Paralela, afinal, à que costumamos fazer do mundo que nos cerca. Alguns
– e Maria Filomena Mónica é
também desses, com uma acuidade especial, de uma franqueza bastante directa no
ataque à espessura da nossa estreiteza cultural e de princípios e modos, que bem
pôde confrontar com os dos outros povos, sobretudo o britânico, que teve a
euforia de conhecer - aproveitam para retratar simultaneamente o mundo em
redor, reservando para o mundo português, os seus ataques contra o país – que tanto
amamos e de que nos envergonhamos tantas vezes, em impotências contra o status
criado pelos que, tendo em mãos os destinos da nação, que em boa altura
chamaram a si – et pour cause! - exploram
ignobilmente esses poderes, ressarcidos com as largas remessas provenientes não
tanto de trabalho interno, chutado em tempos pelos críticos do capitalismo
explorador, mas dos dinheiros exteriores, distribuídos no país em décalages
brutalmente acentuados segundo as competências - as do governo e as da ralé, (estas incluindo as de cursos superiores, próximas dos ordenados
mínimos, que se faz finca-pé em aumentar, este, sim, em harmonia com as ordens
superiores dos primitivos da vila morena que o nosso Zeca tão exemplarmente
exaltou.
Como MADALENA MONICA, JOSÉ RENTES DE CARVALHO é mais um analista que põe
a nu complexos de pertença a um país “de cauda” ao que se diz, sempre na
incompreensão por esse estranho atraso, um país que cometeu, contudo, proezas
de um pioneirismo para todos os efeitos admirável.
E isso conta muito, não tenhamos dúvidas. Como também contam, para a nossa gratidão, os nomes dos Eças, dos Vieiras, dos Cesários e do génio maior
que foi Camões, a proteger-nos contra os derrotismos da nossa superioridade
humanística. E contam também, as alegres músicas dos nossos cancioneiros
populares, que passam televisivamente e nos enternecem a alma. Pobrezinhos mas
enternecidos, é o que somos. E afinal, gratos ao pequeno rectângulo que tanto nos
foi dando, simplisticamente embora, sem as elegâncias culturais dos virtuoses do
mundo, mas com as harmonias confiantes do nosso amor e gratidão por tanto que fez no mundo inteiro.
No fim da linha
A franqueza rude, directa, leva
vantagem sobre os rodriguinhos e as cortesias do trato, que escondem a verdade
das nações onde a desigualdade é regra e a democracia um tapume desengonçado.
JOSÉ RENTES DE CARVALHO Convidado da
Oficina da Liberdade
OBSERVADOR, 12 ago. 2025, 00:128
Ao ordenar que cuidassem da minha protecção quando me mandou para estas
bandas, o Altíssimo deve ter tido também um acesso de malicioso humor, por
vezes fazendo com que nem tudo fosse o que parecia, para de seguida o pôr do
avesso, não me deixando tempo de
ajuizar se o suposto ganho era refinada armadilha, ou o aparente trambolhão
anunciava uma insuspeita benesse.
Seja como for, nada adiantam as suposições, é gastar tempo com
fantasias de como poderia ter sido, ou se o ter tomado por outro caminho dava
prova de mais entendimento. Facto é que, tantos anos passados sobre o dia em
que aqui cheguei, quando intento fazer o balanço de ganhos e perdas só o
consigo em parte, e à custa de me
inventar um irmão siamês, a quem atribuo o papel de advogado do Diabo.
Mesmo assim o estratagema nunca satisfaz, pelo simples motivo de que se
assemelha à clássica tentativa de querer comparar alhos com bugalhos, e se a
hora é boa desisto, não vou perturbar ninguém com razões que, para serem
compreendidas, necessitariam de confidências que não faço.
Ainda a sofrer com o choque da mudança, vivi anos com pouco desejo de
relativar, olhos fechados para as limitações da minha teimosia, negando a evidência de que o que me
tornava rabioso, era uma combinação de ignorância, estranheza, medo, e a
suspeita de que não me tomavam como igual, mas também o que ainda em mim restava da inconsciente indoutrinação
patriótica com o orgulho da nossa História, na parede da escola o mapa do país
e das colónias sobreposto ao da Europa, tornando verdadeiro o lema “Portugal
não é um país pequeno”.
Fui acordando devagar e aos
poucos, compreendendo mal as raízes da minha ignorância e má-vontade, mas
também o que por detrás havia em mim de medo e vergonha, porque para o
emigrante que chega de um país atrasado, corrupto, pobre, transtorna e dói o
confronto com uma sociedade rica, verdadeiramente democrática, avessa a
fidalguias, excelências e aparências, fanática do trabalho, do planeamento, da
ordem.
De facto era mais do que
transtorno e dor, antes diria que tudo tinha de uma reviravolta, mas tão
profunda que não mexia apenas nos meus pensamentos, na sensibilidade, nas
andanças e contactos do dia-a-dia, mas em permanência tudo questionava,
forçando o confronto entre a pessoa que eu tinha sido, o desnorteado que em
muitas ocasiões se via entre a espada e a parede, e o malabarista, que para
salvar a face escolhia o exagero, ou escamoteava o que eram as verdadeiras
razões da sua dor e vergonha.
Essa atitude como que se
tornou um hábito de auto-defesa, a pose deixando quem comigo tratava na ilusão
de que eu era objectivo e franco, quando na realidade tudo continuava a ver de
maneira distorcida. Com inveja, sim, mas também vergonha de tirar benefício e
conforto de uma sociedade a que não pertencia, mas me aceitava e tratava de
modo igual aos que nela tinham o berço.
Levou tempo, muito tempo, a me
adaptar, ser capaz de viver e sentir com o mínimo de complexos e sentimentos
desordenados, mas a cura devo-a menos ao próprio esforço, do que à maneira
como, no correr do tempo, os meus novos compatriotas me aceitaram como igual e
ensinaram a compreender que, embora dolorosa, por vezes cruel, a franqueza rude, directa, leva vantagem sobre os
rodriguinhos e as cortesias do trato, que escondem a verdade das nações onde a
desigualdade é regra e a democracia um tapume desengonçado.
Como a vida não tem guião, é pena perdida iludirmo-nos com o que
parecem certezas, tomar por pronto e acabado o que só o é no nosso desejo ou
cegueira, julgar que podemos dar o próximo passo, quando de facto não houve
pausa nem intervalo, talvez apenas
cansaço ou a ilusão de finalmente ter conseguido equilibrar o deve e haver.
Dolorosa miragem foi essa, tanto mais por não findar de um instante
para o outro, mas ter-me iludido com esperas e esperanças, sinais que pareciam
autênticos mas nem promessas eram.
Assoberbado por um dia-a-dia que em muitas ocasiões exigia o limite,
o meu interesse pelo que se passava em Portugal conhecia raros momentos de
esperança, logo castigados com desespero e sombras porque nenhuma promessa era
cumprida.
Nota editorial: artigo
original de 09/Agosto de 2025 publicado no blog Tempo Contado.
Os pontos de vista expressos
pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na
íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e
não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade
sobre
os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que
querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os
seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá
chegar.
OFICINA DA LIBERDADE OPINIÃO OBSERVADOR
COMENTÁRIOS (de 8)8
Humilde Servo: Como sempre, a visão desencantada e brutalmente
honesta deste grande transmontano e português. Há poucos dias estive de viagem
em Amesterdão, e o contraste entre a limpeza e a organização da cidade com o
caos e a sujidade de Lisboa é chocante. Não que Lisboa lhe seja inferior na
beleza e no encanto, mas a diferença mostra como não nos estamos a aproximar
dos melhores padrões civilizacionais. Pelo contrário.
GateKeeper: Top 20.
Nenhum comentário:
Postar um comentário