domingo, 24 de agosto de 2025

Repugnante

 

Putin… Os russos, seus compinchas… Cimeira do Alasca, com Trump e Putin cozinhando decisões, ombro a ombro…? Quelle horreur! Expressão que ouvi a uma matrona escandalizada, em Paris, no ano de 1953, perante um casal esfregando-se descontroladamente um no outro, num autocarro apinhado. Quelle horreur! Esta visão de Trump a esfregar-se em Putin lá pelo Alasca! Tão atenciosamente! Tão sorridentemente, lado a lado, na passadeira! Putin, um criminoso a passear-se, com honras! É muita esfregadela! Ainda que no frio do Alasca! É fundamental – para o mundo inteiro – mas para a Ucrânia, naturalmente, retirar a Ucrânia das garras monstruosas desses que lhe fazem guerra. Não, não há estômago para tal horror, como o não há para os incendiários das florestas. Como para os comportamentos atenciosos para com os Neros do desbragamento actual. Uma visão de Inferno, sem Dante à vista, mas permitindo a recordação abrangente do “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate!”

 

Campos de concentração modernos: o custo humano de ceder territórios ucranianos

Quando consideramos a ideia de «desistir» dos territórios ucranianos, estamos efectivamente a dizer às pessoas que lá vivem: vamos abandoná-las. Não lutaremos por vocês.

KATERYNA LISUNOVA Correspondente ucraniana nos EUA e Media Advisor de Razom for Ukraine

OBSERVADOR, 24 ago. 2025, 00:04

Recentemente, concedi uma entrevista à Agência Central de Notícias de Taiwan sobre a cimeira no Alasca entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder russo, Vladimir Putin.

O jornalista fez uma pergunta simples e directa: “Se fosse conselheira de Trump, o que lhe diria antes da cimeira?”

Respondi que o mais importante seria deixar de falar sobre uma “troca de territórios” como se estes fossem apenas solo, quilómetros quadrados ou algo sem vida. Quando falamos de territórios ucranianos, estamos a falar, acima de tudo, do povo ucraniano: pessoas que são torturadas, violadas, mortas, perseguidas pela sua fé, cultura e identidade nacional; crianças que são sequestradas e privadas à força da sua identidade ucraniana.

Sabia que a Rússia lançou um “catálogo” online de crianças ucranianas raptadas, classificadas por idade, cor dos olhos e número de irmãos? É assustadoramente desumano. Se esta guerra fosse sobre a expansão da NATO, por que razão é que a Rússia raptaria crianças ucranianas? Porque esta guerra não é sobre a NATO, mas sim sobre eliminar a Ucrânia como nação e transformá-la numa plataforma para guerras futuras.

Sabia que nos territórios ocupados não é permitida qualquer confissão religiosa para além da Igreja Ortodoxa Russa? Quando falamos de território ucraniano, estamos a falar de famílias, de mulheres, de crianças presas sob a ocupação russa, sem Estado de direito, sem liberdades e sem sequer a dignidade humana mais básica.

Sabia que é quase impossível escapar desses territórios? As forças russas disparam contra civis que tentam fugir, pois qualquer pessoa que não aceite a ocupação e tenha a coragem e a vontade de regressar ao território controlado pela Ucrânia é vista como uma ameaça a eliminar. Há milhares de casos documentados de famílias que foram baleadas nos seus carros enquanto tentavam fugir.

Sabia que, nos territórios ocupados pela Rússia após 2014, especialmente na região do Donbass, as pessoas não têm acesso a água potável, produtos de higiene, medicamentos ou outros bens essenciais? O abastecimento de água é feito através de tubos gastos e, como alternativa, as autoridades ocupantes fornecem água contaminada com substâncias radioactivas provenientes de testes nucleares realizados na mina de Yunkom na década de 1970. Estas áreas foram afectadas por uma dupla epidemia e por um aumento dos casos de HIV em recém-nascidos, ao mesmo tempo que todos os observadores internacionais independentes são impedidos de entrar.

2014 mostrou-nos que deixar essas terras sob ocupação russa leva a outra catástrofe humanitária, cortando todo o acesso às pessoas que lá vivem e à verdade sobre o que está a acontecer.

Portanto, quando consideramos a ideia de «desistir» dos territórios ucranianos, estamos efectivamente a dizer às pessoas que lá vivem: vamos abandoná-las. Não lutaremos por vocês. Isso não é pôr fim à guerra, mas sim condenar milhares de pessoas a um sofrimento sem fim em modernos campos de concentração de agressão russa.

Além disso, sabia que o exército ucraniano é totalmente capaz de defender o seu território e que apenas necessita de uma defesa aérea adequada para proteger os civis? Drones marítimos fabricados na Ucrânia atacaram a frota russa no Mar Negro, forçando a sua retirada.

A Ucrânia garantiu o Acordo dos Cereais segundo os seus próprios termos, depois de a Rússia ter violado o acordo original, mediado pela ONU e pela Turquia, ao bombardear portos e retirar-se em Julho de 2023. A frota de drones ucraniana destruiu então grande parte da capacidade naval da Rússia.

Na Operação Spiderweb, a Ucrânia destruiu um terço da frota de bombardeiros nucleares russos no interior do território da Rússia, atingindo cinco grandes bases aéreas, com os seus próprios drones. E isto sem contar com as operações especiais que eliminaram os principais comandantes russos.

A Ucrânia pode ganhar. O mito da história “invicta” da Rússia não passa de propaganda. No entanto, as pessoas que não acreditam no apoio à Ucrânia podem fazer com que esse mito se torne realidade.

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