Quer as antigas, da filmografia
da revisão saudosista, quer as dos novos espaços dessas Américas despertas para
outras tantas cowboyadas, estas já de expansão global, se bem ponderarmos,
embora sem idêntico propósito de distinguir os bons e os maus da fita, como no
enredo fílmico, o actual, bem real, assumindo-se em valores mais decisivamente
isentos da dignificação moral que a cinematografia valorizava, e hoje, num
mundo sombriamente tortuoso, o crime faz escalada impune e o medo e a subserviência
se irmanam ante a arrogância vaidosa dos pergaminhos de alguns, e mesmo
criminosa nos seus propósitos absorventes do poder bestial, livre de qualquer prurido
ético, como se tem visto. JAIME NOGUEIRA PINTO nos esclarece, através das evocações
fílmicas do seu regozijo antigo, pessimistas, naturalmente, a respeito do
enredo actual, condenavelmente real, e sem paralelo, dada a dimensão trazida
pelo progresso humano, centrado, para mais hoje, na tal inteligência
artificial, certamente que destituída de valores morais, de uma catástrofe previsível,
apelativa – quem sabe? - de um novo dilúvio universal à maneira da tradição bíblica,
do nosso espanto– e encanto - maiores. Mas são pruridos pessoais meus, que pouco
significam, perante a brilhante síntese das cowboyadas antigas, que JAIME
NOGUEIRA PINTO tão bem sintetiza na sua crónica “ENTRE ÍNDIOS E COWBOYS” que
fizeram bela caminhada naqueles tempos que eu também vivi, sem tanta
penetração, naturalmente, e lhe servem para o reviver de encanto, como aqui bem
demonstrou, e paralelamente, os seus comentadores.
Entre
índios e cowboys
É outra América? Outro mundo? Não
vejo que estejamos assim tão longe do som e da fúria destes mundos
aparentemente simplistas de bons e maus. E não só na América.
JAIME NOGUEIRA
PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 19
jul. 2025, 00:1825
Dei, ultimamente, em ver – ou rever – westerns.
Não porque o mundo da maioria dos jornalistas, comentadores e políticos da
nossa e de outras praças não evoque uma daquelas ruas únicas do faroeste, sempre
com a mesma prisão, o mesmo saloon, o mesmo banco, os mesmos bons e os mesmos
maus… mas porque, ainda assim,
prefiro as coboiadas propriamente ditas. Sempre são mais subtis e abertas a
outras pradarias, desfiladeiros e horizontes.
No meu Porto natal, as
personagens principais destas fitas eram, na narrativa dos miúdos da rua, “o
artista, o cínico e o pai da gaja” (um
quadro analítico com tanto de “incorrecto” como de conciso e esclarecedor).
E havia ainda os índios, uma ameaçadora categoria à parte.
Os westerns não estão muito distantes,
nos valores em jogo e na justiça, das tragédias gregas do século V. Mas, ao contrário das tragédias gregas,
costumam acabar bem – o que é uma vantagem, tanto sobre as tragédias
gregas como sobre a política doméstica, que
não entretém tanto e que tende a acabar de forma nebulosa e medíocre, com o que
ainda consegue estar de pé no país em fade out.
Índios maus
A inspiração primitiva para os filmes do
Oeste vinha dos “Wild West Shows”
de William Frederick Cody, “Buffalo Bill”, que popularizaram a imagem do índio
mau e selvagem, que atacava os pioneiros dando gritos de guerra e não poupando
os colonos. E em 1915, o célebre filme de David W. Griffith The Birth of a Nation, era uma apologia
da Confederação, sendo o herói, “o artista”, do Ku Klux Klan.
Um dos primeiros westerns,The Great Train
Robbery (1903) de Edwin S. Porter, era mudo, como era
todo o cinema ao tempo. Assim, quando
a fita metia índios, os índios não falavam (nem os brancos, incluindo os
cowboys e os “artistas”). Mas os índios apareciam. John Ford, um dos
grandes realizadores do género, mobilizou centenas de índios sioux,
cheyenne e pawnee para Iron
Horse (1924) – a
história do comboio transcontinental. Em Stage Couch (1939), o
filme já não era mudo, mas os índios – os
apaches de Jeronimo – continuavam a falar pouco, limitando-se a ser ferozes.
Índias e cowboys
Além de índios, índias e cowboys, o western mitificou e romantizou
sobretudo a conquista do Oeste, embora haja filmes sobre períodos anteriores, como The Far Horizons, que vi há pouco, com Fred Mc Murray e Charlton Heston.
The Far Horizons passa-se em
1803, por ocasião da compra da Louisiana à França pelo Presidente Jefferson, “o melhor negócio
imobiliário desde o Paraíso Terrestre”, no dizer de um historiador americano. Foram
mais de dois milhões de quilómetros quadrados, quase duplicando o território
dos Estados Unidos, comprados por 15 milhões de dólares. Napoleão, primeiro cônsul de França,
estava com problemas de liquidez e ofereceu o negócio aos americanos; Jefferson
pôs James Monroe a negociar e Monroe aproveitou. The Far
Horizons é a história
da expedição, chefiada por Meriwether Lewis e William Clark, que Jefferson
enviou, depois da compra da Louisiana, para explorar e mapear os novos
territórios para Oeste e procurar chegar ao Pacífico. O filme de
Rudolph Maté, com Fred Mc Murray e Charlton Heston nos papéis dos dois heróis e
líderes da “maior saga americana”, é
animado pela paixão de Clark (Charlton Heston) e da índia shoshone Sacugawea
(Donna Reed), personagem decisiva na informação e mediação da
expedição. Mas no final a índia é
convencida pelo próprio Jefferson a não misturar as coisas e a deixar o homem
branco em paz, apesar da paixão cruzada. Far Horizons é de 1955.
Outra solução é a sustentada em Broken
Lance, um filme de Edward Dmytryk, que também revi há dias; aí há um rico
fazendeiro, Matt Deveraux (Spencer Tracy), que casa com uma índia (Kathy
Jurado) de quem tem um filho, Joe, que é o bom ou “o artista” da história, sendo os seus meios-irmãos mais velhos, brancos
de primeira e dos quatro costados, “os cínicos” ou os maus da fita. A mexicana Kathy Jurado que fazia sempre
de índia, terá dito que “o seu sonho era um dia fazer de mexicana”. A Lança Quebrada é de 1954.
A mudança
As coisas tinham começado a mudar a partir da Segunda Guerra Mundial. Nos anos da guerra, Hollywood mobilizava-se contra o
Eixo, chegando mesmo a branquear o aliado soviético, a Rússia de Estaline. Havia que manter as devidas
distâncias do etnocentrismo nazi tratando melhor, nas fitas do Oeste, os
índios, os negros e os mexicanos.
Mas, como sempre, o pendor
maniqueísta do puritanismo americano também aí criava índios bons e índios
maus. Os
bons eram os que se adaptavam à sociedade dos brancos americanos; os maus, os
que recusavam a integração em nome da sua “indianidade”. O Último Apache, com Burt Lancaster, de olho azul, a fazer de apache num Oeste
pós-guerras, é modelar dos altos e
baixos da boa consciência de Hollywood. O realizador é Robert Aldrich, que realizou também Vera Cruz e,
mais tarde, em 1967, Doze Indomáveis Patifes, que não tem nada que ver com índios, mas
que conta com cowboys anti-nazis.
Ainda nos anos cinquenta, John Ford, em
The Searchers,
tem como protagonista e herói outra figura incontornável do Oeste: John Wayne, um actor que encarna de tal modo um tipo
de personagem que quase se confunde com ele. Em The
Searchers, Wayne
é Ethan Edwards, um texano que vê a família raptada e massacrada pelos
comanches e que procura resgatar as sobrinhas e vingar-se. Os índios comanches voltam ali a ser os
clássicos guerreiros selvagens a cavalo, chefiados por um tal Scar. Ethan/Wayne
persegue-os com os seus Texas Rangers e tem os comanches e os índios em geral
em baixíssima consideração. Quando, ao fim de uma longa e aturada busca,
encontra a sobrinha Debbie, raptada pelos comanches e criada por eles, e percebe que ela se quer manter fiel à
nova identidade indígena, Ethan, desesperado, está disposto a ver-se livre
dela. Mas no fim surpreende-nos, abraçando-a e acolhendo-a.
Índios bons e brancos (quase todos) maus
Depois
de décadas de índios maus, Hollywood abraça o revisionismo identitário. Isto na
segunda metade dos anos 60, o tempo da intensificação da luta pelos direitos
civis, da divisão da sociedade americana com a Guerra do Vietname e de um novo
Acordar afro-americano (que décadas depois, para desgraça de todos, incluindo
da Esquerda, assumiria novos e desvirtuados contornos).
Este
revisionismo hollywoodesco manifesta-se em filmes como Soldier Blue (1970), de Ralph Nelson, com a lindíssima Candice Bergen,
ou Little Big Man, de Arthur Penn, com Dustin Hoffman e Faye
Dunaway. Os maus são agora os brancos, os cowboys, a Cavalaria
dos Estados Unidos; e os bons, os índios. Vinte
anos depois, em 1990, com Dances with
Wolves, Kevin
Costner, realizador e actor, foi um dos poucos a conseguir para um western sete
Óscares, incluindo o de melhor filme e de melhor realizador.
Dances with Wolves foi um
êxito de bilheteira e está, quanto à
percepção dos índios, dos brancos e da conquista do Oeste, no extremo oposto
dos primeiros westerns. O tenente John Dunbar, num forte fronteiriço,
além de se dar bem com os lobos, dá-se bem com os vizinhos sioux; e, mais do
que isso, conhece, apaixona-se e casa com uma mulher branca criada pelos
índios, filha do “xamã” da tribo. No
filme, para fixar melhor a bondade dos índios, aparecem brancos maus em grande
quantidade.
Entre brancos
Mas nem tudo nos westerns é conflito
identitário. Há westerns quase sem índios, como Gunfight
at the O.K. Corral, que acabei de rever.
O filme tem uma base histórica: a breve e célebre luta, em Tombstone,
Arizona, entre os irmãos Earp, servidores da lei, ajudados pelo conhecido Doc
Holliday, contra os fora-da-lei – os irmãos Clanton e McLaury. O filme
é de 1957, de John Sturges,
com um guião de Leon Uris e George Scullin. O elenco principal é de luxo – Burt Lancaster faz de Wyat Earp, Kirk
Douglas de Doc Holliday e Rhonda Fleming de Laura Denbow, a enigmática jogadora.
É
o western clássico, com cowboys bons e cowboys maus, jogo de poker fechado,
batota, tiros, gado e cavalos a entrar e a sair daquelas cidades de uma só rua
que vão do banco ao saloon e, em frente, do hotel à prisão. E acaba bem,
com o Burt Lancaster a ficar com a Rhonda Fleming.
É outra América? Outro mundo? Não vejo que estejamos assim tão longe
do som e da fúria destes mundos aparentemente simplistas de bons e maus. E não
só na América mas, também ou sobretudo, onde menos se espera. A agravante é só
a falta de consciência disso ou a ilusão de alguns de estarem muito acima destes
enredos “populistas”.
A SEXTA COLUNA HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 25)
Nuno José: Nem de propósito: estava eu,
todo John Wayne no sofá, a zappear como um cowboy moderno, quando aterro em 'Os
Comancheros'. Cena clássica — os dois heróis brancos, o ‘artista’ e o ‘cínico’,
chegam à fazenda devastada pelos ‘índios maus’. Nisto, passa a minha esposa,
lança um olhar cirúrgico à TV e dispara sem pestanejar: ‘Estás a ver um filme
politicamente incorreto!’ Fiquei ali, congelado, tipo
Coiote depois de cair do penhasco — só me faltou o letreiro: 'ACME Cultural
Sensitivity Department'. Senti-me um desenho animado, num remake woke do
faroeste! Falta saber se ainda somos os heróis ou apenas figurantes no grande
western do politicamente correcto. João
Floriano: Eu também sou fã de westerns e passando a publicidade, a NOS, posição 92,
dedica o mês de Julho às cowboiadas e não só. Começou com filmes mais antigos,
final da década de 40, início da década de 50 e vai por aí fora. Penso que irá acabar
com os westerns spaguetti rodados no sul de Espanha no deserto de Tabernas.
Esses não me dizem nada, mas dos referidos por Jaime Nogueira Pinto, «Far
Horizons» é muito interessante. The Broken Lance tem como grande curiosidade
Elvis Presley como protagonista. Elvis sempre quis fazer papéis de grande
densidade dramática, muito diferentes do sex symbol das comédias com a Ann
Margaret. Não conheço outro filme para além de Broken Lance e sinceramente não
me impressionou. Ontem revi Will Penny com Charlton Heston, considerado um dos
canastrões de Hollywood, activista pelo lobby das armas e um americano típico
que bem podia ter feito o anúncio da Marlboro. Gosto sobretudo da interpretação
de Donald Pleasence. Penso que o Último Comboio de Gun Hill também merece fazer
parte da lista. Os westerns são a verdadeira catarse do cinema americano em
que o bem vence o mal quer seja o índio quer seja o rico da cidade, quer seja o
bandoleiro violento. No entanto se olharmos com atenção os westerns
seguem também a história da colonização do Oeste, sobretudo a partir do final
da Guerra Civil, as guerras com o México, a conquista do Oregon Trail, as
brigas entre os criadores de gado que pretendiam colocar cercas, posteriormente
vacas contra ovelhas. A narrativa é muito simples: o herói que muitas vezes é
anti herói, os adjuvantes, os oponentes, a acção sem grandes complicações. Com
o tempo o western tem-se modificado. O melhor exemplo é «Horizon» de Kevin
Kostner. Dança com Lobos é um clássico. Há filmes que merecem ser vistos como
«A mulher que caminha à frente» e «Homesman».
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