Espiritual, naturalmente. Criado por quem se julga com direito a
transmitir o seu pão, de uma farinha imaginária, de cariz especificamente
modelador de mentes, condimentada não de sal ático, há muito diluído nos
escaninhos do repúdio ou mesmo da indiferença insciente, mas do linguajar
palrador da farfalheira geral, feita de aparato e fofoquice que evidentemente
não quadram à seriedade intelectual de ALBERTO GONÇALVES.
Os papagaios que dão a mão
Impõem-se duas perguntas. Porque é que os “media” não investigam a
origem da propaganda pessimamente disfarçada de opinião? E porque é que
convidam criaturas cuja opinião é propaganda escancarada?
ALBERTO GONÇALVES Colunista do OBSERVADOR
OBSERVADOR26 jul. 2025, 00:201
O desastre nas urnas, a oposição
forçada e um futuro nebuloso provocam desnortes espectaculares. A cada
semana, a esquerda inventa uma polémica. Na que agora acaba, foram as
alterações na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Na anterior, as
barracas de Loures. Na anterior a essa, a Lei da Nacionalidade e a relação do
governo com o Chega. É possível que a próxima polémica, que já se esboça, seja
a nomeação de Álvaro Santos Pereira para governador do Banco de Portugal. Ou
outra que se ponha a jeito, que a esquerda é óptima a simular escândalos.
Talvez
por serem simulados, a característica mais evidente e engraçada dos escândalos
é a reacção invariavelmente unânime dos comentadores ao serviço da esquerda,
incluindo muitos dos que se afirmam de “direita”. Falo
dos políticos que, por razões que escapam ao bom senso, são chamados a comentar
a actualidade, de profissionais do palpite que em teoria (mas não na prática)
vão às televisões e aos jornais comentar com “isenção” e de meros amadores espalhados
pelas redes sociais. O ponto é
que todos, sem excepção, dizem exactamente as mesmas coisas sobre os mesmos
assuntos. É quase fascinante. E é para lá de ridículo.
A título de exemplo, veja-se o
episódio da Cidadania. Com atraso e timidez, o governo anunciou a eliminação de
parte (parece que apenas de parte) das crendices “identitárias” dos currículos
na disciplina em questão. Num
ápice, avençados e voluntários da esquerda saltaram a repetir o carácter
retrógrado da medida. Retrógrado e fascista. Fascista e prejudicial: a medida
iria promover o “bullying” (?), aumentar a gravidez na adolescência, a
violência no namoro, a quantidade de abortos, a propagação de doenças
sexualmente transmissíveis, a ignorância dos jovens e a fome em Gaza.
A fome em Gaza fui eu que acrescentei
para exibir virtude humanitária e a dose de “anti-sionismo” recomendada pela
ONU. O
resto é inteirinho da autoria daquela gente, que sem excepção enumerou alínea
por alínea, sílaba a sílaba, os cataclismos inspirados pela remoção do
“wokismo” nas escolas. Sucede que é tudo mentira. Nos seis ou sete anos em que o ensino
público esteve forçado a informar os petizes de que o sexo biológico é uma
“construção social”, o “bullying” (que, seja o que for, vinha em declínio até
2018), a violência no namoro e as doenças sexualmente transmissíveis
difundiram-se com empenho. Os demais items ou mantiveram-se imperturbáveis ou,
na gravidez das raparigas (os rapazes, para desmaio dos negacionistas da
ciência, não menstruam), vêm diminuindo há décadas.
Em suma, na melhor das hipóteses os
“conteúdos” folclóricos da Cidadania não tiveram nenhuma influência nos alunos,
logo a sua ausência não poderá ter as consequências terríveis que o
“komentariado” da esquerda garante. Na pior das hipóteses, o folclore foi nocivo e a sua
ausência será benéfica. Em qualquer dos casos, ao prever o
Apocalipse o “komentariado” da esquerda mentiu. Mentiu ou enganou-se, não
importa. O que importa é que mentiu ou se enganou em uníssono e perfeita
harmonia. Os factos estatísticos estão por aí, ao alcance de quem quiser
consultá-los. No tema da
Cidadania, à semelhança do chinfrim que produz a pretexto dos temas que calha,
o “komentariado” não se deixa tolher por factos e não consulta estatísticas. O
que é que o “komentariado” consulta então?
A sincronia entre centenas de
opinadores não é fácil. E se é legítimo imaginar que, além dos “bots” e das
páginas falsas, as patentes baixas de serviçais se limitam a espreitar o que os
seus superiores proclamam para imitá-los de seguida, não é plausível tamanho
consenso no disparate por parte dos que têm voz nos “media”. Seria plausível se
os disparates fossem sortidos e mutuamente contraditórios. Não são. São sempre
idênticos, tão idênticos e afinados que exigem combinação prévia. Suponho que
meia-dúzia de “grupos” no WhatsApp são
indispensáveis ao exercício. Antes da
intervenção na Sic Notícias ou de amanhar a crónica no “Expresso”, o opinador
vai ao telemóvel perscrutar a opinião dos pares de modo a perceber qual é a
opinião dele. Assegurado de
que a demolição das barracas é um acto racista e xenófobo e de que a nomeação
de Álvaro Santos Pereira se inscreve num projecto de conquista do aparelho
estatal, o opinador entra em estúdio ou debruça-se no teclado do computador com
teses claras, alucinadas e iguaizinhas às dos parceiros.
O problema é que nada costuma
nascer espontaneamente, como se acreditava sobre as bichezas na era
pré-Pasteur. Os consensos também não nascem assim. Sou capaz de apostar, e de
ganhar a aposta, de que há alguém ou um conjunto de alguéns a decidir qual a “narrativa”
(peço imensa desculpa pelo uso da palavra no contexto em causa, em que sofre de
estafa e suscita-me repulsa) a adoptar. A
“narrativa” (sinto um princípio de náusea) não cai do céu: cai decerto de uma
sede partidária, de uma “agência de comunicação”, de uma ou cinco cabeças
contratadas para conceber as patranhas ditadas nos “grupos” de WhatsApp ou em
mesas de restaurantes. E os papagaios, agradecidos, engolem-nas.
Impõem-se duas perguntas. Porque é
que os “media” não investigam a origem da propaganda pessimamente disfarçada de
opinião? E
porque é que os “media” convidam criaturas cuja opinião é propaganda
escancarada? A resposta a ambas é comum, óbvia e, julgo, conhecida de todos.
Nota: Esta coluna vai de férias durante as próximas duas semanas. A coluna
regressa a 16 de Agosto. E eu também.
COMUNICAÇÃO SOCIAL MEDIA SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 10)
Paulo Maio: Muito bem! Boas férias, Alberto.
Ruço Cascais: Os tipos da propaganda de esquerda
são os mesmos que pagam com o dinheiro dos nossos impostos 15.000 euros por
mês, segundo a Rita Matias, à Catarina Furtado para fazer não sei o quê. Vem
isto a propósito de uma notícia que li mesmo agora sobre uma tal Helena Coelho,
antiga apresentadora da RTP, que veio a público defender o salário, que no seu
entender é pouco, pago pela RTP (nós contribuintes) à Catarina Furtado. Entre
outras coisas disse ou escreveu: a) A figura da Catarina e o que ela representa
pela sua contribuição humanitária, pelos valores sociais e pela igualdade de
género, é um exemplo que deve ser mantido como cara de uma estação pública. Uma
justificação que não lembra ao diabo, algo só semelhante à Lei desenhada há uns
anos para as pensões vitalícias (o sustento de José Sócrates e dos seus
advogados) aos deputados ao fim de dois mandatos. b) O salário da Catarina
Furtado é significativamente inferior ao que um/a apresentador/a do seu
prestígio ganha nas estações privadas. Quem paga o Goucha não são os contribuintes
portugueses. Em jeito de conclusão diria que uma das fontes para a propaganda
da esquerda é a RTP que está completamente minada. Urge formatar toda a RTP e
correr, como é óbvio, com as Catarinas Furtados que ninguém percebe o que andam
lá a fazer.
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