De fado triste.
Autarcas (alguns) agarrados ao poder
As eleições
autárquicas são uma oportunidade de descermos ao micro-cosmos do País. Que nos
mostra contradições entre o discurso e a prática.
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR,08
jul. 2025, 00:2218
Há várias décadas, poucos anos
passados do 25 de Abril, víamos murais – em geral da iniciativa do PCP – que
nos mostravam, em campanha eleitoral, o que o autarca tinha investido em
matéria de infraestruturas de saneamento básico. Hoje a
campanha faz-se a tapar buracos em estradas – nalguns casos sem sequer se darem
ao trabalho de investirem num tapete novo de alcatrão – e com festas e festanças.
Enquanto se gasta dinheiro em festas, a autarquia, em geral à volta
de Lisboa, não tem
uma boa recolha de lixo, as ruas estão sujas, as ervas são cortadas passados os
prazos para os privados, as tais infraestruturas de saneamento estão obsoletas
e os transportes públicos municipais funcionam com problemas. Isto para
não citar a falta de programas de combate ao insucesso escolar e às diversas
iliteracias ou ainda iniciativas eficientes de integração de imigrantes. E,
claro, a deficiente prestação de serviços para quem quer construir, por
exemplo, habitação.
Se há áreas em que subsistem
suspeitas, injustas dirão os protagonistas, de desperdício de recursos é sem
dúvida a das autarquias.O trabalho de investigação do Observador, sobre o
dinheiro que as autarquias gastaram
em concertos nos últimos três meses
– 18 milhões de euros –, é bem revelador do que se passa. O
problema não é o dinheiro que se gasta a dar concertos, é a questão de saber se
esses recursos não teriam uma aplicação alternativa mais importante, útil e
produtiva para os cidadãos. Dirão que os
concertos são um apoio à cultura popular. Sem dúvida que sim, mas o ponto aqui
é a dimensão dos gastos e o seu custo de oportunidade – o que se
deixa de fazer para fazer tanto concerto.
Dir-se-á que as necessidades básicas
estão satisfeitas. Sim, as
necessidades básicas que são super-visíveis, como a
ligação das casas aos esgotos, água canalizada e electricidade estão, em geral, satisfeitas. Falta o
que não é visível. Um dos
exemplos está na batalha que tem sido travada por
Macário Correia
que nos diz que, “se no Algarve não existissem ruturas nas redes municipais, a
água era 30% mais barata”. Há, afirma, 25 hectómetros de água
por ano, que davam para regar oito mil hectares, que vão para o lixo. Tudo isto porque os autarcas não investem
na rede. E porquê? Porque são investimentos que não se vêem até ao dia do
colapso.
Sendo justos, primeiro Fernando Medina e agora Carlos Moedas estão a investir no que
não se vê para combater as inundações em Lisboa. Porque não se fazem esses
investimentos, necessários, mas não visíveis? Dá muito trabalho explicar às populações
a sua importância? Não é por falta de comunicação, a crer até no que algumas
autarquias gastam nela. Vejam-se as buscas recentes da PJ à Câmara do Barreiro
que estarão relacionados com contratos
de comunicação. Mas é mais fácil divertir o povo.
Os autarcas podiam dar um contributo
determinante para uma hierarquia de valores que apostasse mais no conteúdo do
que na forma, mas boa parte deles prefere ser um político que vai com
a maré, sem visão nem objectivos
de desenvolvimento económico, social e mesmo cultural. Um
caminho com o qual os partidos são por vezes cúmplices.
Veja-se o exemplo do presidente
da Câmara Municipal de Vizela, investigado
por violência doméstica contra a mulher – que teve de ir ao hospital com várias
escoriações, entre elas o nariz partido. Apesar de um primeiro
arquivamento, o Ministério Público reabriu o processo. O PS, partido a que
pertence, retirou-lhe o apoio, mas as estruturas locais consideraram a decisão
precipitada, votaram a favor da recandidatura de Vítor Hugo Salgado – cerca de 200
pessoas e 195 votaram a favor. E o ainda presidente vai,
aparentemente, avançar com uma candidatura independente.
Se nos contassem este caso sem
conhecermos o seu desfecho diríamos que todos se tinham unido contra a
recandidatura do autarca de Vizela, levando até em conta as juras de combate à
violência doméstica. Mas, e aparentemente, ninguém quis sacrificar a
expectativa de que “bater na
mulher” não tira votos em nome de valores. É talvez um dos exemplos recentes que
nos coloca, de forma mais violenta, em frente do que alguns políticos
acham que são os valores daqueles eleitores – se calhar com razão – e a
disponibilidade que têm de atirar os valores para o lixo em nome do poder.
E quando não se está disponível para defender valores fundamentais,
como o combate à
violência doméstica, temos
legitimidade para imaginar o que estão alguns políticos disponíveis para fazer
– ou não fazer – em matérias menos importantes, mas extraordinariamente
necessárias para o desenvolvimento da região e até do país.
Claro que nem todos os autarcas são
iguais. O que nos aparem nas notícias não são em geral os melhores – é a
lógica da notícia, só quando o homem
morde o cão se pode chamar notícia. Mas a falta
de investimentos em áreas fundamentais como a gestão de resíduos, a modernização
das infraestruturas de saneamento básico, os transportes públicos, a educação e
até a segurança – agora na moda – mostra-nos que precisamos
de autarcas com mais visão e menos agarrados ao poder. Não estamos a falar em mudar o povo, mas em trabalhar para aquilo de que
o povo precisa, para o desenvolvimento do país. E com uma acção que una o discurso à
prática.
PS: Uma versão anterior deste artigo foi
corrigida nas suas gralhas. As minhas desculpas aos leitores.
COMENTÁRIOS (de
18)
Carlos Chaves: Cara Helena Garrido, a culpa é
nossa só nossa, dos eleitores! Autarcas que assim agem, sejam de que partido
forem, não deviam ser reeleitos, ponto! Maria
Cabral: Há um viés de avaliação do trabalho de um autarca. O Autarca não investe.
Quem investe é o contribuinte, o cidadão. O Autarca é apenas um funcionário, ou
seja é nosso empregado. Devíamos por isso obrigá-lo a cumprir tudo, mas mesmo
tudo o que promete fazer. Chamam-se objectivos. Não cumpre? é substituído
juntamente com a sua equipa. Lesa o cidadão? Devolve cada cêntimo. Por que
razão o poder autárquico é exercido por partidos? Porque não serem realmente os
cidadãos empenhados, sem ligações ao poder central? Afonso
Soares: Com papas, FESTAS e bolos se enganam os tolos. Isto não pode chegar mais
baixo " 18 milhões de euros gastos em festas somente em três meses". Mas o povo gosta
porque ninguém questiona. É caso para dizer a minha festa é maior que a tua.
Com tantos problemas para resolver gasta -se dinheiro em festas e fica tudo na
mesma. Ninguém questiona. Tal povo merece tais autarcas. Mas votar em
quem quando todos têm esta mentalidade. Aplica-se o ditado " POBRETE MAS
ALEGRETE". Manuel
Magalhaes: Dizer que Medina se preocupou com as obras que não dão visibilidade vou ali
e já venho, Medina fez tudo para que as suas obras tivessem visibilidade,
vejam-se a quantidade enorme de alterações que fez nas principais vias de
Lisboa, árvores plantadas vias para ciclistas onde poucos por lá passam e
dificultam o trânsito etc, etc, é a costela ou o complexo de esquerda da
autora… Carlos
Chaves > Joseluis Salema: Na mouche! Fazem-se escolas,
hospitais, centros de saúde… e a manutenção dos equipamentos fica para as
calendas… muitas vezes à custa da saúde pública! Aos privados, empresas,
hospitais, centros comerciais etc… tudo é exigido (e neste caso bem), nas
instalações públicas que se lixe! Jose luis Salema:O problema nacional é que ninguém
sabe o que é fazer manutenção. Manutenção de tudo! A começar pelas ruas das
cidades e estradas de Portugal. O problema da rede de água é, exactamente,
esse. Há cinquenta anos!
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