Oxalá
assim fosse, esse futuro que Eduardo Sá cita
como imprescindível para o país. Seria, de facto, mais promissor para nós. Mas
o estímulo à leitura não é fácil, nem com esse paralelo com a pintura, como Álvaro de Campos define
os livros, talvez no desespero trocista mas grave, de reconhecer a insignificância
do seu apelo neste país de sol e praias, e a tal LIBERDADE do prazer de se “não
cumprir um dever”, como nos define, ironicamente:
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…
O futuro da escola voltará a
ser dos livros
Enquanto países como a Noruega e a Suécia regressam aos livros físicos, em
Portugal o numero de tablets nas escolas vai crescendo. E isso é mau.
EDUARDO SÁ Psicólogo
OBSERVADOR, 25
ago. 2025, 00:02
Apanhar um som no ar. E guardá-lo na memória. Atribuir-lhe uma forma. E
desenhá-lo, primeiro, com dificuldade, prolongando o braço sobre um lápis que
se agarra de mão cheia. Depois, deixando o movimento escorregar para
a ponta dos dedos, entregá-lo a uma espécie de dança, que liga o punho à
superfície do papel. Finalmente, levado pela sua leveza, guarda-se o som numa
forma; num desenho. Para que, por fim, se vá do áudio ao visual e do sensorial
ao abstracto.
Aprender com o corpo,
aprender a pensar com o corpo, permite que se perceba que a atenção é uma
consensualidade de sentidos. E que corpo e pensamento aprendem
embrenhados um no outro. Aprender com o corpo é assumir um perpétuo movimento
com que se vai dos sentidos e dos sentimentos àquilo com se discorre e se
abstrai. Com que se liga e sintetiza. A motricidade
é a melhor amiga da leitura.
Aprende-se com o movimento e com
o corpo. Sempre! E é por isso que atenção jamais é contenção. As crianças
atentas nunca estão nem quietas nem caladas. Mas num movimento silencioso com
que ligam aquilo que apanham no ar a tudo o que já sabem.
A atenção liga os sentidos, os sentimentos, o corpo e o pensamento. E é
por isso que a aprendizagem da escrita, por exemplo, precisa da educação
física, da educação musical, da educação visual, das histórias que se escutam e
da palavra, e da projecção de tudo isso num papel. Onde o som se guarda na
escrita com que se desenha, como se se fosse duma ideia ao utensílio duma obra.
Aprende-se primeiro a ler ou a
escrever? Primeiro, aprende-se a escutar. O som das letras; todas juntas.
Depois, separando-as nos seus sons, aprende-se a desenhá-lo; um por um. A
seguir, a lê-las. Para que se voltem a juntar. Quando se escreve.
A prova de que todos nascemos
com competência para o desenho é que aprendemos a escrever. No
entretanto desse processo, vai-se do desenho à leitura quando, primeiro, se
interpreta e, antes, se intui. E só depois da compreensão é que se lê.
A leitura não vive sem a escrita. A escrita precisa da interpretação. A
leitura carece da motricidade. A escrita da atenção. Quanto menos motricidade
menos atenção. Quanto menor for a paciência entre aquilo que se escuta e os
pequenos remoinhos que fazem com que isso se mexa dentro nós, menos se cogita e
conjectura. Menos se imagina. Menos se ergue e reconstrói. Menos se vai da
espera à construção. Menos se procura. Pior se compreende. Mais se traz ruído e
dispersão à atenção. Menos se vai do mistério ao encantamento. Menos o silêncio
se usa para pensar. Mais se fica pelo fast food da aprendizagem e pela
iliteracia. Menos se recorda. Pior se aprende.
É por isto que o uso
predominante do digital no primeiro ciclo não é tão razoável como parece.
Aprender a leitura sem ela se desenhar a partir da escrita antes aguça a
distância entre se ter um peixe e ensinar-se a pescá-lo. Enquanto
países como a Noruega e a Suécia regressam aos livros físicos, em Portugal o
numero de tablets nas escolas vai crescendo. E isso é mau.
Não se trata de fazer com que o ensino através do digital seja interdito. Mas que o
futuro da escola volte a ser dos livros. No primeiro ciclo, o digital faz
sentido como apoio educativo.
O
livro faz com que a palavra seja o guardião do movimento. A leitura abre-o à
escrita. A escrita simplifica a leitura. Tudo começa nos sons que se escutam e
se apanham no ar. Tudo termina no corpo com que eles se desenham. Tudo se
resume aos movimentos do silêncio com que, de cada vez que se lêem, se escreve
a liberdade.
COMENTÁRIOS
Alexandre Barreira: Pois. Caro
Eduardo, Essa do "voltará". Está divinal.
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