segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O defeito é da paisagem

 

Enternecedora. Daí, os passadiços, para a nossa contemplação. Mas o sofá também nos serve, nas chamas, esperando as chuvas.

No país dos passadiços

Entre a nostalgia e o paternalismo condescendente dos urbanitas, arde esse país em que o município é o grande empregador e o único investimento mediaticamente aceitável são os passadiços.

HELENA MATOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 24 ago. 2025, 00:0377

As imagens das mulheres atirando as mãos à cabeça no meio duma paisagem abrasada pelo fogo são o lado dramático daquele país que noutros meses nos chega, mediaticamente falando, durante horas de emissão animadas por grupos etnográficos que cantam e dançam modas de um país que asseveram ser das tradições, dos bons costumes, da boa comida, da vida saudável

Na verdade, um país que não só já não existe como nunca existiu dessa forma harmoniosa porque se assim tivesse sido, os nossos bisavós, avós, pais e tios não o teriam trocado pelas cidades do litoral. Teriam continuado a viver lá, nos ciclos do pousio e das culturas, pastoreando e recolhendo o mato pelos montes. Não foi isso que fizeram, porque queriam escapar à pobreza: partiram e nós, os seus descendentes, também não voltamos lá a não ser nas férias. Ou para passar uns tempos depois da reforma.

Este desfasamento entre aquilo que esse país é e a forma como falamos dele está a tornar-se-me estridentemente insuportável. De alguma forma é como se nosso imaginário nada tivesse mudado na aldeia de que parte o Emigrante de Malhoa nos anos 30 do século passado, como se aqueles terrenos continuassem a ser agricultados, como se a mancha florestal não tivesse crescido pelos cabeços e os camponeses cansados continuassem a dormir a sesta no meio palha

Ora não só isso não é verdade como a esta ficção que a nostalgia explica mas não legitima se juntou um paternalismo crescentemente insuportável, pois não só a imagem cristalizou no passado como se reage a qualquer alteração a esse cliché como uma ameaça, uma nódoa nessa paisagem, um atentado, sobretudo se essa alteração tiver um intuito económico: o olival é intensivo, os eucaliptais ardem (os não eucaliptais também ardem mas nestes argumentários isso não conta), o lítio é inaceitável porque a sua exploração obedece a uma lógica extractivista… Muito significativamente quando se faz o levantamento, desde os anos 60 do século passado, dos grupos a quem têm sido assacadas as responsabilidades pelos incêndios, e excepção feita aos fumadores, reaccionários e comunistas dos tempos revolucionários, deparamos quase sempre com inconfessáveis interesses económicos por trás das chamas: madeireiros, indústria das celuloses, promotores imobiliários, interessados na exploração de lítioCertamente que por todos esses interesses se terá ateado fogo em Portugal, mas para que os fogos (fossem eles de origem criminosa ou provocados por causas tão impossíveis de evitar quanto o raio duma trovoada) se transformassem em grandes incêndios outros tiveram de concorrer. Quem? Nós, aqueles que deixámos de viver lá. Mas não só. É também todo esse país que acha normal que em boa parte do interior os municípios sejam os maiores empregadores locais e que, à excepção desses passadiços em madeira que ardem todos os anos, desconfia de todos os outros investimentos.

Sem gente, sem economia e com o clima que temos, o fogo, que é incontornável, ganha proporções que não antecipámos. Acreditar que é tudo uma questão de meios ou de “guerra”, como afirma o primeiro-ministro, ou de declaração de estado de calamidade, como reivindica a oposição, é apenas alimentar os fogos do próximo Verão.

INCÊNDIOS       ACIDENTE       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 77)

Rui Lima: O poder local em Portugal de emprego e desperdício, em muitas terras é o primeiro patrão e negócios pouco claros . Vejam na Suíça onde o executivo municipal (Gemeinderat) tem um presidente e algumas secretarias são os únicos encargos fixos, conselho local ou assembleia municipal, muitas vezes não remunerada, composta por cidadãos que participam nas decisões estratégicas. Os trabalhos operacionais (obras, manutenção, serviços) são normalmente adjudicados por concursos públicos a empresas privadas, o que reduz custos fixos. Em Portugal a despesa corrente (funcionamento, salários, manutenção, consumos, etc.) absorve ≈ 55% a 65% do orçamento municipal. Suíça custo administrativo é muito leve frequentemente menos de 10% do orçamento municipal. Em Portugal sobra pouco para (obras, projectos novos, equipamentos, infraestruturas) 30a 45% na Suíça sobra 80% para investir . Outro dado: na Suíça, nas pequenas autarquias sobra muito mais de 90% em Portugal é ao contrário é onde sobra menos. Sul da Europa tendência de usar poder local como “máquina de emprego” (pessoal administrativo, técnicos, serviços próprios). Norte e Suíça aposta em externalização de serviços e em estruturas administrativas pequenas, com forte participação cívica. Isto explica porque há países ricos e países pobres os piores países do poder local são Portugal, Espanha, Itália, Grécia, e a França vai pelo mesmo caminho .                  Rosa Ribeiro: Quando encerraram serviços públicos e agências bancárias no Interior ninguém se preocupou que seria difícil manter pessoas em locais sem as condições mínimas, nomeadamente escolas e estabelecimentos hospitalares próximos. Agora todos se queixam da desertificação... Creio que há Autarquias Locais em excesso e Autarcas que nada fazem para atrair população com ideias inovadoras para captar investimento, novos empregos e desenvolvimento.                  Maria Tubucci: Tem toda a razão Sra. HM, o país dos passadiços, que ardem todos os anos, está a fazer um óptimo serviço. Vejamos. Está a empobrecer o país rural e a escorraçar as populações que vêem os seus rendimentos diminuir cada vez mais. Agora até têm de fazer de “protecção civil”, limpando terrenos para proteger o país dos urbanos da chatice dos incêndios rurais, que ingratos. Entre as muitas causas que referiu esqueceu-se uma cada vez mais gritante, a da energia verde. As ventoinhas no cimo das serras, que já fizeram arder muitas serras, e hoje temos os painéis solares de plástico chinês, que brotam por todo o lado e que irão contaminar e inutilizar o solo arável onde são semeados. Nas TVs por estes dias passaram as mais delirantes opiniões sobre o que fazer para acabar com os incêndios rurais, desde a limpeza de todos os terrenos, o que é impraticável pois não há recursos humanos nem e monetários para isso, até ao roubar das propriedades aos rurais que não as limpam, esquecendo-se que a vegetação está sempre a crescer e não pára de crescer por decreto. Eu tenho uma sugestão para o país dos passadiços, façam uma experiência. Nos próximos 25 anos, no país rural e esquecido pelos políticos, que não dá votos, não tem economia, nem tem gente, criem uma zona franca, livre de impostos e de socialismo, onde valha a pena trabalhar, onde o lucro fique para quem investe. Vão ver que o cenário deste ano muda, o país rural desenvolver-se-á por si próprio.                  Afonso Moreira: O interior do território só é interior (200km!) devido aos políticos angariadores de votos que temos tido nas últimas décadas. Abandonaram 4/5 do território à sua sorte sem qualquer estratégia de verdadeiros governantes para todo o território e seu povo porque não é aí que ganham eleições. As pessoas, em geral, fogem para os sítios onde haja actividade económica e por um futuro. Não sonhavam ir viver encafuadas num minúsculo apartamento e em bairros sem identidade nos arredores de Lisboa ou Porto. Quantos países da Europa desenvolvida têm essa atividade económica e social distribuída pelo território. Não é preciso inventar nada. O Estado Novo já fazia isso, até com o investimento privado estrangeiro, definindo as regras e não deixando simplesmente ao critério do "mercado". Como pode Freixo de Espada à Cinta competir com Lisboa? Há dias pude ver, bem no interior de França, terrenos parecidos, em dimensão e culturas com muitos dos nossos, e não os vi abandonados como se vêem aqui em Portugal. Era possível ser bem diferente o nosso país, com benefício de todos, os que vivem em Lisboa e Porto e os que não vivem.                observador censurado: Tribunal Constitucional versus Avião de combate a fogos 1. Tribunal Constitucional (TC) a) Utilidade = zero (Qual a utilidade dum tribunal político?) b) Custo anual: ordem de grandeza dos 10 milhões de Euros 2. Avião de combate a fogos (A) a) Utilidade: Para as pessoas mais valiosas de Portugal, isto é, as que vivem nas regiões de Lisboa, Porto e Setúbal = zero Para as pessoas que não valem nada, isto é, as pessoas que vivem nas regiões onde há incêndios florestais = grande b) Custo: ordem de grandeza dos 10 milhões de Euros Conclusão: Porque é que Portugal tem um TC mas não tem um A? Um A seria para servir os portugueses que não valem nada.              Maria Paula Silva: Antes de mais, Obrigada Observador, porque ao fim de mais de 1 ano voltei a receber o artigo da HM!!! durante todo esse tempo, com os alertas activos e nada me chegava! C h i ç a, até que enfim. HM: gostei muito. Estamos todos fartos. Nos negócios enunciados, esqueceu-se de um: as eólicas!!! Todos os que enunciou e mais esse, apesar dos defensores das únicas causas geográficas os negarem. Santa paciência! Não concordo que foram os nossos pais e avós e tios que abandonaram os campos. Esses ficaram e muitos já morreram e os poucos que restam por lá, estão perto da passagem. Quem abandonou os campos foram os da nossa geração!!, que não queriam trabalhar a terra, queriam ser todos doutores e fugiram para as cidades (esse êxodo deu-se sobretudo a partir de meados dos anos 70). Quanto ao resto, é muito simples: Basta fazer renascer a lei que havia e que o sô Tony Curry anulou!! a lei que estipulava que terrenos ardidos durante 30 anos não podiam ser vendidos, não se podia construir neles, não se podia fazer nada! Enquanto não MUDAREM a lei sobre terrenos ardidos, a coisa não pára. Os negócios são mais que muitos. Se mudarem a lei, aposto que os fogos vão diminuir. Nem sei como um país tão pequeno pode arder tanto todos os anos. E, começo a achar que há muito mais  tipos de pirómanos, para além daqueles que põem fogo (quase sempre durante a noite??): o exagero com que a coisa é divulgada, publicada, exposta, acariciada, contemplada, debatida quase que numa masturbação pseudo científica, leva-me a crer que há vários tipos de pirómanos. Estamos rodeados de corruptos e de doentes. E enquanto a lei não for mudada, estamos todos, directa e indirectamente, a colaborar para o grande circo da Fogueira Gigante que é Portugal e será em todos os Verões.               Maria Cabral A simples reactivação e modernização da linha férrea permitiria viver em praticamente todo o território. A carência de habitação uma falácia pois o que temos é carência de mobilidade. A aposta na autoestrada foi um erro/interesse por explicar. Se é impossível habitar com dignidade não haverá pessoas. Alguém tente construir em espaço rural e verá o inferno em que se mete. Hoje em dia podemos viver facilmente com sistemas autónomos, fora das redes, mas o Estado não quer. Chama-se liberdade e isso chateia o socialismo.                 Gavião: A Helena Matos, que só ela justifica a minha assinatura do Observador, inspirou-se, não tenho dúvidas, na Romaria da Senhora da Agonia. Mordomas ( cheias de "chieira", cagança, dir-se-ia no Porto) vindas de Lisboa e similares vestem um traje imaginado (nenhuma camponesa mais ou menos abastada se vestia assim) e carrega ao peito todo o ouro da família, vizinhos e amigos e conhecidos. Terminado o Cortejo da Mordomia entregam o ouro e guardam a fatiota. Daqui a um ano há mais, e regressam felizes e contentes a Lisboa e similares, ataviadas de Zara ou Balenciaga conforme a abastança.                     Komorebi Hi: E... no entanto, como bem refere Rui Lima no seu comentário, comparando a Suíça a Portugal e decerto que a Espanha não sai da regra, os políticos na AR reverteram a tentativa de diminuição do número de Juntas de Freguesia do governo de Passos Coelho que mal a conseguiu, abandonando por interesses da casta a diminuição necessária do número de Câmaras Municipais que poderiam ser agregadas.                Joaquim Rodrigues: Os nossos “perturbados mentais” (alcoólicos, drogados, pirómanos, deficientes mentais) são muito especiais. Depois de saberem as previsões meteorológicas, passaram ali pelos passadiços do Paiva (e como eles adoram estes passadiços), subiram até ao Parque Nacional da Peneda Gerês, inflectiram para o Parque Natural do Alvão, Vila Real, e depois desceram para a Região Centro, Sernancelhe, Trancoso, Penedono, Aguiar da Beira, passaram pelo Parque Natural do Douro Internacional e depois pelo Sabugal, Serra do Açor e Serra da Lousã. São assim os nossos “perturbados mentais”. Portugal tem, em média, cerca de 10 vezes mais “ignições”, por Km2, que os restantes Países da Bacia Mediterrânica. Esta situação anómala, não deveria ter merecido, desde logo e já há muito tempo, a investigação e o esclarecimento cabal, por parte dos nossos Governantes e dos nossos agentes de investigação, das razões que a explicam? Não há fumo sem fogo, nem fogo sem "ignições". Por muito difíceis que sejam as condições de clima, o "clima" não põe fogos. O "clima" e os "combustíveis finos e grossos" apenas podem favorecer as condições de propagação do fogo. E sim, temos de preparar o País para enfrentar os fogos, porque os fogos sempre vão existir. Mas uma coisa é ter "uma" ignição por (Km2 x ano), outra coisa é ter dez(10) ignições por (Km2 x ano). Alimentar a "indústria do fogo" e montar umas "negociatas", com "rendas garantidas", para "compadres e amigos", à custa dos contribuintes, a pretexto da limpeza dos agora descobertos "combustíveis finos", isso sim é que seria "criminoso". Apostar tudo na tão falada "limpeza" generalizada dos famosos "finos" na floresta, para além de impossível, é criminosa do ponto de vista da preservação de ecossistemas e da biodiversidade. Deixem-se de "filmes". Importante é estudar, para as condições de clima actuais, cada vez mais gravosas, e para as condições orográficas e de coberto vegetal, ocorrentes no terreno, caso a caso, as formas de arborização, as formas de uso do solo, ordenamento e gestão florestal e quais as áreas de protecção a assegurar, devidamente limpas, em volta dos aglomerados habitacionais do Mundo Rural. Que os "gastos de dinheiros públicos" em "ordenamento, gestão e limpeza dos espaços rurais e florestais" e na “protecção de bens públicos” como são os serviços de “preservação e valorização da natureza, paisagem e biodiversidade”, revertam a favor da criação, manutenção e valorização de postos de trabalho no mundo rural, quer em actividades tradicionais quer em novas actividades ligadas ao lazer e natureza, em particular, para os que lá vivem ou lá queiram viver, é o que se deseja. Com os meios de Comunicação e Informação hoje disponíveis, são hoje, cada vez mais, os que optam por uma vida no mundo rural e regressam aos pequenos aglomerados de onde tinham saído os seus pais e/ou, os seus avós, muitas vezes para iniciar uma nova vida ligada a actividades rurais ou de natureza. Vai ser com um “Mundo Rural Vivo” que se evitam e combatem os incêndios e se preserva esse “bem público” que é o nosso “Património Natural”.                       Rui Pedro Matos: Concordo com o texto porque sou Ruralista! A Terra é crucial para uma Economia. A base alimentar e a Terra são cruciais para assegurar uma parte da independência nacional! A elite de Lisboa continua a velha expressão 'até às portagens de Alverca é Lisboa, depois é Província'! As decisões políticas e legais são tomadas em Lisboa sem qualquer conhecimento do Mundo Rural, da Província! Concordo com o artigo de opinião!          Joaquim Rodrigues Gavião Seu ignorante. Em Viana, qualquer mulher de Ribeira, (como qualquer mulher do Minho), toda a poupança que conseguiam fazer, era investida em ouro, não por chieira, as mais das vezes, mas por segurança. Ao desfile das Mordomas, só desde há muito pouco tempo, e depois de muitas insistências, começaram a ser aceites, em dose limitada, mulheres de fora do distrito.         José Paulo Castro Um apagãozito ibérico, maior que um dia e no Inverno, e quero ver quem se lembra de 'viver bem' no litoral urbano das metrópoles...                   Jorge Espinha: No jornal ABC um engenheiro florestal espanhol disse entre outras duas coisas muito interessantes. “Os verdadeiros pirómanos estão nos gabinetes “ e que custa 50K euros anuais proteger uma povoação dos fogos. Algo que escapou ao autarca histérico que andou a berrar como um possesso mas que durante 11 meses não fez um c…… Interessante.                        Filipe Paes de Vasconcellos: Uma pergunta: O poder local tem a responsabilidade pela protecção civil dos seus territórios. Quando acontece uma desgraça vestem o colete laranja e põe-se aos pinotes perante as inefáveis e irresponsáveis tv’s a dizer mal do mundo. A Protecção Civil dos seu concelhos não tem como missão primordial PROTEGER, i.é. PREVENIR as desgraças? Onde e o que andam os presidentes de câmara a fazer o ano todo?         joaquim Duarte: Concordo: o olival intensivo é mau, os lagares são maus a indústria é má, a exploração de lítio é má, o turismo é mau, os estaleiros navais são maus, as indústrias electrónicas são más, ou seja em suma tudo o que pode gerar economia e riqueza é mau e para isso não se cansam políticos ONG variadas e oligarquia dos média incluindo o Observador tudo fazer com legislação e opiniões que têm como finalidade continuarmos a ser um país pobre esse é o objectivo. Morte aos ricos parece que estamos em pleno PREC.  Conheço um empregado de mesa que ganha aqui 1500 € vai no fim do mês para a Suíça ganhar 6000 €. Podem continuar a fazer crónicas com o nível desta mas vai continuar tudo na mesma.

 

 

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