Com amor e sentido de humor, alegre e sem pedantismos críticos, na
simplicidade da aceitação de um jogo – e de um clube -que fazem o prazer de um
povo, e da própria escritora.
CRÓNICA DE VERÃO (E ALGUMAS MEMÓRIAS)
O futebol deu-me forte e cedo e o Benfica
também. ignoro de onde me veio a inclinação e depois esta inteira e intacta
fidelidade, até perceber que quando gostava do Benfica estava a gostar de
portugal
MARIA JOÃO AVILLEZ JORNALISTA,
COLUNISTA DO OBSERVADOR
OBSERVADOR, 23 JUL. 2025, 00:2210
1O Benfica é um
tema forte nesta casa e agora em pré-eleições, ainda mais. este abrasivo julho
vive-se até como uma saison estival/eleitoral. estamos de resto habituados, vivemos
num carrossel eleitoral há um bom par de anos e ainda faltam duas chamadas políticas,
mas o que me interessa aqui é o benfica. não para discorrer sobre
candidatos a uma liderança urgente e urgentemente outra, ou a candidaturas que
elevem mais alto o voo das águias mas para me rejubilar.
2O caso é que com
o correr das conversas caseiras aqui no oeste, veio naturalmente à tona
do tema, a candidatura de martim borges coutinho. não por acaso. martim
é neto do melhor presidente que o benfica conheceu até hoje, ama o benfica,
tem-no na pele e na alma, revê-se no avô, quer seguir-lhe a pisada e a obra. e
a inspiração, a devoção, a dignidade.
Quando lhe
chamaram “corajoso” num debate televisivo aqui há dias, substituiu o adjectivo
por “convicto”. deve ser verdade: conforme também contou, está “há treze anos a
preparar a sua candidatura” cheio de “convicção”.
Mas – e isto
agora já sou eu – também corajoso, sim, ao afirmar que “Luís Filipe Vieira não tinha condições para se candidatar”. ética, pelo menos, pode ser duvidoso que tenha.
Se porém ainda
não conheço inteiramente bem o neto, nunca mais esqueci o avô, Borges Coutinho.
Mas imaginar que esse grande cidadão e presidente maior poderia agora ou outro
dia, quem sabe?, Vir a ter um sucessor directo na presidência do “glorioso”,
muito me alegraria. São as boas voltas da vida. Venha ou não Martim Borges
Coutinho a ganhar esta quase dramática eleição do Benfica em outubro, começa a
dar-se por ele: já impôs uma postura e uma compostura; introduziu qualidade
numa eleição complexa, sinalizou um entendimento estruturado sobre o maior
clube de futebol português.
3O futebol deu-me
forte e cedo e o Benfica também. O meu pai, como tantos da sua colheita, era do Belenenses. Muitos dos amigos da
casa, do Sporting. Do Benfica falava-se pouco. Ignoro de onde me veio a
inclinação e depois a inteira – intacta até hoje – fidelidade ao Benfica, até perceber
que quando gostava do Benfica estava a gostar de Portugal.
“Ah o Benfica é como um porto, uma pertença,
uma família, o sítio de onde se é”
escrevi eu um dia em “A Bola”, em fevereiro de 2004, comemorava-se então o
primeiro centenário da fundação do clube. E foi uma honra, claro, o convite
da “Bola” e o ter-me “paginado” na companhia de Manuel Alegre e Bagão Felix,
dois benfiquistas “extras”.
No Benfica
palpita Portugal inteiro, porque de algum modo o Benfica é Portugal: estão
ambos reflectidos no espelho um do outro e basta estar num estádio quando jogam
os encarnados, para perceber o que quero dizer.
Foi sempre,
sempre o Benfica que encontrei nas minhas múltiplas idas às Áfricas, onde se
fala português, quer antes, quer depois das independências. Benfica, segunda
pátria.
A dada altura
fiz-me sócia. Lembro-me das vezes em que ia da nossa antiga casa do campo
grande — umas vezes a pé –, o coração em festa e os sentidos alerta, asfalto
fora, até ao estádio. A quantos desafios não assisti “in loco”, boina encarnada
e cachecol às riscas, numa militância veemente que me punha rouca? E depois
veio a grande catedral, a cuja inauguração naturalmente fui no dia 25 de
outubro de 2003. A verdade é que me irmanava com os encarnados naquela espécie
de energia privada de que o Benfica tinha o segredo e (quase…) sempre o
exclusivo nos relvados.
Guardo
religiosamente fotos, cartas, lembranças, cartões, bilhetes. e jornais
desbotados onde escrevi ou entrevistei treinadores (Artur Jorge, Eriksson, Fernando Santos, Scolari
e Frederico Varandas mais recentemente) e
jogadores de excelência.
4O futebol
mantém-se o maior espectáculo do mundo, o maior fenómeno do mundo, o maior produtor,
agregador e distribuidor de emoções; o maior motor de instantânea, automática,
permanente, convocatória. o maior traço de união
entre os humanos, sejam eles quem forem, de onde forem, de que cor e credo,
idade ou sexo.
Há quem odeie
tudo isto? Há claro. são uns infelizes. Nunca conheceram o grau de júbilo ou a
temperatura a que pode chegar uma colectiva emoção ao ver a bola a entrar nas
redes adversárias e com isso garantir um jogo, um título, uma taça. Ou que não
garanta: há golos e lances e passes e “cantos”tão fenomenais que por si só
iludem derrotas, redimem fracassos e ficam na história do futebol.
A morte
planetária de Diogo
Jota — admirável Diogo Jota e não apenas
pelo dom com que jogava – nunca teria sido planetária fosse Diogo um genial
pintor, um escritor prémio Nobel, um maravilhoso bailarino, o mais inspirado
músico. Revejo o choque do país e a emoção digna da equipa do liverpool, a
vinda a Portugal do clube britânico em peso — dirigentes, jogadores, técnicos;
o luto e a mobilização de milhares e milhares de ingleses, a surpreendente
intervenção do primeiro-ministro stamer; a cobertura da imprensa europeia e
mundial, num nunca mais acabar de sentidas homenagens.
Excessivo? Posso
admitir a pergunta com uma breve resposta: é o futebol. e não há nada no mundo
que despolete, ao mesmo tempo e em todo o lado, esta mesmíssima
“disponibilidade “ para responder e corresponder ao futebol.
Sim, repito:
há quem despreze, censure esta “irracionalidade?” há: são os tais infelizes. ficam de fora, sem nunca conseguir saltar o muro e perceber a
inconfundível ansiedade provocada por uma bola a correr dentro das quatro
linhas.
5Comecei por
conhecer Eusébio, ir vê-lo jogar, conversar com ele, viajar no mesmo avião onde
acompanhando profissionalmente o Benfica, fui um dia assistir a um jogo fora de
portas. Um génio ali ao pé da mão. E uma
humildade que durou uma vida.
Em
junho/julho de 1966 ia morrendo de emoção, com
a “pantera negra” a fazer o que queria — dele próprio, dos colegas, dos
adversários, dos resultados. Até chegar ao mágico score de um 3º lugar no
campeonato do mundo desse ano. Que verão, santo deus!
E quando Figo
– outro génio, estão bem lembrados? – estava no Barça convenci o Expresso a
mandar-me a Barcelona. Parti num outubro de 1997,
fiquei impressionadíssima. Ia à espera de encontrar um ídolo, um herói, um
jogador cheio de si e afinal ali estava Luís Figo, bem educado, discreto,
afável, despretensioso. Nada absolutamente lhe subira a cabeça: tinha 24
anos e percebi que pisava já tão bem a vida quanto os estádios.
Dele ouvi apenas
coisas muito avisadas sobre “a
disciplina, o método, o esforço” do clube catalão onde estava há três anos;
sobre o sucesso, a carreira, o dinheiro (“
não, não lhe digo quanto ganho porque não é importante: com pouco ou muito, a
minha atitude seria a mesma”).
Um então muito
jovem Miguel Guedes de Sousa – hoje casado com Paula Amorim e maestro dos Jncquoi
– dirigia na altura um grande hotel em Barcelona. Foi com uma expectativa
entusiasmada também ele que proporcionou uma suite do hotel e ali ocorreu a conversa inesquecível: Figo era uma estrela conduzida pelo
sorriso dos deuses.
Um outro dia – março
de 1981 – entrei pela “porta dos artistas” no Estádio da Luz, uma “experiência”
e uma novidade logo traduzidas na exuberância (demasiado) aparatosa com que
manifestei o meu benfiquismo aos jogadores com quem me cruzava, quando
procurava o guarda redes Bento. Um futebolista para quem “o Benfica fora a
rampa de lançamento, o passaporte, fora tudo…”.
Ia entrevistar o
mítico keeper da equipa – na altura treinada por Baroti –, conhecer
ao vivo esse jogador que “gritava demais
com os defesas”, acusação que sempre o irritava: “e quem é que via sempre o campo todo, senão ele e só ele?”
“sou o único
que vê quem está por detrás dos defesas…se há uma falha, uma distracção, aí
está a bola nas redes. É o local mais ingrato porque não se pode falhar. O
guarda-redes está parado mas os seus reflexos não, todo o cuidado é pouco!”
E insistia: “um
jogador pode hesitar, um keeper, não. Já viu que hoje qualquer golo que a gente
deixe entrar é logo um frango? Em resumo, tem de ser-se infalível.”
Ia a nossa
conversa nisto — e noutras — quando de repente, a porta se abre de rompante e o
“mister” Baroti, velho leão de cabelo branco, entrou a rugir: “Ó Bento, você
acha pouco haver vinte e cinco homens à sua espera há vinte e cinco minutos?”
6ah artur
jorge, e o seu “bigode-ex-libris”, e o mesmo ar terno, e a mesma timidez. De um
lado o chamamento do desporto, do outro, uma real apetência intelectual.
Encontrei-o após o futebol clube do porto, treinado por si, ter vencido o
campeonato europeu. Estávamos em 1987 e ele tinha 43 anos. (voltaria mais tarde
a entrevistá-lo para uma revista).
“Sou uma pessoa que tenta ser simples,
gostaria de ser mais leve, às vezes sou pesado. Mas é essa capacidade de passar
pelas coisas boas e más que nos dá alguma força mas também o lado efémero de
tudo. As coisas nem sempre são racionais… “depois, como
por vezes sucedia com ele, o diálogo tornava-se naturalmente mais intelectual
que meramente desportivo – mas Artur Jorge
era justamente o fruto dessa “mistura” – divagou pela nossa história de
que “se orgulhava”, a identidade portuguesa, a saudade, o ter voltado de Paris
onde treinara o matra: “um poeta de alexandria dizia que não adianta fugir
da cidade, ela persegue-nos implacavelmente, o meu destino era voltar. Não
especificamente só para o Futebol Clube do Porto mas para a minha terra, a
minha casa, os meus…” voltou, ganhou, foi vitoriado, mas com a sua maior
preocupação-desafio, ancorada no espírito: “conseguir
dar resposta às perguntas que o futebol incessantemente lhe colocava”.
Era verdade: Artur Jorge sempre recusou não se “esgotar”
no futebol e que o “futebol não o esgotasse”: “trabalho evidentemente o melhor e o mais possível mas a verdade é que
houve sempre gente disposta a discutir outras coisas comigo, para as quais
tento, e desesperadamente, ter tempo.”
Sabia-se: eram os muitos livros que lia, a boa pintura
que coleccionava, a política que o interessava, as tertúlias com amigos fora do
universo futebolístico. Um caso? Sim. E talvez mesmo um personagem.
Ah mas sobre ele
falta-me ainda contar talvez o melhor, senão mesmo o melhor: foi quando
se me meteu na cabeça juntar Artur Jorge (Futebol Clube do Porto) a Eriksson
(Benfica) no Público onde eu então estava – e ouvi-los. Sobretudo num momento
em que ambos os clubes andavam taco a taco no campeonato nacional.
Foram trabalhos
de Hércules. Falei primeiro com Eriksson: que “sim”. Percebi que acharia
graça, e mais: queria encontrar se com o rival diante de um gravador.
Dias mais tarde fui às Antas, “quero!”, respondeu-me 15 segundos depois
Artur Jorge. É certo que ambos – em entrevistas individuais – me tinham
confessado “uma admiração recíproca”. Seguiram-se autênticos calvários
telefónicos entre Lisboa e Porto num carrossel de datas que rodavam,
tropeçavam, falhavam. Até que um belo dia – a sorte protege os audazes
– surgem diante de mim dois cavalheiros bem vestidos e bem dispostos: Sven-Göran
Eriksson chegou primeiro, casaco de tweed, camisa clara, pediu um chá, sentou-se
silenciosamente a ler um jornal. Artur Jorge apareceu pouco depois, mais
comunicativo, gravata de seda com cornucópias, camisa azul, colarinho branco.
Falou, bebeu água, sorriu. Dois sedutores. Retive porém que entre a discrição
de um e a a maior loquacidade do outro, escorria uma expectativa parecida com a
dúvida (“que sairia dali”?). Minutos depois, no silêncio sepulcral de um
gabinete com um gravador ligado, os sedutores elegantes transformaram-se em
dois adversários frios e racionais – o título só iria para um eles – sentados
frente a frente: dois homens muito inteligentes. Dois habilidosíssimos
jogadores de xadrez.Dois chefes que podiam ser implacáveis mas que ali
se mediram e ouviram durante duas horas e por vezes capazes do elogio mútuo — tomei boa nota — da forma muita atenta como
entretanto se vinham olhando e “vigiando” um ao outro nos relvados. Nunca
iludindo os “problemas e as más relações” Entre ambos os clubes, recusaram a
polémica e foram cavalheirescos antes do mais: “os grandes clubes sempre
tiveram rivalidades, o futebol precisa delas” dizia Artur Jorge ao que Eriksson
respondia que “fazia parte do espectáculo do futebol”). Sem desertar
nem iludir ali desavenças, preferiram discorrer na pele de treinadores focados
nas quatro linhas muito mais do que nas ferventes rivalidades do Porto e do Benfica,
mesmo sabendo um e outro, que nunca as poderiam ignorar.
Dois grandes
senhores.
7Luís Felipe Scolari talvez não fosse um personagem. Mas tomei boa nota do seu modo de ser, diante
de três câmaras de televisão da sic, ainda em Carnaxide.
Scolari — sério,
sóbrio, sólido, seguro – chegou com um presente: duas camisolas da selecção,
uma de Figo, outra de Ronaldo. era simultaneamente capaz de uma grande
afectividade e de uma extrema secura: só dizia o que queria. E neste dia de
maio de 2005, mais do que tácticas e técnicas ou do então “caso Vítor Baía,
(“quem escolhe os convocados sou eu”), Scolari
queria sobretudo tonificar a plateia nacional, “os jogos difíceis jogam-se
melhor com o país mobilizado atrás do onze nacional”: “eu acho que vai ser
preciso falar aí para o pessoal… temos de recuperar o clima fantástico do
euro…”
Em 2002 fora
eleito o melhor seleccionador do mundo, ganhara o penta no Brasil mas a cabeça
fria, a mente disciplinada e o espírito metódico não lhe consentiam vaidades ou
pretensões. Na vida ou no futebol, agia do
mesmo modo: “cortava a direito, sem olhar para os lados”. Num país com
poucos hábitos de trabalho como o nosso, achavam-no “intransigente “ ou
“teimoso”, as opiniões dividiam-se, ele não se importava. não fora impunemente
que em 20 anos de “relvados” Luís Felipe Scolari ganhara 16 títulos.
portugal
deve-lhe alguma coisa.
8E porque os
últimos serão os primeiros – neste caso, “o” primeiríssimo – Sven Goran
Eriksson, o anjo sueco que deixou marca, exemplo e memória no Benfica.
louro, esguio, reservado, silencioso. sorriso doce, apesar das muitas horas em
que falamos numa longa entrevista dividida em dois dias, disse apenas o
estritamente necessário: nunca lhe ocorreria – percebi-o logo – a sombra de um
desabafo, a exibição de estados de alma, alguma “personal remarke”. Cumpria
a sua parte do contrato: “o futebol necessita de jornais e jornalistas, estes
alimentam-se do espectáculo e das suas estrelas”, e – subentendido – ele, Eriksson,
limitava-se aos serviços mínimos, fora do quadro de trabalho no clube: fora do
banco, do treino, do balneário, dos jogadores ou responsáveis pelo clube, as
palavras eram parcas. A media e os holofotes eram a conta gotas, só um palco
contava: o relvado.
O relvado e o
resto que não se vê: a pesada agenda de um treinador conforme testemunhei uma
manhã inteira num gabinete no Estádio da Luz, onde o vi atender tudo e todos – Jorge
de Brito, depois Shéu, depois um grupo de dirigentes vindos de Viena onde o Benfica
jogaria dentro de dias, etc. trabalhava.
O segundo
acto ocorreu na sua casa da Malveira – morada
magnífica debruçada sobre Atlântico. Ambiente familiar irresistivelmente
simpático: dois filhos louros; a mulher (olhar azul intenso) que “ia aos desafios
e sabia discuti-los depois”; um jardineiro que além de aplicado era “do Benfica”;
um carpinteiro preguiçoso a quem o treinador com uma ironia levemente irritada
inquiria se “apenas trabalhava uma hora por dia”; a piscina aberta sobre o
corte de ténis. Pequeno paraíso privadíssimo: “durante todos estes anos de
futebol nunca consenti ter jornalistas ou público em casa ou na minha família.
Não é preciso: estou todos os dias à disposição, ou quase todos…”
Eram os severos
limites que se impusera: a sua lucidez inteligente já lhe tinha sussurrado ser
aquela a única forma de sobreviver na selva do futebol.
Mas, naquele dia
de maio de 1990, estava a ser armabilíssimo comigo e com o fotógrafo Rui
Gageiro, do Público: abriu-nos a sua casa, foi pontual, equipou-se a rigor de
tenista para as fotos, jogou (!), pousou, sorriu. e falou: não estava contente
com a “época”:
“Uma equipa só é
boa quando joga a 100%! Eu já sabia que esta época havia alguns jogadores muito
importantes que não tinham tido férias – o Aldair, o Valdo , o Paneira – e que
iria haver problemas. Para o ano será melhor, (…) mas também não há nenhuma
equipa que consiga ganhar se isso não for o resultado de uma grande preparação
física, técnica, de uma preparação enfim que vá da compra dos jogadores certos
até ao constituir da equipa. Depois claro que nem sempre é a melhor equipa que
ganha mas é assim o futebol e é esse ‘nunca saber o que pode acontecer’ que é
bom… no teatro você sabe muitas vezes como acaba a peça não é? Se ganhasse
sempre a melhor equipa ninguém lá ia mais. O futebol é um jogo e isso é que é
bonito…”
E a angústia, a
aflição, a solidão do “banco”?
“Depende sempre
dos jogos. Se for um jogo em casa, para o campeonato e normalmente o Benfica
ganha dois, três golos, é muito tranquilo. Mas claro quando faltam dez minutos
para o Marselha e sabemos que um golo vale uma final… é uma boa ginástica para
o coração… como muitas caixas de chicletes, é melhor que fumar embora estrague
os dentes… todos os treinadores temos muita tendência para fazer muitos
comentários no banco e para falar, mas o jogo deve ser preparado antes, todos
dias. Não se deve correr o risco de tornar os jogadores nervosos se a cada
minuto lhe estivermos a dizer coisas… ah e então aquele mito de que se pode
mudar tudo ao intervalo… que loucura! falo pouco, só quando tenho alguma coisa
a dizer, mantenho sempre uma certa distância, se começo a falar sem ser
preciso, eles deixam de me ouvir.”
Mas naquela tarde houve uma coisa de que
não me falou. Perguntei-lhe se se identificava particularmente com alguns dos
tão interessantes personagens de Hemingway ou Steinbeck de quem ele “lera
tudo”.
“Vamos então continuar a conversar de
futebol?”
Vimo-nos muito mais vezes, voltei a
entrevistá-lo, convidei-o uma noite para um pequeno jantar em nossa casa com
“erikssonistas” como nós; acompanhei alguns jogos treinados por si, aqui e fora
de portas, não o perdi de vista.
nunca o perdi de vista. E chorei na sua
despedida na Luz, quando dilacerantemente ele já estava — e sabia que estava –
entre o seu relvado da luz e o céu.
Partiu com uma heroicidade silenciosa e
digníssima. Como ele, igual na vida e na morte.
COMENTÁRIOS (DE 10)
JORGE BARBOSA: na minha qualidade de ser um dos tais
infelizes que refere, que não se revê na "irracionalidade" da autora,
tenho de a desiludir pois vibrando eu, como poucos, com um excelente jogo de
futebol, sinceramente, desprezo os grandes clubes nacionais, e por vários
motivos. primeiramente pela gigantesca corrupção que vem sustentando nas
últimas décadas, gangrenando mesmo o regime pela contaminação do estado.
depois, pelas criminosas claques que também sustentando, os clubes dão aos
nossos jovens excelentes aulas de banditismo já expresso mesmo em mortos e
feridos. segue-se o facto assinalável, mas pela negativa, de os grandes clubes
darem muito mais valor ao negócio dos jogadores do que à construção de equipas
internacionalmente ganhadoras, já que, sempre que um bom jogador brilha, agora,
logo ele é vendido no mercado internacional. o que leva a que a única equipa
ganhadora que temos tido seja agora a nacional. e para não me alongar mais, nas
críticas que faço aos grandes clubes, designadamente corruptos e corruptores, e
muito incompetentes, fico-me por aqui nas críticas. Assim, considero lamentável
a sua irracionalidade de confundir o benfica com a portugalidade já que, ao
fazê-lo mostra-se encantada com algo que é o pior do país, colocando debaixo do
tapete tanto daquilo que de melhor temos mesmo em portugal; as suas gentes,
designadamente empresários, professores de cátedra, as nossas maravilhosas
terras, a nossa excelentíssima culinária e vinhos, os nossos valorosos
pintores, arquitectos, engenheiros e cantores que muito mais fazem do que
aceitar bolas e meter golos com os pés, e sempre em proveito bem mais próprio,
do que em proveito dos outros, da colectividade. perdoe-me assim a minha
indelicadeza mas a minha reacção à irracionalidade do seu artigo é muito
crítica. por minha parte gostaria muito mais de ver o país parar pela emoção
popular relacionada com os nossos heróis mundiais, por exemplo na pintura, na
gestão de grandes empresas, na medicina ou na investigação, do que em sucessos
no pontapear de bolas.
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