Putin… Os russos, seus compinchas… Cimeira do Alasca, com Trump e Putin
cozinhando decisões, ombro a ombro…? Quelle
horreur! Expressão que ouvi a uma matrona escandalizada, em Paris, no ano
de 1953, perante um casal esfregando-se descontroladamente um no outro, num
autocarro apinhado. Quelle horreur! Esta
visão de Trump a esfregar-se em Putin lá pelo Alasca! Tão atenciosamente! Tão
sorridentemente, lado a lado, na passadeira! Putin, um criminoso a passear-se,
com honras! É muita esfregadela! Ainda que no frio do Alasca! É fundamental –
para o mundo
inteiro – mas para a Ucrânia, naturalmente, retirar a Ucrânia das
garras monstruosas desses que lhe fazem guerra. Não, não há estômago para tal
horror, como o não há para os incendiários das florestas. Como para os
comportamentos atenciosos para com os Neros do desbragamento actual. Uma visão
de Inferno, sem Dante à vista, mas permitindo a recordação abrangente do “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!”
Campos de concentração modernos: o custo
humano de ceder territórios ucranianos
Quando consideramos a ideia de «desistir» dos territórios
ucranianos, estamos efectivamente a dizer às pessoas que lá vivem: vamos
abandoná-las. Não lutaremos por vocês.
KATERYNA LISUNOVA Correspondente
ucraniana nos EUA e Media Advisor de Razom for Ukraine
OBSERVADOR, 24 ago. 2025, 00:04
Recentemente, concedi uma entrevista
à Agência Central de Notícias de Taiwan sobre a cimeira no Alasca entre o
presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder russo, Vladimir Putin.
O jornalista fez uma pergunta simples e
directa: “Se fosse conselheira de
Trump, o que lhe diria antes da cimeira?”
Respondi
que o mais importante seria deixar de falar sobre uma “troca de territórios”
como se estes fossem apenas solo, quilómetros quadrados ou algo sem vida. Quando
falamos de territórios ucranianos, estamos a falar, acima de tudo, do povo
ucraniano: pessoas que são torturadas,
violadas, mortas, perseguidas pela sua fé, cultura e identidade nacional;
crianças que são sequestradas e privadas à força da sua identidade ucraniana.
Sabia que a Rússia lançou um
“catálogo” online de crianças ucranianas raptadas, classificadas por idade, cor
dos olhos e número de irmãos? É
assustadoramente desumano.
Se esta guerra fosse sobre a expansão da NATO, por que razão é que a Rússia
raptaria crianças ucranianas? Porque esta guerra não é sobre a NATO, mas sim
sobre eliminar a
Ucrânia como nação e transformá-la numa plataforma para guerras futuras.
Sabia que nos territórios ocupados
não é permitida qualquer confissão religiosa para além da Igreja Ortodoxa
Russa? Quando falamos de território ucraniano, estamos a
falar de famílias, de mulheres, de crianças presas sob a ocupação russa, sem
Estado de direito, sem liberdades e sem sequer a dignidade humana mais básica.
Sabia
que é quase impossível escapar desses territórios? As forças
russas disparam contra civis que tentam fugir, pois qualquer pessoa que não aceite a ocupação e tenha a coragem e a
vontade de regressar ao território controlado pela Ucrânia é vista como uma
ameaça a eliminar. Há milhares de casos documentados de famílias que foram
baleadas nos seus carros enquanto tentavam fugir.
Sabia que, nos territórios ocupados
pela Rússia após 2014, especialmente na região do Donbass, as
pessoas não têm acesso a água potável, produtos de higiene, medicamentos ou
outros bens essenciais? O
abastecimento de água é feito através de tubos gastos e, como alternativa, as
autoridades ocupantes fornecem água contaminada com substâncias radioactivas
provenientes de testes nucleares realizados na mina de Yunkom na década de
1970. Estas áreas foram afectadas por uma dupla epidemia e por um aumento dos casos
de HIV em recém-nascidos, ao mesmo tempo que todos os observadores
internacionais independentes são impedidos de entrar.
2014 mostrou-nos que deixar essas
terras sob ocupação russa leva a outra catástrofe humanitária, cortando todo o
acesso às pessoas que lá vivem e à verdade sobre o que está a acontecer.
Portanto, quando consideramos a ideia
de «desistir» dos territórios ucranianos, estamos efectivamente a dizer às
pessoas que lá vivem: vamos abandoná-las. Não
lutaremos por vocês. Isso não é pôr fim à guerra, mas sim condenar milhares de
pessoas a um sofrimento sem fim em modernos campos de concentração de agressão
russa.
Além
disso, sabia que o exército ucraniano é totalmente capaz de defender o seu
território e que apenas necessita de uma defesa aérea adequada para proteger os
civis? Drones marítimos fabricados na Ucrânia atacaram a
frota russa no Mar Negro, forçando a sua retirada.
A
Ucrânia garantiu o Acordo dos Cereais segundo os seus próprios
termos, depois de a Rússia ter violado o acordo original, mediado pela ONU e
pela Turquia, ao bombardear portos e retirar-se em Julho de 2023. A frota
de drones ucraniana destruiu então grande parte da capacidade naval da
Rússia.
Na Operação Spiderweb, a Ucrânia
destruiu um terço da frota de bombardeiros nucleares russos no interior do
território da Rússia, atingindo cinco grandes bases aéreas, com os seus
próprios drones. E isto sem
contar com as operações
especiais que eliminaram os principais comandantes russos.
A Ucrânia pode ganhar. O mito da
história “invicta” da Rússia não passa de propaganda. No entanto, as pessoas que não acreditam no apoio à Ucrânia podem fazer
com que esse mito se torne realidade.
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