domingo, 20 de julho de 2025

Cowboyadas


Quer as antigas, da filmografia da revisão saudosista, quer as dos novos espaços dessas Américas despertas para outras tantas cowboyadas, estas já de expansão global, se bem ponderarmos, embora sem idêntico propósito de distinguir os bons e os maus da fita, como no enredo fílmico, o actual, bem real, assumindo-se em valores mais decisivamente isentos da dignificação moral que a cinematografia valorizava, e hoje, num mundo sombriamente tortuoso, o crime faz escalada impune e o medo e a subserviência se irmanam ante a arrogância vaidosa dos pergaminhos de alguns, e mesmo criminosa nos seus propósitos absorventes do poder bestial, livre de qualquer prurido ético, como se tem visto. JAIME NOGUEIRA PINTO nos esclarece, através das evocações fílmicas do seu regozijo antigo, pessimistas, naturalmente, a respeito do enredo actual, condenavelmente real, e sem paralelo, dada a dimensão trazida pelo progresso humano, centrado, para mais hoje, na tal inteligência artificial, certamente que destituída de valores morais, de uma catástrofe previsível, apelativa – quem sabe? - de um novo dilúvio universal à maneira da tradição bíblica, do nosso espanto– e encanto - maiores. Mas são pruridos pessoais meus, que pouco significam, perante a brilhante síntese das cowboyadas antigas, que JAIME NOGUEIRA PINTO tão bem sintetiza na sua crónica “ENTRE ÍNDIOS E COWBOYS” que fizeram bela caminhada naqueles tempos que eu também vivi, sem tanta penetração, naturalmente, e lhe servem para o reviver de encanto, como aqui bem demonstrou, e paralelamente, os seus comentadores.

 

Entre índios e cowboys

É outra América? Outro mundo? Não vejo que estejamos assim tão longe do som e da fúria destes mundos aparentemente simplistas de bons e maus. E não só na América.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 19 jul. 2025, 00:1825

Dei, ultimamente, em ver – ou rever – westerns. Não porque o mundo da maioria dos jornalistas, comentadores e políticos da nossa e de outras praças não evoque uma daquelas ruas únicas do faroeste, sempre com a mesma prisão, o mesmo saloon, o mesmo banco, os mesmos bons e os mesmos maus… mas porque, ainda assim, prefiro as coboiadas propriamente ditas. Sempre são mais subtis e abertas a outras pradarias, desfiladeiros e horizontes.

No meu Porto natal, as personagens principais destas fitas eram, na narrativa dos miúdos da rua, “o artista, o cínico e o pai da gaja” (um quadro analítico com tanto de “incorrecto” como de conciso e esclarecedor). E havia ainda os índios, uma ameaçadora categoria à parte.

Os westerns não estão muito distantes, nos valores em jogo e na justiça, das tragédias gregas do século V. Mas, ao contrário das tragédias gregas, costumam acabar bem – o que é uma vantagem, tanto sobre as tragédias gregas como sobre a política doméstica, que não entretém tanto e que tende a acabar de forma nebulosa e medíocre, com o que ainda consegue estar de pé no país em fade out.

Índios maus

A inspiração primitiva para os filmes do Oeste vinha dos “Wild West Shows” de William Frederick Cody, “Buffalo Bill”, que popularizaram a imagem do índio mau e selvagem, que atacava os pioneiros dando gritos de guerra e não poupando os colonos. E em 1915, o célebre filme de David W. Griffith The Birth of a Nation, era uma apologia da Confederação, sendo o herói, “o artista”, do Ku Klux Klan.

Um dos primeiros westerns,The Great Train Robbery (1903) de Edwin S. Porter, era mudo, como era todo o cinema ao tempo. Assim, quando a fita metia índios, os índios não falavam (nem os brancos, incluindo os cowboys e os “artistas”). Mas os índios apareciam. John Ford, um dos grandes realizadores do género, mobilizou centenas de índios sioux, cheyenne e pawnee para Iron Horse (1924) – a história do comboio transcontinental. Em Stage Couch (1939), o filme já não era mudo, mas os índios – os apaches de Jeronimo – continuavam a falar pouco, limitando-se a ser ferozes.

Índias e cowboys

Além de índios, índias e cowboys, o western mitificou e romantizou sobretudo a conquista do Oeste, embora haja filmes sobre períodos anteriores, como The Far Horizons, que vi há pouco, com Fred Mc Murray e Charlton Heston.

The Far Horizons passa-se em 1803, por ocasião da compra da Louisiana à França pelo Presidente Jefferson, “o melhor negócio imobiliário desde o Paraíso Terrestre”, no dizer de um historiador americano. Foram mais de dois milhões de quilómetros quadrados, quase duplicando o território dos Estados Unidos, comprados por 15 milhões de dólares. Napoleão, primeiro cônsul de França, estava com problemas de liquidez e ofereceu o negócio aos americanos; Jefferson pôs James Monroe a negociar e Monroe aproveitou. The Far Horizons é a história da expedição, chefiada por Meriwether Lewis e William Clark, que Jefferson enviou, depois da compra da Louisiana, para explorar e mapear os novos territórios para Oeste e procurar chegar ao Pacífico. O filme de Rudolph Maté, com Fred Mc Murray e Charlton Heston nos papéis dos dois heróis e líderes da “maior saga americana”, é animado pela paixão de Clark (Charlton Heston) e da índia shoshone Sacugawea (Donna Reed), personagem decisiva na informação e mediação da expedição. Mas no final a índia é convencida pelo próprio Jefferson a não misturar as coisas e a deixar o homem branco em paz, apesar da paixão cruzada. Far Horizons é de 1955.

Outra solução é a sustentada em Broken Lance, um filme de Edward Dmytryk, que também revi há dias; aí há um rico fazendeiro, Matt Deveraux (Spencer Tracy), que casa com uma índia (Kathy Jurado) de quem tem um filho, Joe, que é o bom ou “o artista” da história, sendo os seus meios-irmãos mais velhos, brancos de primeira e dos quatro costados, “os cínicos” ou os maus da fita. A mexicana Kathy Jurado que fazia sempre de índia, terá dito que “o seu sonho era um dia fazer de mexicana”. A Lança Quebrada é de 1954.

A mudança

As coisas tinham começado a mudar a partir da Segunda Guerra Mundial. Nos anos da guerra, Hollywood mobilizava-se contra o Eixo, chegando mesmo a branquear o aliado soviético, a Rússia de Estaline. Havia que manter as devidas distâncias do etnocentrismo nazi tratando melhor, nas fitas do Oeste, os índios, os negros e os mexicanos.

Mas, como sempre, o pendor maniqueísta do puritanismo americano também aí criava índios bons e índios maus. Os bons eram os que se adaptavam à sociedade dos brancos americanos; os maus, os que recusavam a integração em nome da sua “indianidade”. O Último Apache, com Burt Lancaster, de olho azul, a fazer de apache num Oeste pós-guerras, é modelar dos altos e baixos da boa consciência de Hollywood. O realizador é Robert Aldrich, que realizou também Vera Cruz e, mais tarde, em 1967, Doze Indomáveis Patifes, que não tem nada que ver com índios, mas que conta com cowboys anti-nazis.

Ainda nos anos cinquenta, John Ford, em The Searchers, tem como protagonista e herói outra figura incontornável do Oeste: John Wayne, um actor que encarna de tal modo um tipo de personagem que quase se confunde com ele. Em The Searchers, Wayne é Ethan Edwards, um texano que vê a família raptada e massacrada pelos comanches e que procura resgatar as sobrinhas e vingar-se. Os índios comanches voltam ali a ser os clássicos guerreiros selvagens a cavalo, chefiados por um tal Scar. Ethan/Wayne persegue-os com os seus Texas Rangers e tem os comanches e os índios em geral em baixíssima consideração. Quando, ao fim de uma longa e aturada busca, encontra a sobrinha Debbie, raptada pelos comanches e criada por eles, e percebe que ela se quer manter fiel à nova identidade indígena, Ethan, desesperado, está disposto a ver-se livre dela. Mas no fim surpreende-nos, abraçando-a e acolhendo-a.

Índios bons e brancos (quase todos) maus

Depois de décadas de índios maus, Hollywood abraça o revisionismo identitário. Isto na segunda metade dos anos 60, o tempo da intensificação da luta pelos direitos civis, da divisão da sociedade americana com a Guerra do Vietname e de um novo Acordar afro-americano (que décadas depois, para desgraça de todos, incluindo da Esquerda, assumiria novos e desvirtuados contornos).

Este revisionismo hollywoodesco manifesta-se em filmes como Soldier Blue (1970), de Ralph Nelson, com a lindíssima Candice Bergen, ou Little Big Man, de Arthur Penn, com Dustin Hoffman e Faye Dunaway. Os maus são agora os brancos, os cowboys, a Cavalaria dos Estados Unidos; e os bons, os índios. Vinte anos depois, em 1990, com Dances with Wolves, Kevin Costner, realizador e actor, foi um dos poucos a conseguir para um western sete Óscares, incluindo o de melhor filme e de melhor realizador.

Dances with Wolves foi um êxito de bilheteira e está, quanto à percepção dos índios, dos brancos e da conquista do Oeste, no extremo oposto dos primeiros westerns. O tenente John Dunbar, num forte fronteiriço, além de se dar bem com os lobos, dá-se bem com os vizinhos sioux; e, mais do que isso, conhece, apaixona-se e casa com uma mulher branca criada pelos índios, filha do “xamã” da tribo. No filme, para fixar melhor a bondade dos índios, aparecem brancos maus em grande quantidade.

Entre brancos

Mas nem tudo nos westerns é conflito identitário. Há westerns quase sem índios, como Gunfight at the O.K. Corral, que acabei de rever.

O filme tem uma base histórica: a breve e célebre luta, em Tombstone, Arizona, entre os irmãos Earp, servidores da lei, ajudados pelo conhecido Doc Holliday, contra os fora-da-lei – os irmãos Clanton e McLaury. O filme é de 1957, de John Sturges, com um guião de Leon Uris e George Scullin. O elenco principal é de luxo – Burt Lancaster faz de Wyat Earp, Kirk Douglas de Doc Holliday e Rhonda Fleming de Laura Denbow, a enigmática jogadora.

É o western clássico, com cowboys bons e cowboys maus, jogo de poker fechado, batota, tiros, gado e cavalos a entrar e a sair daquelas cidades de uma só rua que vão do banco ao saloon e, em frente, do hotel à prisão.  E acaba bem, com o Burt Lancaster a ficar com a Rhonda Fleming.

É outra América? Outro mundo? Não vejo que estejamos assim tão longe do som e da fúria destes mundos aparentemente simplistas de bons e maus. E não só na América mas, também ou sobretudo, onde menos se espera. A agravante é só a falta de consciência disso ou a ilusão de alguns de estarem muito acima destes enredos “populistas”.

A SEXTA COLUNA      HISTÓRIA      CULTURA 

COMENTÁRIOS (de 25)

Nuno José: Nem de propósito: estava eu, todo John Wayne no sofá, a zappear como um cowboy moderno, quando aterro em 'Os Comancheros'. Cena clássica — os dois heróis brancos, o ‘artista’ e o ‘cínico’, chegam à fazenda devastada pelos ‘índios maus’. Nisto, passa a minha esposa, lança um olhar cirúrgico à TV e dispara sem pestanejar: ‘Estás a ver um filme politicamente incorreto!’ Fiquei ali, congelado, tipo Coiote depois de cair do penhasco — só me faltou o letreiro: 'ACME Cultural Sensitivity Department'. Senti-me um desenho animado, num remake woke do faroeste! Falta saber se ainda somos os heróis ou apenas figurantes no grande western do politicamente correcto.         João Floriano: Eu também sou fã de westerns e passando a publicidade, a NOS, posição 92, dedica o mês de Julho às cowboiadas e não só. Começou com filmes mais antigos, final da década de 40, início da década de 50 e vai por aí fora. Penso que irá acabar com os westerns spaguetti rodados no sul de Espanha no deserto de Tabernas. Esses não me dizem nada, mas dos referidos por Jaime Nogueira Pinto, «Far Horizons» é muito interessante. The Broken Lance tem como grande curiosidade Elvis Presley como protagonista. Elvis sempre quis fazer papéis de grande densidade dramática, muito diferentes do sex symbol das comédias com a Ann Margaret. Não conheço outro filme para além de Broken Lance e sinceramente não me impressionou. Ontem revi Will Penny com Charlton Heston, considerado um dos canastrões de Hollywood, activista pelo lobby das armas e um americano típico que bem podia ter feito o anúncio da Marlboro. Gosto sobretudo da interpretação de Donald Pleasence. Penso que o Último Comboio de Gun Hill também merece fazer parte da lista. Os westerns são a verdadeira catarse do cinema americano em que o bem vence o mal quer seja o índio quer seja o rico da cidade, quer seja o bandoleiro violento. No entanto se olharmos com atenção os westerns seguem também a história da colonização do Oeste, sobretudo a partir do final da Guerra Civil, as guerras com o México, a conquista do Oregon Trail, as brigas entre os criadores de gado que pretendiam colocar cercas, posteriormente vacas contra ovelhas. A narrativa é muito simples: o herói que muitas vezes é anti herói, os adjuvantes, os oponentes, a acção sem grandes complicações. Com o tempo o western tem-se modificado. O melhor exemplo é «Horizon» de Kevin Kostner. Dança com Lobos é um clássico. Há filmes que merecem ser vistos como «A mulher que caminha à frente» e «Homesman». 

Nenhum comentário: