Mas sem ela, julgo que a indisciplina moral e social seria maior ainda.
Como nas casas. Se descurarmos a arrumação diária – pese embora as escapadelas eventuais
às rotinas, em breve sentiremos o peso do trabalho mais penoso ainda. A
burocracia é uma forma de arrumação, e portanto de orientação indispensável,
conquanto favorecedora de aproveitamentos específicos conducentes a casos de
corrupção e de subserviências quando não se tem coragem suficiente para
defendermos o nosso ponto de vista. Já aqui contei, talvez, o caso do meu pai
acusado – em Lourenço Marques - pelo seu chefe, de uma “infracção”
maquiavélica, que era antes pertença desse chefe, e do qual se defendeu sozinho,
por não ter posses para pagar a um advogado. Ganhou judicialmente a causa – a honestidade
e clareza do relato lhe bastaram, mas foi castigado pelo chefe, que o desterrou
para Quelimane (de onde voltou dois anos depois, após ter ganho um concurso que
o colocou em lugar superior ao primeiro, na mesma Lourenço Marques, onde
permanecêramos – a nossa mãe e nós, as duas filhas. Assim, a burocracia, se é,
por vezes, injusta, ao favorecer a tal corrupção – por falta de uma supervisão superior
de maior critério - permite, contudo, um maior equilíbrio social, que uma
liberdade descontrolada poria em maior risco ainda, pese embora a excelente
argumentação de MARGARIDA BENTES PENEDO, no seu retrato da
burocracia. Julgo que o que se passa hoje no nosso país, de amplitude libertária
insensata, favorecedora da corrupção explicitada por MARGARIDA BENTES PENEDO, de
modo nenhum favorece uma seriedade comportamental mais sábia.
Uma fábula da política real
Pelos labirintos da burocracia passa toda a corrupção. Passa a
grande corrupção (através da evidente necessidade de "agilizar"),
passa a média corrupção e passa também a pequena.
MARGARIDA BENTES PENEDO
Arquitecta e deputada municipal
18 jul. 2025, 00:1724
A base da história conta-se em
três frases: na Junta de Freguesia de Carnide esperavam-se uns dinheiros devidos pela
Câmara de Lisboa há algum tempo, por alma de uma figura moderadamente demagógica
chamada “orçamento
participativo” (inventada para fingir que os cidadãos mandam nos dinheiros deles, pomposamente designados
pelos governantes sob o eufemismo de “dinheiros
públicos”). A
transição daquela soma para os bolsos da Junta foi aprovada há cerca de uma semana na Assembleia Municipal. Todos
os presidentes de junta lamentaram o atraso, atribuíram o atraso às tramitações burocráticas – “porque
às vezes, como todos sabemos, é preciso agilizar, não se pode esperar o
tempo todo que um processo demora a percorrer os serviços” -, e suplicaram
que a burocracia não se repetisse agora,
depois da proposta de transferência ter sido aprovada na Assembleia.
Um rebuçado. Ver os senhores governantes vítimas de si mesmos,
vulneráveis perante a absurda máquina burocrática que eles próprios inventaram
e nutriram, não tem preço.
Começo por felicitar a freguesia de Carnide por ter conseguido o
inestimável melhoramento pelo qual esperou. De
seguida, aproveito a historieta, já que dificilmente se encontra um exemplo
perfeito para compreender a natureza e os efeitos da burocracia. É que a burocracia cresce sozinha, não
precisa de ajuda, transforma-se no “monstro” que Cavaco Silva descreveu num célebre artigo
em Fevereiro de 2000, no saudoso Diário de Notícias, e a partir de um certo tamanho começa a
operar contra os cidadãos e contra a sociedade.
A burocracia cresce sempre que se
pede mais regras, mais regulamentos, mais obrigações e mais proibições; e alimenta-se quando se pede mais funcionários, porque
visivelmente “faltam meios humanos”; e depois é fundamental encontrar mais
regras, obrigações e proibições, para ocupar aquele exército de funcionários e
justificar o salário deles; e
desta maneira zelosa a burocracia acaba por operar contra os cidadãos, já que
se toma a si própria como a única defesa do Estado perante as inumeráveis
velhacarias que os cidadãos constantemente querem perpetrar.
Essas
operações
que a burocracia zelosa topa como mal disfarçadas velhacarias são, no fundo, todas as mudanças. A
partir de certo ponto, nenhum cidadão é senhor de operar uma mudança na sua
vida sem recorrer à burocracia. A
partir desse mesmo ponto, o único motivo que leva um cidadão a sujeitar-se à
burocracia é a vontade de mudar seja o que for na vida dele. Ou na casa dele.
Ou da família dele. Ou da empresa dele. Quando o impedimento dos cidadãos mudarem a pequena parte que lhes
diz respeito, sem que essa mudança seja previamente apreciada e aprovada pelo
Estado, se torna a vida habitual de uma sociedade, essa sociedade está doente.
A burocracia virou-se contra a sociedade.
O círculo vicioso é sinistro. De cada vez que se pede mais regulação,
mais regras, obrigações e proibições, ouvem-se violinos nos corredores da
burocracia. Estes
pedidos de mais e mais regras são produto típico da esquerda, e ainda mais
típico da extrema-esquerda, que vive para mandar, mas são
também típicos da maior fatia da direita política portuguesa, cujos governantes
perfilham acriticamente tudo o que a esquerda decide. Os
governantes da nossa querida direita inspiram-se na esquerda em tudo, desde a
moralidade às técnicas mais manhosas de criar e manter o poder. Além disso,
quanto menos um partido ou governante sabe de um determinado assunto,
mais instintivamente ele se inclina para obrigar ou proibir coisas, convencido que a política é uma colecção de
obrigações e proibições impostas, desde que saibamos descobrir as obrigações e
proibições “certas” e, de preferência, “disruptivas”.
Pelos labirintos da burocracia passa
toda a corrupção. Passa a grande corrupção
(através da evidente necessidade de “agilizar”), passa a média
corrupção e passa também a pequena. Esta é talvez a principal verdade a que
os partidos precisam de chegar se quiserem combater a corrupção: combata-se
a burocracia. Onde
há burocracia, há corrupção. Onde houver menos burocracia, haverá menos
corrupção.
Tudo examinado, e voltando ao
princípio, é doce contemplar um caso como o da freguesia de Carnide, e do coro afinadíssimo dos outros
presidentes de junta perante a Câmara de Lisboa. Alimentaram a burocracia,
sempre pensando que ela se aplicaria aos outros. Nunca imaginaram que a
criatura se virasse contra eles. Quem
a criou queixa-se agora dos efeitos dela. Suplicam que os dinheiros esperados
não andem perdidos pelos labirintos a receber carimbos e verificações, do
serviço A para o serviço B, C, e D, até que a freguesia de Carnide receba a sua
parte. Uma espécie de fábula da política real.
LISBOA PAÍS SOCIEDADE POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 24):
António Melo: Excelente, como sempre. Acrescentaria que, além da corrupção (com dinheiros
pelo meio), permite uma outra coisa tão típica das sociedades menos desenvolvidas:
o beija-mão! Muito gosta o "funcionário" que um qualquer comum mortal
lhe vá beijar a mão e pedir para passar o "papelucho" para a frente.
Nesse gesto, o "funcionário" mais insignificante sente que tem o
mundo a seus pés.
Maria Paula Silva: Puxa...,
faz todo o sentido. Só conheci um país onde a burocracia é pior que em
Portugal: o Brasil. Muito bem explicado. Margarida, não se pode candidatar a
presidente da CML?
Humilde Servo: Esta senhora
escreve realmente muito bem e ainda por cima o conteúdo do que escreve é
surpreendente, engraçado e moderno. Creio que foi mulher de Vasco Pulido
Valente (se não foi peço desculpa), o que me leva a pensar que o talento
literário talvez seja contagioso. Kudos para Margarida Bentes Penedo!
Nenhum comentário:
Postar um comentário