Texto aqui colocado em 6/6/2025, de ALBERTO CARVALHO, enviado pela
PAULA para o meu Gmail, sobre a rapariga que corre, na escadaria da COVA DA
MOURA para chegar a tempo à Universidade, e que retomo, por não ter acesso ao gmail,
nas minhas inépcias de manipulação que esperam a chegada de um salvador - neste
caso o Artur, que tem de vir aqui a casa. ALBERTO CARVALHO faz o seu comentário
justo sobre as dificuldades na vida de uns – entre os quais essa rapariga de
Angola desejosa de tirar o seu curso e precisando de correr para isso - em
contraste com o deputado discorrendo sossegadamente sobre meritocracia, em
canal televisivo, e sobre a liberdade de cada um para as opções próprias.
Lembrei-me do tempo da minha adolescência, no liceu, em que íamos – a minha
irmã e eu - com a nossa pasta carregada com os livros e cadernos, estrada fora,
mais de dois quilómetros de ida e volta diárias, por vezes em duplicado, quando
tínhamos aulas à tarde, apanhar o machimbombo para chegarmos ao liceu. E não nos
queixávamos, naturalmente, nem púnhamos em causa o esforço diário, por vezes
sob um céu tórrido, ou mesmo na borrasca repentina. Era a vida de cada um, era
a nossa vida, com os pais esperando-nos de volta, geralmente esfomeadas, para
almoçarmos, o meu pai esperando por nós, antes de ir “passar pelas brasas” até
à sua hora de partida para o seu trabalho diário ao serviço do Estado. Não nos
queixávamos, alegremente cumprindo a nossa parte, como coisa natural das vidas.
Reponho o texto sobre a “AMADORA”, pensando quanto gostamos de
condenar: no caso da moça da Amadora, que estava apenas cumprindo os seus
objectivos de vida, será que tem razão o autor do texto, no seu descritivo
sobre o que observa “os prédios como
caixas empilhadas à pressa”, a “filha
de Angola e neta de Portugal - e, como tantos outros, entre duas pátrias e
nenhuma casa”, corria para o seu próprio destino de se erguer das
dificuldades, estudando. Não, não vejo em que isso seja condenável.
Será que, se não fosse angolana mereceria tanto apoio de simpatia, contrastando
com o desagrado contra o país que, apesar de tudo, permite o estudo a quem o
quiser obter? Não, não esqueço que, quando dei aulas nocturnas, a avalanche de
alunos inscritos na minha – e nas outras – turmas, aqueles apenas punham o pé
nas aulas nos primeiros dias, gradualmente desaparecendo delas: o seu interesse
fora mesmo apenas tirar o passe da linha (de Cascais) à borla, e o ano acabava
apenas com os três ou quatro estóicos alunos que pretendiam aprender mais. Não, a culpa
não é da AMADORA, que até resultou do esforço e interesse pátrio em a erguer. Mas
ainda bem que se fizeram escolas privadas, embora não acessíveis a todos. As
divergências são naturais na vida, não devemos condenar tanto, talvez.
LIBERDADE FALSA
A AMADORA É O PAÍS QUE NÃO CABE NOS
DEBATES TELEVISIVOS
Era uma manhã como outra qualquer na
Amadora.
Os prédios levantavam-se como caixas
empilhadas à pressa, feridas de humidade e grafite.
Uma rapariga de mochila aos ombros
descia a correr a escadaria do bairro da Cova da Moura para apanhar o autocarro
das 7:12.
Queria chegar a tempo à faculdade, lá
para os lados da Cidade Universitária, e ainda precisava de trocar duas vezes
de linha.
Não pedia muito: um curso, um trabalho
decente, talvez um quarto que não lhe levasse metade do ordenado mínimo.
Era filha de Angola e neta de Portugal -
e, como tantos outros, vivia entre duas
pátrias e nenhuma casa.
Tinha
nome, sonhos e dívidas.
Entretanto,
numa sala climatizada da capital, um deputado da Iniciativa Liberal citava
Hayek e falava em "meritocracia".
Defendia
que o Estado não devia meter-se na vida das pessoas - deviam ser livres.
Livres
para escolher escolas privadas, médicos privados, e bancos privados.
Livres
para trabalhar mais, pagar menos impostos e sair da frente.
Ninguém
lhe perguntou se alguma vez esperou quase uma hora por um comboio na Reboleira.
Ou se sabia o preço de um passe
Navegante Jovem.
Ou
se alguma vez fora confundido com delinquente só por ser pobre.
Na
Amadora, a liberdade era outra coisa.
Era
ter luz até ao fim do mês.
Era
não ter de faltar ao trabalho para levar a avó ao centro de saúde.
Era
poder estudar sem fome.
Era
conseguir dormir sem ouvir tiros ao fundo da rua.
Era, no fundo, tudo aquilo que os
teóricos da liberdade abstracta preferem não ver.
A
Amadora é o coração precário de um país periférico.
Habitada por quase 180 mil pessoas, é um
dos concelhos com maior densidade populacional da Europa.
E
é, também, um espelho: concentra pobreza, imigração, juventude e
invisibilidade.
É
Portugal visto do lado de fora.
Em
2023, mais de 15% da população local vivia abaixo do limiar da pobreza, e um em
cada quatro habitantes era estrangeiro - a maior parte com profissões
invisíveis e salários mínimos.
Aqui, a “liberdade” prometida pelos
liberais não chega em pacote algum.
Não há seguro de saúde privado que
cubra o coração de um país abandonado.
Os
liberais falam em empreendedorismo, mas esquecem que a grande maioria das
“empresas” abertas nestes bairros são micro-negócios de sobrevivência:
barbearias, quiosques, restauração informal.
Falam
em “liberdade de escolha”, mas ignoram que a única escolha real para muitos é
entre pagar a renda ou a escola de condução.
Falam
em “mobilidade social”, mas em bairros como a Brandoa ou Alfragide Sul, a mobilidade que existe é a dos transportes
públicos que não passam a horas.
A liberdade liberal é selectiva.
Exige
dinheiro para ser usufruída.
E quando não há dinheiro, não há escolha
- apenas resignação.
É a liberdade de deixar o Estado e cair,
sozinho, no mercado.
É
o direito sagrado a não ter nada, a não pedir nada, a não incomodar.
Mas a Amadora resiste.
Porque
mesmo ferida, sabe mais de dignidade do que muitos dos seus juízes.
Nos centros comunitários, nos
agrupamentos escolares, nas cozinhas de restauração, nos campos de futebol, nos
grupos de teatro, nos projectos de bairro - há Portugal.
Um Portugal que não cabe nos debates
televisivos nem nas colunas de opinião do Observador.
Um
país feito de luta anónima, que recusa ser apenas estatística.
E
é por isso que incomoda.
Porque
revela a falência da promessa liberal - a ideia de que basta desregular,
privatizar, cortar impostos e deixar o mercado funcionar.
Aqui, onde o mercado nunca quis
entrar, essa teoria soa a insulto.
Não,
senhores liberais: não é por haver “demasiado Estado” que há pobreza na
Amadora.
É por haver Estado a menos.
A menos na habitação pública.
A menos nos transportes, nas escolas,
nos centros de saúde.
A menos no apoio à infância, no apoio
à cultura, no urbanismo social.
A menos na justiça fiscal.
A menos na presença simbólica e
política.
E
no entanto, de cada vez que se propõe reforçar esse Estado, os senhores gritam:
liberdade!
A pergunta, então, não é “liberdade
para quê?”, como diria Camus.
É: liberdade para quem?
A
resposta ouve-se nos comboios da Linha de Sintra, nas filas do Centro de Saúde
da Damaia, nas salas de aula onde faltam professores.
E
grita, todos os dias, nas ruas da Amadora.
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