Enternecedora. Daí, os passadiços, para a nossa contemplação. Mas o sofá também nos serve, nas chamas, esperando as chuvas.
No país dos passadiços
Entre a nostalgia e o paternalismo condescendente dos urbanitas,
arde esse país em que o município é o grande empregador e o único investimento
mediaticamente aceitável são os passadiços.
HELENA MATOS Colunista do Observador
OBSERVADOR, 24
ago. 2025, 00:0377
As imagens das mulheres atirando as
mãos à cabeça no meio duma paisagem abrasada pelo fogo são o lado dramático
daquele país que noutros meses nos chega, mediaticamente falando, durante horas
de emissão animadas por grupos etnográficos que cantam e dançam modas de um
país que asseveram ser das tradições, dos bons costumes, da boa comida, da vida
saudável…
Na verdade, um país que não só
já não existe como nunca existiu dessa forma harmoniosa porque se assim tivesse
sido, os nossos bisavós, avós, pais e tios não o teriam trocado pelas cidades
do litoral. Teriam continuado a viver lá, nos ciclos do pousio e das
culturas, pastoreando e recolhendo o mato pelos montes. Não foi isso que fizeram, porque queriam
escapar à pobreza: partiram e nós, os seus descendentes, também não voltamos lá
a não ser nas férias. Ou para passar uns tempos depois da reforma.
Este desfasamento entre aquilo que esse país é e a forma como falamos
dele está a tornar-se-me estridentemente insuportável. De alguma forma é como se nosso imaginário nada tivesse mudado
na aldeia de que parte o Emigrante de Malhoa nos anos 30 do século passado,
como se aqueles terrenos continuassem a ser agricultados, como se a mancha
florestal não tivesse crescido pelos cabeços e os camponeses cansados
continuassem a dormir a sesta no meio palha…
Ora não só isso não é verdade como a esta ficção que a nostalgia
explica mas não legitima se juntou um paternalismo crescentemente insuportável,
pois não só a imagem cristalizou no passado como se reage a qualquer alteração
a esse cliché como uma ameaça, uma nódoa nessa paisagem, um atentado, sobretudo
se essa alteração tiver um intuito económico: o olival é intensivo, os eucaliptais ardem (os não eucaliptais
também ardem mas nestes argumentários isso não conta), o lítio é inaceitável
porque a sua exploração obedece a uma lógica extractivista… Muito
significativamente quando se faz o levantamento, desde os anos 60 do século
passado, dos grupos a quem têm sido assacadas as responsabilidades pelos
incêndios, e excepção feita aos fumadores, reaccionários e comunistas dos
tempos revolucionários, deparamos quase sempre com inconfessáveis interesses económicos por trás das chamas: madeireiros,
indústria das celuloses, promotores imobiliários, interessados na exploração de
lítio… Certamente que por todos esses interesses se terá ateado
fogo em Portugal, mas para que os fogos (fossem eles de origem criminosa ou
provocados por causas tão impossíveis de evitar quanto o raio duma trovoada) se
transformassem em grandes incêndios outros tiveram de concorrer. Quem? Nós, aqueles
que deixámos de viver lá. Mas
não só. É também todo esse
país que acha normal que em boa parte do interior os municípios sejam os
maiores empregadores locais e que, à excepção desses passadiços em madeira que
ardem todos os anos, desconfia de todos os outros investimentos.
Sem gente, sem economia e com o clima
que temos, o fogo, que é incontornável, ganha proporções que não antecipámos.
Acreditar
que é tudo uma questão de meios ou de “guerra”, como afirma o
primeiro-ministro, ou de declaração de estado de calamidade, como reivindica a
oposição, é apenas alimentar os fogos do próximo Verão.
COMENTÁRIOS (de 77)
Rui Lima: O poder local em Portugal de
emprego e desperdício, em muitas terras é o primeiro patrão e negócios pouco
claros . Vejam na Suíça onde o executivo municipal (Gemeinderat) tem um
presidente e algumas secretarias são os únicos encargos fixos, conselho local
ou assembleia municipal, muitas vezes não remunerada, composta por cidadãos que
participam nas decisões estratégicas. Os trabalhos operacionais (obras,
manutenção, serviços) são normalmente adjudicados por concursos públicos a
empresas privadas, o que reduz custos fixos. Em Portugal a despesa
corrente (funcionamento, salários, manutenção, consumos, etc.) absorve ≈ 55% a
65% do orçamento municipal. Suíça custo administrativo é muito leve
frequentemente menos de 10% do orçamento municipal. Em Portugal sobra
pouco para (obras, projectos novos, equipamentos, infraestruturas) 30a 45% na
Suíça sobra 80% para investir . Outro dado: na Suíça, nas pequenas
autarquias sobra muito mais de 90% em Portugal é ao contrário é onde sobra
menos. Sul da Europa tendência de usar poder local como “máquina de
emprego” (pessoal administrativo, técnicos, serviços próprios). Norte e Suíça
aposta em externalização de serviços e em estruturas administrativas pequenas,
com forte participação cívica. Isto explica porque há países ricos e
países pobres os piores países do poder local são Portugal, Espanha, Itália,
Grécia, e a França vai pelo mesmo caminho . Rosa
Ribeiro: Quando encerraram serviços públicos e agências bancárias no Interior
ninguém se preocupou que seria difícil manter pessoas em locais sem as
condições mínimas, nomeadamente escolas e estabelecimentos hospitalares
próximos. Agora todos se queixam da desertificação... Creio que há Autarquias
Locais em excesso e Autarcas que nada fazem para atrair população com ideias
inovadoras para captar investimento, novos empregos e desenvolvimento. Maria
Tubucci: Tem toda a razão Sra. HM, o país dos passadiços, que ardem todos os anos,
está a fazer um óptimo serviço. Vejamos. Está a empobrecer o país rural e a
escorraçar as populações que vêem os seus rendimentos diminuir cada vez mais.
Agora até têm de fazer de “protecção civil”, limpando terrenos para proteger o
país dos urbanos da chatice dos incêndios rurais, que ingratos. Entre as muitas
causas que referiu esqueceu-se uma cada vez mais gritante, a da energia verde. As ventoinhas no cimo das
serras, que já fizeram arder muitas serras, e hoje temos os painéis solares de
plástico chinês, que brotam por todo o lado e que irão contaminar e inutilizar
o solo arável onde são semeados. Nas TVs por estes dias passaram as mais
delirantes opiniões sobre o que fazer para acabar com os incêndios rurais,
desde a limpeza de todos os terrenos, o que é impraticável pois não há recursos
humanos nem e monetários para isso, até ao roubar das propriedades aos rurais
que não as limpam, esquecendo-se que a vegetação está sempre a crescer e não
pára de crescer por decreto. Eu tenho uma sugestão para o país dos
passadiços, façam uma experiência. Nos próximos 25 anos, no país rural e
esquecido pelos políticos, que não dá votos, não tem economia, nem tem gente,
criem uma zona franca, livre de impostos e de socialismo, onde valha a pena
trabalhar, onde o lucro fique para quem investe. Vão ver que o cenário
deste ano muda, o país rural desenvolver-se-á por si próprio. Afonso
Moreira: O interior do território só é interior (200km!) devido aos políticos
angariadores de votos que temos tido nas últimas décadas. Abandonaram 4/5 do
território à sua sorte sem qualquer estratégia de verdadeiros governantes para
todo o território e seu povo porque não é aí que ganham eleições. As
pessoas, em geral, fogem para os sítios onde haja actividade económica e por um
futuro. Não sonhavam ir viver encafuadas num minúsculo apartamento e em bairros
sem identidade nos arredores de Lisboa ou Porto. Quantos países da Europa
desenvolvida têm essa atividade económica e social distribuída pelo território.
Não é preciso inventar nada. O Estado Novo já fazia isso, até com o
investimento privado estrangeiro, definindo as regras e não deixando
simplesmente ao critério do "mercado". Como pode Freixo de Espada
à Cinta competir com Lisboa? Há dias pude ver, bem no interior de França,
terrenos parecidos, em dimensão e culturas com muitos dos nossos, e não os vi
abandonados como se vêem aqui em Portugal. Era possível ser bem diferente o
nosso país, com benefício de todos, os que vivem em Lisboa e Porto e os que não
vivem. observador censurado: Tribunal Constitucional versus
Avião de combate a fogos 1. Tribunal Constitucional (TC) a) Utilidade = zero (Qual a utilidade dum
tribunal político?) b) Custo anual: ordem de grandeza dos 10 milhões de Euros 2. Avião de combate a fogos (A)
a) Utilidade: Para as pessoas mais
valiosas de Portugal, isto é, as que vivem nas regiões de Lisboa, Porto e
Setúbal = zero Para as pessoas que não valem nada, isto é, as pessoas
que vivem nas regiões onde há incêndios florestais = grande b) Custo: ordem de grandeza dos 10 milhões de Euros Conclusão: Porque é que Portugal tem um TC mas não tem um A?
Um A seria para servir os portugueses que não valem nada. Maria Paula Silva: Antes de mais, Obrigada
Observador, porque ao fim de mais de 1 ano voltei a receber o artigo da
HM!!! durante todo esse tempo, com os alertas activos e nada me chegava! C
h i ç a, até que enfim. HM: gostei muito. Estamos todos fartos. Nos negócios enunciados, esqueceu-se
de um: as eólicas!!! Todos os que enunciou e mais esse, apesar dos defensores das
únicas causas geográficas os negarem. Santa paciência! Não concordo que
foram os nossos pais e avós e tios que abandonaram os campos. Esses ficaram e
muitos já morreram e os poucos que restam por lá, estão perto da passagem. Quem
abandonou os campos foram os da nossa geração!!, que não queriam trabalhar a
terra, queriam ser todos doutores e fugiram para as cidades (esse êxodo deu-se
sobretudo a partir de meados dos anos 70). Quanto ao resto, é muito
simples: Basta fazer renascer a lei que havia e que o sô Tony Curry anulou!!
a lei que estipulava que terrenos ardidos durante 30 anos não podiam ser
vendidos, não se podia construir neles, não se podia fazer nada! Enquanto não
MUDAREM a lei sobre terrenos ardidos, a
coisa não pára. Os negócios são mais que muitos. Se mudarem a lei, aposto que
os fogos vão diminuir. Nem sei como um país tão pequeno pode arder tanto todos
os anos. E, começo a achar que há muito mais tipos de pirómanos, para
além daqueles que põem fogo (quase sempre durante a noite??): o exagero com que
a coisa é divulgada, publicada, exposta, acariciada, contemplada,
debatida quase que numa
masturbação pseudo científica, leva-me a crer que há vários tipos de pirómanos.
Estamos rodeados de corruptos e de doentes. E enquanto a lei não for mudada,
estamos todos, directa e indirectamente, a colaborar para o grande circo da
Fogueira Gigante que é Portugal e será em todos os Verões. Maria Cabral A simples reactivação e modernização da linha férrea
permitiria viver em praticamente todo o território. A carência de habitação uma
falácia pois o que temos é carência de mobilidade. A aposta na autoestrada foi um erro/interesse
por explicar. Se é impossível habitar com dignidade não haverá pessoas. Alguém
tente construir em espaço rural e verá o inferno em que se mete. Hoje em dia podemos viver facilmente com
sistemas autónomos, fora das redes, mas o Estado não quer. Chama-se liberdade e
isso chateia o socialismo.
Gavião: A Helena Matos, que só ela justifica a minha
assinatura do Observador, inspirou-se, não tenho dúvidas, na Romaria da Senhora
da Agonia. Mordomas ( cheias de "chieira", cagança, dir-se-ia no
Porto) vindas de Lisboa e similares vestem um traje imaginado (nenhuma
camponesa mais ou menos abastada se vestia assim) e carrega ao peito todo o
ouro da família, vizinhos e amigos e conhecidos. Terminado o Cortejo da
Mordomia entregam o ouro e guardam a fatiota. Daqui a um ano há mais, e
regressam felizes e contentes a Lisboa e similares, ataviadas de Zara ou
Balenciaga conforme a abastança. Komorebi Hi: E... no entanto, como bem
refere Rui Lima no seu comentário, comparando a Suíça a Portugal e decerto que
a Espanha não sai da regra, os políticos na AR reverteram a tentativa de
diminuição do número de Juntas de Freguesia do governo de Passos Coelho que mal
a conseguiu, abandonando por interesses da casta a diminuição necessária do
número de Câmaras Municipais que poderiam ser agregadas. Joaquim Rodrigues: Os nossos “perturbados
mentais” (alcoólicos, drogados, pirómanos, deficientes mentais) são muito
especiais. Depois de saberem as previsões meteorológicas, passaram ali pelos
passadiços do Paiva (e como eles adoram estes passadiços), subiram até ao
Parque Nacional da Peneda Gerês, inflectiram para o Parque Natural do Alvão,
Vila Real, e depois desceram para a Região Centro, Sernancelhe, Trancoso,
Penedono, Aguiar da Beira, passaram pelo Parque Natural do Douro Internacional
e depois pelo Sabugal, Serra do Açor e Serra da Lousã. São assim os nossos
“perturbados mentais”. Portugal tem, em média, cerca de 10 vezes mais
“ignições”, por Km2, que os restantes Países da Bacia Mediterrânica. Esta
situação anómala, não deveria ter merecido, desde logo e já há muito tempo, a
investigação e o esclarecimento cabal, por parte dos nossos Governantes e dos
nossos agentes de investigação, das razões que a explicam? Não há fumo sem
fogo, nem fogo sem "ignições". Por muito difíceis que sejam as
condições de clima, o "clima" não põe fogos. O
"clima" e os "combustíveis finos e grossos" apenas podem
favorecer as condições de propagação do fogo. E sim, temos de preparar o País
para enfrentar os fogos, porque os fogos sempre vão existir. Mas uma coisa
é ter "uma" ignição por (Km2 x ano), outra coisa é ter dez(10)
ignições por (Km2 x ano). Alimentar a "indústria do fogo" e montar
umas "negociatas", com "rendas garantidas", para
"compadres e amigos", à custa dos contribuintes, a pretexto da
limpeza dos agora descobertos "combustíveis finos", isso sim é que
seria "criminoso". Apostar tudo na tão falada "limpeza"
generalizada dos famosos "finos" na floresta, para além de
impossível, é criminosa do ponto de vista da preservação de ecossistemas e da
biodiversidade. Deixem-se de "filmes". Importante é estudar, para
as condições de clima actuais, cada vez mais gravosas, e para as condições
orográficas e de coberto vegetal, ocorrentes no terreno, caso a caso, as formas
de arborização, as formas de uso do solo, ordenamento e gestão florestal e
quais as áreas de protecção a assegurar, devidamente limpas, em volta dos
aglomerados habitacionais do Mundo Rural. Que os "gastos de
dinheiros públicos" em "ordenamento, gestão e limpeza dos espaços
rurais e florestais" e na “protecção de bens públicos” como são os
serviços de “preservação e valorização da natureza, paisagem e biodiversidade”,
revertam a favor da criação, manutenção e valorização de postos de trabalho no
mundo rural, quer em actividades tradicionais quer em novas actividades ligadas
ao lazer e natureza, em particular, para os que lá vivem ou lá queiram viver, é
o que se deseja. Com os meios de Comunicação e Informação hoje disponíveis,
são hoje, cada vez mais, os que optam por uma vida no mundo rural e regressam
aos pequenos aglomerados de onde tinham saído os seus pais e/ou, os seus avós,
muitas vezes para iniciar uma nova vida ligada a actividades rurais ou de
natureza. Vai ser com um “Mundo Rural Vivo” que se evitam e combatem os
incêndios e se preserva esse “bem público” que é o nosso “Património Natural”. Rui Pedro Matos: Concordo com o texto
porque sou Ruralista! A Terra é crucial para uma Economia. A base alimentar e a
Terra são cruciais para assegurar uma parte da independência nacional! A elite
de Lisboa continua a velha expressão 'até às portagens de Alverca é Lisboa,
depois é Província'! As decisões políticas e legais são tomadas em Lisboa sem
qualquer conhecimento do Mundo Rural, da Província! Concordo com o artigo de
opinião! Joaquim
Rodrigues Gavião Seu ignorante. Em Viana, qualquer mulher de Ribeira, (como
qualquer mulher do Minho), toda a poupança que conseguiam fazer, era investida
em ouro, não por chieira, as mais das vezes, mas por segurança. Ao desfile das
Mordomas, só desde há muito pouco tempo, e depois de muitas insistências,
começaram a ser aceites, em dose limitada, mulheres de fora do distrito. José
Paulo Castro Um apagãozito ibérico, maior que um dia e no Inverno, e quero ver quem se
lembra de 'viver bem' no litoral urbano das metrópoles... Jorge
Espinha: No jornal ABC um engenheiro florestal espanhol disse entre outras duas
coisas muito interessantes. “Os verdadeiros pirómanos estão nos gabinetes “
e que custa 50K euros anuais proteger uma povoação dos fogos. Algo que
escapou ao autarca histérico que andou a berrar como um possesso mas que
durante 11 meses não fez um c…… Interessante. Filipe
Paes de Vasconcellos: Uma pergunta: O poder local tem a responsabilidade pela protecção civil dos
seus territórios. Quando acontece uma desgraça vestem o colete laranja e põe-se
aos pinotes perante as inefáveis e irresponsáveis tv’s a dizer mal do mundo. A
Protecção Civil dos seu concelhos não tem como missão primordial PROTEGER, i.é.
PREVENIR as desgraças? Onde e o que andam os presidentes de câmara a fazer o
ano todo? joaquim Duarte: Concordo: o olival intensivo é
mau, os lagares são maus a indústria é má, a exploração de lítio é má, o
turismo é mau, os estaleiros navais são maus, as indústrias electrónicas são
más, ou seja em suma tudo o que pode gerar economia e riqueza é mau e para isso
não se cansam políticos ONG variadas e oligarquia dos média incluindo o
Observador tudo fazer com legislação e opiniões que têm como finalidade
continuarmos a ser um país pobre esse é o objectivo. Morte aos ricos parece que
estamos em pleno PREC. Conheço um empregado de mesa que
ganha aqui 1500 € vai no fim do mês para a Suíça ganhar 6000 €. Podem continuar a fazer crónicas
com o nível desta mas vai continuar tudo na mesma.
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