sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Os poderes diabólicos

 

Dos que se julgam acima dos direitos humanos. E assim se vai fabricando a História do Mundo. Sem castigo à vista, para os seus fautores.

Os combates no terreno região são mais intensos na região de Pokrovsk - Anadolu Agency via Getty Images

"Faixa fortaleza". A última linha ucraniana que Putin não consegue conquistar pela força e quer ganhar nas negociações

São 50 quilómetros e quatro cidades, urbanizadas e fortemente militarizadas. Rússia não consegue furar defesa e tenta a via diplomática. Mas controlo russo da faixa pode ameaçar Ucrânia no futuro.

MADALENA MOREIRA: Texto

OBSERVADOR, 19 ago. 2025, 23:452

Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado

A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia.

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump.

Em abril de 2014, passado apenas um mês da anexação ilegal da Crimeia pela Rússia, grupos de militantes pró-Moscovo começaram, com o apoio do Kremlin, uma nova ofensiva mais a norte, na província de Donetsk. Os grupos chegaram a invadir quatro cidades na fronteira regional mais a oeste de Donetsk, mas as forças ucranianas repeliram os ataques e retomaram o controlo da região. Kiev passou a década seguinte a fortificar essa faixa de território, com uma extensão de 50 quilómetros, e os resultados estão à vista: ao fim de três anos e meio de ofensiva russa na região, estas quatro cidades continuam em mãos ucranianas.

Confrontado com um impasse no terreno e com uma frente de batalha bloqueada, o Presidente russo, Vladimir Putin, mudou de estratégia e tenta agora alcançar o controlo do Donbass pela vida negocial. A exigência foi apresentada a Donald Trump durante a cimeira do Alasca, na passada sexta-feira. Moscovo não quer apenas o controlo dos territórios que as forças russas ocupam, mas a totalidade de Donetsk, incluindo esta faixa de território que o Exército russo não conseguiu conquistar. Em troca, o Kremlin irá pôr fim à ofensiva e “congelar” o resto da linha da frente, relataram quatro pessoas com conhecimento das negociações ao Financial Times.

Por trás desta exigência está um desejo relativamente simples: o de controlar todo o Donbass. Neste momento, ao fim de três anos e meio de guerra, a Rússia controla de facto 88% do território com mais de 46 mil quilómetros quadrados, o que inclui a totalidade da província de Lugansk e a maior parte de Donetsk. O desejo é justificado, formalmente, com a protecção da população que tem semelhanças culturais e históricas com a Rússia, de tal forma que o Donbass integra um território ucraniano a que o Kremlin se refere como “Novorossiya” (Nova Rússia).

Contudo, além das declarações públicas, Kiev aponta no controlo russo do Donbass um perigo para o resto da Ucrânia, dada a posição estratégica que favorece possíveis ataques futuros. Portanto, na mesma medida em que Vladimir Putin, apoiado por Donald Trump, recusa devolver a Crimeia ou permitir a adesão da Ucrânia à NATO, o Presidente Volodymyr Zelensky recusa ceder a faixa de território no ocidente de Donetsk — apelidada de “faixa fortaleza“.

As fronteiras da Ucrânia estão a ser debatidas nas negociações e no terreno

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Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado

A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump

Esta segunda-feira, durante a visita do Presidente ucraniano à Casa Branca, o chefe de Estado norte-americano colocou na Sala Oval um mapa da Ucrânia em que estão assinaladas as zonas ocupadas pela Rússia. Zelensky notou, mais tarde, que o mapa tinha dados incorretos e aproveitou a oportunidade para relatar a Trump a realidade no terreno. As linhas no papel que o líder ucraniano questionou representam, afinal, um recurso estratégico essencial para a Ucrânia.

Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado

Donbass, o nome da região tão desejada por Putin, é um abreviatura para “bacia do Donets”, o rio que cruza o extremo leste da Ucrânia e partes da Rússia. A região inclui as duas províncias ucranianas de Lugansk e Donetsk e é, historicamente, a região com mais simpatizantes da Rússia na Ucrânia, descreve o The Guardian. Um exemplo dessas alianças é o antigo Presidente ucraniano pró-Kremlin, Viktor Yanukovych, que era nativo de Donetsk. No entanto, a maioria da população na região votou a favor da criação do Estado ucraniano após a dissolução da União Soviética.

Mas a afinidade regional levou grupos militantes pró-Rússia a proclamar, em 2014, as duas províncias como “Repúblicas Populares”. No dia 21 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin reconheceu a independência das duas repúblicas autoproclamadas, depois de ter acusado o governo de Kiev de discriminar as populações pró-russas na Ucrânia e de cometer “genocídio no Donbass“. Três dias depois, invadiu a Ucrânia, utilizando como pretexto a defesa destes territórios. “Moscovo está a utilizar uma narrativa de afinidade cultural e linguística para justificar a intervenção e apresentar-se como o protector da população russófona”, argumentou Natia Seskuria, analista no think tank britânico RUSI à Newsweek.

A riqueza da região vai além do seu poder geopolítico, já que o Donbass é o centro industrial da Ucrânia. Segundo o Banco Mundial, era a principal região produtora de carvão da União Soviética e continua a ser rica em recursos minerais, incluindo carvão e metais, mas também em terras raras — os mesmos minérios que Trump e Zelensky acordaram explorar conjuntamente durante a primavera —, e ainda bens agrícolas para exportação, que consolidam a região como um foco essencial para a economia nacional ucraniana. A isso somam-se as características naturais da região, com rios e costa no mar de Azov, importantes para a circulação e comércio.

Arame farpado e dentes de dragão dificultam o avanço das tropas russas AFP via Getty Images

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Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado

A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump

No sudoeste do Donbass, nos 12% de território que as forças russas ainda não conseguiram tomar, fica a “faixa fortaleza”, com 50 quilómetros de extensão delimitada, a norte, pelas cidades de Slovyansk e Kramatorsk e, a sul, por Kostyantynivka e Druzhkivka. Trata-se de uma região profundamente urbanizada, com cidades industriais, estradas e linhas de caminhos de ferro.

Mas não foi só esta geografia que tornou a região num reduto de resistência aos avanços russos. Ao longo da última década, depois de estas quatro cidades terem sido tomadas — e recuperadas — a grupos pró-Rússia, Kiev dedicou-se a reforçar a malha natural da região, com uma extensão de “arame farpado, cimento, gravilha e ‘dentes de dragão’ [pequenas pirâmides de cimento que impedem o avanço de veículos]”, descreve a The Economist. A isto somam-se fortificações “passivas”, que incluem bunkers e trincheiras, e “activas”, na forma de minas e armadilhas anti-tanques.

A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia

Em maio de 2022, três meses depois da invasão, a região de 120 quilómetros do oeste de Donetsk era definida como “a zona que pode definir o ‘destino’ da Ucrânia”. Foi nesta região que se travaram algumas das maiores e mais longas batalhas da guerra, em Bahkmut e Avdiivka, e onde se trava ainda a batalha pelo controlo total de Pokrovsk. Na “faixa fortaleza”, as características defensivas do terreno permitiram manter as tropas russas ao largo.

“A velocidade dos avanços russos acelerou no último mês, mas mesmo estando a tomar terreno, ainda iriam demorar anos (três ou mais) à velocidade actual para capturar todo este território”, avaliou Matthew Savill, director de ciências militares do RUSI, à Sky News. Assim se explica que Putin procure negociar diplomaticamente o controlo da região.

No entanto, em Kiev, somam-se motivos para não ceder à exigência russa. Em primeiro lugar, seria um “suicídio político” para Zelensky, escreve a  CNN. Isto porque, segundo o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, cerca de 75% dos ucranianos é contra a entrega de territórios à Rússia. Além disso, impõem-se obstáculos legais e sociais. O obstáculo legal é o que o Presidente tem mobilizado para justificar a sua recusa: o facto de a Constituição ucraniana não permitir alterações nas fronteiras, definidas em 1991 por ocasião da declaração de independência da Ucrânia da União Soviética.

"[Tomar a 'faixa fortaleza' permitiria à Rússia] abrir uma rota operacional na rectaguarda da cidade de Kharkiv e na direção da cidade de Dnipro, nas margens do rio Dnipro e, assim, até à Ucrânia central." Nico Lange, antigo chefe de gabinete do Ministério da Defesa da Alemanha

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Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado

A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump.

Já o obstáculo social passa pela necessidade de retirar as 250 mil pessoas, 18 mil das quais são crianças, que ainda vivem na região — ultrapassavam as 380 mil antes da guerra —, numa zona que continua com uma economia militar e uma vida diária activa, ainda que assombrada pela frente de batalha alguns quilómetros a leste. Kiev conta ainda com o apoio dos parceiros europeus, que defendem a soberania territorial da Ucrânia e recusam pressionar o país a ceder territórios.

Mas o principal motivo para Kiev recusar a ocupação russa da “faixa fortaleza” é estratégica e passa pelo facto de este ser um reduto logístico das Forças Armadas, mas também a última linha física de defesa para o resto do país. Depois da zona industrial urbanizada e militarizada de Donetsk, estendem-se as províncias de Kharkiv e Dnipropetrovsk e as vastas planícies do centro da Ucrânia, cuja produção agrícola dá ao país a alcunha de “celeiro da Europa”.

Neste contexto, um reposicionamento das linhas de defesa ucranianas, na fronteira entre Donetsk e Kharkiv, não seria apenas uma perda dos mecanismos e armadilhas da “faixa fortaleza”: sem montanhas ou rios que sirvam como obstáculos naturais, as forças ucranianas perderiam qualquer vantagem do terreno. “[Tomar a ‘faixa fortaleza’ permitiria à Rússia] abrir uma rota operacional na rectaguarda da cidade de Kharkiv e na direcção da cidade de Dnipro, nas margens do rio Dnipro e, assim, até à Ucrânia central”, explicou à The Economist o antigo chefe de gabinete do Ministério da Defesa da Alemanha, Nico Lange.

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump

Na Sala Oval, ao lado da imponente secretária do Presidente dos Estados Unidos, a Resolute Desk, é agora habitual ver um cavalete sobre o qual são colocados diferentes cartazes com mapas ou gráficos, alusivos às declarações públicas que Donald Trump faz a partir da divisão. Esta segunda-feira, o lugar era ocupado por um mapa da Ucrânia, com o título “Conflito Rússia-Ucrânia”. Na legenda, aparecem as percentagens de cada província que estão ocupadas pela Rússia: 99% em Lugansk, 76% em Donetsk.

Zelensky diz ter convencido Trump sobre a situação real no terreno, depois das conversas na Casa Branca AARON SCHWARTZ / POOL/EPA

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A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump

Nas declarações em conjunto com os seus pares, o Presidente ucraniano agradeceu o mapa e brincou sobre como gostaria de o levar consigo. Depois de abandonar a Casa Branca, Volodymyr Zelensky relatou que o mapa foi utilizado como pretexto para os dois líderes discutirem possíveis trocas de território como forma de pôr fim aos combates.

A insistência de Trump neste tema acentuou-se depois do encontro com Vladimir Putin, dias antes, em que o chefe de Estado russo terá proposto o controlo do Donbass em troca de congelar as linhas da frente em Kherson e Zaporíjia, províncias que o Kremlin também considera como “Novorossiya”. Outros responsáveis norte-americanos mencionaram que Putin também se disponibilizou para devolver os territórios mais pequenos que controla nas províncias de Sumy e Kharkiv, cita o Institute for the Study of War.

Porém, nas declarações aos jornalistas, o Presidente ucraniano notou que as linhas desenhadas no mapa estavam incorrectas e que os avanços russos no terreno eram menores do que o que estava assinaladonos últimos mil dias, os avanços russos conquistaram menos de 1% do território da Ucrânia, relatou Zelensky ao seu homólogo. A informação foi recebida com surpresa e persuadiu Trump a continuar a trabalhar ao lado de Kiev, contou Zelensky. “Eu tenho estado a lutar contra o que está neste mapa. Não é possível dizer que tanto território foi tomado neste período de tempo. Estes pontos são importantes”, argumentou.

Apesar de Kiev continuar a resistir às concessões territoriais, Trump, que apoia essa ideia para pôr fim à guerra, ainda não deu qualquer indicação de ter cedido aos argumentos de Zelensky. Neste caso, a vitória pertence a Vladimir Putin, que vê o seu desejo de conquistar todo o Donbass apoiado pelo principal mediador da paz.

"O apetite [de Putin] cresce sempre que prova o sucesso. Putin agiu de forma oportunista; quando lançou a invasão ele não tinha limites territoriais em mente." Antigo responsável do Kremlin, ouvido pelo The Guardian

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Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado

A importância — acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia

Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo quando estão no mapa de Trump

Publicamente, a ambição do Kremlin na Ucrânia termina na fronteira de Donetsk com Kharkiv, onde pode justificar a sua presença com as raízes históricas. Mas os analistas não hesitam em apontar que a Rússia não deixaria de aproveitar as características da “faixa fortaleza” como plataforma de lançamento para uma nova ofensiva no futuro.

A História mostra que não seria a primeira vez: em 2014, foi a Crimeia, em 2022, o Donbass. Um antigo responsável sénior do Kremlin, ouvido pelo The Guardian, garante que “o apetite [de Putin] cresce sempre que prova o sucesso”. “Putin agiu de forma oportunista; quando lançou a invasão ele não tinha limites territoriais em mente”, argumentou. Passados mais de três anos, o limite da ambição actual está bem definido. Mas a Ucrânia recusa-o, motivada pela precaução com as suas ambições futuras.

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COMENTÁRIOS:

José cordeiro Cordeiro: Que a Ucrânia nunca ceda, agora que está mais forte! Se ceder a Ucrânia nesse dia ditará a sua sentença de morte. Já aconteceu quando cedeu o seu arsenal nuclear!       Nuno Pinho: Mas onde quer chegar? A chamada ‘Novorossiya’ foi integrada na Ucrânia já no tempo da URSS. Com o fim da União Soviética, a Rússia reconheceu juridicamente essas fronteiras em 1991, reafirmou-as no Tratado de Amizade de 1997 e no Memorando de Budapeste de 1994. Ou seja: historicamente pode ser discutível, mas juridicamente não há dúvida — é território ucraniano reconhecido pela própria Rússia.                Paulo Alves > Luis Silva: ... e depois o Sr. Luis Silva acorda e a única coisa que aconteceu foi o exército russo ter sofrido as 900 - 1000 baixas diárias do costume, até à exaustão final sempre! Russos asquerosos.                João Castro: Alguém dá a chave da porta de casa ao bandido?                       Nuno Pinho > José B Dias: Qualquer dia andamos todos a brincar aos impérios. “Aquilo já foi meu” “Agora é meu”        António Pais: A Ucrânia e a Europa não podem ceder, o Putin é um novo Hitler                    Paulo Alves > Luis Silva: Já sou crescido e as minhas asneiras são equivalentes às suas asneiras, cada um fica com as suas. No entanto, deve ler mais devagar o que lê, pois eu não referi "mortos" mas sim "baixas", são coisas diferentes, mas se calhar a sua cultura e conhecimentos são tão básicos que não percebem o que está em causa.                   Paulo Doutel: Os russos andam há 3 anos e meio para conquistar o Donbass. Como não conseguem ganhar no compo, querem a vitória na secretaria. No dia em que os ucranianos derem essa fortaleza de mão beijada, mais vale entregarem logo a Ucrânia toda.

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