Dos que
se julgam acima dos direitos humanos. E assim se vai fabricando a História do
Mundo. Sem castigo à vista, para os seus fautores.
▲Os combates no terreno região são mais
intensos na região de Pokrovsk - Anadolu Agency via Getty Images
"Faixa fortaleza". A última
linha ucraniana que Putin não consegue conquistar pela força e quer ganhar nas
negociações
São 50 quilómetros e quatro
cidades, urbanizadas e fortemente militarizadas. Rússia não consegue furar
defesa e tenta a via diplomática. Mas controlo russo da faixa pode ameaçar
Ucrânia no futuro.
OBSERVADOR, 19 ago. 2025, 23:452
Bunkers, trincheiras e minas.
A
faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado
A importância
— acima de tudo, estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia.
Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo
quando estão no mapa de Trump.
Em abril de 2014, passado apenas um mês da anexação ilegal da Crimeia
pela Rússia, grupos de militantes pró-Moscovo começaram, com o apoio do
Kremlin, uma nova ofensiva mais a norte, na província de Donetsk. Os grupos chegaram a invadir quatro
cidades na fronteira regional mais a oeste de Donetsk, mas as forças ucranianas
repeliram os ataques e retomaram o controlo da região. Kiev passou
a década seguinte a fortificar essa faixa de território, com uma extensão de 50
quilómetros, e os resultados estão à vista: ao fim de
três anos e meio de ofensiva russa na região, estas quatro cidades continuam em
mãos ucranianas.
Confrontado com um impasse no terreno e com uma frente de batalha
bloqueada, o Presidente russo, Vladimir Putin, mudou de estratégia e tenta agora alcançar o controlo do Donbass pela vida negocial. A exigência foi apresentada a Donald Trump durante a
cimeira do Alasca, na passada sexta-feira. Moscovo não quer apenas o controlo dos
territórios que as forças russas ocupam, mas a totalidade de Donetsk, incluindo
esta faixa de território que o Exército russo não conseguiu conquistar.
Em troca, o Kremlin irá pôr fim à ofensiva e “congelar” o resto da linha da
frente, relataram quatro pessoas com conhecimento das negociações ao Financial Times.
Por trás desta exigência está um desejo relativamente simples: o de
controlar todo o Donbass. Neste momento, ao fim de três anos e meio de guerra, a Rússia controla de facto 88% do território com mais de 46 mil
quilómetros quadrados, o que inclui a totalidade da província de Lugansk e a
maior parte de Donetsk. O desejo é justificado, formalmente, com a protecção
da população que tem semelhanças culturais e históricas com a Rússia, de tal
forma que o Donbass integra um território ucraniano a que o Kremlin se refere
como “Novorossiya” (Nova Rússia).
Contudo, além das declarações
públicas, Kiev aponta no controlo russo do Donbass um perigo
para o resto da Ucrânia, dada a posição estratégica que favorece possíveis
ataques futuros. Portanto, na mesma medida em que
Vladimir Putin, apoiado por Donald Trump, recusa devolver a Crimeia ou permitir
a adesão da Ucrânia à NATO, o Presidente Volodymyr Zelensky recusa ceder a
faixa de território no ocidente de Donetsk — apelidada de “faixa fortaleza“.
▲As
fronteiras da Ucrânia estão a ser debatidas nas negociações e no terreno
Índice
Bunkers, trincheiras e minas. A
faixa de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado
A importância — acima de tudo, estratégica — da última
linha de defesa da Ucrânia
Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo
quando estão no mapa de Trump
Esta segunda-feira, durante a
visita do Presidente ucraniano à Casa Branca,
o chefe de Estado norte-americano colocou na Sala Oval um mapa da Ucrânia em
que estão assinaladas as zonas ocupadas pela Rússia. Zelensky
notou, mais tarde, que o mapa tinha dados incorretos e aproveitou a
oportunidade para relatar a Trump a realidade no terreno. As linhas no
papel que o líder ucraniano questionou representam, afinal, um recurso
estratégico essencial para a Ucrânia.
Bunkers, trincheiras e minas. A faixa
de terreno que resiste no Donbass quase todo ocupado
Donbass,
o nome da região tão desejada por Putin, é um abreviatura para “bacia do Donets”, o rio que cruza o extremo leste da Ucrânia e
partes da Rússia. A região inclui as duas províncias ucranianas de Lugansk e Donetsk e é, historicamente, a região com mais
simpatizantes da Rússia na Ucrânia, descreve o The Guardian. Um
exemplo dessas alianças é o antigo Presidente ucraniano pró-Kremlin, Viktor
Yanukovych, que era nativo de Donetsk. No entanto, a maioria da população na
região votou a favor da criação do Estado ucraniano após a dissolução da União
Soviética.
Mas a afinidade regional levou grupos
militantes pró-Rússia a proclamar, em 2014, as duas províncias como “Repúblicas
Populares”. No
dia 21 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin reconheceu a independência das duas
repúblicas autoproclamadas, depois de ter acusado o governo de Kiev de
discriminar as populações pró-russas na Ucrânia e de cometer “genocídio no Donbass“. Três dias depois, invadiu a Ucrânia,
utilizando como pretexto a defesa destes territórios. “Moscovo
está a utilizar uma narrativa de afinidade cultural e linguística para
justificar a intervenção e apresentar-se como o protector da população
russófona”, argumentou
Natia Seskuria, analista no think
tank britânico RUSI à Newsweek.
A riqueza da região vai além do seu
poder geopolítico, já que o
Donbass é o centro industrial da Ucrânia. Segundo o Banco Mundial, era a principal região produtora de carvão da União
Soviética e continua a ser rica em recursos minerais, incluindo carvão e
metais, mas também em terras raras — os mesmos minérios que Trump e Zelensky
acordaram explorar conjuntamente durante a primavera —, e ainda bens agrícolas
para exportação, que consolidam a região como um foco essencial para a economia
nacional ucraniana. A isso somam-se as características
naturais da região, com rios e costa no mar de Azov, importantes para a
circulação e comércio.
▲Arame farpado e dentes de dragão dificultam o
avanço das tropas russas AFP via Getty Images
Índice
Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que
resiste no Donbass quase todo ocupado
A importância — acima de tudo, estratégica — da última
linha de defesa da Ucrânia
Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo
quando estão no mapa de Trump
No sudoeste do Donbass, nos 12% de território que as forças russas
ainda não conseguiram tomar, fica a “faixa fortaleza”, com 50 quilómetros de
extensão delimitada, a norte, pelas cidades de Slovyansk
e Kramatorsk e, a sul, por Kostyantynivka
e Druzhkivka. Trata-se de uma região profundamente
urbanizada, com cidades industriais, estradas e linhas de caminhos de ferro.
Mas não foi só esta geografia que
tornou a região num reduto de resistência aos avanços russos. Ao longo da última década, depois de estas
quatro cidades terem sido tomadas — e recuperadas — a grupos pró-Rússia, Kiev
dedicou-se a reforçar a malha natural da região, com uma extensão de “arame
farpado, cimento, gravilha e ‘dentes de dragão’ [pequenas pirâmides de
cimento que impedem o avanço de veículos]”, descreve a The Economist. A isto
somam-se fortificações “passivas”, que incluem bunkers e trincheiras, e “activas”,
na forma de minas e armadilhas anti-tanques.
A importância — acima de tudo,
estratégica — da última linha de defesa da Ucrânia
Em maio de 2022, três meses
depois da invasão, a região
de 120 quilómetros do oeste de Donetsk era definida como “a zona que pode definir
o ‘destino’ da Ucrânia”. Foi
nesta região que se travaram algumas das maiores e mais longas batalhas da
guerra, em Bahkmut
e Avdiivka,
e onde se trava ainda a batalha pelo controlo total de Pokrovsk. Na “faixa
fortaleza”, as características defensivas do terreno permitiram manter as
tropas russas ao largo.
“A velocidade dos avanços russos acelerou no último mês, mas mesmo estando
a tomar terreno, ainda iriam demorar anos (três ou mais) à velocidade actual para
capturar todo este território”, avaliou Matthew Savill, director
de ciências militares do RUSI, à Sky News. Assim se explica que Putin procure negociar
diplomaticamente o controlo da região.
No entanto, em Kiev,
somam-se motivos para não ceder à exigência russa. Em
primeiro lugar, seria um “suicídio
político” para Zelensky, escreve a
CNN. Isto porque, segundo o Instituto
Internacional de Sociologia de Kiev, cerca de 75% dos ucranianos é contra
a entrega de territórios à Rússia. Além disso, impõem-se obstáculos legais e sociais.
O obstáculo legal é o que o Presidente tem mobilizado para justificar a sua
recusa: o facto de
a Constituição ucraniana não permitir alterações nas fronteiras, definidas em
1991 por ocasião da declaração de independência da Ucrânia da União Soviética.
"[Tomar a 'faixa fortaleza' permitiria à Rússia] abrir uma rota
operacional na rectaguarda da cidade de Kharkiv e na direção da cidade de
Dnipro, nas margens do rio Dnipro e, assim, até à Ucrânia central." Nico
Lange, antigo chefe de gabinete do Ministério da Defesa da Alemanha
Índice
Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que
resiste no Donbass quase todo ocupado
A importância — acima de tudo, estratégica — da última
linha de defesa da Ucrânia
Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo
quando estão no mapa de Trump.
Já o obstáculo
social passa pela necessidade de retirar as 250 mil pessoas, 18 mil das quais
são crianças, que ainda vivem na região — ultrapassavam as 380 mil antes da guerra —, numa zona que continua com uma economia
militar e uma vida diária activa, ainda que assombrada pela frente de batalha
alguns quilómetros a leste. Kiev
conta ainda com o apoio dos parceiros europeus, que defendem a soberania territorial
da Ucrânia e recusam pressionar o país a ceder territórios.
Mas
o principal motivo para Kiev recusar a ocupação russa da “faixa fortaleza” é
estratégica e passa pelo facto de este ser um reduto logístico das Forças
Armadas, mas também a última linha
física de defesa para o resto do país. Depois da zona industrial
urbanizada e militarizada de Donetsk, estendem-se as províncias de Kharkiv e
Dnipropetrovsk e as vastas planícies do centro da
Ucrânia, cuja produção agrícola dá ao país a alcunha de “celeiro da Europa”.
Neste contexto, um reposicionamento das linhas de defesa ucranianas, na
fronteira entre Donetsk e Kharkiv, não seria apenas uma perda dos mecanismos e
armadilhas da “faixa fortaleza”: sem montanhas ou rios que sirvam como
obstáculos naturais, as forças ucranianas perderiam qualquer vantagem do
terreno. “[Tomar a ‘faixa fortaleza’ permitiria
à Rússia] abrir
uma rota operacional na rectaguarda da cidade de Kharkiv e na direcção da
cidade de Dnipro, nas margens do rio Dnipro e, assim, até à Ucrânia central”,
explicou à The Economist o antigo
chefe de gabinete do Ministério da Defesa da Alemanha, Nico
Lange.
Kiev não cede às exigências de Putin —
nem mesmo quando estão no mapa de Trump
Na Sala Oval, ao lado da imponente secretária do Presidente dos Estados
Unidos, a Resolute Desk,
é agora habitual ver um cavalete sobre o qual são colocados diferentes cartazes
com mapas ou gráficos, alusivos às declarações públicas que Donald Trump faz a
partir da divisão. Esta segunda-feira, o lugar era ocupado por um mapa da
Ucrânia, com o título “Conflito Rússia-Ucrânia”. Na legenda, aparecem as
percentagens de cada província que estão ocupadas pela Rússia: 99% em Lugansk,
76% em Donetsk.
▲ Zelensky
diz ter convencido Trump sobre a situação real no terreno, depois das conversas
na Casa Branca AARON SCHWARTZ / POOL/EPA
Índice
Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que
resiste no Donbass quase todo ocupado
A importância — acima de tudo, estratégica — da última
linha de defesa da Ucrânia
Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo
quando estão no mapa de Trump
Nas declarações em conjunto com
os seus pares, o Presidente ucraniano
agradeceu o mapa e brincou
sobre como gostaria de o levar consigo. Depois de abandonar a Casa Branca,
Volodymyr Zelensky relatou que o mapa foi utilizado como pretexto para os dois
líderes discutirem possíveis trocas de território como forma de pôr fim aos
combates.
A insistência de Trump neste tema
acentuou-se depois do encontro com Vladimir Putin, dias antes, em que o chefe
de Estado russo terá proposto o controlo do Donbass em troca de congelar as
linhas da frente em Kherson e Zaporíjia, províncias que o Kremlin também
considera como “Novorossiya”. Outros
responsáveis norte-americanos mencionaram que Putin também se disponibilizou
para devolver os territórios mais pequenos que controla nas
províncias de Sumy e Kharkiv, cita o Institute for the Study of War.
Porém, nas declarações aos jornalistas,
o Presidente ucraniano notou que as linhas desenhadas no mapa estavam incorrectas
e que os avanços russos no terreno eram menores do que o que estava assinalado — nos últimos mil dias, os avanços russos
conquistaram menos de 1% do território da Ucrânia, relatou Zelensky ao seu
homólogo. A informação foi recebida com surpresa e persuadiu
Trump a continuar a trabalhar ao lado de Kiev, contou Zelensky. “Eu tenho estado a lutar contra o que está neste mapa.
Não é possível dizer que tanto território foi tomado neste período de tempo.
Estes pontos são importantes”, argumentou.
Apesar de Kiev continuar a
resistir às concessões territoriais, Trump, que apoia essa ideia para pôr
fim à guerra, ainda não deu qualquer indicação de ter cedido aos argumentos de
Zelensky. Neste caso, a vitória pertence
a Vladimir Putin, que vê o seu desejo de conquistar todo o Donbass apoiado pelo
principal mediador da paz.
"O apetite [de Putin] cresce sempre que prova o sucesso. Putin
agiu de forma oportunista; quando lançou a invasão ele não tinha limites
territoriais em mente." Antigo responsável do Kremlin, ouvido pelo The
Guardian
Índice
Bunkers, trincheiras e minas. A faixa de terreno que
resiste no Donbass quase todo ocupado
A importância — acima de tudo, estratégica — da última
linha de defesa da Ucrânia
Kiev não cede às exigências de Putin — nem mesmo
quando estão no mapa de Trump
Publicamente, a ambição do Kremlin na
Ucrânia termina na fronteira de Donetsk com Kharkiv, onde pode justificar a sua
presença com as raízes históricas. Mas
os analistas não hesitam em apontar que a Rússia não deixaria de aproveitar as
características da “faixa fortaleza” como plataforma de lançamento para
uma nova ofensiva no futuro.
A História mostra que não seria a primeira vez: em 2014,
foi a Crimeia, em 2022, o Donbass. Um
antigo responsável sénior do Kremlin, ouvido pelo The Guardian, garante que
“o apetite [de Putin] cresce sempre que prova o sucesso”. “Putin agiu de forma oportunista; quando
lançou a invasão ele não tinha limites territoriais em mente”,
argumentou. Passados mais de três anos, o limite da ambição actual
está bem definido. Mas a Ucrânia recusa-o, motivada pela precaução com as suas
ambições futuras.
GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO VLADIMIR
PUTIN RÚSSIA VOLODYMYR
ZELENSKY
COMENTÁRIOS:
José cordeiro Cordeiro: Que a Ucrânia nunca ceda, agora
que está mais forte! Se ceder a Ucrânia nesse dia ditará a sua sentença de
morte. Já aconteceu quando cedeu o seu arsenal nuclear! Nuno
Pinho: Mas onde quer chegar? A
chamada ‘Novorossiya’ foi integrada na Ucrânia já no tempo da URSS. Com o fim
da União Soviética, a Rússia reconheceu juridicamente essas fronteiras em 1991,
reafirmou-as no Tratado de Amizade de 1997 e no Memorando de Budapeste de 1994.
Ou seja: historicamente pode ser discutível, mas juridicamente não há dúvida — é
território ucraniano reconhecido pela própria Rússia. Paulo
Alves > Luis Silva: ... e depois o Sr. Luis Silva
acorda e a única coisa que aconteceu foi o exército russo ter sofrido as 900 -
1000 baixas diárias do costume, até à exaustão final sempre! Russos asquerosos. João Castro: Alguém dá a chave da porta de
casa ao bandido? Nuno
Pinho > José B Dias: Qualquer dia andamos todos a
brincar aos impérios. “Aquilo já foi meu” “Agora é meu” António
Pais: A Ucrânia e a Europa não podem ceder, o Putin é um novo Hitler Paulo
Alves > Luis Silva: Já sou crescido e as minhas
asneiras são equivalentes às suas asneiras, cada um fica com as suas. No
entanto, deve ler mais devagar o que lê, pois eu não referi "mortos"
mas sim "baixas", são coisas diferentes, mas se calhar a sua cultura
e conhecimentos são tão básicos que não percebem o que está em causa. Paulo Doutel: Os russos andam há 3 anos e
meio para conquistar o Donbass. Como não conseguem ganhar no compo, querem a
vitória na secretaria. No dia em que os ucranianos derem essa fortaleza de mão
beijada, mais vale entregarem logo a Ucrânia toda.
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