Mas são “amigos do Putin” presente por
puro pedantismo vindo de tempos remotos, em que era de bom tom ser-se amante da
pátria antiga dos Dostoievski e dos Tolstói. Mas o corpo deles não paga, só o
dos outros, optando, em termos musicais, pelo “Daqui não saio”…
"Os amigos de Putin e os inimigos
de si mesmos, segundo António Variações.
Por muito que comentadores com
agenda, activistas vários e generais de serviço à “mãe Rússia” tentem enrolar a
narrativa, a equação é simples: o que é
bom para o Kremlin é mau para nós!
JOSÉ ANTÓNIO
RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"
OBSERVADOR, 31 jul. 2025, 00:1680
A aventura russa na Ucrânia não me apanhou desprevenido,
tal como não surpreenderia qualquer pessoa com pelo menos dois neurónios que já
tivesse olhado com atenção e distanciamento para o currículo de Moscovo: Geórgia em 2008, Crimeia em 2014 e, antes disso, o desfile habitual de
ameaças, mentiras, blindados e prepotências nos arredores do império.
O sistema internacional, apesar dos
suspiros utópicos de gente perigosa como ingénuos e ignorantes, continua a ser
um campo de batalha hobbesiano, com canhões
apontados às fronteiras uns dos outros.
O poder tem horror ao vazio e, sempre que uma potência com maus fígados sente ter
músculo e oportunidade para alterar um status quo que não lhe agrada, não
hesita em fazê-lo. A
História confirma-o e não há “Alianças de Civilizações” com Zapateros,
Erdogans, e declarações de boas intenções que a desmintam.
Mas o que entristece, no caso da
Ucrânia, é menos a brutalidade e a desfaçatez russa, do que a simpatia envergonhada, ou nem tanto, que
Moscovo suscita em certos meios. Nos media, nas redes sociais e até na política portuguesa,
há quem suspire pelo Sr. Putin como se ele fosse uma versão caucasiana do Che
Guevara, apenas com mais mísseis, mais capacidade de matar e menos charme
fotogénico. Essa gente olha para o Ocidente, a sua
civilização, os seus valores e o conforto que lhes permite berrar disparates urbi
et orbi, com um desprezo mal disfarçado, como se torcer pelo adversário fosse
uma forma sofisticada de rebeldia ou virtude.
Eu, que sou beirão, português, europeu e
ocidental, sei simplesmente de que lado estou. E, por mais voltas que todos
possamos dar, os russos não são dos “nossos”. É assim de simples!
Não é sequer necessário exumar
Huntington, para perceber isso. Trata-se de uma civilização distinta, com a matrioska histórica
a esconder sempre o mesmo núcleo: Ivan “o
Terrível” e Pedro “o Grande”. As bonecas exteriores podem mudar de nome,
Estaline, Brejnev, Putin, mas o fundo imperial, autocrático e repressor, é
sempre o mesmo.
Por
isso cada sucesso da Rússia, na Geórgia, na Crimeia ou no Donbass, é
objectivamente um revés para os nossos interesses. Nossos, do Ocidente. Porque
é dele que fazemos parte.
Por muito que comentadores com
agenda, activistas vários e generais de serviço à “mãe Rússia”, heróis de
caserna que fazem fretes vergonhosos à propaganda, tentem enrolar a narrativa,
a equação é simples: o que é bom para o Kremlin é mau para nós!
Ainda assim há que apontar repetidamente
para eles e para o seu relativismo, até moral, que funciona por encomenda e em
função do cliente. Quando o agressor é russo ou quando o alvo é
ocidental, o activismo e a sinalização de virtude evaporam-se. Não se vêem “escudos humanos” a caminho de
Kiev, nem petições inflamadas a exigir a paz na Ucrânia. A Dra. Mortágua não grita por “genocídios” dia
sim, dia sim, e o Bispo
Torgal não se deu ainda ao trabalho de assinar petições flamejantes,
contrariamente ao seu hábito. A Dra. Ana
Gomes ainda não teve um daqueles seus assustadores sobressaltos de
indignação contra os voos do FSB e os prisioneiros deportados para a Sibéria e
claro, o Sr Guterres não se distrai muito dos seus digestivos hábitos por
minudências que não envolvam apocalipses climáticos e tremendas condenações dos
bodes expiatórios do costume.
Não se trata apenas de
omissão. Alguns, com ar sério, explicam-nos que Zelensky é um perigoso
provocador nazi e que Moscovo, pacífico como um ternurento panda, se limita a
reagir. São as mesmas almas que, dois minutos
depois, asseguram que Israel não tem direito a defender-se de um grupo de
fanáticos como o Hamas, porque isso seria “desproporcionado”. A palavra
hipocrisia fica curta para todo este miserável malabarismo moral.
Esta fauna televisiva de generais
furiosos, políticos oportunistas e comentadores sibilinos, continua a servir de caixa de ressonância
para os argumentos do Kremlin, como se estivessem a competir por uma
condecoração honorária de Putin ou uma medalha de mérito patrocinada pelo PCP.
Fazem-no com convicção, entre banalidades pseudo-estratégicas e
críticas constantes ao Ocidente, o mesmo Ocidente que, livremente, lhes permite
debitar disparates a seu bel prazer.
E
enquanto exaltam nas redes sociais as imensas maldades da OTAN, Moscovo
continua a investir em propaganda, drones e bombas, contando com a utilíssima
complacência de gente que prefere acreditar que a Ucrânia é apenas um “peão dos
americanos”. A ironia, claro, é que sem os americanos,
sem a OTAN e sem o tal Ocidente “decadente”, todas estas criaturas estariam a
ouvir as ordens do Kremlin pela rádio estatal e a escrever com censura prévia.
Quando toda esta gente acordar, se acordar, talvez perceba que a Ucrânia
é apenas a linha da frente de uma guerra mais vasta. Uma Rússia vitoriosa não
pararia em Kiev, nem nos limites das fronteiras actuais. O sonho imperial de
Moscovo só acaba quando ela, ou todos os vizinhos tiverem sido reduzidos a
vassalos ou cadáveres políticos. E essa realidade não se combate com diálogo e
slogans, mas com força, inteligência, decisão e algum respeito por nós próprios.
Até
lá, continuamos a ver esta corte de estranhos hagiologistas de Putin, a
pavonear-se nos ecrãs, repetindo clichés do Kremlin, como se as esforçadas
meninges, mais dadas à desfaçatez, estivessem a industriar génio estratégico.
Mas a verdade é que enquanto Putin
ri, eles discutem se os ucranianos se devem defender com pedras e paus, ou se
devem, de joelhos, agradecer a invasão.
Talvez devêssemos oferecer a alguns
destes comentadores um bilhete de ida para Moscovo. Tenho para mim que
rapidamente descobririam aquilo que
descobriu o texano Derek Huffman:
Grande
admirador de Putin, fugiu há 4 meses para a Rússia, com a mulher e três filhas.
Alistou-se entusiasticamente no Exército russo com a promessa de uma função
confortável e segura. Acabou com a mulher, chorosa mas ainda viva, a queixar-se
de que tinha sido atirado para a linha da frente como carne para canhão.
O
Variações é que tinha razão: Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga!
COMENTÁRIOS (de 80):
Ana santos: Lamentável para si. Quanto a mim, considero um
privilégio ler e ouvir o Cor. José do Carmo e sobretudo contar com ele para
descobrir a “careca” as mal disfarçadas individualidades pro Putin. Obg pelo
seu PATRIOTISMO Sr Coronel🫡🫡🇵🇹 JOSÉ MANUEL: Obrigado por continuar a desmascarar os traidores
que vivendo no conforto das sociedades ocidentais, tudo fazem para as destruir,
vendendo-se a ditadores, e defendendo caninamente os seus interesses Jose Carmo > José B Dias: Neste universo em que vivemos, a Rússia invadiu a
Geórgia, a Crimeia e o Leste da Ucrânia. No seu universo paralelo, pelos vistos
foi ao contrário. Mas eu não compro a versão de muitos mundos, do Sr Everett. Nuno
Pinho > José B Dias: Que mentiras disse o autor a respeito da máfia Russa?
O texto foi sobre a sua máfia assassina e não sobre a Ucrânia na sua política
interna. Um dos visados no texto, na semana passada na CNN, disse: “A
capitulação da Ucrânia está para breve” MjGen Costa. “A chuva de mísseis e
drones demonstra o poder russo, o ocidente e a nato não sabem no que se meteram.”
MjGen Costa. Jose CarmoLiberales > Semper Erexitque: O inimigo constrói-se a si mesmo, pelas suas acções. E
o meu amigo, devia olhar para a lua, quando lha apontam, em vez de olhar para o
dedo indexante e comentar que a culpa dela estar lá, é do dedo. Maria Oliveira: Com verdade e desassombro, o Coronel José Rodrigues do
Carmo desmascara os putinistas. José Carvalho: Excelente artigo. Neste país há tanto de oficiais do
exército a comentar e a defender a narrativa de Putin, como também alguns
simples comentadores de artigos do observador a fazerem e a defenderem essa
narrativa, como se vê nestes comentários ao excelente artigo do coronel. Carlos Chaves: Simplesmente genial, sem
dúvida a escrita de um Beirão que sabe de que lado é que está a razão, e defende-a
sem complacências e sem falinhas mansas! Um grande bem-haja de um seu
conterrâneo! António
Louro: Excelente artigo. Coragem e frontalidade não lhe faltam. Obrigado. Lily Lx: Muito bem. João Floriano: Excelente! Nuno Pinho > José B Dias: Mas o que tem isso a ver com
facto do artigo? Porque não pode o autor condenar um facto actual, real e
objectivo, sem estender a reflexão a outros factos passados? Sempre que falo do
meu casamento actual, tenho que falar do meu casamento anterior? Juventino Fontes: É uma delícia a sua crónica,
Sr. Coronel! Só VERDADES... Continue. João Floriano > Paulo Cardoso: Mas quando declarou
inequivocamente que queria fazer parte da NATO, foi invadida. Ucrânia e Rússia
têm um passado histórico muito complicado em que se confrontaram mas simultaneamente
misturaram o sangue e criaram laços culturais comuns. De facto não será bem dos
«nossos». Do mesmo modo mesmo dentro do Ocidente, da NATO, da UE haverá alguns
países com os quais nos identificamos menos. Eu desconfio da Turquia na NATO,
só para lhe dar um exemplo. Precisamos imenso da Turquia e da sua influência
geoestratégica, mas Erdogan tem uma agenda que o aproxima mais de líderes como
Putin do que das democracias ocidentais. Não apoiar a Ucrânia, significa
simplesmente apoiar Putin. Mesmo quem orgulhosamente se diz neutro está a
apoiar a agressão russa.
José B Dias > Liberales Semper Erexitque: Subscrevo! PS: permito-me sugerir ao autor
da peça que faça o que diz aos que com ele não concordam que façam ... apresente-se
como voluntário e vá gozar das delícias das políticas ucranianas e constatar in
loco da justeza das suas muitas afirmações. Liberales Semper
Erexitque: Este texto lamentável poderia honrosamente figurar num livro a ser escrito
com o título "A Construção do Inimigo". Francisco Almeida: O artigo do coronel comando
não primará pela originalidade mas é certeiro e cristalino. Quanto a Putín, também está
certo. Foi ele que emergiu mas a cultura subjacente é o imperialismo russo. Se
alguma coisa corrigiria seria em recuar a Geórgia em 2008 para a Chechénia em
2002. Não foi uma conquista mas uma oposição a autodeterminação e a brutalidade
dos métodos e desprezo pela vida humana, ficaram logo claramente expostos. Jose Pires > José B Dias: Por acaso Cuba comunista é, ou
foi alguma vez, uma democracia? Ou foi sempre um vassalo da União Soviética?
Algum país da NATO é uma ditadura sem eleições livres onde o povo pode
escolher? Algum país da Nato invadiu outro país para reclamar território como
seu? Sempre a querer comparar o incomparável nessa sua mente doente pelo
Putin...
José B Dias > Jose Carmo: Invadiu de facto tal como os
USA invadiram Granada, o Panamá, o Iraque ou o Afeganistão e patrocinaram a
invasão de Cuba ou insurrectos avulso um pouco por todo o planeta ... agora
pode começar a justificar as ações de uns e não de outros! Ao contrário de
muitos o meu universo não é a preto e branco e os cowboys não têm sempre razão
no que aos índios respeita. José B Dias
> Nuno Pinho: O que o referido visado no
texto afirmou em pouco ou nada se distingue do que o aqui autor semanalmente
vai afirmando ... apenas que de sinal oposto! Presumo que não tenha dúvidas
sobre a existência da mesma máfia do lado ucraniano ... aliás a origem não
deixará de ser a mesma. Ou será que está crente de as confusões sobre o controle e combate à
corrupção terem sido um mero lapso? Ou que as alterações do elenco governativo
e/ou militar são apenas substituições por conveniência dos serviços? A "criação do
inimigo" com a tradicional demonização e consequentemente desumanização do
"Outro" está já a bombar há longo tempo ... o Coronel é apenas mais
uma peça do enredo.
José B Dias > Jose Pires: Como já lhe expliquei noutra
resposta a distinto comentário, o controle não necessita de ser feito com a
ocupação física de um território ... se tiver dúvidas veja quem controla o
petróleo do Iraque ou do Koweit ... ou para que serviu e serve a Commonwealth
... ou quem tem bases militares em metade dos países e territórios do Mundo ...
ou quem não abre mão do Panamá ou do Suez. E podia continuar ... o
colonialismo de antanho implicou despesa que o actual colonialismo político,
económico e financeiro não tem. E a velha "política da canhoneira"
continua hoje tão eficaz como dantes ... só que os mísseis e os aviões e suas
plataformas tomaram o seu lugar. Paulo Cardoso > João Floriano: É uma forma válida de pensar,
com a qual no entanto não me identifico. Prefiro - pragmaticamente ,
cinicamente e egoisticamente - centrar-me no meu umbigo e no dos meus, para
encontrar a solução menos penalizadora para nós. Entrarmos num conflito que não
foi por nós criado e alterar uma estratégia de defesa de décadas, não me parece
benéfico para nós. Aliás, se dúvidas houver, as consequências económicas e
de coesão que temos sofrido e a que temos assistido, se encarregam de as
desfazer. Mais. O apoio incondicional à Ucrânia, mais não é que a premiação
da incúria. O sinal que passa com esta atitude, é que não vale a pena o esforço
e a disciplina, porque quando a consequência da ausência destes se manifestar,
alguém se chega à frente e a resolve. Não é esta a minha forma de estar na vida.
Por fim, seria conveniente ouvir os ucranianos. Ainda hoje de manhã,
na NOW, um pouco depois das 08:00, em directo de Kiev, o jornalista que lá se
encontra há uns meses referiu que a população, maioritariamente, começa a manifestar
o interesse no fim da Guerra, mesmo que para isso tenham de abdicar de
territórios. A estes se juntam os mais de 1/4 da população que optou por deixar
o país, na vez de ficar para o defender. A mim parece-me que, na e da Ucrânia,
serão uma minoria aqueles que apoiam a estratégia de Zelensky. Ao pensar assim,
estou a apoiar a agressão russa? Ou estarei a pugnar pela solidificação dos
meios que nos trazem a resiliência necessária para a combater? É que, se no pós
08 de novembro de 1989, todos os países tivessem seguido o rumo que a Ucrânia
seguiu, muito provavelmente as fronteiras russas já se encontrariam
estabelecidas no centro da Europa. José B Dias > joaquim Pocinho: O Jaquim chega a dar pena de
tão básico e mal formado que demonstra ser! 🫣 Mas não duvido se tenha em conta de grande democrata,
amante e incansável e esforçado combatente pela Liberdade ... de todos pensarem
como o meu caro e votarem no seu candidato. PS: explicar por que está convencido que não tenho razão não é o mesmo que
provar que não a tenho ... e olhe que nem sequer afirmo tê-la mas apenas que
nem tudo o que é dito em sentido oposto corresponde à realidade. Mas tal deve ser
basicamente impossível de apreender por quem como o Jaquim vê o mundo a preto e
branco com "bons" angélicos e "maus" demoníacos. José B Dias > João Floriano Mas, meu caro João, não sou eu
que passo o tempo a sugerir aos meus compatriotas, que pensam de forma distinta
da minha, que emigrem, que se alistem em exércitos estrangeiros ou que se tornem
mercenários ... E confesso ter considerado a assunção de idêntica posição por parte do aqui
cronista de muito mau gosto. Miguel
Macedo: Muito bem!
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