Também temos a nossa Rainha Santa Isabel vinda lá de Aragão, terra de
“gente boa”, como diria o nosso Fernando
Mendes, com poderes miraculosos, de que precisamos, hoje como sempre… mas,
pelos vistos, passa-se o mesmo no mundo inteiro, que precisa, mais do que nunca,
de um milagre para tanta dor visível, fora a invisível. Valha-nos, pois, a
Senhora de Torreciudad, descrita com tanto carinho, a todos os do mundo inteiro
que dele carecem. Mas os milagres são mais a título particular, não podemos
exigir uma generalização de tal envergadura, tem de partir também de nós, julgo.
Torreciudad: happy end à vista?
Desde a inauguração de Torreciudad, há 50 anos, este Santuário
mariano já recebeu 12 milhões de peregrinos de todo o mundo, a custo zero para
a diocese de Barbastro.
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA
Colunista
OBSERVADOR, 12 jul. 2025, 00:164
No
passado 7 de Julho, o Santuário de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, que
se situa na diocese de Barbastro-Monzón, província de Huesca, em Aragão,
Espanha, fez cinquenta anos. Com efeito, foi a 7-7-1975 que foi inaugurado, com uma Missa por alma
do Monsenhor Josemaria Escrivá
de Balaguer, fundador do Opus Dei, que tinha falecido em Roma, onde residia, poucos dias antes, a 26 de
Junho desse ano.
Esta devoção mariana já existia em
1084, mas foi em 1904 que surgiu na vida do fundador
do Opus Dei. Quando
Josemaria tinha dois anos e tinha sido diagnosticada a sua morte em menos de 12
horas, os seus pais recorreram à Senhora de Torreciudad. No dia seguinte, o seu
filho não só não tinha morrido, como estava curado e aos pulos no berço!
Pouco depois, talvez em 1905, os pais
cumpriram a promessa de o levar à ermida de Torreciudad, para agradecerem a
sua inexplicável e repentina cura. É provável que a viagem tenha sido feita
a partir de Fonz, localidade de origem da família paterna e onde costumavam
passar as férias de verão, embora vivessem em Barbastro, onde José Escrivá
geria um pequeno estabelecimento comercial. Dos
seis filhos do casal, só metade vingou, porque três filhas, com 1, 5 e 8 anos,
morreram, respectivamente, em 1910, 1912 e 1913.
Em 1956, o fundador do Opus Dei manifestou o propósito de restaurar a
velha ermida e construir nas suas imediações um santuário mariano. Como
agia sempre em sintonia com a autoridade diocesana, em Novembro desse ano, pediu ao então Bispo de Barbastro, D. Jaime
Flores, a necessária licença, que lhe foi concedida. Em virtude do acordo
assinado pela diocese e pelo Opus Dei, a 24 -9-1962, aquela disponibilizou a
ermida, que estava em estado ruinoso, mas mantendo a sua propriedade, bem como
a imagem de Nossa Senhora de Torreciudad, que foi cedida perpetuamente para o
novo santuário. O Opus Dei, por sua vez, encarregou-se do restauro da ermida e
da imagem, bem como da construção do santuário e das instalações anexas.
Em 1963, o arquitecto Heliodoro Dols
começou a trabalhar no projecto e, a 29-11-1964, foi constituído o Patronato
de Torreciudad, que ficou encarregado de angariar os fundos necessários
para este fim. A
construção do santuário, num arrojado estilo moderno de grande sobriedade e
beleza, durou cinco anos, e os custos foram suportados por milhares de fiéis
que, com as suas pequenas, mas por vezes heróicas, esmolas, tornaram possível
que se erguesse, no alto Aragão, mais um santuário a Nossa Senhora.
São Josemaria não chegou a
ver o Santuário de Torreciudad terminado, mas visitou-o um mês antes da sua
morte, tendo
então dedicado o altar-mor e inaugurado, com a sua confissão, a cripta dos
confessionários. A este propósito, a 17-6-1967, tinha escrito: “Espero que o Senhor conceda uma chuva
abundante de graças espirituais aos que aí forem rezar à sua bendita Mãe ante
essa pequena imagem, tão venerada desde há séculos. Por isso, interessa-me que
haja muitos confessionários, para que as pessoas se purifiquem no santo
sacramento da penitência e, renovadas as almas, confirmem ou renovem a sua vida
cristã, aprendam a santificar e a amar o seu trabalho, semeando nas suas casas
a paz e a alegria de Jesus Cristo.”
Foram também suas algumas
indicações: proibiu,
nas imediações do templo, actividades comerciais ou outras e, para prevenir
superstições milagreiras, quis que, nos fontanários do recinto, constasse a
indicação ‘água natural potável’.
Desde a inauguração do Santuário de
Torreciudad, estima-se que já por lá passaram 12 milhões de peregrinos de todo
o mundo, pelo que é, de facto, um santuário internacional, sem custos para a
diocese, pois todas as despesas são suportadas por uma fundação criada para o
efeito. O clero
diocesano também não ficou sobrecarregado com este empreendimento apostólico,
porque o reitor e os capelães do santuário pertencem ao presbitério da
prelatura do Opus Dei, que também se encarrega da gestão do complexo.
Não obstante mais de meio século de harmoniosa colaboração orgânica da prelatura do Opus Dei com
a diocese de Barbastro, o
actual Bispo, em Julho de 2023, como aqui se referiu na altura ( 17-8-2023), destituiu o reitor em funções e
nomeou, como seu substituto, o P. José Mairal, pároco de Bolturina, de 86 anos,
para fazer valer o que entendia serem os seus direitos como bispo diocesano.
Não tendo sido então possível chegar a um acordo entre a diocese e a prelatura,
o Papa Francisco nomeou o P. Alejandro Arellano, a 9-10-2024, Comissário
Plenipotenciário Pontifício ad hoc, o qual, nesta qualidade,
visitou Torreciudad, ouviu o Bispo de Barbastro-Monzón, bem como os
representantes locais do Opus Dei.
Segundo notícia publicada, no
passado dia 2, por Religión en Libertad, o Bispo de Barbastro-Monzón solicitou
à Santa Sé, no primeiro dia deste mês, que “Torreciudad […] seja reconhecido e canonicamente erigido como Santuário
internacional, sob a dependência directa da Santa Sé, […] e que o Opus Dei
possa designar livremente o reitor do novo santuário. A diocese também inclui
entre as suas propostas que, se reconhecido como tal, o novo santuário
internacional goze de independência financeira em relação à diocese de
Barbastro-Monzón e, como entidade dependente da Santa Sé, esta última se
encarregue da auditoria e aprovação das suas contas […]. Neste sentido,
a diocese assegura que renuncia a quaisquer benefícios, ou remunerações […].
Em relação aos bens do santuário, a diocese solicita que tanto a imagem original de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, como
a pia baptismal originária da catedral da diocese de Barbastro-Monzón –
transferida para a sede central da prelatura, em Roma – sejam devolvidas [sic] aos seus locais de origem.
No caso da [imagem] da Virgem, exige que seja
devolvida ao seu santuário-ermida, onde é venerada há mais de mil anos pelos
fiéis diocesanos que, ao longo da História, a protegeram, até mesmo, em tempos
de perseguição e guerra, com o custo das suas próprias vidas.”
Seria muito conveniente que, de facto, Torreciudad fosse erigido como
santuário internacional, como efectivamente é, e ficasse sob a dependência
directa da Santa Sé. Por
outro lado, tendo em conta que as suas manutenção e actividade se devem
exclusivamente à prelatura do Opus Dei, é razoável que a nomeação do respectivo
reitor seja feita pelo seu prelado, como sempre se fez desde a sua fundação. É
também justo que a diocese desista da pretensão de receber uma pensão anual,
uma vez que não tem, nem nunca teve, quaisquer encargos económicos com o
Santuário, que, pelo contrário, honra e beneficia, sobretudo espiritualmente, a
diocese de Barbastro-Monzón.
Quanto à petição para que a
imagem original de Nossa Senhora dos Anjos de Torreciudad, agora venerada no
Santuário, regresse à primitiva ermida, recorde-se que foi a própria diocese
que a cedeu perpetuamente, para que fosse
venerada no novo Santuário, tendo sido, para esse efeito, restaurada e muito
melhorada.
A antiga pia baptismal da Catedral de Barbastro foi destruída e atirada
ao rio durante a Guerra Civil espanhola, tendo os seus restos sido resgatados e
oferecidos pela diocese a São Josemaria, que nela fora baptizado e que a
restaurou e devolveu ao uso litúrgico, na igreja prelatícia, em Roma, onde se
encontra. Uma vez que foi oferecida, não faz sentido propor a sua devolução,
até porque esta pia baptismal não tem nenhuma relação com Torreciudad e, por
ser de pedra maciça e de razoável dimensão, a sua desmontagem e transferência
seria de muito difícil e onerosa execução.
É provável que este
comunicado da diocese, prevendo já o óbvio indeferimento das suas pretensões,
seja, por via da sugestão de eventuais compensações, uma derradeira tentativa
de uma solução menos humilhante. Espera-se, no entanto, que
a Santa Sé, através do Comissário Pontifício, faça justiça ao Santuário de
Torreciudad, neste seu 50.º aniversário.
Que Nossa Senhora dos Anjos
de Torreciudad abençoe a diocese de Barbastro-Monzón, na pessoa do seu Bispo,
sacerdotes e fiéis, conceda as suas bênçãos ao prelado, presbitério e leigos do
Opus Dei, e que continue a derramar as suas graças sobre os seus filhos que,
como os pais de São Josemaria, recorrem à sua maternal intercessão.
IGREJA CATÓLICA RELIGIÃO
SOCIEDADE
COMENTÁRIOS
João Reis: Que imensa alegria recebo ao ver a bênção da paz a
descer sobre Torreciudad! Neste santuário onde o céu se une à terra, cada
visita — três ou quatro que tive a graça de fazer — marcou-me como um encontro
vivo com o Mistério. Das paisagens austeras do alto Aragão, que envolvem o
recinto numa atmosfera de eternidade, à beleza comovente do retábulo-mor — onde
a luz joga em silêncio que fala —, tudo aqui convida ao recolhimento. As
paredes não guardam apenas pedra: guardam séculos de orações, lágrimas e
gratidão. Mas há uma memória que carrego no coração: a vez em que, na penumbra
da cripta, me ajoelhei no mesmo confessionário onde o Beato Álvaro del Portillo
ouviu a confissão de São Josemaria, e este, por sua vez, se reconciliou com
Deus. Ali, naquele espaço santo onde santos respiraram graça, senti o peso do
meu próprio pecado dissolver-se na misericórdia. Foi um dom inaudito. Torreciudad
não é apenas um lugar: é uma geografia da alma. Cada canto — o murmúrio da
água nos fontanários, a solenidade da nave, o olhar sereno da Virgem dos Anjos
— nos impele para dentro de nós mesmos e, dali, para o Abraço divino. A
resolução deste conflito canónico, com o reconhecimento do seu estatuto
internacional, não é só justiça administrativa: é um sim ao Espírito que aqui
sopra livre há 50 anos. Agradeço à Senhora de Torreciudad — aquela que salvou o
pequeno Josemaria e continua a salvar peregrinos — por manter este oásis de
paz. Que continue a atrair almas sedentas de verdade, como atraiu a minha.
E que, sob a protecção da Santa Sé e o cuidado amoroso do Opus Dei, seu
retábulo siga irradiando esperança por mais meio século e além. Obrigado, Mãe, pelo silêncio
que fala. Obrigado, Torreciudad, pela pedra que acolhe."
João Dias: Laos Deo.
Cisca Impllit: Saudades da singeleza da fé nas oradas.
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