de odiar os judeus, um eufemismo socialmente aceitável e de bom-tom em determinados convívios. Se, conforme berram os “anti-sionistas”, Israel não deve existir nas condições que o seu povo deseja, a ilação a tirar é que – desculpem a repetição – Israel não deve existir. Os “anti-sionistas” não querem exterminar judeus: querem somente retirar-lhes o único lugar desde a antiguidade em que estes beneficiam de um desígnio de permanência e, reza o hino, de esperança. Se a criação de Israel, ou a consagração do sionismo de Herzl, é uma consequência do Holocausto, é também uma consequência das expiações, das difamações, das conspirações, dos massacres, dos pogroms e dos autos-de-fé nos séculos que precederam a Shoah. Sem Israel, os judeus seriam devolvidos sazonalmente às sombras e às chamas da História.

O sr. Mamdani, Bárbara Reis e restantes “anti-sionistas” não têm nada, nada, nada contra os judeus, excepto a possibilidade de que estes se sintam segurosa segurança que, dentro do que é viável numa geografia hostil, Israel lhes confere. Os judeus vulneráveis aos humores e fúrias alheios eles toleram. Dito de maneira distinta: judeu bom é judeu morto, ou pelo menos resignado a essa forte hipótese. E isto é a definição quase exacta de anti-semitismo. O facto (olha mais um) de Bárbara Reis não chamar as coisas pelo nome não surpreende: ela nem chama as pessoas pelo nome.

ISRAEL      MÉDIO ORIENTE      MUNDO

COMENTÁRIOS (de 7)

António Godinho Gil: Muito bom. AG meteu a criatura no saco.                 Liberales Semper Erexitque: A "Babá" era uma estrelinha no tal de "Público", foi directora "daquilo" durante uma parte dos dois anos em que frequentei o pasquim do Belmiro (o Belmiro era vivo então). É mais um hectoplasma do politicamente correcto. No entanto, não foi ela que enterrou o jornal, isso ficou a cargo de um tal de David Dinis. Como explicação só me ocorre que lhe tenham pago para dar cabo dele. Fez um soberbo trabalho!                  Maria Paula Silva: Não há saco! ao ler o artigo pensei tratar-se de uma miúda inexperiente e fui pesquisar e afinal não, a sra. BR já tem idade e percurso "jornalístico" suficientes para, ética e deontologicamente, saber escrever. Nos anos 70 ser de esquerda era sinónimo de ser-se possuidor de alguma inteligência e cultura geral ( lol ), mas hoje em dia ser de esquerda tem um significado muito diferente do dos anos 70. Esta gente, que nem sei se serão verdadeiramente de esquerda, mantém esta atitude "politicamente correcta" para ficarem sempre bem vistos na fotografia. Têm pouca coragem de aderir à verdade factual, e deturpam-na ligeiramente para que ela (a Verdade) se insira nos jargões "socialmente aceites". Não há saco. À sra. BReis, um recado: essa atitude já há muito tempo que está démodée... actualize-se, por favor. E aquilo que pratica não é Jornalismo.                  Rui Albuquerque: É o «nojo aristocrático» de certa esquerda, Alberto. São pessoas muito inteligentes, mesmo geniais, como esta Bárbara Guimarães, que não se misturam com sujeitos menores. O Carrilho é que lida bem com elas.                   José Paulo Castro > Rui Albuquerque: Reis. Bárbara Reis.               José Cortes: Mais nada! Idiotas. Comprimidos, recomendam-se: chamam-se Milei drageias Tomar uma, 2X ao dia Em caso de persistência de sintomas consultar a bula do FMI, da OMC e do próprio Governo da Argentina sobre os efeitos benéficos da economia de mercado e do fim do Socialismo sobre os povos. Como o Socialismo já não vende, temos cartazes do BE a defender a Palestina em zonas perigosamente infiltradas de sionistas como as freguesias de S. Domingos, S. Bento de Ana Loura ou mesmo S. Bento do Ameixial, no Alentejo recôndito. Memórias de um passado futuro. Enfim.                MANUEL LOURINHO: Muito mau !

 

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