Seria motivo não de orgulho mas de desdém. Mas é como somos, por cá.
Simples, desajeitados, asnáticos, pouco esclarecidos, espaços de desdenhoso
olhar exterior. Para quem gostaria de se equiparar a outros povos mais
rigorosos no sentido da valorização humana, Viana perde, como as demais terras
e gentes por cá. Mas é assim que somos, não, talvez, de raiz, mas de defeito orientador
de há muito, que assim diferenciou as gentes, no elitismo promotor e no
desprezo condenatório do humano ser. Simpáticos, todavia, na simplicidade
abnegada de um sentimento de alegre postura. Como Viana demonstra, afinal. Mas há,
certamente, quem disso se aproveite, nas andanças orientadoras da governação e
demais meios, sob a fraude festivaleira, puro escape esta, talvez.
Quando Viana se veste de Agonia
Como Roma, há cidades fundadas
sob um mito. Como Alexandria, há cidades fundadas sob um nome. Como Jerusalém,
há cidades fundadas sob uma promessa. Viana,
ao invés, é fundada sob uma festa.
P. João Basto Sacerdote, membro
da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR; 15 ago. 2025, 00:208
Perguntar a alguém de Viana “o que
são as festas da Agonia?” é o mesmo que lhe perguntar “qual é o sentido da
vida?”. E o único prejuízo disso é não ter de ler Shakespeare, Homero ou
Flaubert para se saber a resposta.
Cada tempo teve as suas tentativas de
obra de arte total. De unificar todas as formas de beleza numa só. Platão teve a República. A Idade Média, as
catedrais. O iluminismo, a Enciclopédia. Wagner, a Ópera. Viana tem a Romaria da Senhora da Agonia.
Como Roma, há cidades
fundadas sob um mito. Como Alexandria, há cidades fundadas sob um nome. Como
Jerusalém, há cidades fundadas sob uma promessa. Viana, ao invés, é fundada sob
uma festa. E se é verdade que Viana existia muito antes de haver Romaria, como
havia Constantinopla antes de Constantino, e Atenas antes da Democracia, Viana é, hoje, o outro nome da Agonia.
Como muitas festas que povoam Portugal, a Romaria da Senhora da Agonia
não é só uma Romaria. Quando estava doente, a minha avó não fazia questão de ir
a um restaurante, nem de viajar até algum lugar. Mas não quis perder a Romaria.
Quando vinha de ir às compras, ao talho ou à mercearia, não parava na
biblioteca nem no café. Mas subia o escadório, para repousar dentro da igreja
da Senhora da Agonia. Nunca ouviu Bob Dylan comigo. Nunca leu um livro de
Agostinho ou de Tomás de Aquino. Nunca me levou a um museu. Mas andou comigo
nos carrosséis. Levou-me a comer farturas. Comprou-me um chapéu verde tropa,
para me proteger do Sol nas procissões. Cantou, várias vezes, o “Havemos de ir
a Viana” ao meu lado.
Por isso, a Romaria é como a
liberdade. Não é parolice. Nem o Alto-Minho Pop das manhãs televisivas. Porque
aqui ninguém é figurante do Portugal dos Pequeninos. Como também não é
resistência cultural ou ativismo. É outra coisa. Não é uma feira medieval com
trajes regionais e procissões. Não é uma despedida de solteiro. Não é um
passado distante. A Romaria é a Romaria.
E a Romaria é de todos.
Durante as Festas d´Agonia, Viana
está para além da verdade e da mentira. É como a
Dublin de Joyce, a Rússia de Dostoiévski e Tolstói, o Inferno de Dante ou a
Macondo de García Márquez. Não
adianta perguntar se existe ou não; se tudo é real ou se tudo faz sentido.
Porque como nos livros, tudo só vale a pena depois de um mergulho. De nada
serve ficar na prancha.
Por estes dias, Viana torna-se uma
epopeia, mas onde as personagens não têm uma história gloriosa para contar. Apenas
procuram o seu autor. Todos somos órfãos de algo ou de alguém, que se busca na
rua. E ainda assim, não vamos à Romaria para encontrar nada. Vamos para nos
perdermos. Acima de tudo, para perder a
certeza de que a vida é sempre igual.
Numa crónica curiosa, Miguel Esteves Cardoso diz que em Viana “não se
esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em
Viana do Castelo está tudo à vista”. E é
verdade. Viana é como uma parábola. Daquela onde se conta a chegada de um grande exército a uma pequena
cidade para reclamar as suas riquezas e o seu tesouro. Onde essa
mesma cidade o coloca diante dos soldados, com gosto, sem truques, sem jogos, e
ainda insiste: não lhe querem tocar, levem uma pecinha convosco, e não levem só
uma, que só uma seria uma desfeita. E onde, depois disso, o exército se sente
incapaz de saquear seja o que for. Porque
em Viana, na Romaria, desarma-se um exército não pela força, mas pela
claridade.
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