sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A manutenção do espírito passado


Mas são “amigos do Putin” presente por puro pedantismo vindo de tempos remotos, em que era de bom tom ser-se amante da pátria antiga dos Dostoievski e dos Tolstói. Mas o corpo deles não paga, só o dos outros, optando, em termos musicais,  pelo “Daqui não saio”…

"Os amigos de Putin e os inimigos de si mesmos, segundo António Variações.

Por muito que comentadores com agenda, activistas vários e generais de serviço à “mãe Rússia” tentem enrolar a narrativa, a equação é simples: o que é bom para o Kremlin é mau para nós!

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 31 jul. 2025, 00:1680

A aventura russa na Ucrânia não me apanhou desprevenido, tal como não surpreenderia qualquer pessoa com pelo menos dois neurónios que já tivesse olhado com atenção e distanciamento para o currículo de Moscovo: Geórgia em 2008, Crimeia em 2014 e, antes disso, o desfile habitual de ameaças, mentiras, blindados e prepotências nos arredores do império.

O sistema internacional, apesar dos suspiros utópicos de gente perigosa como ingénuos e ignorantes, continua a ser um campo de batalha hobbesiano, com canhões apontados às fronteiras uns dos outros.

O poder tem horror ao vazio e, sempre que uma potência com maus fígados sente ter músculo e oportunidade para alterar um status quo que não lhe agrada, não hesita em fazê-lo. A História confirma-o e não há “Alianças de Civilizações” com Zapateros, Erdogans, e declarações de boas intenções que a desmintam.

Mas o que entristece, no caso da Ucrânia, é menos a brutalidade e a desfaçatez russa, do que a simpatia envergonhada, ou nem tanto, que Moscovo suscita em certos meios. Nos media, nas redes sociais e até na política portuguesa, há quem suspire pelo Sr. Putin como se ele fosse uma versão caucasiana do Che Guevara, apenas com mais mísseis, mais capacidade de matar e menos charme fotogénico. Essa gente olha para o Ocidente, a sua civilização, os seus valores e o conforto que lhes permite berrar disparates urbi et orbi, com um desprezo mal disfarçado, como se torcer pelo adversário fosse uma forma sofisticada de rebeldia ou virtude.

Eu, que sou beirão, português, europeu e ocidental, sei simplesmente de que lado estou. E, por mais voltas que todos possamos dar, os russos não são dos “nossos”. É assim de simples!

Não é sequer necessário exumar Huntington, para perceber isso. Trata-se de uma civilização distinta, com a matrioska histórica a esconder sempre o mesmo núcleo: Ivan “o Terrível” e Pedro “o Grande”. As bonecas exteriores podem mudar de nome, Estaline, Brejnev, Putin, mas o fundo imperial, autocrático e repressor, é sempre o mesmo.

Por isso cada sucesso da Rússia, na Geórgia, na Crimeia ou no Donbass, é objectivamente um revés para os nossos interesses. Nossos, do Ocidente. Porque é dele que fazemos parte.

Por muito que comentadores com agenda, activistas vários e generais de serviço à “mãe Rússia”, heróis de caserna que fazem fretes vergonhosos à propaganda, tentem enrolar a narrativa, a equação é simples: o que é bom para o Kremlin é mau para nós!

Ainda assim há que apontar repetidamente para eles e para o seu relativismo, até moral, que funciona por encomenda e em função do cliente. Quando o agressor é russo ou quando o alvo é ocidental, o activismo e a sinalização de virtude evaporam-se. Não se vêem “escudos humanos” a caminho de Kiev, nem petições inflamadas a exigir a paz na Ucrânia. A Dra. Mortágua não grita por “genocídios” dia sim, dia sim, e o Bispo Torgal não se deu ainda ao trabalho de assinar petições flamejantes, contrariamente ao seu hábito. A Dra. Ana Gomes ainda não teve um daqueles seus assustadores sobressaltos de indignação contra os voos do FSB e os prisioneiros deportados para a Sibéria e claro, o Sr Guterres não se distrai muito dos seus digestivos hábitos por minudências que não envolvam apocalipses climáticos e tremendas condenações dos bodes expiatórios do costume.

Não se trata apenas de omissão. Alguns, com ar sério, explicam-nos que Zelensky é um perigoso provocador nazi e que Moscovo, pacífico como um ternurento panda, se limita a reagir. São as mesmas almas que, dois minutos depois, asseguram que Israel não tem direito a defender-se de um grupo de fanáticos como o Hamas, porque isso seria “desproporcionado”. A palavra hipocrisia fica curta para todo este miserável malabarismo moral.

Esta fauna televisiva de generais furiosos, políticos oportunistas e comentadores sibilinos, continua a servir de caixa de ressonância para os argumentos do Kremlin, como se estivessem a competir por uma condecoração honorária de Putin ou uma medalha de mérito patrocinada pelo PCP. Fazem-no com convicção, entre banalidades pseudo-estratégicas e críticas constantes ao Ocidente, o mesmo Ocidente que, livremente, lhes permite debitar disparates a seu bel prazer.

E enquanto exaltam nas redes sociais as imensas maldades da OTAN, Moscovo continua a investir em propaganda, drones e bombas, contando com a utilíssima complacência de gente que prefere acreditar que a Ucrânia é apenas um “peão dos americanos”. A ironia, claro, é que sem os americanos, sem a OTAN e sem o tal Ocidente “decadente”, todas estas criaturas estariam a ouvir as ordens do Kremlin pela rádio estatal e a escrever com censura prévia.

Quando toda esta gente acordar, se acordar, talvez perceba que a Ucrânia é apenas a linha da frente de uma guerra mais vasta. Uma Rússia vitoriosa não pararia em Kiev, nem nos limites das fronteiras actuais. O sonho imperial de Moscovo só acaba quando ela, ou todos os vizinhos tiverem sido reduzidos a vassalos ou cadáveres políticos. E essa realidade não se combate com diálogo e slogans, mas com força, inteligência, decisão e algum respeito por nós próprios.

Até lá, continuamos a ver esta corte de estranhos hagiologistas de Putin, a pavonear-se nos ecrãs, repetindo clichés do Kremlin, como se as esforçadas meninges, mais dadas à desfaçatez, estivessem a industriar génio estratégico.

Mas a verdade é que enquanto Putin ri, eles discutem se os ucranianos se devem defender com pedras e paus, ou se devem, de joelhos, agradecer a invasão.

Talvez devêssemos oferecer a alguns destes comentadores um bilhete de ida para Moscovo. Tenho para mim que rapidamente descobririam aquilo que descobriu o texano Derek Huffman:

Grande admirador de Putin, fugiu há 4 meses para a Rússia, com a mulher e três filhas. Alistou-se entusiasticamente no Exército russo com a promessa de uma função confortável e segura. Acabou com a mulher, chorosa mas ainda viva, a queixar-se de que tinha sido atirado para a linha da frente como carne para canhão.

O Variações é que tinha razão: Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga!

RÚSSIA       MUNDO       VLADIMIR PUTIN

COMENTÁRIOS (de 80):

Ana santos: Lamentável para si. Quanto a mim, considero um privilégio ler e ouvir o Cor. José do Carmo e sobretudo contar com ele para descobrir a “careca” as mal disfarçadas individualidades pro Putin. Obg pelo seu PATRIOTISMO Sr Coronel🫡🫡🇵🇹                JOSÉ MANUEL: Obrigado por continuar a desmascarar os traidores que vivendo no conforto das sociedades ocidentais, tudo fazem para as destruir, vendendo-se a ditadores, e defendendo caninamente os seus interesses         Jose Carmo > José B Dias: Neste universo em que vivemos, a Rússia invadiu a Geórgia, a Crimeia e o Leste da Ucrânia. No seu universo paralelo, pelos vistos foi ao contrário. Mas eu não compro a versão de muitos mundos, do Sr Everett.              Nuno Pinho > José B Dias: Que mentiras disse o autor a respeito da máfia Russa? O texto foi sobre a sua máfia assassina e não sobre a Ucrânia na sua política interna. Um dos visados no texto, na semana passada na CNN, disse: “A capitulação da Ucrânia está para breve” MjGen Costa. “A chuva de mísseis e drones demonstra o poder russo, o ocidente e a nato não sabem no que se meteram.” MjGen Costa.               Jose CarmoLiberales > Semper Erexitque: O inimigo constrói-se a si mesmo, pelas suas acções. E o meu amigo, devia olhar para a lua, quando lha apontam, em vez de olhar para o dedo indexante e comentar que a culpa dela estar lá, é do dedo.                 Maria Oliveira: Com verdade e desassombro, o Coronel José Rodrigues do Carmo desmascara os putinistas.                 José Carvalho: Excelente artigo. Neste país há tanto de oficiais do exército a comentar e a defender a narrativa de Putin, como também alguns simples comentadores de artigos do observador a fazerem e a defenderem essa narrativa, como se vê nestes comentários ao excelente artigo do coronel.                  Carlos Chaves: Simplesmente genial, sem dúvida a escrita de um Beirão que sabe de que lado é que está a razão, e defende-a sem complacências e sem falinhas mansas! Um grande bem-haja de um seu conterrâneo!       António Louro: Excelente artigo. Coragem e frontalidade não lhe faltam. Obrigado.             Lily Lx: Muito bem.                     João Floriano: Excelente!                     Nuno Pinho > José B Dias: Mas o que tem isso a ver com facto do artigo? Porque não pode o autor condenar um facto actual, real e objectivo, sem estender a reflexão a outros factos passados? Sempre que falo do meu casamento actual, tenho que falar do meu casamento anterior?                Juventino Fontes: É uma delícia a sua crónica, Sr. Coronel! Só VERDADES... Continue.                   João Floriano > Paulo Cardoso: Mas quando declarou inequivocamente que queria fazer parte da NATO, foi invadida. Ucrânia e Rússia têm um passado histórico muito complicado em que se confrontaram mas simultaneamente misturaram o sangue e criaram laços culturais comuns. De facto não será bem dos «nossos». Do mesmo modo mesmo dentro do Ocidente, da NATO, da UE haverá alguns países com os quais nos identificamos menos. Eu desconfio da Turquia na NATO, só para lhe dar um exemplo. Precisamos imenso da Turquia e da sua influência geoestratégica, mas Erdogan tem uma agenda que o aproxima mais de líderes como Putin do que das democracias ocidentais. Não apoiar a Ucrânia, significa simplesmente apoiar Putin. Mesmo quem orgulhosamente se diz neutro está a apoiar a agressão russa.                  José B Dias > Liberales Semper Erexitque: Subscrevo! PS: permito-me sugerir ao autor da peça que faça o que diz aos que com ele não concordam que façam ... apresente-se como voluntário e vá gozar das delícias das políticas ucranianas e constatar in loco da justeza das suas muitas afirmações.                      Liberales Semper Erexitque: Este texto lamentável poderia honrosamente figurar num livro a ser escrito com o título "A Construção do Inimigo".                   Francisco Almeida: O artigo do coronel comando não primará pela originalidade mas é certeiro e cristalino. Quanto a Putín, também está certo. Foi ele que emergiu mas a cultura subjacente é o imperialismo russo. Se alguma coisa corrigiria seria em recuar a Geórgia em 2008 para a Chechénia em 2002. Não foi uma conquista mas uma oposição a autodeterminação e a brutalidade dos métodos e desprezo pela vida humana, ficaram logo claramente expostos.      Jose Pires > José B Dias: Por acaso Cuba comunista é, ou foi alguma vez, uma democracia? Ou foi sempre um vassalo da União Soviética? Algum país da NATO é uma ditadura sem eleições livres onde o povo pode escolher? Algum país da Nato invadiu outro país para reclamar território como seu? Sempre a querer comparar o incomparável nessa sua mente doente pelo Putin...                  José B Dias > Jose Carmo: Invadiu de facto tal como os USA invadiram Granada, o Panamá, o Iraque ou o Afeganistão e patrocinaram a invasão de Cuba ou insurrectos avulso um pouco por todo o planeta ... agora pode começar a justificar as ações de uns e não de outros! Ao contrário de muitos o meu universo não é a preto e branco e os cowboys não têm sempre razão no que aos índios respeita.  José B Dias > Nuno Pinho: O que o referido visado no texto afirmou em pouco ou nada se distingue do que o aqui autor semanalmente vai afirmando ... apenas que de sinal oposto! Presumo que não tenha dúvidas sobre a existência da mesma máfia do lado ucraniano ... aliás a origem não deixará de ser a mesma. Ou será que está crente de as confusões sobre o controle e combate à corrupção terem sido um mero lapso? Ou que as alterações do elenco governativo e/ou militar são apenas substituições por conveniência dos serviços? A "criação do inimigo" com a tradicional demonização e consequentemente desumanização do "Outro" está já a bombar há longo tempo ... o Coronel é apenas mais uma peça do enredo.                   José B Dias > Jose Pires: Como já lhe expliquei noutra resposta a distinto comentário, o controle não necessita de ser feito com a ocupação física de um território ... se tiver dúvidas veja quem controla o petróleo do Iraque ou do Koweit ... ou para que serviu e serve a Commonwealth ... ou quem tem bases militares em metade dos países e territórios do Mundo ... ou quem não abre mão do Panamá ou do Suez. E podia continuar ... o colonialismo de antanho implicou despesa que o actual colonialismo político, económico e financeiro não tem. E a velha "política da canhoneira" continua hoje tão eficaz como dantes ... só que os mísseis e os aviões e suas plataformas tomaram o seu lugar.                Paulo Cardoso > João Floriano: É uma forma válida de pensar, com a qual no entanto não me identifico. Prefiro - pragmaticamente , cinicamente e egoisticamente - centrar-me no meu umbigo e no dos meus, para encontrar a solução menos penalizadora para nós. Entrarmos num conflito que não foi por nós criado e alterar uma estratégia de defesa de décadas, não me parece benéfico para nós. Aliás, se dúvidas houver, as consequências económicas e de coesão que temos sofrido e a que temos assistido, se encarregam de as desfazer. Mais. O apoio incondicional à Ucrânia, mais não é que a premiação da incúria. O sinal que passa com esta atitude, é que não vale a pena o esforço e a disciplina, porque quando a consequência da ausência destes se manifestar, alguém se chega à frente e a resolve. Não é esta a minha forma de estar na vida. Por fim, seria conveniente ouvir os ucranianos. Ainda hoje de manhã, na NOW, um pouco depois das 08:00, em directo de Kiev, o jornalista que lá se encontra há uns meses referiu que a população, maioritariamente, começa a manifestar o interesse no fim da Guerra, mesmo que para isso tenham de abdicar de territórios. A estes se juntam os mais de 1/4 da população que optou por deixar o país, na vez de ficar para o defender. A mim parece-me que, na e da Ucrânia, serão uma minoria aqueles que apoiam a estratégia de Zelensky. Ao pensar assim, estou a apoiar a agressão russa? Ou estarei a pugnar pela solidificação dos meios que nos trazem a resiliência necessária para a combater? É que, se no pós 08 de novembro de 1989, todos os países tivessem seguido o rumo que a Ucrânia seguiu, muito provavelmente as fronteiras russas já se encontrariam estabelecidas no centro da Europa.                    José B Dias > joaquim Pocinho: O Jaquim chega a dar pena de tão básico e mal formado que demonstra ser! 🫣 Mas não duvido se tenha em conta de grande democrata, amante e incansável e esforçado combatente pela Liberdade ... de todos pensarem como o meu caro e votarem no seu candidato. PS: explicar por que está convencido que não tenho razão não é o mesmo que provar que não a tenho ... e olhe que nem sequer afirmo tê-la mas apenas que nem tudo o que é dito em sentido oposto corresponde à realidade. Mas tal deve ser basicamente impossível de apreender por quem como o Jaquim vê o mundo a preto e branco com "bons" angélicos e "maus" demoníacos.                      José B Dias > João Floriano Mas, meu caro João, não sou eu que passo o tempo a sugerir aos meus compatriotas, que pensam de forma distinta da minha, que emigrem, que se alistem em exércitos estrangeiros ou que se tornem mercenários ... E confesso ter considerado a assunção de idêntica posição por parte do aqui cronista de muito mau gosto.             Miguel Macedo: Muito bem!

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