quarta-feira, 9 de julho de 2025

País alegre

 

De fado triste.

Autarcas (alguns) agarrados ao poder

As eleições autárquicas são uma oportunidade de descermos ao micro-cosmos do País. Que nos mostra contradições entre o discurso e a prática.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR,08 jul. 2025, 00:2218

Há várias décadas, poucos anos passados do 25 de Abril, víamos murais – em geral da iniciativa do PCP – que nos mostravam, em campanha eleitoral, o que o autarca tinha investido em matéria de infraestruturas de saneamento básico. Hoje a campanha faz-se a tapar buracos em estradas – nalguns casos sem sequer se darem ao trabalho de investirem num tapete novo de alcatrão – e com festas e festanças.

Enquanto se gasta dinheiro em festas, a autarquia, em geral à volta de Lisboa, não tem uma boa recolha de lixo, as ruas estão sujas, as ervas são cortadas passados os prazos para os privados, as tais infraestruturas de saneamento estão obsoletas e os transportes públicos municipais funcionam com problemas. Isto para não citar a falta de programas de combate ao insucesso escolar e às diversas iliteracias ou ainda iniciativas eficientes de integração de imigrantes. E, claro, a deficiente prestação de serviços para quem quer construir, por exemplo, habitação.

Se há áreas em que subsistem suspeitas, injustas dirão os protagonistas, de desperdício de recursos é sem dúvida a das autarquias.O trabalho de investigação do Observador, sobre o dinheiro que as autarquias gastaram em concertos nos últimos três meses – 18 milhões de euros –, é bem revelador do que se passa. O problema não é o dinheiro que se gasta a dar concertos, é a questão de saber se esses recursos não teriam uma aplicação alternativa mais importante, útil e produtiva para os cidadãos. Dirão que os concertos são um apoio à cultura popular. Sem dúvida que sim, mas o ponto aqui é a dimensão dos gastos e o seu custo de oportunidade o que se deixa de fazer para fazer tanto concerto.

Dir-se-á que as necessidades básicas estão satisfeitas. Sim, as necessidades básicas que são super-visíveis, como a ligação das casas aos esgotos, água canalizada e electricidade estão, em geral, satisfeitas. Falta o que não é visível. Um dos exemplos está na batalha que tem sido travada por Macário Correia que nos diz que, “se no Algarve não existissem ruturas nas redes municipais, a água era 30% mais barata”. Há, afirma, 25 hectómetros de água por ano, que davam para regar oito mil hectares, que vão para o lixo. Tudo isto porque os autarcas não investem na rede. E porquê? Porque são investimentos que não se vêem até ao dia do colapso.

Sendo justos, primeiro Fernando Medina e agora Carlos Moedas estão a investir no que não se vê para combater as inundações em Lisboa. Porque não se fazem esses investimentos, necessários, mas não visíveis? Dá muito trabalho explicar às populações a sua importância? Não é por falta de comunicação, a crer até no que algumas autarquias gastam nela. Vejam-se as buscas recentes da PJ à Câmara do Barreiro que estarão relacionados com contratos de comunicação. Mas é mais fácil divertir o povo.

Os autarcas podiam dar um contributo determinante para uma hierarquia de valores que apostasse mais no conteúdo do que na forma, mas boa parte deles prefere ser um político que vai com a maré, sem visão nem objectivos de desenvolvimento económico, social e mesmo cultural. Um caminho com o qual os partidos são por vezes cúmplices.

Veja-se o exemplo do presidente da Câmara Municipal de Vizela, investigado por violência doméstica contra a mulher – que teve de ir ao hospital com várias escoriações, entre elas o nariz partido. Apesar de um primeiro arquivamento, o Ministério Público reabriu o processo. O PS, partido a que pertence, retirou-lhe o apoio, mas as estruturas locais consideraram a decisão precipitada, votaram a favor da recandidatura de Vítor Hugo Salgadocerca de 200 pessoas e 195 votaram a favor. E o ainda presidente vai, aparentemente, avançar com uma candidatura independente.

Se nos contassem este caso sem conhecermos o seu desfecho diríamos que todos se tinham unido contra a recandidatura do autarca de Vizela, levando até em conta as juras de combate à violência doméstica. Mas, e aparentemente, ninguém quis sacrificar a expectativa de que “bater na mulher” não tira votos em nome de valores. É talvez um dos exemplos recentes que nos coloca, de forma mais violenta, em frente do que alguns políticos acham que são os valores daqueles eleitores – se calhar com razão – e a disponibilidade que têm de atirar os valores para o lixo em nome do poder.

E quando não se está disponível para defender valores fundamentais, como o combate à violência doméstica, temos legitimidade para imaginar o que estão alguns políticos disponíveis para fazer – ou não fazer – em matérias menos importantes, mas extraordinariamente necessárias para o desenvolvimento da região e até do país.

Claro que nem todos os autarcas são iguais. O que nos aparem nas notícias não são em geral os melhores – é a lógica da notícia, só quando o homem morde o cão se pode chamar notícia. Mas a falta de investimentos em áreas fundamentais como a gestão de resíduos, a modernização das infraestruturas de saneamento básico, os transportes públicos, a educação e até a segurançaagora na moda – mostra-nos que precisamos de autarcas com mais visão e menos agarrados ao poder. Não estamos a falar em mudar o povo, mas em trabalhar para aquilo de que o povo precisa, para o desenvolvimento do país. E com uma acção que una o discurso à prática.

PS: Uma versão anterior deste artigo foi corrigida nas suas gralhas. As minhas desculpas aos leitores.

ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS      POLÍTICA

COMENTÁRIOS  (de 18)

Carlos Chaves: Cara Helena Garrido, a culpa é nossa só nossa, dos eleitores! Autarcas que assim agem, sejam de que partido forem, não deviam ser reeleitos, ponto!                        Maria Cabral: Há um viés de avaliação do trabalho de um autarca. O Autarca não investe. Quem investe é o contribuinte, o cidadão. O Autarca é apenas um funcionário, ou seja é nosso empregado. Devíamos por isso obrigá-lo a cumprir tudo, mas mesmo tudo o que promete fazer. Chamam-se objectivos. Não cumpre? é substituído juntamente com a sua equipa. Lesa o cidadão? Devolve cada cêntimo. Por que razão o poder autárquico é exercido por partidos? Porque não serem realmente os cidadãos empenhados, sem ligações ao poder central?                 Afonso Soares: Com papas, FESTAS e bolos se enganam os tolos. Isto não pode chegar mais baixo " 18 milhões de euros gastos em festas somente em três meses". Mas o povo gosta porque ninguém questiona. É caso para dizer a minha festa é maior que a tua. Com tantos problemas para resolver gasta -se dinheiro em festas e fica tudo na mesma. Ninguém questiona. Tal povo merece tais autarcas. Mas votar em quem quando todos têm esta mentalidade. Aplica-se o ditado " POBRETE MAS ALEGRETE".                     Manuel Magalhaes: Dizer que Medina se preocupou com as obras que não dão visibilidade vou ali e já venho, Medina fez tudo para que as suas obras tivessem visibilidade, vejam-se a quantidade enorme de alterações que fez nas principais vias de Lisboa, árvores plantadas vias para ciclistas onde poucos por lá passam e dificultam o trânsito etc, etc, é a costela ou o complexo de esquerda da autora…                 Carlos Chaves > Joseluis Salema: Na mouche! Fazem-se escolas, hospitais, centros de saúde… e a manutenção dos equipamentos fica para as calendas… muitas vezes à custa da saúde pública! Aos privados, empresas, hospitais, centros comerciais etc… tudo é exigido (e neste caso bem), nas instalações públicas que se lixe!             Jose luis Salema:O problema nacional é que ninguém sabe o que é fazer manutenção. Manutenção de tudo! A começar pelas ruas das cidades e estradas de Portugal. O problema da rede de água é, exactamente, esse. Há cinquenta anos!

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