O
que é isso? Julgo que a
pergunta é pertinente, já nos tempos de hoje. Nos de amanhã já não se
põe, porque a palavra desapareceu da Língua.
O memorial, os mitos e a linha vermelha
Não é admissível que se avance para
um Museu da Escravatura sem que haja prévia ou simultaneamente um museu
destinado a mostrar e a explicar, aos alunos e a forasteiros, o que foram os
Descobrimentos.
JOÃO PEDRO MARQUES
Historiador e romancista
OBSERVADOR, 02
jul. 2025, 00:1942
Várias vezes me pronunciei a favor do
memorial da escravatura que os activistas woke querem erigir em Lisboa. Fi-lo em 2018, afirmando que ele partia de uma “ideia justa”, voltei a
fazê-lo em 2019
e, depois, em 2023
para dizer que se trata de um bom projecto, esteticamente equilibrado e com uma
simbologia, que sem ser exactamente aquela que mais se adequa ao caso de
Portugal, se aceita.
Ao
contrário de André Ventura, que
recentemente se insurgiu na rede social X contra o memorial aos escravos negros, eu
saúdo a notícia de que ao cabo de anos de espera e de um ror de suspeitas ou de
acusações de que as vereações de Fernando Medina e, depois, de Carlos Moedas,
estariam a varrer o assunto para debaixo do tapete, ele irá ser finalmente
concretizado na Ribeira das Naus. Não me pronuncio quanto ao local
escolhido, mas o projecto sempre me
pareceu bom, por ser simples, sem hiper-dramatização, mas muito certeiro na
evocação que faz da ligação que desde sempre existiu entre o tráfico
transatlântico de escravos e o canavial, o engenho e a fábrica de açúcar.
É bom que esse memorial seja erguido porque os grupos humanos precisam de ter lugares de memória. Se os
africanos e afro-descendentes se revêm num memorial desse tipo, devem tê-lo, do
mesmo modo que, contrariamente aos desejos de activistas como Joacine Katar Moreira, por
exemplo, devem desistir de ideias vesgas
como a de deitar abaixo o Padrão dos Descobrimentos e mais monumentos ou memoriais em que outras
pessoas se revêem.
Mas a par desta minha saudação à
iminente concretização da obra, reactiva-se em mim um receio que sempre tive e também por várias vezes
manifestei: o de que, associado ao monumento, se veicule uma narrativa falsa e
se construa uma mitologia. É por isso imprescindível garantir
que não se associe a essa justa homenagem a ideia militante e
romântica, mas sem qualquer
suporte histórico, de que a abolição da escravidão e do tráfico
de escravos em Portugal teria de algum modo resultado da resistência das
pessoas que foram escravizadas. É igualmente necessário assegurar que não se entregue o Centro Interpretativo que venha
provavelmente a ser acoplado ao monumento a académicos ou activistas políticos
com interpretações pré-fabricadas em vez de o colocar na alçada de pessoas que
saibam interpretar e contextualizar historicamente o tráfico transatlântico de
escravos e a escravidão, razão pela qual sugiro desde já o nome de Arlindo
Manuel Caldeira, uma
pessoa que sabe do assunto e que, sendo de esquerda, não está enfeudada à
agenda woke. E é necessário, por fim, que este
monumento — que, repito, é justo — não seja o primeiro de vários
outros espalhados por Lisboa e pelo país pois isso seria desadequado, desproporcionado e não reflectiria o que se passou.
De facto, Lisboa não foi a capital, muito menos a capital
monopolista e hegemónica, do tráfico negreiro português como poderíamos ser
levados a pensar pelo que por aí se diz e se escreve. Ao
contrário do que afirma a jornalista Isabel Salema,
no Público, a capital do nosso país não desempenhou “um papel
central no tráfico transatlântico de seres humanos durante séculos”. Essa
afirmação é falsa e é preciso desmontá-la. Como já mostrei num artigo
anterior saíram do actual território português — isto é, de
Lisboa e de outros portos —, apenas 4% do total de navios que foram a África
buscar escravos negros.
Há dias ouvi Inocência Matta, uma senhora woke
que é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, insurgir-se,
num programa da Antena 3, pelo facto de Nantes ter várias
estruturas evocativas do tráfico de escravos e Lisboa ainda não ter nenhuma.
Mas não há razão para espantos ou indignações. Os navios partidos de Nantes
transportaram muito mais escravos africanos para as Américas do que os que
partiram de Lisboa, e, no seu conjunto, os portos franceses (Nantes, La
Rochelle, Le Havre, Bordéus, etc.) foram responsáveis por 13,5% dos navios
envolvidos no tráfico negreiro, ou seja, o triplo dos que, como já referi, partiram de Lisboa e de outros
pontos de Portugal Continental.
Portanto, tudo somado, Lisboa teve um papel limitado no tráfico
negreiro e é
preciso que não deixemos que, à sombra do futuro memorial, se construa uma
narrativa mítica e culpabilizante que distorça de forma grosseira aquilo que
efectivamente aconteceu. Mais. É
preciso que não deixemos que o memorial
seja o primeiro passo ou o passaporte para a construção de um Museu da
Escravatura sem que haja, antes, um Museu dos Descobrimentos. Como já
escrevi em 2018 eu preferiria
que uma futura abordagem museológica da relação de Lisboa (ou do país) com a
escravatura se fizesse no âmbito e no espaço de um Museu dos Descobrimentos, ainda por construir. E
preferiria porque assim se transmitiria a ideia de que os Descobrimentos — como
geralmente acontece com os acontecimentos de grande fôlego, que envolvem muita
gente e têm grande amplitude espacial e cronológica —, tiveram aspectos
positivos, construtivos e auspiciosos, e outros negativos, destrutivos e cruéis.
De qualquer modo não me oponho a que
existam dois museus diferentes. Aquilo a que me oponho é que possa haver um
Museu da Escravatura sem antes haver um dos Descobrimentos.
Ora, basta andar pelas redes sociais
para saber que os activistas woke não só têm o Museu da Escravatura
como objectivo como têm igualmente por meta impedir que haja um museu dedicado
aos Descobrimentos portugueses. Julgo, por isso, que se os políticos de direita —
toda a direita — e, até, da esquerda razoável não quiserem ser novamente
apanhados a dormir na forma, se não quiserem ser ultrapassados pelos
acontecimentos e confrontados, depois, com factos consumados, terão de começar
já a mexer-se e deverão traçar uma linha vermelha para além da qual não
aceitarão que se passe, linha essa que posso enunciar da seguinte maneira: não é admissível que se avance para um Museu da
Escravatura — tenha ele essa ou outra designação —, sem que haja prévia ou
simultaneamente um museu destinado a mostrar e a explicar, aos que nos visitam
e aos nossos alunos, o que foram os Descobrimentos.
Assim, se André Ventura quiser ter um
papel construtivo neste combate deverá empenhar a sua energia e a do seu
partido não tanto a tentar obstaculizar o memorial, um passo da Câmara
Municipal de Lisboa que é legítimo, mas a garantir duas coisas. Em primeiro lugar que ele não
descarrila, não exorbita e que não se presta a falsificações históricas. Em
segundo lugar que a CML deve avançar no sentido da criação do de há muito
prometido Museu dos Descobrimentos, ou, pelo menos, como já se projectou no passado,
da construção de uma réplica de um navio do século XVI que poderia ser visitado
e servir de centro histórico e explicativo. Seria
mesmo fundamental, agora que as eleições autárquicas se aproximam, que a
direita e os jornalistas, claro, questionassem Carlos Moedas e outros
candidatos a vereadores do PSD e da Iniciativa Liberal — do CDS e do Chega não
será necessário porque a posição desses partidos é conhecida — sobre estes
assuntos, para que os eleitores saibam exactamente com o que podem contar.
LISBOA PAÍS SOCIEDADE DESCOBRIMENTOS HISTÓRIA CULTURA ESCRAVATURA
COMENTÁRIOS (de 42)
Tomazz Man: Propostas equilibradas, o que
destoa em tempos de gritaria.
Rui Lima: Devia haver verdade onde os wokes espalham a mentira, tive de explicar
a um adolescente que estava convencido que se houve escravatura feita pelo o europeu
pela nossa civilização, quando a escravatura existe desde os tempos antigos
praticamente desde que existem civilizações organizadas. Povos como os sumérios,
egípcios, gregos, romanos, chineses, árabes e muitos outros praticaram formas
de escravatura muito antes da expansão europeia isto deve ser ensinado. Velha do
Restelo: Excelente, como de costume! Obrigada! Tristão: O museu da escravatura seria
mais completo se contasse a história da escravatura no seu todo, ou seja,
desde dos tempos imemoriais, para que não se ficasse com a ideia, errada, que
os descobrimentos tivessem sido o detonador da escravatura que como se sabe
isso é uma das grandes mentiras que nos querem impingir pela goela abaixo… Se
for para auto-flagelação dos portugueses, não muito obrigado. Tim do A: O museu da escravatura é uma
imbecilidade. Manuel
Lisboa: Concordo em parte com João Pedro Marques; porém, julgo que se deverá ter
atitude menos tolerante perante aqueles que julgam essencial um memorial ou,
pior, um museu acerca da escravatura na capital portuguesa. Não é. Trata-se de
matéria especialmente relevante para África para que os respectivos habitantes
saibam como elites locais apoiaram e lucraram com a venda de populações
vizinhas, ao longo de séculos, a europeus, como os portugueses e a outros de
outras zonas do mundo. Sim, há muito que deveria existir um Museu Nacional dos Descobrimentos
Portugueses em Lisboa; e, claro, o horroroso tráfico de escravos contemplado
nesse contexto, obviamente pelas razões muito correctas evocadas pelo autor da
crónica. vitor
gonçalves: Caro Prof,
acha que com a Balseiro Lopes ao leme do Ministerio, vai haver alguma abordagem
que não seja woke? O processo já está inquinado a partida. Enquanto a direita
não tomar conta da Academia, agora totalmente na "posse" da esquerda
radical, o caminho para a desgraça é sempre a descer Fernando
Magalhães: Subscrevo. Mas acredito também que se autorizarem que
se crie um "monumento ao esclavagismo " antes da criação de um
verdadeiro monumento aos Descobrimentos, este último nunca será criado. Isto
porque se há algo que o wokismo nos ensinou é que quando se lhes dá uma mão
eles não descansam enquanto não nos comerem o braço. Carlos
Chaves: Quando se
mistura o bom senso com o saber do que se fala, temos artigos desta qualidade!
Obrigado, caro João Paulo Marques. E já que falamos de museus é caso para usar
o slogan do Alqueva… “construam-me porra” - Centro Interpretativo e Museu do
Estado Novo – Museu Salazar, para quando? Rui Lima > Manuel Lisboa: Terá razão até porque
em África já existe esses museus onde já estive, e lamento dizê-lo a
mensagem está longe da verdade, perguntei
porque nada havia sobre Dona Ana Joaquina,
a grande personagem da escravatura, mulher mais rica de África dinheiro feito
com venda de escravos, porque não fizeram do Palácio de Dona Ana Joaquina, no
centro histórico de Luanda o museu, talvez porque davam a conhecer as
responsabilidades das elites africanas. Américo
Silva: A UE vai
subvencionar a vinha na África do Sul com 15 milhões de euros, e isentar de
direitos 35,3 milhões de litros daquele país em concorrência com os produtores
europeus, com o pretexto de apoiar a inclusão de negros e mulheres, quando a
produção está em crise e o consumo baixa. Serão reparações?, ou os senhores a
escravizar a classe média?, democracia não é de certeza. Lourenço Sousa Machado de Almeida: O mudeu da escravatura - actividade que existiu em
todo o mundo e desde sempre - em Portugal devia em primeiro lugar, referir
todos os escravos portugueses e dos antepassados dos portugueses que romanos,
vikings, muçulmanos de várias espécies, desde os do levante, norte de áfrica
até aos que nos colonizaram durante mais tempo do que nós colonizámos qualquer
outro lugar. Depois devia exaltar o nosso papel e esforços par acabar com a
escravatura, em parte por pressão dos ingleses mas ainda assim, à frente de boa
parte do mundo. E finalmente, referir os desgraçados que foram escravizados
pelos antepassados dos actuais africanos, explorados pelos antepassados dos
actuais brasileiros e que alguns portugueses transportaram desde quem os
capturou e vendeu em África até quem os comprou e explorou na América! Coxinho: Mas o museu transformou-se agora em arma política da
esquerdopatia ?? Manuel
Ferreira21: Professor, a ignorância é muito atrevida. Se fosse dono de um canal
dáva-lhe uma hora semanal de televisão para dar cultura aos esquerdarlhos. JM
Azevedo: Concordo plenamente Miguel
Macedo: Muito bem! Carlos
Martins: Esse museu da escravatura já existe em Lagos, onde ocorreu o primeiro
mercado em 1444. Vítor
Araújo: Até que André Ventura chegue a primeiro ministro, vivemos numa inércia
de cancelamento difícil de parar, por isso irão florescer por aí museus da
escravatura por todo o lado. Quanto ao museu dos descobrimentos em Lisboa, pode
o cronista esperar sentado, ou então ir a Belmonte.
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