Ataques pessoais, ameaças de 3ª Guerra Mundial, retórica inflamada. Como Medvedev passou de "reformista" a provocador-mor da Rússia?
O ex-Presidente russo era visto,
durante o seu mandato, como um líder reformista. Mas desde há 3 anos que tem
adoptado uma retórica infamada contra o Ocidente. Trump não ignorou a última
ameaça.
OBSERVADOR, 04
ago. 2025, 15:5525
A
Rússia precisa de “ter relações boas com o Ocidente em todos os sentidos da
palavra”, dizia em 2009 o ex-presidente russo Dmitry Medvedev, numa entrevista
à CNN. Década e meia depois, Medvedev já não pensa da mesma forma e, desde que a Rússia invadiu a
Ucrânia, tem-se desdobrado em declarações contra os países ocidentais, muitas delas em tom ameaçador, fazendo eco das
fações mais extremistas da sociedade russa. A postura provocatória de Medvedev
atingiu o ponto mais alto na última semana, quando o actual vice-presidente do
Conselheiro de Segurança russo avisou directamente Donald Trump quanto à
capacidade militar nuclear da Rússia, levando o presidente dos EUA a accionar
dois submarinos nucleares — numa escalada de tensão entre as duas maiores
potências nucleares do planeta a que não se assistia há décadas.
Quando
assumiu a presidência russa em 2008 (durante apenas quatro anos, numa manobra
para contornar o limite de mandatos de Putin definido na Constituição), Dmitry
Medvedev era visto pelo Ocidente como um potencial Presidente
reformador, disponível para melhorar as
relações com os Estados Unidos. Nesse sentido, Medvedev e Barack Obama assinaram, em 2009, o
tratado New START, de redução do número de armas nucleares. O ex-presidente
russo queria também combater a corrupção generalizada e melhorar o estado de
direito na Rússia, lembra a Reuters, o que representava um corte com os primeiros oito
anos de presidência de Putin, que contribuíram para fechar a Rússia sobre si
própria.
Mas a desescalada de tensões com o Ocidente durou pouco. Dois anos depois de Putin reassumir a presidência, em
2014, a Rússia anexou a península ucraniana da Crimeia, gerando um coro de críticas da comunidade
internacional. Por essa altura, Medvedev
era primeiro-ministro, cargo que ocupou até 2020, quando foi nomeado
vice-presidente do Conselho de Segurança, um órgão que inclui os chefes dos serviços
de informações da Rússia.
Medvedev faz eco dos sectores mais
extremistas da sociedade russa
Desde
aí, Medvedev tem usado as redes sociais para publicar mensagens criticas
dos países ocidentais e também da Ucrânia. O ex-presidente tem 1,7 milhões de
seguidores no Telegram, e perto de 6 milhões nas contas em russo e inglês na
rede social X. É através
destas plataformas que difunde mensagens em tom provocatório e inflamado,
afastando-se da linha mais tradicionalista do Kremlin mas indo ao encontro das facções mais
extremistas da sociedade russa (compostas nomeadamente por bloggers militares, comentadores e alguns
políticos).
Após a invasão em grande escala da
Ucrânia por parte da Rússia, Medvedev
referiu-se à liderança de Kiev como “baratas a reproduzirem-se num frasco”, lembra a CNN. São frequentes as referências à possibilidade
de uma terceira Guerra Mundial e ao
nazismo impregnado na Ucrânia, uma
retórica repetida pelo Kremlin desde 2022 (usada
aliás como um das razões para o início da guerra). “A nova doutrina nuclear da
Rússia significa que mísseis da NATO disparados contra o nosso país podem ser
considerados um ataque do bloco à Rússia. A Rússia poderia retaliar com armas de destruição em massa contra
Kiev e instalações-chave da NATO, onde quer que estejam localizadas. Isso significa a Terceira Guerra
Mundial”, escreveu Medvedev em novembro de 2024
no X.
No
final de maio deste ano, e ao comentar declarações de Trump sobre Putin, o
ex-Presidente russo disse que só conhecia uma “uma coisa REALMENTE MÁ — a
Terceira Guerra Mundial. Espero que Trump entenda isso!“. No início do ano, Medvedev apelou à
“destruição do regime neonazi de Kiev”.
Da retórica inflamada do actual
vice-presidente do Conselheiro de Segurança russo fazem também parte diversos
ataques a líderes ocidentais. Quando foi eleito chanceler alemão, Friedrich Merz
ficou na mira de Medvedev. “Sugeriu um ataque à ponte da Crimeia. Pense
duas vezes, nazi!”, escreveu no X.
No início deste ano, acusou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, de ser
“viciado em drogas” e chamou-lhe o “palhaço de Kiev“,
“mendigo” e “ladrão”.
Quanto
ao presidente francês, Medvedev tentou menorizar Macron chamando-lhe “Micron” e garantiu que
vai “desaparecer” em maio de 2027, quando terminar o actual mandato.
Referiu-se ainda ao ex-Presidente
norte-americano Joe Biden como Joe The Walking Dead [Joe, o morto-vivo], —
acusando-o de ter deixado um “legado sombrio” para o seu sucessor, — e
chamou-lhe também Sleepy Joe [Joe, o dorminhoco], imitando a
expressão utilizada antes por Donald Trump. Há cerca de um mês, Medvedev
apontou baterias ao secretário-geral da NATO, escrevendo, no X, que Mark Rutte
“se empanturrou de cogumelos mágicos” e aconselhando o ex-primeiro-ministro dos
países Baixos a “aprender russo”, o que lhe poderá ser útil “num campo
siberiano”.
Medvedev já ameaçou atacar o Reino
Unido — um dos países que Moscovo considera mais hostis—
com mísseis hipersónicos. “A ilha
chamada Grã-Bretanha provavelmente vai afundar-se nos próximos anos. Os nossos
mísseis hipersónicos ajudarão, se necessário”, escreveu o
ex-Presidente russo, a propósito do acordo firmado entre Londres e Kiev em
setembro do ano passado.
Num discurso partilhado pelo próprio,
Medvedev defendeu, em 2024, que os EUA não ganharam a Guerra Fria e que
estavam, de resto, “muito perto de a perder”. “A dada altura, os EUA decidiram que tinham ganhado a Guerra Fria.
Foi um grave equívoco. Os EUA não ganharam. Mais: eles estão muito a jeito de a
perder de vez”, disse
o ex-presidente russo no Fórum de São Petersburgo.
Em
abril de 2022, pouco tempo depois da invasão da Ucrânia, Medvedev referiu-se a Portugal,
defendendo a construção de “uma Eurásia unida de Lisboa a Vladivostok [a maior
cidade do extremo oriente da Rússia]”.
Trump não gostou da ameaça e fez
deslocar dois submarinos nucleares
O
Instituto para o Estudo da Guerra defende que Medvedev está habituado a
“amplificar a retórica inflamatória destinada a alimentar o pânico e o medo
entre os decisores ocidentais”, como parte de “uma estratégia informativa
concertada e imposta pelo Kremlin”.
Até à semana passada, o discurso
provocatório de Medvedev tinha sido ignorado pelos líderes ocidentais, algo que
mudou recentemente com Donald Trump. A 28 de julho, o vice-Presidente do
Conselheiro de Segurança russo criticou a ameaça de Trump de impor novas
sanções contra a Rússia caso o país não coloque um fim à guerra na Ucrânia num
prazo de dez dias. “Trump está a jogar o jogo do ultimato com a Rússia: 50 dias
ou 10… Ele deveria lembrar-se de duas coisas: 1) a
Rússia não é Israel nem mesmo o Irão. 2) Cada novo ultimato é uma ameaça e um passo em direcção à guerra. Não
entre a Rússia e a Ucrânia, mas com o próprio país. Não siga o caminho do Sleepy
Joe!”, escreveu
Medvedev no X.
Dois dias depois, surgiu a resposta do
presidente dos EUA, com Trump a
referir-se a Medvedev como um “ex-Presidente fracassado” e a pedir cuidado com a retórica. “Pensa que ainda é Presidente. Ele que tenha
cuidado com as palavras. Está a entrar em terreno perigoso”, ameaçou Donald
Trump. Horas depois, o russo voltou a criticar Trump no seu canal no
Telegram e fez alusão à “lendária ‘Mão Morta’”, em referência a um armamento
projectado durante a Guerra Fria para disparar mísseis nucleares se a liderança
russa fosse decapitada. “Significa que a Rússia está certa e continuará a
seguir o seu próprio caminho”.
Entretanto, Trump deu
ordens para que fossem enviados dois submarinos com capacidade nuclear para
perto da Rússia, uma decisão que ainda não teve resposta por parte de Medvedev.
Mas o Kremlin já reagiu:
“Numa guerra nuclear não há vencedores”,
disse o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov na conferência de
imprensa telefónica diária, citado pelas agências de notícias internacionais.
Peskov pediu cautela nas declarações sobre arsenais nucleares. “Pensamos que toda a gente deve ter muito cuidado com o
que diz sobre a questão nuclear”, afirmou,
GUERRA NA
UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO RÚSSIA GUERRA CONFLITOS ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
COMENTÁRIOS (de 25):
Mario Figueiredo: O que corre por aí é que
Medvedev escolheu este caminho para sobreviver. Como anterior presidente, e
após uma entrega da presidência para Putin de uma forma atipica na história
Russa, Medvedev tinha que escolher entre duas hipópteses:
1) Reconfirmar a sua lealdade, tornando-se um cão de
guarda do regime.
2) Mais tarde ou mais cedo, e para evitar surpresas a
Putin, tropeçar acidentalmente diante de uma janela.
Pedro Lucas > Luis Silva: trollarolarólaró
Luis Santos: Medvedev é uma marionete do
Putin.Do género cão que ladra mas não morde.
Diz o que Putin não tem coragem para dizer. No fundo
estão todos borra**s com medo do Trump,
Antonio C.: “Reformista”?? Medvedev sempre foi um pau-mandado e
testa de ferro de Putin - nunca o escondeu, e tem sido sempre esse o seu
(miserável) papel.
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