quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Território escalado

 

E a indignação de um Coronel Comando, pondo a claro o que já o era, desde o início, agora com a falsa idiotice de outro vil presunçoso incongruente, de quem o mundo ri, mas de uma impunidade também estarrecedora, a acrescentar à impunidade do primeiro arrogante, fardado com a sua capa desprezível de modesto comedimento, a rebolar-se de gozo interior. Que mundo humilhante da raça humana!

TRUMPUTIN: da Cimeira do Absurdo ao Absurdo do Que Se Segue

Putin regressa a Moscovo com o troféu fotográfico e com o saco cheio. Que ninguém se iluda: testará novamente a coesão ocidental e não tardará.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 20 ago. 2025, 00:01

Na sexta-feira, o mundo assistiu em directo a um inacreditável episódio de teatro geopolítico. Donald Trump e Vladimir Putin, encontraram-se na pista de uma base militar no Alasca como se estivessem a encenar o reencontro de dois líderes do mundo. Como se um deles não andasse a invadir vizinhos e o outro não parecesse ter a vontade de fazer o mesmo. Como se o “amigo Vladimir” não fosse apenas o ditador de um país que é cada vez mais, apenas um depósito de matérias-primas com armas nucleares, uma demografia em decadência e crescentemente dependente da China.

Com soldados americanos ajoelhados perante um ex-agente do KGB, Trump a aplaudir a criatura, caças F-35 a roncar no céu e um bombardeiro furtivo a deslizar como se fosse um pombo da paz, o cenário estava montado: não para uma negociação séria, mas para uma coreografia de vaidades e equívocos. A passadeira vermelha, estendida ao homem que há mais de três anos bombardeia a Ucrânia e que só não invade outros por ali perto, porque ainda não teve oportunidade e o garfo não chega para tantos pratos.

Putin veio com um plano simples: rejeitar qualquer cessar-fogo, culpar o Ocidente por tudo e, já agora, tentar convencer Trump de que a “operação especial” começou por culpa de Biden, e não, digamos, das nostalgias megalómanas da URSS, como Lavrov fez questão de assinalar simbolicamente.

Ao fim de três horas e sem um único gesto que não cheirasse a encenação, Trump comunicou a Zelensky, à NATO e ao mundo, que Putin é fantástico e não quer apenas um cessar-fogo, como ele humildemente pretendia.

Quer um “acordo global” para discutir as “causas fundamentais” da guerra. Traduzindo por miúdos, quer que lhe entreguem a Ucrânia embrulhada em celofane, com lacinho e aplausos.

As “causas fundamentais”, segundo o catecismo de Moscovo, são conhecidas: a ousadia da Ucrânia em querer continuar a ser um estado soberano, o desplante da NATO em existir e o ultraje de o Ocidente não deixar a Rússia reescrever fronteiras a tiro. Neste delírio, a “operação especialnão é uma guerra, muito menos uma invasão, é apenas uma legítima resistência estratégica à liberdade dos outros. E Trump, fiel ao seu talento para o disparate diplomático, começou novamente a repetir o refrão de Moscovo.

Não satisfeito com dar palco a um cínico megalómano, o presidente norte-americano ainda teve tempo e lata para elogiar a cordialidade do encontro, como se estivesse a falar de um chá com o Dalai Lama. Não é. Putin não é sequer um figurante excêntrico como o deus Zuche da Coreia do Norte; é um autocrata impiedoso, ex-agente do KGB, especialista em usar truques e alçapões diplomáticos, para recarregar mísseis. E, como sempre, jogou com o ego de Trump como quem toca violino: disse-lhe que com ele na Casa Branca não haveria guerra e ainda lhe piscou o olho com a teoria do voto por correspondência como instrumento satânico. Trump sorriu, babou-se e alinhou.

É a história de “Amar pelos dois”. Trump admira Putin, e Putin despreza Trump, mas faz-lhe elogios untuosos e manipula-o de modo tão primário que até se sente vergonha alheia.

E, todavia, funciona, porque na Casa Branca está sentado um narcisista completo.

A fotografia de Putin a desfilar sobre uma passadeira vermelha, ladeado por guardas de honra, com F-35s a sobrevoar-lhe o escalpe, e Trump a aplaudir, será emoldurada no Kremlin como glória eterna do Grande Líder. A mensagem para o mundo é cristalina: pode-se invadir um país soberano, arrasar cidades e, no fim, ser recebido como herói e pop star.

A cimeira, naturalmente, terminou sem acordo, e Trump foi comido de cebolada. Ao aceitar discutir “causas profundas”, ao abdicar da exigência de um cessar-fogo imediato, e ao adiar para as calendas gregas, as tais medidas punitivas tremendas que prometera, Trump ofereceu a Putin o que este mais queria: tempo, palco, legitimidade e a submissão abjecta da América.

Kiev assiste, impotente, à negociação do seu destino entre homens que falam de paz com o mesmo entusiasmo com que assinam cheques em branco. Como resumiu Medvedev, com o cinismo habitual, “a responsabilidade agora recai sobre a Ucrânia e a Europa”. Ou seja, arranjem-se, que nós continuamos na nossa e temos o pobre Donald na algibeira.

O fiasco foi tão rotundo que qualquer migalha futura será celebrada como banquete.

Se Zelensky conseguir reorganizar apoios, fixar condições e manter voz própria, poderá ainda recuperar algum controlo sobre o guião. Trump abriu a porta a uma reacção mais firme do Ocidente, se este quiser, de facto, ser Ocidente. Mas a ampulheta corre. Putin ganhou tempo, reforçou influência e mostrou que pode continuar a bombardear enquanto sorri e faz elogios ao seu rapaz.

Entretanto, o encontro serviu para clarificar o essencial. Putin quer território e alívio económico. Trump quer negociar o território dos outros, sem perder audiências e está ansioso por uma paz qualquer, nem que seja de uma semana, desde que possa aparecer na fotografia e pedinchar o Nobel. Depois que se lixe.

A Ucrânia quer sobreviver. A Europa gostaria de não acordar dos doces sonhos. A China está a tomar notas. Se o Ocidente ceder à chantagem agirá na sua zona.

Putin regressa a Moscovo com o troféu fotográfico e com o saco cheio. Que ninguém se iluda: testará novamente a coesão ocidental e não tardará.

Kiev tem pouco tempo e muito a perder. A prioridade é reforçar defesas, exigir garantias e não ceder soberania em troca de “boa vontade”.

A Europa ganha um ponto por não ter sido traída em directo, mas não pode confiar que os EUA não troquem valores por negócios ou feiras de vaidades. Não pode, na verdade, no futuro, confiar nos EUA e todos os líderes europeus sabem já disso. É bom que se mexam, porque há muito a fazer.

A cimeira do Alasca foi apenas mais um episódio de uma peça em que todos fingem querer o fim da guerra, excepto quem a começou. Se serviu para alguma coisa, foi para recordar que há encenações que não aproximam a paz. Prolongam a guerra. E, por vezes, servem apenas para mostrar a que ponto podem chegar os transtornos do ego.

Não contente, na noite de Domingo, Trump resolveu continuar como porta-voz do Kremlin. Advertiu o presidente ucraniano de que deve renunciar ao sonho da NATO e entregar território, como se a soberania fosse uma prenda de aniversário e as anexações ilegais uns faits-divers. Nada que Putin não tenha dito, ele próprio, entre um envenenamento e uns empurrões das varandas.

O seu enviado, Steve Witkoff,(de Trump? De Putin?) veio depois tentar disfarçar o servilismo com promessas vagas de garantias de segurança. Aquelas garantias que se anunciam com pompa, mas que, em termos práticos, valem tanto como um guarda-chuva num bombardeamento.

Até agora, Washington tem recusado comprometer-se com a defesa futura da Ucrânia que é também, numa alargada visão geopolítica, a defesa dos interesses dos EUA. Com Trump, essa recusa ameaça tornar-se doutrina. Pelo que se vê, mais facilmente se compromete com a defesa dos interesses da Rússia.

A pantomima de Segunda-Feira na Casa Branca foi só mais uma encenação. Trump serviu de estafeta de Putin, teve de lhe ligar para receber o guião, e regressou com a cassete: reconhecimento daquilo que a Rússia já roubou, cedência do que ainda não saqueou, e o beneplácito para continuar a marcha rumo ao seu velho sonho imperial.

Desenganem-se os ingénuos e timoratos. Putin não quer paz. Quer território. Quer submissão. Quer vingança. E só será travado se for forçado a parar. Não com reuniões de poltrona, não com acordos de confiança mútua, não com apertos de mão para a fotografia, mas com a força.

O senador Lindsey Graham, esse sim, tem uma proposta com substância: sanções secundárias demolidoras, capazes de estilhaçar o financiamento russo e secar a maquinaria de guerra do Kremlin. Isso, e uma ajuda militar real e constante à Ucrânia, é o único travão que Putin conhece.

O resto é senso comum: sanções como alavanca, não como suborno. Alívio só com resultados. Ucrânia no centro, nenhuma decisão sem Kiev na mesa. Veto incluído. Nenhum reconhecimento formal de territórios adquiridos pela força.

Garantias a sério: tropas efectivas, satélites, mapas definidos e sanções automáticas. Sem isso, é farsa.

Com a Rússia, os papéis de nada servem, porque nunca serviram para nada. Só a força!

Porque a questão é tão simples como isto: ou a Rússia é travada na Ucrânia, ou, já com as forças ucranianas mobilizadas no novo Exército Vermelho, surgirá em pouco tempo às portas de Varsóvia e Berlim. O guião não é novo. Aleksandr Dugin escreveu-o há quase três décadas. Putin está apenas a executá-lo. E os que ainda fingem surpresa são cúmplices por inércia e ignorância.

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