sábado, 23 de agosto de 2025

E assim


Vamos andando: com maior ou menor optimismo, segundo os temperamentos dos donos das verdades.

Lisboa, Madrid e Washington: desafios e oportunidades da híper-urbanização global

Neste campeonato da hiper-urbanização mesmo a Europa está a ficar para trás, e Lisboa ainda mais.

BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista em segurança internacional

OBSERVADOR, 22 ago. 2025, 00:0411

Estive este ano a viver na capital dos EUA. Esta coluna esteve generosamente suspensa, provavelmente para felicidade de alguns, inclusive minha. Mas é bom regressar a Portugal e ao convívio por escrito com quem sabe ler e debater ideias. Entre Washington DC e Lisboa passei por Madrid. O que me fez pensar na complexa, mas indispensável ligação entre cidades e Estados, e no que estará em jogo para estas três cidades.

Não é por acaso que foi à cidade que fomos buscar as palavras civilização e cidadania. Elas sempre foram locais privilegiados de trocas de bens e ideias, motores indispensáveis de dinamismo económico e inovação tecnológica. Concentram recursos e competências indispensáveis para gerir vastos territórios, também por isso, tiveram capacidade de negociar direitos de cidadania com diferentes soberanos. No entanto, em 1900, estima-se que apenas 15% da população global vivia em cidades. O peso civilizacional das cidades sempre foi grande, o seu impacto na vida da maioria das pessoas era limitado. Em Portugal, em 1973, 60% das pessoas ainda viviam no campo (eu era uma delas). Só desde 2007 é que mais de metade da população global vive em cidades, mas o protagonismo das cidades tem continuado a reforçar-se.

A urbanização traz evidentes vantagens de escala e eficiência. Mas este êxodo rural global também tem desvantagens, desde perda de qualidade de vida (nomeadamente a minha) até ser um dos factores potenciadores de massivos incêndios rurais na América do Norte e na Europa. É evidente, no entanto, que esta hiper-urbanização global é um processo difícil de travar e impossível de reverter. Em Portugal e Espanha fala-se no interior vazio. Mas ninguém deportou essas pessoas. Elas saíram (como eu saí) à procura de mais oportunidades em cidades maiores. E é difícil convencer muita gente a regressar aos campos, excepto para férias. Certamente não regressarão para mal sobreviver em pobres leiras. Não que se deva desistir da ruralidade, teremos de a ir reinventar. Mas culpar Lisboa ou Madrid é não perceber que esta é uma tendência global, que continua a acentuar-se: em 2050 cerca 70% das pessoas viverão em cidades. Esta tendência global de híper-urbanização reflecte-se também no peso crescente das megalópolis na geopolítica e geoeconomia globais. Entre as 10 maiores áreas metropolitanas do Mundo, 9 têm mais de 20 milhões de habitantes.

Neste campeonato da hiper-urbanização mesmo a Europa está a ficar para trás, e Lisboa ainda mais. A ideia repetida no debate público nacional de que Lisboa é grande demais é um completo disparate. Grande demais comparada com o quê, a Merdaleija? Na verdade, é cada vez mais pequena no Mundo e até na Europa. Lisboa tem cerca de 500.000 habitantes, a sua área metropolitana andará em torno dos 3 milhões. Washington DC tem 700.000, e sua zona metropolitana (apelidada de DMV) tem 7 milhões. O município de Madrid tem 3,5 milhões de habitantes, a comunidade madrilena vai nos 7 milhões e está a crescer 100.000 ao ano. Madrid já será a segunda área metropolitana mais rica da União Europeia. E procura competir com cidades como Paris ou Londres como pólo regional e global. Parece cada vez mais dominante na Península face a Lisboa ou a Barcelona, a quem tem ganho em dinamismo e eficácia de gestão. Tem como objectivo afirmar-se na América Latina, com a força de cerca de 1 milhões de latino-americanos a viver aí, competindo com Miami, algo que a hostilidade de Trump a muitos emigrantes provavelmente facilitará. O historiador Fernand Braudel considerou que o rei Filipe II errou ao escolher Madrid para capital, devia ter apostado em Lisboa. No entanto, hoje, mesmo com o Estado espanhol num impasse, Madrid mostra um dinamismo e um optimismo que parecem faltar a Lisboa, ou até a Washington DC.

Em Washington DC o maior desafio actual é um Presidente Trump determinado a usar e abusar dos seus poderes para se vingar dos seus ódios de estimação. Eles abundam na capital norte-americana, desde eleitores do Partido Democrata até um grande número de funcionários públicos e universitários. Mais, na capital dos EUA, o Presidente tem poderes significativos. Entre os territórios dependentes do governo federal norte-americano estão ilhas distantes (Puerto Rico ou Samoa), mas, também, a própria capital. Na verdade, o Distrito de Columbia (DC) só passou a ter, por concessão do Congresso e do Presidente, um regime de autogoverno limitado desde o Home Rule Act de 1973. Aos despedimentos de funcionários, pressão sobre universidades e museus, veio agora acrescentar-se o policiamento agressivo das ruas e a crescente ameaça de eliminação do autogoverno local. Para isso, Trump precisará, em princípio, do acordo do Congresso, veremos se os parlamentares norte-americanos resistem deste vez. Estes factos deixam claro, porém, que até o mais suburbano dos presidentes precisa de uma cidade capital, não lhe bastam campos de golfe e condomínios.

Quanto a Lisboa veremos o que nos dizem os candidatos autárquicos. A minha esperança é escassa de ver uma visão estratégica atenta às tendências globais e eficaz na resposta aos problemas concretos. Os líderes que temos tido parecem incapazes de responder eficazmente a um desafio tão fácil de antecipar como: mais turistas, mais actividade económica significam mais gente, mais lixo, mais ruído. Isso implicaria mais funcionários, mais recolhas, mais caixotes, mais fiscalização eficaz de abusos. Em Madrid é possível ver isso a funcionar melhor. Lisboa dificilmente será uma grande cidade da globalização para que tanto contribuiu no passado, mas poderá ser uma grande cidade média na Europa e no espaço Atlântico, apostando numa qualidade de gestão e de vida que lhe desse vantagem relativa. Por este caminho, Lisboa – entre barulho, lixo, trânsito e aeroporto caóticos, bêbados barulhentos e nómadas digitais que não se fixarão – nem como uma espécie de Disneylândia, com um castelo um pouco mais genuíno, se safa.

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Duarte Cabral: Washington, uma cidade pouco maior que Lisboa, tem o dobro dos assassinatos que Portugal inteiro, mas o Trump é que é fascista por querer trazer segurança a uma cidade que devia ser um exemplo mas não é por causa da bandalheira provocada pelos "democratas". Mais um infectado   Jorge Ferreira: Senhor Historiador, Como bom Esquerdista, do alto do seu convencimento de superioridade moral, face aos grunhos da Direita (que na sua cabecinha "iluminada" é sempre Extrema....), procura não perder uma oportunidade, por menor que seja, para tentar "malhar" no Presidente Trump! Como ele ganhou as eleições de forma "fair & square", vai ter de continuar a "xuxar" nos dedinhos mais uns aninhos! Habitue-se....               Tim do A: Mais um globalista Woke totalitário a escrever por aqui.                 madalena colaço: Enaltece a prosperidade da comunidade de Madrid e o seu dinamismo e esquece-se de referir quem a gere desde 2021? porque se esquece de referir Isabel Ayuso? Será porque não é socialista nem corrupta como os socialistas corruptos que estão no governo de Sanchez? Escandaliza-se com um Trump vingativo. Como refere esteve até agora a viver em Washington e veio de lá e não ouviu nada sobre o Russiagate? Não se escandaliza de o ex-presidente Obama ter obrigado a CIA a manipular a informação contra Trump? Como não havia nada que o incriminasse, obrigou a CIA a arranjar factos que o incriminassem. Porque nunca se conta o que Obama e Biden andaram a fazer na Ucrânia? Porque nunca se fala na ingerência dos democratas nesse país? O papel de Victoria Nuuland do governo de Obama disse no congresso que os EUA gastaram cinco mil milhões para ajudarem na revolta de Maidan, isso não interessa?             Francisco Almeida: De facto Lisboa não tem hipóteses. Seria bom o cronista mudar-se já para Washington DC ou mesmo para Washington.

 

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