Deste nosso, comezinho, desabrido e sujeito a condenação própria e alheia,
dançarinos que somos na corda bamba do nosso circo político ou pessoal tantas
vezes perverso e tosco.
Uma leitura de Camilo Pessanha, encantatória, no jogo das suas astúcias
verbais, em que os sons das palavras e frases repetidas são transparentes dos
universos - interior e exterior – de contrastes, salpicos do seu mundo simbólico,
que os sentidos atentos descobrem inutilmente belo, para uma alma joguete do
seu amargor e solidão, de contraste irónico com essa realidade captada, que o
jogo fónico dos sons verbais tão expressivamente traduz. Extraordinária escrita
intimista, ironicamente traçada, na sua captação das realidades,
simultaneamente externa e interior!
Foi
um dia de inúteis agonias.
Dia de sol, inundado de sol!...
Fulgiam nuas as espadas frias...
Dia de sol, inundado de sol!...
Foi um dia de falsas alegrias.
Dália a esfolhar-se, _o seu mole sorriso...
Voltavam ranchos das romarias.
Dália a esfolhar-se, _o seu mole sorriso...
Dia impressível mais que os outros dias.
Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!...
Difuso de teoremas, de teorias...
O dia fútil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias...
Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!...
Camilo Pessanha, in Clepsidra
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