quinta-feira, 24 de julho de 2025

Um texto encantador

 

Com amor e sentido de humor, alegre e sem pedantismos críticos, na simplicidade da aceitação de um jogo – e de um clube -que fazem o prazer de um povo, e da própria escritora.

CRÓNICA DE VERÃO (E ALGUMAS MEMÓRIAS)

O futebol deu-me forte e cedo e o Benfica também. ignoro de onde me veio a inclinação e depois esta inteira e intacta fidelidade, até perceber que quando gostava do Benfica estava a gostar de portugal

MARIA JOÃO AVILLEZ JORNALISTA, COLUNISTA DO OBSERVADOR

OBSERVADOR, 23 JUL. 2025, 00:2210

1O Benfica é um tema forte nesta casa e agora em pré-eleições, ainda mais. este abrasivo julho vive-se até como uma saison estival/eleitoral. estamos de resto habituados, vivemos num carrossel eleitoral há um bom par de anos e ainda faltam duas chamadas políticas, mas o que me interessa aqui é o benfica. não para discorrer sobre candidatos a uma liderança urgente e urgentemente outra, ou a candidaturas que elevem mais alto o voo das águias mas para me rejubilar.

2O caso é que com o correr das conversas caseiras aqui no oeste, veio naturalmente à tona do tema, a candidatura de martim borges coutinho. não por acaso. martim é neto do melhor presidente que o benfica conheceu até hoje, ama o benfica, tem-no na pele e na alma, revê-se no avô, quer seguir-lhe a pisada e a obra. e a inspiração, a devoção, a dignidade.

Quando lhe chamaram “corajoso” num debate televisivo aqui há dias, substituiu o adjectivo por “convicto”. deve ser verdade: conforme também contou, está “há treze anos a preparar a sua candidatura” cheio de “convicção”.

Mas – e isto agora já sou eu – também corajoso, sim, ao afirmar que “Luís Filipe Vieira não tinha condições para se candidatar”. ética, pelo menos, pode ser duvidoso que tenha.

Se porém ainda não conheço inteiramente bem o neto, nunca mais esqueci o avô, Borges Coutinho. Mas imaginar que esse grande cidadão e presidente maior poderia agora ou outro dia, quem sabe?, Vir a ter um sucessor directo na presidência do “glorioso”, muito me alegraria. São as boas voltas da vida. Venha ou não Martim Borges Coutinho a ganhar esta quase dramática eleição do Benfica em outubro, começa a dar-se por ele: já impôs uma postura e uma compostura; introduziu qualidade numa eleição complexa, sinalizou um entendimento estruturado sobre o maior clube de futebol português.

3O futebol deu-me forte e cedo e o Benfica também. O meu pai, como tantos da sua colheita, era do Belenenses. Muitos dos amigos da casa, do Sporting. Do Benfica falava-se pouco. Ignoro de onde me veio a inclinação e depois a inteira – intacta até hoje – fidelidade ao Benfica, até perceber que quando gostava do Benfica estava a gostar de Portugal.

Ah o Benfica é como um porto, uma pertença, uma família, o sítio de onde se é” escrevi eu um dia em “A Bola”, em fevereiro de 2004, comemorava-se então o primeiro centenário da fundação do clube. E foi uma honra, claro, o convite da “Bola” e o ter-me “paginado” na companhia de Manuel Alegre e Bagão Felix, dois benfiquistas “extras”.

No Benfica palpita Portugal inteiro, porque de algum modo o Benfica é Portugal: estão ambos reflectidos no espelho um do outro e basta estar num estádio quando jogam os encarnados, para perceber o que quero dizer.

Foi sempre, sempre o Benfica que encontrei nas minhas múltiplas idas às Áfricas, onde se fala português, quer antes, quer depois das independências. Benfica, segunda pátria.

A dada altura fiz-me sócia. Lembro-me das vezes em que ia da nossa antiga casa do campo grande — umas vezes a pé –, o coração em festa e os sentidos alerta, asfalto fora, até ao estádio. A quantos desafios não assisti “in loco”, boina encarnada e cachecol às riscas, numa militância veemente que me punha rouca? E depois veio a grande catedral, a cuja inauguração naturalmente fui no dia 25 de outubro de 2003. A verdade é que me irmanava com os encarnados naquela espécie de energia privada de que o Benfica tinha o segredo e (quase…) sempre o exclusivo nos relvados.

Guardo religiosamente fotos, cartas, lembranças, cartões, bilhetes. e jornais desbotados onde escrevi ou entrevistei treinadores (Artur Jorge, Eriksson, Fernando Santos, Scolari e Frederico Varandas mais recentemente) e jogadores de excelência.

4O futebol mantém-se o maior espectáculo do mundo, o maior fenómeno do mundo, o maior produtor, agregador e distribuidor de emoções; o maior motor de instantânea, automática, permanente, convocatória. o maior traço de união entre os humanos, sejam eles quem forem, de onde forem, de que cor e credo, idade ou sexo.

Há quem odeie tudo isto? Há claro. são uns infelizes. Nunca conheceram o grau de júbilo ou a temperatura a que pode chegar uma colectiva emoção ao ver a bola a entrar nas redes adversárias e com isso garantir um jogo, um título, uma taça. Ou que não garanta: há golos e lances e passes e “cantos”tão fenomenais que por si só iludem derrotas, redimem fracassos e ficam na história do futebol.

A morte planetária de Diogo Jota — admirável Diogo Jota e não apenas pelo dom com que jogava – nunca teria sido planetária fosse Diogo um genial pintor, um escritor prémio Nobel, um maravilhoso bailarino, o mais inspirado músico. Revejo o choque do país e a emoção digna da equipa do liverpool, a vinda a Portugal do clube britânico em peso — dirigentes, jogadores, técnicos; o luto e a mobilização de milhares e milhares de ingleses, a surpreendente intervenção do primeiro-ministro stamer; a cobertura da imprensa europeia e mundial, num nunca mais acabar de sentidas homenagens.

Excessivo? Posso admitir a pergunta com uma breve resposta: é o futebol. e não há nada no mundo que despolete, ao mesmo tempo e em todo o lado, esta mesmíssima “disponibilidade “ para responder e corresponder ao futebol.

Sim, repito: há quem despreze, censure esta “irracionalidade?” há: são os tais infelizes. ficam de fora, sem nunca conseguir saltar o muro e perceber a inconfundível ansiedade provocada por uma bola a correr dentro das quatro linhas.

5Comecei por conhecer Eusébio, ir vê-lo jogar, conversar com ele, viajar no mesmo avião onde acompanhando profissionalmente o Benfica, fui um dia assistir a um jogo fora de portas. Um génio ali ao pé da mão. E uma humildade que durou uma vida.

Em junho/julho de 1966 ia morrendo de emoção, com a “pantera negra” a fazer o que queria — dele próprio, dos colegas, dos adversários, dos resultados. Até chegar ao mágico score de um 3º lugar no campeonato do mundo desse ano. Que verão, santo deus!

E quando Figo – outro génio, estão bem lembrados? – estava no Barça convenci o Expresso a mandar-me a Barcelona. Parti num outubro de 1997, fiquei impressionadíssima. Ia à espera de encontrar um ídolo, um herói, um jogador cheio de si e afinal ali estava Luís Figo, bem educado, discreto, afável, despretensioso. Nada absolutamente lhe subira a cabeça: tinha 24 anos e percebi que pisava já tão bem a vida quanto os estádios.

Dele ouvi apenas coisas muito avisadas sobrea disciplina, o método, o esforço” do clube catalão onde estava há três anos; sobre o sucesso, a carreira, o dinheiro (“ não, não lhe digo quanto ganho porque não é importante: com pouco ou muito, a minha atitude seria a mesma”).

Um então muito jovem Miguel Guedes de Sousa – hoje casado com Paula Amorim e maestro dos Jncquoi – dirigia na altura um grande hotel em Barcelona. Foi com uma expectativa entusiasmada também ele que proporcionou uma suite do hotel e ali ocorreu a conversa inesquecível: Figo era uma estrela conduzida pelo sorriso dos deuses.

Um outro dia – março de 1981 – entrei pela “porta dos artistas” no Estádio da Luz, uma “experiência” e uma novidade logo traduzidas na exuberância (demasiado) aparatosa com que manifestei o meu benfiquismo aos jogadores com quem me cruzava, quando procurava o guarda redes Bento. Um futebolista para quem “o Benfica fora a rampa de lançamento, o passaporte, fora tudo…”.

Ia entrevistar o mítico keeper da equipa – na altura treinada por Baroti –, conhecer ao vivo esse jogador que “gritava demais com os defesas”, acusação que sempre o irritava: “e quem é que via sempre o campo todo, senão ele e só ele?”

“sou o único que vê quem está por detrás dos defesas…se há uma falha, uma distracção, aí está a bola nas redes. É o local mais ingrato porque não se pode falhar. O guarda-redes está parado mas os seus reflexos não, todo o cuidado é pouco!”

E insistia: “um jogador pode hesitar, um keeper, não. Já viu que hoje qualquer golo que a gente deixe entrar é logo um frango? Em resumo, tem de ser-se infalível.”

Ia a nossa conversa nisto — e noutras — quando de repente, a porta se abre de rompante e o “mister” Baroti, velho leão de cabelo branco, entrou a rugir: “Ó Bento, você acha pouco haver vinte e cinco homens à sua espera há vinte e cinco minutos?”

6ah artur jorge, e o seu “bigode-ex-libris”, e o mesmo ar terno, e a mesma timidez. De um lado o chamamento do desporto, do outro, uma real apetência intelectual. Encontrei-o após o futebol clube do porto, treinado por si, ter vencido o campeonato europeu. Estávamos em 1987 e ele tinha 43 anos. (voltaria mais tarde a entrevistá-lo para uma revista).

 “Sou uma pessoa que tenta ser simples, gostaria de ser mais leve, às vezes sou pesado. Mas é essa capacidade de passar pelas coisas boas e más que nos dá alguma força mas também o lado efémero de tudo. As coisas nem sempre são racionais… “depois, como por vezes sucedia com ele, o diálogo tornava-se naturalmente mais intelectual que meramente desportivo – mas Artur Jorge era justamente o fruto dessa “mistura” – divagou pela nossa história de que “se orgulhava”, a identidade portuguesa, a saudade, o ter voltado de Paris onde treinara o matra: “um poeta de alexandria dizia que não adianta fugir da cidade, ela persegue-nos implacavelmente, o meu destino era voltar. Não especificamente só para o Futebol Clube do Porto mas para a minha terra, a minha casa, os meus…” voltou, ganhou, foi vitoriado, mas com a sua maior preocupação-desafio, ancorada no espírito: conseguir dar resposta às perguntas que o futebol incessantemente lhe colocava”.

Era verdade: Artur Jorge sempre recusou não se “esgotar” no futebol e que o “futebol não o esgotasse”:trabalho evidentemente o melhor e o mais possível mas a verdade é que houve sempre gente disposta a discutir outras coisas comigo, para as quais tento, e desesperadamente, ter tempo.”

Sabia-se: eram os muitos livros que lia, a boa pintura que coleccionava, a política que o interessava, as tertúlias com amigos fora do universo futebolístico. Um caso? Sim. E talvez mesmo um personagem.

Ah mas sobre ele falta-me ainda contar talvez o melhor, senão mesmo o melhor: foi quando se me meteu na cabeça juntar Artur Jorge (Futebol Clube do Porto) a Eriksson (Benfica) no Público onde eu então estava – e ouvi-los. Sobretudo num momento em que ambos os clubes andavam taco a taco no campeonato nacional.

Foram trabalhos de Hércules. Falei primeiro com Eriksson: que “sim”. Percebi que acharia graça, e mais: queria encontrar se com o rival diante de um gravador. Dias mais tarde fui às Antas, “quero!”, respondeu-me 15 segundos depois Artur Jorge. É certo que ambos – em entrevistas individuais – me tinham confessado “uma admiração recíproca”. Seguiram-se autênticos calvários telefónicos entre Lisboa e Porto num carrossel de datas que rodavam, tropeçavam, falhavam. Até que um belo dia – a sorte protege os audazes – surgem diante de mim dois cavalheiros bem vestidos e bem dispostos: Sven-Göran Eriksson chegou primeiro, casaco de tweed, camisa clara, pediu um chá, sentou-se silenciosamente a ler um jornal. Artur Jorge apareceu pouco depois, mais comunicativo, gravata de seda com cornucópias, camisa azul, colarinho branco. Falou, bebeu água, sorriu. Dois sedutores. Retive porém que entre a discrição de um e a a maior loquacidade do outro, escorria uma expectativa parecida com a dúvida (“que sairia dali”?). Minutos depois, no silêncio sepulcral de um gabinete com um gravador ligado, os sedutores elegantes transformaram-se em dois adversários frios e racionais – o título só iria para um eles – sentados frente a frente: dois homens muito inteligentes. Dois habilidosíssimos jogadores de xadrez.Dois chefes que podiam ser implacáveis mas que ali se mediram e ouviram durante duas horas e por vezes capazes do elogio mútuo  — tomei boa nota — da forma muita atenta como entretanto se vinham olhando e “vigiando” um ao outro nos relvados. Nunca iludindo os “problemas e as más relações” Entre ambos os clubes, recusaram a polémica e foram cavalheirescos antes do mais: “os grandes clubes sempre tiveram rivalidades, o futebol precisa delas” dizia Artur Jorge ao que Eriksson respondia que “fazia parte do espectáculo do futebol”). Sem desertar nem iludir ali desavenças, preferiram discorrer na pele de treinadores focados nas quatro linhas muito mais do que nas ferventes rivalidades do Porto e do Benfica, mesmo sabendo um e outro, que nunca as poderiam ignorar.

Dois grandes senhores.

7Luís Felipe Scolari talvez não fosse um personagem. Mas tomei boa nota do seu modo de ser, diante de três câmaras de televisão da sic, ainda em Carnaxide.

Scolari — sério, sóbrio, sólido, segurochegou com um presente: duas camisolas da selecção, uma de Figo, outra de Ronaldo. era simultaneamente capaz de uma grande afectividade e de uma extrema secura: só dizia o que queria. E neste dia de maio de 2005, mais do que tácticas e técnicas ou do então “caso Vítor Baía, (“quem escolhe os convocados sou eu”), Scolari queria sobretudo tonificar a plateia nacional, “os jogos difíceis jogam-se melhor com o país mobilizado atrás do onze nacional”: “eu acho que vai ser preciso falar aí para o pessoal… temos de recuperar o clima fantástico do euro…”

Em 2002 fora eleito o melhor seleccionador do mundo, ganhara o penta no Brasil mas a cabeça fria, a mente disciplinada e o espírito metódico não lhe consentiam vaidades ou pretensões. Na vida ou no futebol, agia do mesmo modo: “cortava a direito, sem olhar para os lados”. Num país com poucos hábitos de trabalho como o nosso, achavam-no “intransigente “ ou “teimoso”, as opiniões dividiam-se, ele não se importava. não fora impunemente que em 20 anos de “relvados” Luís Felipe Scolari ganhara 16 títulos.

portugal deve-lhe alguma coisa.

8E porque os últimos serão os primeiros – neste caso, “o” primeiríssimo – Sven Goran Eriksson, o anjo sueco que deixou marca, exemplo e memória no Benfica. louro, esguio, reservado, silencioso. sorriso doce, apesar das muitas horas em que falamos numa longa entrevista dividida em dois dias, disse apenas o estritamente necessário: nunca lhe ocorreria – percebi-o logo – a sombra de um desabafo, a exibição de estados de alma, alguma “personal remarke”. Cumpria a sua parte do contrato: “o futebol necessita de jornais e jornalistas, estes alimentam-se do espectáculo e das suas estrelas”, e – subentendido – ele, Eriksson, limitava-se aos serviços mínimos, fora do quadro de trabalho no clube: fora do banco, do treino, do balneário, dos jogadores ou responsáveis pelo clube, as palavras eram parcas. A media e os holofotes eram a conta gotas, só um palco contava: o relvado.

O relvado e o resto que não se vê: a pesada agenda de um treinador conforme testemunhei uma manhã inteira num gabinete no Estádio da Luz, onde o vi atender tudo e todos – Jorge de Brito, depois Shéu, depois um grupo de dirigentes vindos de Viena onde o Benfica jogaria dentro de dias, etc. trabalhava.

O segundo acto ocorreu na sua casa da Malveira – morada magnífica debruçada sobre Atlântico. Ambiente familiar irresistivelmente simpático: dois filhos louros; a mulher (olhar azul intenso) que “ia aos desafios e sabia discuti-los depois”; um jardineiro que além de aplicado era “do Benfica”; um carpinteiro preguiçoso a quem o treinador com uma ironia levemente irritada inquiria se “apenas trabalhava uma hora por dia”; a piscina aberta sobre o corte de ténis. Pequeno paraíso privadíssimo: “durante todos estes anos de futebol nunca consenti ter jornalistas ou público em casa ou na minha família. Não é preciso: estou todos os dias à disposição, ou quase todos…”

Eram os severos limites que se impusera: a sua lucidez inteligente já lhe tinha sussurrado ser aquela a única forma de sobreviver na selva do futebol.

Mas, naquele dia de maio de 1990, estava a ser armabilíssimo comigo e com o fotógrafo Rui Gageiro, do Público: abriu-nos a sua casa, foi pontual, equipou-se a rigor de tenista para as fotos, jogou (!), pousou, sorriu. e falou: não estava contente com a “época”:

“Uma equipa só é boa quando joga a 100%! Eu já sabia que esta época havia alguns jogadores muito importantes que não tinham tido férias – o Aldair, o Valdo , o Paneira – e que iria haver problemas. Para o ano será melhor, (…) mas também não há nenhuma equipa que consiga ganhar se isso não for o resultado de uma grande preparação física, técnica, de uma preparação enfim que vá da compra dos jogadores certos até ao constituir da equipa. Depois claro que nem sempre é a melhor equipa que ganha mas é assim o futebol e é esse ‘nunca saber o que pode acontecer’ que é bom… no teatro você sabe muitas vezes como acaba a peça não é? Se ganhasse sempre a melhor equipa ninguém lá ia mais. O futebol é um jogo e isso é que é bonito…”

E a angústia, a aflição, a solidão do “banco”?

“Depende sempre dos jogos. Se for um jogo em casa, para o campeonato e normalmente o Benfica ganha dois, três golos, é muito tranquilo. Mas claro quando faltam dez minutos para o Marselha e sabemos que um golo vale uma final… é uma boa ginástica para o coração… como muitas caixas de chicletes, é melhor que fumar embora estrague os dentes… todos os treinadores temos muita tendência para fazer muitos comentários no banco e para falar, mas o jogo deve ser preparado antes, todos dias. Não se deve correr o risco de tornar os jogadores nervosos se a cada minuto lhe estivermos a dizer coisas… ah e então aquele mito de que se pode mudar tudo ao intervalo… que loucura! falo pouco, só quando tenho alguma coisa a dizer, mantenho sempre uma certa distância, se começo a falar sem ser preciso, eles deixam de me ouvir.”

Mas naquela tarde houve uma coisa de que não me falou. Perguntei-lhe se se identificava particularmente com alguns dos tão interessantes personagens de Hemingway ou Steinbeck de quem ele “lera tudo”.

“Vamos então continuar a conversar de futebol?”

Vimo-nos muito mais vezes, voltei a entrevistá-lo, convidei-o uma noite para um pequeno jantar em nossa casa com “erikssonistas” como nós; acompanhei alguns jogos treinados por si, aqui e fora de portas, não o perdi de vista.

nunca o perdi de vista. E chorei na sua despedida na Luz, quando dilacerantemente ele já estava — e sabia que estava – entre o seu relvado da luz e o céu.

Partiu com uma heroicidade silenciosa e digníssima. Como ele, igual na vida e na morte.

DESPORTO      FUTEBOL      BENFICA

COMENTÁRIOS (DE 10)

JORGE BARBOSA: na minha qualidade de ser um dos tais infelizes que refere, que não se revê na "irracionalidade" da autora, tenho de a desiludir pois vibrando eu, como poucos, com um excelente jogo de futebol, sinceramente, desprezo os grandes clubes nacionais, e por vários motivos. primeiramente pela gigantesca corrupção que vem sustentando nas últimas décadas, gangrenando mesmo o regime pela contaminação do estado. depois, pelas criminosas claques que também sustentando, os clubes dão aos nossos jovens excelentes aulas de banditismo já expresso mesmo em mortos e feridos. segue-se o facto assinalável, mas pela negativa, de os grandes clubes darem muito mais valor ao negócio dos jogadores do que à construção de equipas internacionalmente ganhadoras, já que, sempre que um bom jogador brilha, agora, logo ele é vendido no mercado internacional. o que leva a que a única equipa ganhadora que temos tido seja agora a nacional. e para não me alongar mais, nas críticas que faço aos grandes clubes, designadamente corruptos e corruptores, e muito incompetentes, fico-me por aqui nas críticas. Assim, considero lamentável a sua irracionalidade de confundir o benfica com a portugalidade já que, ao fazê-lo mostra-se encantada com algo que é o pior do país, colocando debaixo do tapete tanto daquilo que de melhor temos mesmo em portugal; as suas gentes, designadamente empresários, professores de cátedra, as nossas maravilhosas terras, a nossa excelentíssima culinária e vinhos, os nossos valorosos pintores, arquitectos, engenheiros e cantores que muito mais fazem do que aceitar bolas e meter golos com os pés, e sempre em proveito bem mais próprio, do que em proveito dos outros, da colectividade. perdoe-me assim a minha indelicadeza mas a minha reacção à irracionalidade do seu artigo é muito crítica. por minha parte gostaria muito mais de ver o país parar pela emoção popular relacionada com os nossos heróis mundiais, por exemplo na pintura, na gestão de grandes empresas, na medicina ou na investigação, do que em sucessos no pontapear de bolas.

 

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