terça-feira, 26 de agosto de 2025

Saber patético


Naturalmente porque proveniente de patetas, devidamente já desmistificados… Peço perdão do erro: queria dizer “desmitificados”.

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Isto não é “libertar a memória”, mas sim aprisioná-la num colete de erros e culpabilizações. Isto não é informação, é propaganda e activismo woke.

JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista

OBSERVADOR, 25 ago. 2025, 00:0244

Alertas activos

Lagos de Descobertas

Isto não é “libertar a memória”, mas sim aprisioná-la num colete de erros e culpabilizações. Isto não é informação, é propaganda e activismo woke.

Em 25 de Junho a Câmara Municipal de Lagos procedeu à mudança do logótipo da cidade. Deixou de ser “Lagos dos Descobrimentos” para passar a ser “Lagos de Descobertas”. Já sabemos que as alterações de logótipos podem ter uma forte carga simbólica e política, mas eu não quero enveredar por aí. Quero, isso sim, dizer que essa alteração, associada aos aproveitamentos ideológicos recentemente feitos em torno de ossadas de africanos (provavelmente escravos) descobertas em 2008-10 na zona da antiga Gafaria, em Lagos, e a outros factos que considerou suspeitos ou indicativos de que a tónica posta no Infante e na história a ele associada estava a ser alterada ou depreciada, levaram uma senhora lacobrigense, devidamente identificada, a contactar-me para me dar conta das suas razões de queixa. Não querendo escrever sobre este assunto sem ouvir os dois lados da moeda falei também com a directora do Museu de Lagos que simpaticamente me explicou o processo de mudança do logótipo e me garantiu que essa mudança nada tinha que ver com o cemitério de africanos.

Acredito, claro, mas sem querer meter foice em seara alheia julgo que seria útil explicar tudo isso um pouco melhor aos habitantes de Lagos e ao país, e acima de tudo garantir-lhes que a existência de centena e meia de esqueletos no Vale da Gafaria não implica uma inversão de tónica nem qualquer desinvestimento nos aspectos positivos da História dos Descobrimentos. E assegurar-lhes também, querendo, que não há um resvalar da Câmara Municipal de Lagos, uma câmara do PS, para o wokismo, aqui entendido no sentido de culpabilização das figuras do passado à luz dos nossos actuais conceitos e juízos morais, uma lamentável tendência ultimamente na moda. É que, ao percorrer o que está na Internet, nomeadamente a programação de actividades culturais do museu, e uma vez que o actual lema da cidade é “Lagos de Descobertas”, eu também fiz uma descoberta que me deu a desagradável sensação — espero que errada ou ilusória — de que havia nessa programação uma propensão para o wokismo.

De facto, no passado dia 31 de outubro de 2024, o museu exibiuDebaixo do Tapete”, um documentário claramente woke de Catarina Demony, uma jovem jornalista com sentimentos de culpa por ser descendente de notórios negreiros portugueses que actuaram em Angola nos séculos XVIII e XIX, quase sempre no período em que o tráfico de escravos foi legal. Escrevi sobre a referida jornalista e esse seu documentário um artigo no Observador (“A redenção de Catarina Demony”), para onde remeto os leitores interessados, artigo cujo conteúdo nunca foi refutado ou contestado, nem pela visada nem por outra pessoa qualquer. Sobre Para agravar a inclinação woke da iniciativa, verifico agora que ela foi integrada num ciclo intitulado “Libertar a Memória” e teve como comentadores ou debatentes Nuna e Apolo de Carvalho, um senhor que afirma na sua página de Facebook, que “a abolição (da escravatura) foi feita por pessoas negras” e que “os tugas foram os primeiros caçadores de humanos”, o que revela bem qual o nível dos seus conhecimentos históricos. Nuna, jovem actriz e activista afrodescendente, encontrei apenas a referência à autoria de dois livros para crianças e uma entrevista na qual assume que quer combater “o racismo institucional estrutural” e “(desconstruir) a opressão, o silenciamento, o lusotropicalismo, a normalização do bom racista, do bom colonizador”, de um Portugal que “tolera” os negros “em vez de (os) respeitar.”

Salvo melhor opinião, isto não é “libertar a memória”, mas sim aprisioná-la num colete de erros e culpabilizações. Isto não é informação, é propaganda e activismo woke de pessoas sem qualquer habilitação conhecida e reconhecida para falar deste assunto. Serão certamente pessoas muito competentes nas suas respectivas áreas de formação e saber, mas nenhuma delas tem, que se saiba, conhecimentos específicos para informar (e debater) sobre a história do tráfico de escravos e da escravidão. Assim sendo, o que parece ter havido em Lagos, nesse fim de tarde, foi uma sessão de propaganda woke. Segundo me informam — eu não estive presente — os comentadores não responderam a perguntas da audiência e, pior, terão repreendido uma senhora que levantava a mão para questionar a oradora Nuna, com a admoestação ou advertência de que “não se interrompe uma mulher negra.”

Duas semanas depois, no dia 14 de novembro, a Câmara Municipal de Lagos acolheu, no mesmo ciclo “Libertar a Memória”, o filme “Visões do Império”, de Joana Pontes, um documentário que procura “reexaminar de forma crítica a História de Portugal e das antigas colónias”. Uma das intervenientes no debate subsequente foi Marta Lança, a activista woke criadora e editora de Buala, que os interessados podem percorrer e conhecer aqui. No dia 17 de novembro de 2024 houve uma conferência subordinada ao lema da “Desconstrução de narrativas e mitos” promovida pelo projecto “Roots”, projecto que tem como ponto de partida o tal cemitério de africanos no Vale da Gafaria e cuja natureza e objectivos podem ser vistos e avaliados neste link.

Não defendo que estas iniciativas não devessem ter ocorrido nem que estas pessoas não devessem ter sido convidadas, mas o que surpreende é que não se vislumbrem na programação das actividades do museu, nesta área do conhecimento histórico, vozes capazes de proporcionar à população interessada de Lagos um saudável e imprescindível contraditório. É claro que a Câmara Municipal de Lagos — como qualquer outra, aliás —, acolhe quem quer e não é, em bom rigor, responsável pelo que essas pessoas dizem, mas depois não deve admirar-se de que a conotem com quem acolhe, nem pode surpreender-se de que alguns munícipes sintam que, nos tempos que correm, valoriza mais a triste história da escravatura do que a dos Descobrimentos. Seria por isso tranquilizador e boa política, suponho, que as autoridades competentes mostrassem a quem o quiser ver que não têm a intenção ou a missão de “descolonizar o conhecimento” nem de fazer sobressair, em contraposição aos achamentos de terras e/ou gentes desconhecidas dos europeus e de povos de outros continentes, um cemitério com as ossadas de 158 africanos. É, sem dúvida, um achado arqueológico relevante, e um aspecto importante, ainda que muito triste, da expansão ultramarina portuguesa — aspecto que, ao contrário do que se tenta fazer crer, não é e nunca foi escondido ou secreto —, mas não se invertam as prioridades nem se ponha o carro à frente dos bois. As coisas têm importâncias relativas bem diferentes, ainda que a gente woke nos queira convencer do contrário. Voltarei a esse aspecto num próximo artigo.

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COMENTÁRIOS (de 44)

João Floriano: Lembro-me perfeitamente das dores existenciais da jovem Demony e penso que se perde tempo e dá-se notoriedade a patetas semelhantes. Achei no entanto uma curiosa coincidência que o 10 de Junho tivesse sido «festejado» num município PS quando a 18 de maio o site do Sulinformação publica que no Algarve o Chega ganha em 11 concelhos, AD em 5 e PS em nenhum. Será que se pretendeu passar uma determinada mensagem, ainda por cima reforçada pelos dois discursos mais desastrados e deprimentes que há memória nesta data que devia ser de união e foi transformada num campo de batalha política? A Demody tem a desculpa de ser jovem, mas Marcelo e Lídia já tinham idade para ter juizo e não irem em contos da Carochinha.                   Maria Nunes: Obrigada, Dr. João Pedro Marques, por mais um excelente artigo. Espero que a Câmara de Lagos, em vez de dar voz aos woke, tenha orgulho na nossa História e aja de acordo.               Pobre Portugal: No dia 12 de outubro, o povo de Lagos que diga à câmara PS para onde deve ir.                Carlos Fernandes: Obrigado, João Pedro Marques, por ser uma voz sapiente e razoável. Continue, por favor, a desconstruir essa cultura woke.                       Coronavirus corona > Glorioso SLB: Pelos vistos a câmara de Lagos quer saber. Há essa suspeita. E há também a suspeita que já anda a alterar logotipos.                    Maria Emília Ranhada Santos: Há as câmaras Woke e as câmaras normais!     António Soares: O PS é para ser corrido das autarquias como já foi corrido do governo. Glória a Portugal!                Carlos Chaves: Obrigado João Pedro Marques!                   João Santos: A actual Câmara de Lagos, sobretudo na área cultural (e especialmente no Museu de Lagos, dirigido por alguém que nem português sabe falar...) optou deliberadamente por uma orientação ideológica e wokista. A programação cultural, em vez de sublinhar o papel único da cidade de Lagos na verdadeira gesta que foram os Descobrimentos, passou a privilegiar (algo serodiamente e a contra-ciclo...) os aspectos que correspondem à agenda wokista - ideologia e não ciência, ódio aos valores cristãos, mensagem anti homem branco, ridicularização do próprio Infante D. Henrique, etc. Com o pretexto das tais ossadas, faz a apologia do anti-portuguesismo de modo sistemático, privando Lagos da sua identidade e da sua singularidade.                  João: Aqui há dias o sr. Alberto Gonçalves escrevia que o wokismo está em regressão e dava-o como praticamente derrotado. Ele que leia este texto como exemplo. O wokismo está longe de estar derrotado. Ainda ontem entraram mais de 40.000 novos potenciais recrutas nas universidades. Muitos estão relativamente protegidos, em cursos científicos, mas outros vão levar com a doutrinação em cursos de jornalismo, história, filosofia...além de também já terem sido sujeitos à pré-lavagem no secundário. Há muitos professores que votam bloco, Livre, PS, etc. O combate vai ser longo e difícil.                     Português de bem: Pois é… por aqui, há quem ache que não se deve dar importância aos woke fascistas. O problema é precisamente esse: enquanto muitos preferem ignorá-los, os wokes vão avançando com a sua agenda e alcançando os seus objectivos. Foi assim neste caso, como já foi noutros. Se as pessoas não falarem, não criticarem e continuarem apenas a “não lhes dar importância”, eles continuarão a transformar o país enquanto nós assobiamos para o lado, convencidos de que a indiferença é uma forma eficaz de resistência. Continuem assim. Eles agradecem. Obrigado ao JPM por mais um artigo fantástico, como sempre.                  Rita Salgado: Na cabeça da "jornalista Demony(aca)" as pirâmides do Egipto foram construídas por pessoal qualificado, com contactos sem termo, seguro de saúde e subsídio de alimentação....     Glorioso SLB: Mas ñ está o JPM a dar mta importância a esta malta woke? Quem é q quer saber de uma miúda frustrada porque ñ nasceu africana ou q os antepassados tenham sido comerciantes há 200 anos? Olhe, sabe mais do q a maioria da população sobre os antepassados. Mas tb tem bom remédio: entregue o ordenado ao Mamado Bá.                     João Floriano > Nuno Abreu: «O registo mais antigo de uma guerra refere-se à evidência arqueológica de um massacre entre caçadores-colectores há cerca de 10 mil anos, na África Oriental, sendo a Batalha de Megido (século XV a.C.) a mais antiga com registos historiográficos e arqueológicos detalhados, que opôs egípcios e uma coligação cananeia. » Ötzi foi morto com uma seta há mais de 5300 anos nos Alpes entre a Suiça e a Áustria. Em nenhum dos casos podemos envolver a maldade lusitana se bem que com os wokes nunca se sabe.    graça Dias: Mais um excelente e didáctico artigo.  Há os que consideram o Wokismo como uma "religião", pessoalmente, considero uma " seita" com um único objectivo: desconstruir todo o património cultural e até científico, cujo objectivo é estabelecer uma ditadura em nome do bem e da justiça. Esta perversidade tem, e deve ser desconstruída e denunciada. Ao JPM um reconhecido obrigada. Parabéns por mais este esclarecimento histórico.                  Nuno Abreu: Fui ao Google e cliquei “Homo Sapiens e os seu crimes”. A Vista geral da IA respondeu-me: “Estudos, como os realizados na Universidade de Granada, sugerem que a violência humana tem raízes profundas e pode ser vista como um legado evolutivo” Será que temos de responsabilizar os mortos em Nataruk, um testemunho da antiguidade da violência entre grupos humanos, que evidenciam de que a guerra era parte do repertório das relações entre grupos de alguns caçadores-colectores pré-históricos.?       JoãoPortuguês de bem: Só discordo na designação de "fascistas", prefiro bolcheviques. Porque foi com eles que tudo começou e sempre que falamos de "práticas fascistas", "métodos pidescos" ou algo semelhante estamos ainda a fazer o jogo do esquerdalho. Prefiro dizer que são práticas bolcheviques, métodos dignos do KGB ou da stasi, etc. A batalha também se faz, e muito, no campo linguístico.                      João Das Regras: É por tudo isto que os portugueses cada vez mais votam em partidos que se opõem a esta fantochada de culpabilização da nossa história, só espero que o PS perca a Câmara em Lagos e que ganhe o partido que mais respeitar os Portugueses, quanto a estes activistas que se sentem tão mal em Portugal devem voltar às suas raízes ou mesmo ao seu país onde nasceram e aí serão certamente mais felizes, boa viagem.                     Maria: Tenho uma secreta esperança que o CH limpe esta Maravilhosa Cidade de Lagos!! Se a actual vereação está tão preocupada com as ossadas.... não permita mais e reemigre todos os NÃO PORTUGUESES!!                    Paulo Silva: Como seria de esperar o meu comentário já foi parar à moderação até às calendas, a pedido de algum esquerdopata que se sentiu ofendido por ler a verdade... Pesem as similitudes semânticas e fonéticas: substituir a expressão “Lagos dos Descobrimentos” por “Lagos de Descobertas” é fazer um trocadilho cínico tal como confundir ‘A Estrada da Beira’ com ‘a beira da estrada’… ou proceder à singela alteração de “Coimbra, cidade do Conhecimento” para “Coimbra, cidade dos conhecimentos”... Os próceres do Marxismo Cultural decretaram uma guerra santa contra o passado e puseram as brigadas dos “arqueólogos da desgraça” nos terrenos da especulação a desenterrar cadáveres - reais ou imaginários - para traumatizar os cidadãos e os aprisionar na culpa e no remorso. As narrativas da má-consciência começaram a ser denunciadas a partir dos anos 80 pelo intelectual francês Pascal Bruckner. O tema é abordado na sua obra seminal «O Remorso do Homem Branco» de 1983, a que mais tarde títulos como «O Complexo de Culpa do Ocidente» ou «Racismos Imaginários» deram seguimento. Tudo o que o historiador João Pedro Marques tem vindo a constatar e a denunciar diligentemente já tinha sido denunciado. A diferença é que no passado a coisa estava mais confinada a certos nichos intelectuais e políticos, hoje está por todo o lado da sociedade civil com activismos e movimentos alimentados pela cs engajada. Aos afrodescendentes ainda sou capaz de dar o desconto pelo ressentimento e rancor guardados. Mas não desculpo os que os alimentam com má-fé e segundas-intenções. De todo o modo, é sempre bom fazer pedagogia prestando serviço público a muitos ignorantes e idiotas úteis. Aconselhava os Srs. Nuna e Apolo de Carvalho a lerem o livro do escritor e antropólogo de origem franco-senegalesa Tidiane N’Diaye, «Le génocide voilé : Enquête historique». Também está traduzido em português.                 José Lúcio: A (já não tão) jovem Catarina Demony, utiliza todas as ferramentas do "cardápio woke": a suposta "grande descoberta" que fez, porque ninguém tinha pensado antes no assunto, a demonização do ocidente, a culpa única do homem branco (a tal "branquitude"), a santidade de toda a outra gente, leia-se "não branca", etc, etc, etc. Devo dizer que ainda aguardo uma explicação científica (e não fantasiosa como, aliás, é regra do wokismo) de como é que se define essa dicotomia "branca/não branca". Até aos avós? Bisavós? E quem são os génios que definem essa dicotomia? Alguém os elegeu? Acaso têm legitimidade eleitoral? Ou apenas "legitimidade barulhenta" propagada por certa comunicação social e determinadas universidades? E se houver alguns "não brancos" na linhagem (como evidentemente haverá em imensas situações), como é que se faz? Tem-se direito a desconto no cálculo das reparações a pagar? E qual é a percentagem de abatimento na conta? Se for avó é 15%? Ou se for bisavô, faz-se o desconto de 12%? E se forem dois avôs e uma bisavó? Há desconto de grupo? Aguardo que me expliquem e que me enviem o Caderno de Especificações.                   vitor gonçalves > João: Concordo, João. Tenho comentado aqui que o combate ao wokismo tem de ser feito na Academia .             Rui Pedro Matos: Muito bem!                   Maria: Obrigada Professor!! Esta moda dos wokismos tende à descaracterização de um País! Quando queremos anular a História está tudo dito. Quantos por aí há que até os ascendentes ignoram, por serem humildes, mas foram eles QUE LHES DERAM O SER. A HISTÓRIA NUNCA SE PODE IGNORAR                   José Tomás: Notei que o tal blog Buala transcreve "ipsis verbis" este "original" trecho do livro "Por Ti, Portugal, Eu Juro" (Tinta-da China, 2024): "Aristides de Sousa Mendes, líder do PAIGC depois do assassinato de Amílcar Cabral em 1973". Eles doutoram-se uns aos outros, e depois dá nisto.               Lily Lx: Como estão as sondagens das autárquicas em Lagos? Passa para o Chega?

 

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