quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Auto-análise


Paralela, afinal, à que costumamos fazer do mundo que nos cerca. Alguns – e Maria Filomena Mónica é também desses, com uma acuidade especial, de uma franqueza bastante directa no ataque à espessura da nossa estreiteza cultural e de princípios e modos, que bem pôde confrontar com os dos outros povos, sobretudo o britânico, que teve a euforia de conhecer - aproveitam para retratar simultaneamente o mundo em redor, reservando para o mundo português, os seus ataques contra o país – que tanto amamos e de que nos envergonhamos tantas vezes, em impotências contra o status criado pelos que, tendo em mãos os destinos da nação, que em boa altura chamaram a si – et pour cause! - exploram ignobilmente esses poderes, ressarcidos com as largas remessas provenientes não tanto de trabalho interno, chutado em tempos pelos críticos do capitalismo explorador, mas dos dinheiros exteriores, distribuídos no país em décalages brutalmente acentuados segundo as competências - as do governo e as da ralé, (estas incluindo as de cursos superiores, próximas dos ordenados mínimos, que se faz finca-pé em aumentar, este, sim, em harmonia com as ordens superiores dos primitivos da vila morena que o nosso Zeca tão exemplarmente exaltou.

Como MADALENA MONICA, JOSÉ RENTES DE CARVALHO é mais um analista que põe a nu complexos de pertença a um país “de cauda” ao que se diz, sempre na incompreensão por esse estranho atraso, um país que cometeu, contudo, proezas de um pioneirismo para todos os efeitos admirável.

E isso conta muito, não tenhamos dúvidas. Como também contam, para a nossa gratidão, os nomes dos Eças, dos Vieiras, dos Cesários e do génio maior que foi Camões, a proteger-nos contra os derrotismos da nossa superioridade humanística. E contam também, as alegres músicas dos nossos cancioneiros populares, que passam televisivamente e nos enternecem a alma. Pobrezinhos mas enternecidos, é o que somos. E afinal, gratos ao pequeno rectângulo que tanto nos foi dando, simplisticamente embora, sem as elegâncias culturais dos virtuoses do mundo, mas com as harmonias confiantes do nosso amor e gratidão por tanto que fez no mundo inteiro.

No fim da linha

A franqueza rude, directa, leva vantagem sobre os rodriguinhos e as cortesias do trato, que escondem a verdade das nações onde a desigualdade é regra e a democracia um tapume desengonçado.

JOSÉ RENTES DE CARVALHO Convidado da Oficina da Liberdade

OBSERVADOR, 12 ago. 2025, 00:128

Ao ordenar que cuidassem da minha protecção quando me mandou para estas bandas, o Altíssimo deve ter tido também um acesso de malicioso humor, por vezes fazendo com que nem tudo fosse o que parecia, para de seguida o pôr do avesso, não me deixando tempo de ajuizar se o suposto ganho era refinada armadilha, ou o aparente trambolhão anunciava uma insuspeita benesse.

Seja como for, nada adiantam as suposições, é gastar tempo com fantasias de como poderia ter sido, ou se o ter tomado por outro caminho dava prova de mais entendimento. Facto é que, tantos anos passados sobre o dia em que aqui cheguei, quando intento fazer o balanço de ganhos e perdas só o consigo em parte, e à custa de me inventar um irmão siamês, a quem atribuo o papel de advogado do Diabo.

Mesmo assim o estratagema nunca satisfaz, pelo simples motivo de que se assemelha à clássica tentativa de querer comparar alhos com bugalhos, e se a hora é boa desisto, não vou perturbar ninguém com razões que, para serem compreendidas, necessitariam de confidências que não faço.

Ainda a sofrer com o choque da mudança, vivi anos com pouco desejo de relativar, olhos fechados para as limitações da minha teimosia, negando a evidência de que o que me tornava rabioso, era uma combinação de ignorância, estranheza, medo, e a suspeita de que não me tomavam como igual, mas também o que ainda em mim restava da inconsciente indoutrinação patriótica com o orgulho da nossa História, na parede da escola o mapa do país e das colónias sobreposto ao da Europa, tornando verdadeiro o lema “Portugal não é um país pequeno”.

Fui acordando devagar e aos poucos, compreendendo mal as raízes da minha ignorância e má-vontade, mas também o que por detrás havia em mim de medo e vergonha, porque para o emigrante que chega de um país atrasado, corrupto, pobre, transtorna e dói o confronto com uma sociedade rica, verdadeiramente democrática, avessa a fidalguias, excelências e aparências, fanática do trabalho, do planeamento, da ordem.

De facto era mais do que transtorno e dor, antes diria que tudo tinha de uma reviravolta, mas tão profunda que não mexia apenas nos meus pensamentos, na sensibilidade, nas andanças e contactos do dia-a-dia, mas em permanência tudo questionava, forçando o confronto entre a pessoa que eu tinha sido, o desnorteado que em muitas ocasiões se via entre a espada e a parede, e o malabarista, que para salvar a face escolhia o exagero, ou escamoteava o que eram as verdadeiras razões da sua dor e vergonha.

Essa atitude como que se tornou um hábito de auto-defesa, a pose deixando quem comigo tratava na ilusão de que eu era objectivo e franco, quando na realidade tudo continuava a ver de maneira distorcida. Com inveja, sim, mas também vergonha de tirar benefício e conforto de uma sociedade a que não pertencia, mas me aceitava e tratava de modo igual aos que nela tinham o berço.

Levou tempo, muito tempo, a me adaptar, ser capaz de viver e sentir com o mínimo de complexos e sentimentos desordenados, mas a cura devo-a menos ao próprio esforço, do que à maneira como, no correr do tempo, os meus novos compatriotas me aceitaram como igual e ensinaram a compreender que, embora dolorosa, por vezes cruel, a franqueza rude, directa, leva vantagem sobre os rodriguinhos e as cortesias do trato, que escondem a verdade das nações onde a desigualdade é regra e a democracia um tapume desengonçado.

Como a vida não tem guião, é pena perdida iludirmo-nos com o que parecem certezas, tomar por pronto e acabado o que só o é no nosso desejo ou cegueira, julgar que podemos dar o próximo passo, quando de facto não houve pausa nem intervalo, talvez apenas cansaço ou a ilusão de finalmente ter conseguido equilibrar o deve e haver.

Dolorosa miragem foi essa, tanto mais por não findar de um instante para o outro, mas ter-me iludido com esperas e esperanças, sinais que pareciam autênticos mas nem promessas eram.

Assoberbado por um dia-a-dia que em muitas ocasiões exigia o limite, o meu interesse pelo que se passava em Portugal conhecia raros momentos de esperança, logo castigados com desespero e sombras porque nenhuma promessa era cumprida.

 

Nota editorial: artigo original de 09/Agosto de 2025 publicado no blog Tempo Contado.

Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.

OFICINA DA LIBERDADE          OPINIÃO           OBSERVADOR

COMENTÁRIOS (de 8)8

Humilde Servo: Como sempre, a visão desencantada e brutalmente honesta deste grande transmontano e português. Há poucos dias estive de viagem em Amesterdão, e o contraste entre a limpeza e a organização da cidade com o caos e a sujidade de Lisboa é chocante. Não que Lisboa lhe seja inferior na beleza e no encanto, mas a diferença mostra como não nos estamos a aproximar dos melhores padrões civilizacionais. Pelo contrário.

 GateKeeper: Top 20.

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