Em “O Diabo à solta”, com
receio próprio. Também é ideia contida na frase abaixo, do texto de JOSÉ CARLOS
DUARTE, que reponho:
«É uma má ideia emitir mandados
de captura “para chefes de Estado e líderes poderosos”».
É melhor que o TPI limite as suas funções ao comezinho habitual. Para mais,
vivendo nós em regime de fraternidade.
TPI
30 anos depois de Srebrenica e com Putin
e Netanyahu na mira, o TPI está condenado ao fracasso?
é uma má ideia emitir mandados de captura “para
chefes de Estado e líderes poderosos”.
OBSERVADOR,
11/7/25
TPI enfrenta problemas internos — como
ser pouco eficiente a "escândalos" — e está "sob ataque" de
alguns países. Ouvidos pelo Observador, especialistas têm visões distintas
sobre futuro do tribunal.
“Nunca mais.” Cumprem-se esta sexta-feira 30 anos desde o
início do genocídio perpetrado por forças
sérvio-bósnias em Srebrenica contra bósnios muçulmanos (conhecidos como
bosníacos). O crime que chocou o mundo levou a que se repensassem as instituições internacionais, identificando-se
várias lacunas jurídicas no Direito Internacional. Uma
delas consistia na ausência de uma instituição jurídica independente e
permanente que dispusesse de jurisdição para julgar crimes contra a Humanidade e de guerra, mais do que os tribunais ad
hoc estabelecidos para situações específicas. Foi neste contexto que
surgiu o Tribunal Penal Internacional (TPI),
que abriu portas a 1 de julho de 2002.
O Estatuto de Roma estabeleceu o Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, nos
Países Baixos, mas nem todos os países o ratificaram. Contrariamente ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), órgão pertencente à Organização das Nações Unidas e que serve principalmente
para resolver diferendos entre os Estados-membros da ONU, o TPI tem um domínio mais extenso. E
há países que não concordaram com os seus princípios basilares. Entre eles estão as principais potências
mundiais: Estados Unidos da América (EUA), Rússia, China e Índia.
A ausência destes países foi
sempre um ponto que enfraqueceu o TPI, ainda
que haja cidadãos de países que não são membros que podem ser julgados. Um caso paradigmático é o do Presidente da Rússia — em
2023, a instituição jurídica emitiu um mandado de captura com o nome de
Vladimir Putin. E há outro senão: o Tribunal Penal Internacional não possui forças de segurança próprias para
executar as decisões jurídicas, sendo refém do apoio (ou falta dele) dos
diferentes Estados-membros.
▲ Presidente da Ucrânia,
Volodymyr Zelensky, já recebido em Haia, na sede do TPI ANP/AFP via Getty Images
Na situação geopolítica instável que
o mundo atravessa em 2025, os limites do TPI estão a ser testados. Analistas
e professores universitários ouvidos pelo Observador coincidem com uma ideia: o
Tribunal Penal Internacional atravessa desafios. Mas se há
uns que dizem que se converteu numa instituição
ineficaz e obsoleta, outros
apontam que está mais relevante do que nunca. De qualquer modo, o
multilateralismo que pautou os anos 90 não é mais o mesmo; os sinais dos tempos
podem estar a enfraquecer o TPI. Mas também há quem tenha interesse em
desgastar a imagem do órgão jurídico.
A ineficiência, os gastos e um alegado
escândalo sexual. Os problemas relacionados com o TPI
“O TPI está a perder quer credibilidade,
quer relevância” Em declarações ao Observador, Mark Drumbl, professor da
Faculdade de Direito na Universidade de Washington and Lee, não tem dúvidas de que a instituição jurídica está a perder
fulgor, apresentando vários argumentos para provar o seu ponto de vista. Por sua vez, Lukáš Mareček,
professor de Direito na Universidade de Comenius em Bratislava, concorda
que o “TPI enfrenta, sem dúvidas, problemas”, mas ressalva ao Observador que
“seria incorreto concluir que é totalmente disfuncional”.
Em contrapartida, Kelebogile Zvobgo, cientista política do Zimbabué
na Universidade norte-americana William & Mary, discorda. “Não penso que o TPI esteja a perder credibilidade ou relevância, é
mais o oposto. O tribunal tem várias
investigações em curso”, aponta a especialista ao Observador,
argumentando que isso torna o órgão jurídico mais “relevante do que no passado”.
▲ Sede do Tribunal Penal
Internacional nos Países Baixos ROBIN UTRECHT/EPA
Em todo o caso, Mark Drumbl denuncia
que um dos principais problemas consiste nos “insuficientes resultados” práticos
do trabalho do TPI. “Tem havido tão poucos
julgamentos, tão poucas condenações desde 2022, apesar dos milhões de
financiamento”. O esforço financeiro da
instituição jurídica é suportado sobretudo pelos Estados-membros e também pode
receber contribuições voluntárias de associações. O orçamento para 2024 foi de
187 milhões de euros, sendo os países que arcaram com a maior fatia dos custos,
por ordem, o Japão, a Alemanha, França e o
Reino Unido. Em
contrapartida, membros como a Argentina, o Brasil e a
Venezuela têm pagamentos em
atraso.
Para Lukáš Mareček, as críticas de que o TPI é ineficiente do ponto
de vista “financeiro e processual” são, em certa medida, “merecidas”. Mas
o professor universitário realça também que os casos apresentados ao TPI têm
uma “natureza complexa”, que se estende à investigação — o que eleva
naturalmente os custos e o tempo que demora um julgamento. Genocídio, crimes de guerra, crimes contra a
Humanidade não são nem fáceis de investigar, nem dão azo a desfechos rápidos. Ainda
assim, o especialista eslovaco concede: “Mesmo
que haja maior exigência no tempo e nos recursos, ainda é discutível se se
justifica plenamente o nível actual das despesas.”
Outro problema que o TPI atravessa é
tentar “exagerar” nos mandados de captura, colocando-se em “bicos de pé” — e
tentando deter líderes estrangeiros que arranjam formas de dar a volta à
situação. Mark Drumbl recorda que a única área em que a
instituição jurídica foi relativamente eficaz foi na “condenação de líderes separatistas” africanos
que “perderam as suas rebeliões” e que, de seguida, “os respectivos governos
que derrotaram essas rebeliões encaminharam os casos para o TPI”.
"Mesmo que haja maior exigência no tempo e nos
recursos, ainda é discutível se se justifica plenamente o nível actual das despesas."
Lukáš Mareček,
professor de Direito na Universidade de Comenius em Bratislava
Originários
da República Democrática do Congo, vários líderes de movimentos rebeldes foram
condenados entre 2012 e 2016 por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade pelo
Tribunal Penal Internacional, após o governo do país africano ter denunciado a
situação ao TPI. Mais tarde, Ahmad al-Faqi al-Mahdi, líder de uma milícia
islâmica no Mali, também foi condenado pelos crimes de destruição de património
cultural e religioso.
Ainda que tenha sido eficaz, o Tribunal
Penal Internacional também
é acusado de ter um “viés contra os países de África”. Vários
líderes africanos queixam-se de “processos criminais selectivos” naquele
continente, diz Lukáš Mareček. “Mas essa crítica já partia de um pressuposto parcialmente errado:
muitas das situações foram denunciadas pelos Estados africanos ou pelo Conselho
de Segurança da ONU”, começa por lembrar o especialista, acrescentando que
hoje em dia o TPI está a investigar casos “em diferentes continentes,
incluindo na Ásia, na Europa e nas Américas”.
Existe outra questão que está a
colocar a credibilidade do TPI em causa. Mark Drumbl lembra “os escândalos internos relacionados com
os recursos humanos”. O especialista refere-se à investigação interna de
que o procurador-geral do órgão jurídico, Karim Khan, é alvo,
por suspeitas de ter coagido uma
assistente a ter relações sexuais com ele e de tê-la apalpado contra a sua
vontade.
▲ Karim Khan é suspeito de ter
coagido uma assistente a ter relações sexuais com ele e de a ter apalpado
contra a sua vontade PETER
DEJONG / POOL/EPA
Estas alegações de condutas sexuais
impróprias praticadas por Karim Khan são “preocupantes”
e podem “genuinamente minar a
credibilidade do Tribunal”, acredita Lukáš Mareček. Estando o rosto de uma instituição jurídica que
julga casos tão polémicos e delicados debaixo de fogo, o TPI pode ser encarado
como uma organização que não protege as vítimas e em que este tipo de abusos
são tolerados. Em sua defesa, o
procurador-geral negou as acusações, tendo-se afastado temporariamente do cargo.
Os mandados de captura em nome de líderes
estrangeiros. Prova de vida ou de “incompetência”?
Um mandado de detenção emitido em
nome de Vladimir Putin, da Comissária Presidencial para os Direitos das Crianças na Rússia, Maria
Lvova-Belova, do ex-ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e de Valery Gerasimov,
chefe das Forças Armadas russas. Outro emitido em 2024
para deter o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa israelita, Yoav
Gallant, assim como os principais dirigentes do Hamas. E, esta quarta-feira, o TPI voltou a agir contra líderes
internacionais, desta vez contra os líderes dos talibã no Afeganistão.
Nos
últimos anos, o Tribunal Penal Internacional tem emitido mandados de captura
para líderes mundiais influentes, que têm ripostado e atacado a credibilidade
da instituição. No entender de Kelebogile Zvobgo, isso é um sinal positivo, uma
vez que significa que o “trabalho do TPI funciona, que os seus líderes e a
opinião pública estão a ter em atenção”
o trabalho da instituição jurídica.“Se não fosse importante, eles ignorariam. Mas eles
não estão a ignorar, estão a criticar.”
▲
Líderes dos talibã no
Afeganistão foram os últimos alvos de mandados de captura do TPI QUDRATULLAH RAZWAN/EPA
Em concreto, no caso de Vladimir Putin, o Presidente russo recusou
viajar recentemente para o Brasil para a cimeira dos BRICS, e também não foi ao
mesmo evento na África do Sul, em 2023, por causa do mandado de captura. Apesar disso, o chefe de Estado, em 2024, fez uma
visita oficial à Mongólia —
um país que ratificou o Estatuto de Roma —
e nada lhe aconteceu. As autoridades mongóis recusaram deter o Presidente. A mesma coisa aconteceu quando o primeiro-ministro
israelita visitou a Hungria há três meses; a polícia húngara não deteve
Benjamin Netanyahu.
A
falta de cooperação demonstrada nestes episódios é um “desafio significativo”, admite Lukáš Mareček. O problema é também
mais profundo e deve-se ao facto de a maior parte das “potências mundiais” não
terem ratificado o Estatuto de Roma. Contudo, a “falta de cooperação” da
Mongólia e da Hungria (país que anunciou que vai abandonar o TPI) demonstram
uma fraqueza estrutural do órgão jurídico: o facto de não ter forças de
segurança capazes de colocar em prática as decisões judiciais e depender das
autoridades locais.
“Mas
também há exemplos de cooperação. Por exemplo, as Filipinas entregaram o seu
antigo Presidente ao TPI, apesar de o país já não ser membro do TPI”, contrapõe
Lukáš Mareček. No mesmo sentido, Kelebogile Zvobgo dá também este exemplo para
demonstrar como o multilateralismo ainda prevalece no seio da comunidade
internacional: “A Interpol cumpriu com sucesso um mandado de captura do
ex-Presidente Rodrigo Duterte, que está sob custódia do TPI e que está à espera
de saber as acusações de que será alvo no outono, pelas suspeitas da prática de
crimes contra a Humanidade na guerra contra as drogas”.
▲Especialistas apontam o caso da detenção de Rodrigo Duterte, ex-Presidente
das Filipinas, para provar que a cooperação internacional na área da Justiça
ainda existe ROLEX DELA
PENA/EPA
Embora
haja este exemplo do antigo Presidente das Filipinas, Mark Drumbl afirma
que é uma má ideia emitir mandados de
captura “para chefes de Estado e líderes poderosos”. O especialista recorda o facto de os líderes dos
talibã terem sido alvo do TPI: “[Os procuradores] acham que vão fazer mudanças
sociais abrangentes no Afeganistão governado pelos talibã? Os suspeitos nunca
serão detidos e o TPI não foi criado para ser uma forma de engenharia social”.
“Não
o pode fazer, falta-lhe legitimidade“, prossegue o professor universitário
norte-americano. Concedendo que estes mandados de captura podem
efetivamente gerar “alguma” mudança e colocar o foco em determinados países ou
problemáticas, Mark Drumbl considera que, no final, o TPI acaba por parecer uma
instituição “falhada, instável e incompetente” que nunca vai cumprir
o que propôs inicialmente.
Estes mandados de captura a
líderes estrangeiros também mostram um sinal de desunião entre os
Estados-membros — o que prejudica a reputação do TPI e enfatiza as suas falhas.
Por exemplo, praticamente todos os líderes europeus aplaudiram o mandado de
captura em nome de Vladimir Putin. Porém, em relação ao de Benjamin Netanyahu,
alguns levantaram várias dúvidas. A Hungria desafiou directamente
a instituição jurídica ao receber o primeiro-ministro em Budapeste e países
como a Alemanha ou a Polónia nunca se comprometeram a deter o chefe do
executivo israelita.
▲ Primeiro-ministro
israelita foi recebido pelo homólogo húngaro, Viktor Orbán, em Budapeste, em abril
de 2025 ZOLTAN FISCHER / HANDOUT/EPA
“O TPI falhou em conectar-se
eficazmente com as populações que são vítimas [dos crimes]. Para ser sincero, não
sei se alguém quer ver o TPI a ‘vencer’ ou quem acredita que
pode alcançar uma ‘vitória'”, afirma Mark Drumbl, vaticinando: “Mesmo aqueles
que apoiam o seu trabalho estão a perder interesse. É fácil apontar para os
Estados Unidos, como sempre, mas os Estados europeus também não apoiam o TPI”
quando os seus interesses estão em jogo.
TPI. “Um gigante sem armas e pernas”
e o “reflexo” das vontades actuais
Lukáš
Mareček cita o presidente do Tribunal Criminal Internacional para os crimes na
antiga Jugoslávia (um dos antecedentes do TPI), Antonio Cassese, para
descrever as instituições jurídicas na comunidade internacional: “São gigantes sem armas nem pernas”. “Eles possuem autoridade suficiente e peso
moral, mas faltam-lhes poderes directos para executar as ordens, precisando de
contar com a cooperação dos Estados para agir.”
São os Estados que gerem o funcionamento
destes “gigantes”. “O futuro do TPI depende largamente da
vontade política dos Estados”, indica o professor universitário eslovaco. “Na
minha opinião, o principal problema não está no tribunal em si, mas mais em factores
externos — nomeadamente, a vontade política dos Estados para
apoiarem a Justiça internacional. Se
o compromisso é apenas retórico e lhe falta assertividade, a eficácia será
inevitavelmente menor”, expõe.
▲
Tribunal Penal Internacional está sempre dependente dos Estados para funcionar
eficazmente AFP via Getty Images
Dito doutro modo, a forma como o TPI
funciona vai depender sempre da conjuntura internacional. Na visão de Mark Drumbl, a actual fase é bastante prejudicial
para o órgão jurídico. “As limitações do TPI reflectem a generalizada falta de
valores de cosmopolitismo que o mundo partilha. Havia um tempo, em meados dos
anos 90, em que o internacionalismo liberal penal em instituições penais
parecia uma excelente ideia”, diagnostica o especialista.
Essa ideia “nunca vingou”. Num mundo
cada vez multipolar, mais perigoso e com as autocracias a ganhar terreno, o “internacionalismo
liberal penal” tornou-se um conceito obsoleto, considera Mark Drumbl. “O TPI reflecte o que as pessoas do mundo estão prontas para aceitar e
querem [num determinado momento]. É o seu reflexo”, salienta o especialista
norte-americano. Neste momento, o conceito de uma organização forte e
independente que julgue crimes graves e que não seja suscetível de ser
politizada simplesmente não interessa à maior parte dos países.
Há
30 anos, a comunidade internacional ainda estava a recuperar do choque dos genocídios
de Srebrenica — o maior massacre em solo europeu desde o Holocausto — e também do
Ruanda. A opinião dominante era que teria de haver uma instituição jurídica que
servisse para julgar crimes de guerra e contra a Humanidade. Não só como uma
forma de os julgamentos não estarem dependentes de tribunais ad hoc, como também como uma maneira de dissuadir eventuais
líderes políticos.
▲ Massacre de
Srebrenica foi há 30 anos e criou as bases do Tribunal Penal Internacional AFP
via Getty Images
Porém,
estes episódios traumáticos no século XX estão a desaparecer da memória colectiva
de vários líderes políticos. E muitas potências têm interesse efectivamente em
esquecê-las; muitos
bósnios sérvios na República Srpska (a parte sérvia da
Bósnia-Herzegovina) nunca consideraram o que aconteceu em Srebrenica como
um genocídio. E a comunidade
sérvia da Bósnia é uma grande aliada da Rússia e da China, países que não
querem melindrar os seus aliados — principalmente Moscovo, que precisa de
apoios na comunidade internacional após ter invadido a Ucrânia.
Em julho de 1998, em Roma,
num clima optimista para o multilateralismo após a dissolução da União
Soviética, vários líderes reuniram-se na capital italiana para discutir
a fundação de um tribunal criado especificamente para estes crimes de guerra.
Desta convenção diplomática e jurídica saiu o Tribunal Penal Internacional —
que teve sempre um grande impulso europeu. Vinte e sete anos depois, a
comunidade internacional atravessa claramente uma fase distinta e não aparenta
estar tão interessada neste órgão.
Mesmo com falhas, há quem tente
prejudicar o TPI
Se o TPI tem várias falhas no
funcionamento, também é certo que há quem tenha interesse em desmerecer
e desvalorizar o trabalho da
instituição jurídica. O Tribunal
Penal Internacional foi alvo de um “ciberataque sem precedentes” em 2023. “As provas
disponíveis indicam que foi um ataque sofisticado com o objectivo de espionagem.
O ataque pode, por isso, ser interpretado como uma tentativa séria de minar
o trabalho do Tribunal”,esclareceu a organização jurídica numa nota no seu
site.
Há
duas semanas, durante a cimeira da NATO em Haia, o TPI foi novamente alvo de um
ciberataque, que foi “rapidamente
identificado, confirmado e circunscrito graças aos mecanismos de alerta e
resposta do Tribunal”. O órgão
jurídico nunca responsabilizou ninguém, mas é uma prova de como há quem
esteja a tentar perturbar as atividades da instituição jurídica.
Os líderes políticos e
militares russos nunca esconderam o descontentamento com o mandado de captura
aos seus líderes militares e políticos. Mas, em comparação, Israel foi muito
mais crítico dos mandados de captura. Se o Kremlin está já habituado a ser
considerado um pária entre os países do Ocidente, Telavive não. Benjamin
Netanyahu temia especialmente que os países europeus, alguns dos quais já
bastantes desagradados com a operação militar na Faixa de Gaza, virassem costas
aos aliados israelitas após a acção do TPI.
▲ Primeiro-ministro
e ex-ministro da Defesa de Israel foram alvos de mandados de captura pelo TPI ABIR
SULTAN / POOL/EPA
“Os líderes e aliados destes
países, em demasiadas formas e escalas, intervieram e retaliaram contra o
Tribunal, demonstrando que estão conscientes da sua importância e que temem os
riscos e custos sociais, políticos, diplomáticos e legais associados às acusações
de atrocidades graves e a possibilidade de enfrentar uma detenção, um
julgamento, e, em caso de serem condenados, uma pena de prisão”,sinaliza
Kelebogile Zvobgo.
Antes
de serem emitidos mandados de detenção dos dirigentes israelitas, uma investigação do Guardian revelou que Israel tentou durante
anos, através da Mossad, descredibilizar o trabalho do TPI. As secretas de
Telavive vigiaram desde perto o trabalho dos diferentes jurados e diferentes
procuradores terão sido ameaçados. O objectivo seria que o
Tribunal não agisse contra Benjamin Netanyahu, mas foi isso que acabou por
acontecer.
A
alegada campanha de Israel contra o TPI ganhou recentemente um importante
apoio. A administração Trump saiu em defesa do seu aliado e
impôs sanções aos principais dirigentes do TPI. “No início do ano, Donald Trump assinou uma ordem
executiva para sancionar indivíduos que participaram ou que prestaram
assistência às investigações do TPI que implicavam norte-americanos e os seus
aliados”, relata Kelebogile Zvobgo, acreditando que o Presidente
norte-americano está “particularmente interessado em proteger os líderes
israelitas” de serem responsabilizados pelas consequências das operações
militares em Gaza.
"Os líderes e aliados destes países, em demasiadas formas e
escalas, intervieram e retaliaram contra o Tribunal, demonstrando que estão
conscientes da sua importância e que temem os riscos e custos sociais,
políticos, diplomáticos e legais associados com as acusações de atrocidades graves." Kelebogile Zvobgo, cientista política do Zimbabué na
Universidade norte-americana William & Mary
Lukáš
Mareček faz um diagnóstico idêntico. “O
TPI está sob ataque directo dos Estados Unidos, que aplicaram sanções a Karim
Khan e a quatro juízes”, refere o
especialista eslovaco, sublinhando que, apesar das represálias, a
instituição “continua o seu trabalho”.
O professor universitário descarta também o viés da instituição jurídica
contra Israel que lhe é apontado e realça a “independência do TPI”: “Emitiu
mandados de captura não apenas a figuras associadas a Israel, como também
contra líderes do Hamas”.
“É verdade que a Justiça pode irritar algumas partes”, reconhece Lukáš Mareček. Já no entender da cientista política natural do
Zimbabué, isso é uma prova que o “TPI funciona”. “O facto de o Presidente dos Estados Unidos aplicar
sanções a indivíduos que estão a fazer o seu trabalho, de procurar justiça para
crimes sérios, é uma forte prova” da sua eficácia, avalia Kelebogile
Zvobgo.
A especialista assinala que
estas tentativas norte-americanas e israelitas “podem prejudicar o trabalho do
TPI”, mas concede-lhe importância na comunidade internacional — a maior de sempre a seu ver. Opinião
completamente distinta tem Mark Drumbl; a instituição jurídica não deve assumir
este protagonismo, devendo reduzir as suas funções no futuro para funcionar
eficazmente: “Eu
acredito que o TPI deveria servir como um recurso informativo e técnico para
apoiar iniciativas nacionais para trazer perpetradores à Justiça e promover a
Justiça transnacional”.
"Eu
acredito que o TPI deveria servir como um recurso informativo e técnico para
apoiar iniciativas nacionais para trazer perpetradores à Justiça e promover a
Justiça transnacional."
Mark
Drumbl, professor da Faculdade de Direito na Universidade de Washington and Lee
University
Por
seu turno, Lukáš Mareček considera que o
“principal desafio” do TPI no futuro “consistirá” sempre “no compromisso dos
Estados” em quererem colaborar no bom funcionamento deste órgão jurídico. “O TPI é uma ferramenta para fazer
Justiça, mas não pode ser visto como uma solução em si mesma. Os Estados
permanecem os actores principais que têm os recursos para trazer os suspeitos a
tribunal”, sustenta o especialista.
Longe de uma época em que os
líderes mundiais desejavam o estabelecimento de um órgão independente para
julgar crimes, o contexto geopolítico não é actualmente favorável para o TPI.
Se há analistas que defendem uma reestruturação para garantir que se torna
mais consensual, outros vêem a instituição jurídica como um bastião que não tem
medo de enfrentar os mais poderosos. Entre estas duas visões antagónicas, o
Tribunal Penal Internacional vai estar sempre dependente da vontade dos Estados
— e o seu sucesso ou fracasso também.
TRIBUNAL
PENAL INTERNACIONAL JUSTIÇA GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO CONFLITO
ISRAELO-PALESTINIANO DIPLOMACIA
COMENTÁRIOS:
FILIPE COSTA: Isso vale zero, tal como a ONU e essas tretas que
apareceram como cogumelos após a 2ª guerra mundial. Não valem nada, não
acrescentam nada, a maioria são marionetas de alguns países. Isso está minado
de tachos, corrupção, compadrio. Acabem com isso tudo, não funciona. Só
custa dinheiro.
CARLOS RAMOS: Os ventos
sopram a favor dos criminosos e não a favor da justiça.
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