quinta-feira, 3 de julho de 2025

Descobrimentos

 

O que é isso? Julgo que a pergunta é pertinente, já nos tempos de hoje. Nos de amanhã já não se põe, porque a palavra desapareceu da Língua.

Alertas activos

O memorial, os mitos e a linha vermelha

Não é admissível que se avance para um Museu da Escravatura sem que haja prévia ou simultaneamente um museu destinado a mostrar e a explicar, aos alunos e a forasteiros, o que foram os Descobrimentos.

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 02 jul. 2025, 00:1942

Várias vezes me pronunciei a favor do memorial da escravatura que os activistas woke querem erigir em Lisboa. Fi-lo em 2018, afirmando que ele partia de uma “ideia justa”, voltei a fazê-lo em  2019 e, depois, em 2023 para dizer que se trata de um bom projecto, esteticamente equilibrado e com uma simbologia, que sem ser exactamente aquela que mais se adequa ao caso de Portugal, se aceita.

Ao contrário de André Ventura, que recentemente se insurgiu na rede social X contra o memorial aos escravos negros, eu saúdo a notícia de que ao cabo de anos de espera e de um ror de suspeitas ou de acusações de que as vereações de Fernando Medina e, depois, de Carlos Moedas, estariam a varrer o assunto para debaixo do tapete, ele irá ser finalmente concretizado na Ribeira das Naus. Não me pronuncio quanto ao local escolhido, mas o projecto sempre me pareceu bom, por ser simples, sem hiper-dramatização, mas muito certeiro na evocação que faz da ligação que desde sempre existiu entre o tráfico transatlântico de escravos e o canavial, o engenho e a fábrica de açúcar. É bom que esse memorial seja erguido porque os grupos humanos precisam de ter lugares de memória. Se os africanos e afro-descendentes se revêm num memorial desse tipo, devem tê-lo, do mesmo modo que, contrariamente aos desejos de activistas como Joacine Katar Moreira, por exemplo, devem desistir de ideias vesgas como a de deitar abaixo o Padrão dos Descobrimentos e mais monumentos ou memoriais em que outras pessoas se revêem.

Mas a par desta minha saudação à iminente concretização da obra, reactiva-se em mim um receio que sempre tive e também por várias vezes manifestei: o de que, associado ao monumento, se veicule uma narrativa falsa e se construa uma mitologia. É por isso imprescindível garantir que não se associe a essa justa homenagem a ideia militante e romântica, mas sem qualquer suporte histórico, de que a abolição da escravidão e do tráfico de escravos em Portugal teria de algum modo resultado da resistência das pessoas que foram escravizadas. É igualmente necessário assegurar que não se entregue o Centro Interpretativo que venha provavelmente a ser acoplado ao monumento a académicos ou activistas políticos com interpretações pré-fabricadas em vez de o colocar na alçada de pessoas que saibam interpretar e contextualizar historicamente o tráfico transatlântico de escravos e a escravidão, razão pela qual sugiro desde já o nome de Arlindo Manuel Caldeira, uma pessoa que sabe do assunto e que, sendo de esquerda, não está enfeudada à agenda woke. E é necessário, por fim, que este monumento — que, repito, é justo — não seja o primeiro de vários outros espalhados por Lisboa e pelo país pois isso seria desadequado, desproporcionado e não reflectiria o que se passou.

De facto, Lisboa não foi a capital, muito menos a capital monopolista e hegemónica, do tráfico negreiro português como poderíamos ser levados a pensar pelo que por aí se diz e se escreve. Ao contrário do que afirma a jornalista Isabel Salema, no Público, a capital do nosso país não desempenhou “um papel central no tráfico transatlântico de seres humanos durante séculos”. Essa afirmação é falsa e é preciso desmontá-la. Como já mostrei num artigo anterior saíram do actual território português — isto é, de Lisboa e de outros portos —, apenas 4% do total de navios que foram a África buscar escravos negros.

Há dias ouvi Inocência Matta, uma senhora woke que é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, insurgir-se, num programa da Antena 3, pelo facto de Nantes ter várias estruturas evocativas do tráfico de escravos e Lisboa ainda não ter nenhuma. Mas não há razão para espantos ou indignações. Os navios partidos de Nantes transportaram muito mais escravos africanos para as Américas do que os que partiram de Lisboa, e, no seu conjunto, os portos franceses (Nantes, La Rochelle, Le Havre, Bordéus, etc.) foram responsáveis por 13,5% dos navios envolvidos no tráfico negreiro, ou seja, o triplo dos que, como já referi, partiram de Lisboa e de outros pontos de Portugal Continental.

Portanto, tudo somado, Lisboa teve um papel limitado no tráfico negreiro e é preciso que não deixemos que, à sombra do futuro memorial, se construa uma narrativa mítica e culpabilizante que distorça de forma grosseira aquilo que efectivamente aconteceu. Mais. É preciso que não deixemos que o memorial seja o primeiro passo ou o passaporte para a construção de um Museu da Escravatura sem que haja, antes, um Museu dos Descobrimentos. Como já escrevi em 2018 eu preferiria que uma futura abordagem museológica da relação de Lisboa (ou do país) com a escravatura se fizesse no âmbito e no espaço de um Museu dos Descobrimentos, ainda por construir. E preferiria porque assim se transmitiria a ideia de que os Descobrimentos — como geralmente acontece com os acontecimentos de grande fôlego, que envolvem muita gente e têm grande amplitude espacial e cronológica —, tiveram aspectos positivos, construtivos e auspiciosos, e outros negativos, destrutivos e cruéis. De qualquer modo não me oponho a que existam dois museus diferentes. Aquilo a que me oponho é que possa haver um Museu da Escravatura sem antes haver um dos Descobrimentos.

Ora, basta andar pelas redes sociais para saber que os activistas woke não só têm o Museu da Escravatura como objectivo como têm igualmente por meta impedir que haja um museu dedicado aos Descobrimentos portugueses. Julgo, por isso, que se os políticos de direita — toda a direita — e, até, da esquerda razoável não quiserem ser novamente apanhados a dormir na forma, se não quiserem ser ultrapassados pelos acontecimentos e confrontados, depois, com factos consumados, terão de começar já a mexer-se e deverão traçar uma linha vermelha para além da qual não aceitarão que se passe, linha essa que posso enunciar da seguinte maneira: não é admissível que se avance para um Museu da Escravatura — tenha ele essa ou outra designação —, sem que haja prévia ou simultaneamente um museu destinado a mostrar e a explicar, aos que nos visitam e aos nossos alunos, o que foram os Descobrimentos.

Assim, se André Ventura quiser ter um papel construtivo neste combate deverá empenhar a sua energia e a do seu partido não tanto a tentar obstaculizar o memorial, um passo da Câmara Municipal de Lisboa que é legítimo, mas a garantir duas coisas. Em primeiro lugar que ele não descarrila, não exorbita e que não se presta a falsificações históricas. Em segundo lugar que a CML deve avançar no sentido da criação do de há muito prometido Museu dos Descobrimentos, ou, pelo menos, como já se projectou no passado, da construção de uma réplica de um navio do século XVI que poderia ser visitado e servir de centro histórico e explicativo. Seria mesmo fundamental, agora que as eleições autárquicas se aproximam, que a direita e os jornalistas, claro, questionassem Carlos Moedas e outros candidatos a vereadores do PSD e da Iniciativa Liberal — do CDS e do Chega não será necessário porque a posição desses partidos é conhecida — sobre estes assuntos, para que os eleitores saibam exactamente com o que podem contar.

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COMENTÁRIOS (de 42)

Tomazz Man: Propostas equilibradas, o que destoa em tempos de gritaria.                 Rui Lima: Devia haver verdade onde  os wokes espalham a mentira, tive de explicar a um adolescente que estava convencido que se houve escravatura feita pelo o europeu pela nossa civilização, quando a escravatura existe desde os tempos antigos praticamente desde que existem civilizações organizadas. Povos como os sumérios, egípcios, gregos, romanos, chineses, árabes e muitos outros praticaram formas de escravatura muito antes da expansão europeia isto deve ser ensinado.             Velha do Restelo: Excelente, como de costume! Obrigada!                      Tristão: O museu da escravatura seria mais completo se contasse a história da escravatura no seu todo, ou seja, desde dos tempos imemoriais, para que não se ficasse com a ideia, errada, que os descobrimentos tivessem sido o detonador da escravatura que como se sabe isso é uma das grandes mentiras que nos querem impingir pela goela abaixo… Se for para auto-flagelação dos portugueses, não muito obrigado.     Tim do A: O museu da escravatura é uma imbecilidade.               Manuel Lisboa: Concordo em parte com João Pedro Marques; porém, julgo que se deverá ter atitude menos tolerante perante aqueles que julgam essencial um memorial ou, pior, um museu acerca da escravatura na capital portuguesa. Não é. Trata-se de matéria especialmente relevante para África para que os respectivos habitantes saibam como elites locais apoiaram e lucraram com a venda de populações vizinhas, ao longo de séculos, a europeus, como os portugueses e a outros de outras zonas do mundo. Sim, há muito que deveria existir um Museu Nacional dos Descobrimentos Portugueses em Lisboa; e, claro, o horroroso tráfico de escravos contemplado nesse contexto, obviamente pelas razões muito correctas evocadas pelo autor da crónica.                    vitor gonçalves: Caro Prof, acha que com a Balseiro Lopes ao leme do Ministerio, vai haver alguma abordagem que não seja woke? O processo já está inquinado a partida. Enquanto a direita não tomar conta da Academia, agora totalmente na "posse" da esquerda radical, o caminho para a desgraça é sempre a descer                   Fernando Magalhães: Subscrevo. Mas acredito também que se autorizarem que se crie um "monumento ao esclavagismo " antes da criação de um verdadeiro monumento aos Descobrimentos, este último nunca será criado. Isto porque se há algo que o wokismo nos ensinou é que quando se lhes dá uma mão eles não descansam enquanto não nos comerem o braço.                Carlos Chaves: Quando se mistura o bom senso com o saber do que se fala, temos artigos desta qualidade! Obrigado, caro João Paulo Marques. E já que falamos de museus é caso para usar o slogan do Alqueva… “construam-me porra” - Centro Interpretativo e Museu do Estado Novo – Museu Salazar, para quando?              Rui Lima > Manuel Lisboa: Terá razão até porque  em África já existe esses museus onde já estive, e lamento dizê-lo a mensagem  está longe da verdade, perguntei porque nada havia sobre  Dona Ana Joaquina, a grande personagem da escravatura, mulher mais rica de África dinheiro feito com venda de escravos, porque não fizeram do Palácio de Dona Ana Joaquina, no centro histórico de Luanda o museu, talvez porque davam a conhecer as responsabilidades das elites africanas.               Américo Silva: A UE vai subvencionar a vinha na África do Sul com 15 milhões de euros, e isentar de direitos 35,3 milhões de litros daquele país em concorrência com os produtores europeus, com o pretexto de apoiar a inclusão de negros e mulheres, quando a produção está em crise e o consumo baixa. Serão reparações?, ou os senhores a escravizar a classe média?, democracia não é de certeza.       Lourenço Sousa Machado de Almeida: O mudeu da escravatura - actividade que existiu em todo o mundo e desde sempre - em Portugal devia em primeiro lugar, referir todos os escravos portugueses e dos antepassados dos portugueses que romanos, vikings, muçulmanos de várias espécies, desde os do levante, norte de áfrica até aos que nos colonizaram durante mais tempo do que nós colonizámos qualquer outro lugar. Depois devia exaltar o nosso papel e esforços par acabar com a escravatura, em parte por pressão dos ingleses mas ainda assim, à frente de boa parte do mundo. E finalmente, referir os desgraçados que foram escravizados pelos antepassados dos actuais africanos, explorados pelos antepassados dos actuais brasileiros e que alguns portugueses transportaram desde quem os capturou e vendeu em África até quem os comprou e explorou na América!                Coxinho: Mas o museu transformou-se agora em arma política da esquerdopatia ??                Manuel Ferreira21: Professor, a ignorância é muito atrevida. Se fosse dono de um canal dáva-lhe uma hora semanal de televisão para dar cultura aos esquerdarlhos.               JM Azevedo: Concordo plenamente    Miguel Macedo: Muito bem!         Carlos Martins: Esse museu da escravatura já existe em Lagos, onde ocorreu o primeiro mercado em 1444.           Vítor Araújo: Até que André Ventura chegue a primeiro ministro, vivemos numa inércia de cancelamento difícil de parar, por isso irão florescer por aí museus da escravatura por todo o lado. Quanto ao museu dos descobrimentos em Lisboa, pode o cronista esperar sentado, ou então ir a Belmonte.

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