E a indignação de um Coronel Comando, pondo a claro o que já o era, desde
o início, agora com a falsa idiotice de outro vil presunçoso incongruente, de
quem o mundo ri, mas de uma impunidade também estarrecedora, a acrescentar à
impunidade do primeiro arrogante, fardado com a sua capa desprezível de modesto
comedimento, a rebolar-se de gozo interior. Que mundo humilhante da raça
humana!
TRUMPUTIN: da Cimeira do Absurdo ao Absurdo do Que Se Segue
Putin regressa a Moscovo com o troféu fotográfico e com o saco
cheio. Que ninguém se iluda: testará novamente a coesão ocidental e não
tardará.
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel
"Comando"
OBSERVADOR, 20 ago. 2025, 00:01
Na sexta-feira, o mundo assistiu em directo a um inacreditável
episódio de teatro geopolítico. Donald Trump e Vladimir
Putin,
encontraram-se na pista de uma base militar no Alasca como se estivessem a
encenar o reencontro de dois líderes do mundo. Como se um deles não andasse a
invadir vizinhos e o outro não parecesse ter a vontade de fazer o mesmo. Como
se o “amigo Vladimir” não fosse apenas o ditador de um país que é cada vez
mais, apenas um depósito de matérias-primas com armas nucleares, uma demografia
em decadência e crescentemente dependente da China.
Com
soldados americanos ajoelhados perante um ex-agente do KGB, Trump a aplaudir a
criatura, caças F-35 a roncar no céu e um bombardeiro furtivo a deslizar como
se fosse um pombo da paz, o cenário estava montado: não para
uma negociação séria, mas para uma coreografia de vaidades e equívocos. A passadeira vermelha, estendida ao homem que há mais
de três anos bombardeia a Ucrânia e que só não invade outros por ali perto,
porque ainda não teve oportunidade e o garfo não chega para tantos pratos.
Putin
veio com um plano simples: rejeitar qualquer cessar-fogo, culpar o Ocidente por
tudo e, já agora, tentar convencer Trump de que a “operação especial” começou
por culpa de Biden, e não, digamos, das nostalgias megalómanas da URSS, como
Lavrov fez questão de assinalar simbolicamente.
Ao
fim de três horas e sem um único gesto que não cheirasse a encenação, Trump
comunicou a Zelensky, à NATO e ao mundo, que Putin é fantástico e não quer
apenas um cessar-fogo, como ele humildemente pretendia.
Quer um “acordo global” para discutir as
“causas fundamentais” da guerra. Traduzindo
por miúdos, quer que lhe entreguem a Ucrânia embrulhada em celofane, com
lacinho e aplausos.
As “causas fundamentais”, segundo o
catecismo de Moscovo, são conhecidas: a ousadia da Ucrânia em querer continuar a ser um estado soberano, o
desplante da NATO em existir e o ultraje de o Ocidente não deixar a Rússia
reescrever fronteiras a tiro. Neste delírio, a “operação especial” não é uma guerra, muito menos uma
invasão, é apenas uma legítima resistência estratégica à liberdade dos outros.
E Trump, fiel ao seu talento para o disparate diplomático, começou
novamente a repetir o refrão de Moscovo.
Não
satisfeito com dar palco a um cínico megalómano, o presidente norte-americano
ainda teve tempo e lata para elogiar a cordialidade do encontro, como se
estivesse a falar de um chá com o Dalai Lama. Não é. Putin não é
sequer um figurante excêntrico como o deus Zuche da Coreia do Norte; é um
autocrata impiedoso, ex-agente do KGB, especialista em usar truques e alçapões
diplomáticos, para recarregar mísseis. E, como sempre, jogou com o ego de Trump como quem toca
violino: disse-lhe que com ele na Casa Branca não haveria guerra e ainda lhe
piscou o olho com a teoria do voto por correspondência como instrumento satânico.
Trump sorriu, babou-se e alinhou.
É a história de “Amar
pelos dois”. Trump admira Putin, e Putin despreza Trump, mas
faz-lhe elogios untuosos e manipula-o de modo tão primário que até se sente
vergonha alheia.
E, todavia, funciona, porque
na Casa Branca está sentado um narcisista completo.
A fotografia de Putin a desfilar
sobre uma passadeira vermelha, ladeado por guardas de honra, com F-35s a
sobrevoar-lhe o escalpe, e Trump a aplaudir, será emoldurada no Kremlin como
glória eterna do Grande Líder. A mensagem para o mundo é cristalina: pode-se
invadir um país soberano, arrasar cidades e, no fim, ser recebido como herói e pop
star.
A
cimeira, naturalmente, terminou sem acordo, e Trump foi comido de cebolada. Ao
aceitar discutir “causas profundas”, ao abdicar da exigência de um cessar-fogo
imediato, e ao adiar para as calendas gregas, as tais medidas punitivas
tremendas que prometera, Trump ofereceu a Putin o que este mais queria: tempo,
palco, legitimidade e a submissão abjecta da América.
Kiev
assiste, impotente, à negociação do seu destino entre homens que falam de paz
com o mesmo entusiasmo com que assinam cheques em branco. Como resumiu
Medvedev, com o cinismo habitual, “a responsabilidade agora recai sobre
a Ucrânia e a Europa”. Ou seja, arranjem-se, que nós continuamos na nossa e
temos o pobre Donald na algibeira.
O fiasco foi tão rotundo que qualquer
migalha futura será celebrada como banquete.
Se
Zelensky conseguir reorganizar apoios, fixar condições e manter voz própria,
poderá ainda recuperar algum controlo sobre o guião. Trump abriu a porta a uma
reacção mais firme do Ocidente, se este quiser, de facto, ser Ocidente. Mas a
ampulheta corre. Putin ganhou tempo, reforçou influência e mostrou que pode
continuar a bombardear enquanto sorri e faz elogios ao seu rapaz.
Entretanto, o encontro serviu para
clarificar o essencial. Putin quer território e alívio económico. Trump quer negociar o território dos
outros, sem perder audiências e está ansioso por uma paz qualquer, nem que seja
de uma semana, desde que possa aparecer na fotografia e pedinchar o Nobel. Depois que se lixe.
A Ucrânia quer sobreviver. A Europa
gostaria de não acordar dos doces sonhos. A China está a tomar notas. Se o
Ocidente ceder à chantagem agirá na sua zona.
Putin regressa a Moscovo com o troféu fotográfico e com o
saco cheio. Que ninguém se iluda: testará novamente a coesão ocidental e não
tardará.
Kiev tem pouco tempo e muito a perder. A prioridade é reforçar
defesas, exigir garantias e não ceder soberania em troca de “boa vontade”.
A
Europa ganha um ponto por não ter sido traída em directo, mas não pode confiar
que os EUA não troquem valores por negócios ou feiras de vaidades. Não pode, na
verdade, no futuro, confiar nos EUA e todos os líderes europeus sabem já disso.
É bom que se mexam, porque há muito a fazer.
A cimeira do Alasca foi apenas mais um episódio de uma peça em que
todos fingem querer o fim da guerra, excepto quem a começou. Se serviu para
alguma coisa, foi para recordar que há encenações que não aproximam a paz.
Prolongam a guerra. E, por vezes, servem apenas para mostrar a que ponto podem
chegar os transtornos do ego.
Não contente, na noite de Domingo, Trump
resolveu continuar como porta-voz do Kremlin. Advertiu
o presidente ucraniano de que deve renunciar ao sonho da NATO e entregar
território, como se a soberania fosse uma prenda de aniversário e as anexações
ilegais uns faits-divers. Nada que
Putin não tenha dito, ele próprio, entre um envenenamento e uns empurrões das
varandas.
O seu enviado, Steve Witkoff,(de
Trump? De Putin?) veio depois tentar disfarçar o servilismo com promessas vagas
de garantias de segurança. Aquelas garantias que se anunciam com pompa, mas
que, em termos práticos, valem tanto como um guarda-chuva num bombardeamento.
Até
agora, Washington tem recusado comprometer-se com a defesa futura da Ucrânia
que é também, numa alargada visão geopolítica, a defesa dos interesses dos EUA.
Com Trump, essa recusa ameaça tornar-se doutrina. Pelo que se vê, mais
facilmente se compromete com a defesa dos interesses da Rússia.
A pantomima de Segunda-Feira na Casa
Branca foi só mais uma encenação. Trump serviu de estafeta de Putin, teve de lhe ligar para receber o guião, e regressou
com a cassete: reconhecimento daquilo que a Rússia já roubou,
cedência do que ainda não saqueou, e o beneplácito para continuar a marcha rumo
ao seu velho sonho imperial.
Desenganem-se os ingénuos e
timoratos. Putin não quer paz. Quer território. Quer submissão. Quer vingança.
E só será travado se for forçado a parar. Não com reuniões de poltrona, não com
acordos de confiança mútua, não com apertos de mão para a fotografia, mas com a
força.
O senador Lindsey
Graham, esse sim, tem uma proposta com substância: sanções secundárias demolidoras, capazes de estilhaçar
o financiamento russo e secar a maquinaria de guerra do Kremlin. Isso, e uma
ajuda militar real e constante à Ucrânia, é o único travão que Putin conhece.
O resto é senso comum: sanções como alavanca, não como suborno. Alívio só com
resultados. Ucrânia no centro, nenhuma decisão sem Kiev na mesa. Veto incluído.
Nenhum reconhecimento formal de territórios adquiridos pela força.
Garantias a sério: tropas efectivas, satélites, mapas definidos e sanções automáticas. Sem
isso, é farsa.
Com a Rússia, os papéis de nada servem,
porque nunca serviram para nada. Só a força!
Porque a questão é tão simples como
isto: ou a Rússia é travada na Ucrânia, ou, já
com as forças ucranianas mobilizadas no novo Exército Vermelho, surgirá em
pouco tempo às portas de Varsóvia e Berlim. O guião não é novo. Aleksandr Dugin
escreveu-o há quase três décadas. Putin está apenas a executá-lo. E os que
ainda fingem surpresa são cúmplices por inércia e ignorância.
DONALD TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO VLADIMIR
PUTIN RÚSSIA GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA GEOPOLÍTICA
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