quinta-feira, 21 de agosto de 2025

A propósito de VÍCIOS ANTIGOS

 

Texto aqui colocado em 6/6/2025, de ALBERTO CARVALHO, enviado pela PAULA para o meu Gmail, sobre a rapariga que corre, na escadaria da COVA DA MOURA para chegar a tempo à Universidade, e que retomo, por não ter acesso ao gmail, nas minhas inépcias de manipulação que esperam a chegada de um salvador - neste caso o Artur, que tem de vir aqui a casa. ALBERTO CARVALHO faz o seu comentário justo sobre as dificuldades na vida de uns – entre os quais essa rapariga de Angola desejosa de tirar o seu curso e precisando de correr para isso - em contraste com o deputado discorrendo sossegadamente sobre meritocracia, em canal televisivo, e sobre a liberdade de cada um para as opções próprias. Lembrei-me do tempo da minha adolescência, no liceu, em que íamos – a minha irmã e eu - com a nossa pasta carregada com os livros e cadernos, estrada fora, mais de dois quilómetros de ida e volta diárias, por vezes em duplicado, quando tínhamos aulas à tarde, apanhar o machimbombo para chegarmos ao liceu. E não nos queixávamos, naturalmente, nem púnhamos em causa o esforço diário, por vezes sob um céu tórrido, ou mesmo na borrasca repentina. Era a vida de cada um, era a nossa vida, com os pais esperando-nos de volta, geralmente esfomeadas, para almoçarmos, o meu pai esperando por nós, antes de ir “passar pelas brasas” até à sua hora de partida para o seu trabalho diário ao serviço do Estado. Não nos queixávamos, alegremente cumprindo a nossa parte, como coisa natural das vidas.

Reponho o texto sobre a “AMADORA”, pensando quanto gostamos de condenar: no caso da moça da Amadora, que estava apenas cumprindo os seus objectivos de vida, será que tem razão o autor do texto, no seu descritivo sobre o que observa “os prédios como caixas empilhadas à pressa”, a “filha de Angola e neta de Portugal - e, como tantos outros, entre duas pátrias e nenhuma casa”, corria para o seu próprio destino de se erguer das dificuldades, estudando. Não, não vejo em que isso seja condenável. Será que, se não fosse angolana mereceria tanto apoio de simpatia, contrastando com o desagrado contra o país que, apesar de tudo, permite o estudo a quem o quiser obter? Não, não esqueço que, quando dei aulas nocturnas, a avalanche de alunos inscritos na minha – e nas outras – turmas, aqueles apenas punham o pé nas aulas nos primeiros dias, gradualmente desaparecendo delas: o seu interesse fora mesmo apenas tirar o passe da linha (de Cascais) à borla, e o ano acabava apenas com os três ou quatro estóicos alunos que pretendiam aprender mais. Não, a culpa não é da AMADORA, que até resultou do esforço e interesse pátrio em a erguer. Mas ainda bem que se fizeram escolas privadas, embora não acessíveis a todos. As divergências são naturais na vida, não devemos condenar tanto, talvez.

 

LIBERDADE FALSA

A AMADORA É O PAÍS QUE NÃO CABE NOS DEBATES TELEVISIVOS

Era uma manhã como outra qualquer na Amadora.

Os prédios levantavam-se como caixas empilhadas à pressa, feridas de humidade e grafite.

Uma rapariga de mochila aos ombros descia a correr a escadaria do bairro da Cova da Moura para apanhar o autocarro das 7:12.

Queria chegar a tempo à faculdade, lá para os lados da Cidade Universitária, e ainda precisava de trocar duas vezes de linha.

Não pedia muito: um curso, um trabalho decente, talvez um quarto que não lhe levasse metade do ordenado mínimo.

Era filha de Angola e neta de Portugal - e, como tantos outros, vivia entre duas pátrias e nenhuma casa.

Tinha nome, sonhos e dívidas.

Entretanto, numa sala climatizada da capital, um deputado da Iniciativa Liberal citava Hayek e falava em "meritocracia".

Defendia que o Estado não devia meter-se na vida das pessoas - deviam ser livres.

Livres para escolher escolas privadas, médicos privados, e bancos privados.

Livres para trabalhar mais, pagar menos impostos e sair da frente.

Ninguém lhe perguntou se alguma vez esperou quase uma hora por um comboio na Reboleira.

Ou se sabia o preço de um passe Navegante Jovem.

Ou se alguma vez fora confundido com delinquente só por ser pobre.

Na Amadora, a liberdade era outra coisa.

Era ter luz até ao fim do mês.

Era não ter de faltar ao trabalho para levar a avó ao centro de saúde.

Era poder estudar sem fome.

Era conseguir dormir sem ouvir tiros ao fundo da rua.

Era, no fundo, tudo aquilo que os teóricos da liberdade abstracta preferem não ver.

A Amadora é o coração precário de um país periférico.

Habitada por quase 180 mil pessoas, é um dos concelhos com maior densidade populacional da Europa.

E é, também, um espelho: concentra pobreza, imigração, juventude e invisibilidade.

É Portugal visto do lado de fora.

Em 2023, mais de 15% da população local vivia abaixo do limiar da pobreza, e um em cada quatro habitantes era estrangeiro - a maior parte com profissões invisíveis e salários mínimos.

Aqui, a “liberdade” prometida pelos liberais não chega em pacote algum.

Não há seguro de saúde privado que cubra o coração de um país abandonado.

Os liberais falam em empreendedorismo, mas esquecem que a grande maioria das “empresas” abertas nestes bairros são micro-negócios de sobrevivência: barbearias, quiosques, restauração informal.

Falam em “liberdade de escolha”, mas ignoram que a única escolha real para muitos é entre pagar a renda ou a escola de condução.

Falam em “mobilidade social”, mas em bairros como a Brandoa ou Alfragide Sul, a mobilidade que existe é a dos transportes públicos que não passam a horas.

A liberdade liberal é selectiva.

Exige dinheiro para ser usufruída.

E quando não há dinheiro, não há escolha - apenas resignação.

É a liberdade de deixar o Estado e cair, sozinho, no mercado.

É o direito sagrado a não ter nada, a não pedir nada, a não incomodar.

Mas a Amadora resiste.

Porque mesmo ferida, sabe mais de dignidade do que muitos dos seus juízes.

Nos centros comunitários, nos agrupamentos escolares, nas cozinhas de restauração, nos campos de futebol, nos grupos de teatro, nos projectos de bairro - há Portugal.

Um Portugal que não cabe nos debates televisivos nem nas colunas de opinião do Observador.

Um país feito de luta anónima, que recusa ser apenas estatística.

E é por isso que incomoda.

Porque revela a falência da promessa liberal - a ideia de que basta desregular, privatizar, cortar impostos e deixar o mercado funcionar.

Aqui, onde o mercado nunca quis entrar, essa teoria soa a insulto.

Não, senhores liberais: não é por haver “demasiado Estado” que há pobreza na Amadora.

É por haver Estado a menos.

A menos na habitação pública.

A menos nos transportes, nas escolas, nos centros de saúde.

A menos no apoio à infância, no apoio à cultura, no urbanismo social.

A menos na justiça fiscal.

A menos na presença simbólica e política.

E no entanto, de cada vez que se propõe reforçar esse Estado, os senhores gritam: liberdade!

A pergunta, então, não é “liberdade para quê?”, como diria Camus.

É: liberdade para quem?

A resposta ouve-se nos comboios da Linha de Sintra, nas filas do Centro de Saúde da Damaia, nas salas de aula onde faltam professores.

E grita, todos os dias, nas ruas da Amadora.

 

 

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