Como houve sempre,
afinal, em todos os tempos: duplamente herói - lutador em defesa dos valores
nacionais, erudito historiador que transcreve tais casos da sua experiência
vivida – XENOFONTE. Um escritor contemporâneo, com acesso a esses clássicos,
anteriores a Cristo - PAULO RAMOS – e que nos leva até esses, em escrita generosa,
esclarecedora desse passado remoto, que nos traz guerras e homens de outrora,
afinal de experiências e coragem e saber como retrato dos de agora – reais –
mas menos cruéis todavia, porque menos sofisticados então, os meios de lutar e
de matar… Uma bela página rica em sabedoria que, fora a nossa memória menos
atabalhoada, recolheria com prazer nosso, e persistência, fosse o fecho éclair menos volátil, tais dados
que nos ilustram o pensamento hoje, com o prazer do conhecimento antigo, referido liminarmente nos tempos do liceu.
Xenofonte e o fecho-éclair
Durante a anábase, e antes da batalha de Cunaxa em que Ciro morreu e
se revelou a liderança do cronista grego,
Xenofonte decidiu que atribuiria a cada parte do seu corpo um fragmento de
memória.
PAULO RAMOS Investigador
no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
e tradutor
OBSERVADOR, 02
ago. 2025, 00:144
Um
homem da Nova Inglaterra inventou um extraordinário entalhe duplo em metal
dourado e, para o descrever, usou uma comparação que tomou de empréstimo a um
raio que cai do céu. Disse: “Vou
chamá-lo fecho-éclair” (relâmpago, clarão). O seu nome era Whitcomb Judson.
Colocou-o à venda no início de 1891.
Homero e Píndaro chamavam “símbolos”
aos fragmentos partidos de tesselas
quando os heróis se apartavam. Quando regressavam, anos mais tarde, os heróis
reajustavam as bordas. No momento em que a sua peça do puzzle encaixava
perfeitamente na outra, os olhos reconheciam os rostos.
Tal como o rato que se
imobiliza, reconhecendo os dentes da serpente que assombrara os seus sonhos em
medo antes ainda de os ter percebido na realidade. Assume um ar extasiado. É
então que o rato se transforma, sob os dentes da serpente, na forma do outrora
maior que o esperava no espaço e que ele vira à noite.
Ao fim de muitos anos, Xenofonte
passou a pensar que era melhor ser mercenário do que soldado, embora para se
ser o primeiro se tenha de ser o segundo. Os mercenários têm um carácter abrupto e carecem, em geral, de
espírito de corpo, ao contrário dos soldados de um reino, cuja disciplina, como o soldo, lhes chega de fora. Cada
mercenário tem de cuidar de si mesmo, pensa mais na vida do que na glória e é
livre para improvisar, enquanto os soldados se devem a uma falange ou a um
esquadrão. Durante a anábase, e antes da batalha de Cunaxa
em que Ciro morreu e se revelou a liderança do cronista grego, Xenofonte decidiu que atribuiria a cada parte do seu corpo um fragmento de memória, e que
anotaria na sua corretagem os números e as letras que lhe permitissem rever, se
sobrevivesse na fuga, os eventos faustos e infaustos. Infausto fora o engano e a degola dos
generais traídos, acontecimento que desencorajou os seus, momentaneamente
decapitados; faustos,
as retiradas, as distrações de Artaxerxes II e por fim a marcha até ao Mar
Negro.
À noite, aparelhados os
guardas, mastigados os escassos mantimentos, Xenofonte lia, diante do fogo, as
notas que havia tomado das conversas com o seu mestre Sócrates. Estavam
escritas na parte inferior do peitoral de couro e obedeciam também a um método
mnemónico baseado em números e palavras soltas. Ao
amanhecer, os dez mil retomavam de novo a marcha, com os pés feridos, coxeando,
obcecados por eventuais fontes de água doce e provisões, permanentemente em
falta. Cruzavam
vales mais secos do que os recantos do Hades, circos de granito e xisto rachados
por verões de fogo, caminhando durante horas, sem uma palavra, respirando com
dificuldade. Alguns,
mais feridos, pereciam no caminho; uns poucos ficavam para trás e ofereciam-se
para espiar das colinas os que os perseguiam. Xenofonte multiplicava-se: tão
depressa estava no quadrado central daquela mole em fuga, como à cabeça. Quando lhe era possível recostar-se contra
alguma acácia atarracada e parar para urinar um líquido escuro, espesso e
ardente, imaginava uma biblioteca que abrigasse também livros persas, pois o conhecimento do inimigo toma parte da força
própria. Uma
biblioteca não muito grande, perto do mar, na qual se dedicaria a transcrever
as suas experiências de guerra e os cem detalhes que a sua curiosidade havia
registado pelo caminho: pedras com desenhos de espirais no seu interior, flocos
de mica, seixos da cor do gelo, voos de águias, procissões de nuvens, pobres
nascentes ao lado das quais cresciam tísicos fetos, relâmpagos, clarões.
Faltava-lhe a graça e a
memória do seu mestre Sócrates, a
quem nunca tinha visto citar livros ou documentos. Tinha, o maieuta, a capacidade de improvisar, o dom de
brincar com as ideias, a paciência de quem conhece o ofício de escultor e,
portanto, as formas em que se pode esculpir um bloco ou polir um argumento.
Xenofonte devia-lhe a arte da temperança e o caminho para deixar de lado o
desespero. Na biblioteca com que sonhava, haveria poucos, mas bons volumes. Aos
fugitivos, as noites estreladas preenchiam-nos da esperança de regressar a
casa, o pastor às cabras, o camponês à terra cinzenta, o artesão aos seus
bronzes, o vinhateiro aos seus bacelos, o curandeiro aos seus unguentos. Eram os
dez mil na sua anábase, na sua fuga. Subiram o Tigre e atravessaram a Arménia
por uma rota que parecia infinita, chegaram à colónia grega de Trapezunte, nas
margens do Mar Negro, e quando viram a grande extensão de água e o clarão da
lua sobre as ondas, gritaram: “O mar, o mar!”,
escreveria muito mais tarde Xenofonte. Após o que caíram de joelhos
invocando os seus deuses. Xenofonte, Artemis e também Ares. Esfregaram as pálpebras e acariciaram os
tornozelos doridos, cuspiram, assobiaram, suspiraram. Estando mais perto da sua
terra e a salvo dos seus perseguidores, que entretanto haviam lentificado a sua
marcha, as vozes despertaram novamente as gargantas, os cantos, os insultos, as
bênçãos, os juramentos e as promessas. Estabelecido em Escilunte, e antes
de se juntar à campanha de Agesilau contra a Boécia, Xenofonte
tentou organizar a sua pequena biblioteca, na qual começou a transcrever a enorme e tremenda façanha de que havia sido parte e o principal
responsável. Foi como esticar pâmpanos de videira, desdobrar
papiros egípcios. Sílabas
e números brotavam ao ritmo da sua mão para transcrever
o heroísmo de um e o rosto manchado de sangue de outro. Seria uma crónica, mas também uma
história épica. Seria uma história que ressumbraria os mesmos suores e pânicos
dos seus homens.
No final de 1891, o fecho de dentes do Sr. Judson tinha encontrado onze
compradores. Em 1892,
vinte e dois. Em 1893, trinta e três. Em 1894, quarenta e quatro. Em 1900, cem.
Em
1909, quando Whitcomb Judson morreu,
a sua mulher entrou no quarto e ele pegou-lhe na mão. Segurou-a firmemente.
Perguntou-lhe se se lembrava de ele ter imaginado, há muito tempo, há mais de
vinte anos, que, ao encaixar dois ganchos dourados, um ao contrário do
outro, os dentes
já não se soltariam. A sua invenção não passava de um nome pateta que
lembrava clarões e tempestades.
Xenofonte
não teve muito tempo para desfrutar da sua biblioteca, pois quanto mais
descansava lendo, mais cansaço se somava ao que já sentia e com mais urgência o
reclamavam lá fora. Durante
dias e dias, lhe doeram as pernas e lhe falharam os olhos. Quando pensava em
si, não se via como mercenário ou viajante, mas como um amigo de Ciro, o
persa, discípulo de Sócrates, criança distraída e escritor maduro. Repetia palavras persas ao acaso, sonhava com
gaivotas. Desfrutava de um pão escuro e de um azeite em que brilhava o clarão da
liberdade.
COMENTÁRIOS:
Francisco Almeida: Não me atrevo a comentar Xenofonte mas o fecho éclair foi uma das grandes
descobertas técnicas da humanidade. Outra terá sido a fechadura Yale, que fez mais pelo
direito à inviolabilidade domiciliária do que quaisquer políticos ou juristas. Hoje
incomoda-me que Xi Jiping e muitos outros dirigentes chineses, sejam
engenheiros e a China forme mais engenheiros do que qualquer outro país,
enquanto nós prosseguimos a tradição salazarista do predomínio de juristas com
alguns políticos. Nos três primeiros partidos, dois dirigentes são juristas e
um doutorado em política (pelo ISCTE como não podia deixar de ser!). E os PM
engenheiros, são para esquecer: Sócrates e Vasco Gonçalves. É a nossa
originalidade no seu melhor.: Pois. Já o "Alentejano"
dizia: Aposto que deve
ser....Engenheiro....! Alexandre
Barreira: Pois. Caro Paulo, Tanta "lenga-lenga". Só para querer dizer que. O Xenofonte "entalou os tomates". No.....Fecho-Écler.......! Pobre Portugal: Um oásis, os escritos do Paulo Ramos. Kindu: Mais tarde, depois de ter pendurado as armas, Xenofonte tornou-se
proprietário rural. Um dia estava num grupo à conversa e Sócrates perguntou:
“Xenofonte, ouvimos dizer que tinhas conseguido pôr a tua mulher a administrar
a fazenda, é verdade? “. “Então, foi muito simples, ensinei-a a fazer contas e
a gerir os trabalhadores, e ela faz isso tudo, como um homem”. E todos ficaram
espantados com a proeza de Xenofonte.
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