quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Uma obra-prima


Desconstruída realisticamente, através do relato das agruras mofinas ou rocambolescas de uma vivência menos apurada nos artifícios dramáticos enternecedores, mas quem sabe se mais penosa ainda. Mas saímos enriquecidos, com o relato desmistificador das atribulações vividas e trazidas ao nosso prazer pelo aprofundamento histórico – quando não divertido, sabendo do choque que provocava – do Dr. Salles, simultaneamente sério e travesso.

NA OCIDENTAL PRAIA LUSITANA - 6

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 03.08.25

HISTÓRIAS CARISMÁTICAS

Reinava D. João III quando, lá para as bandas da Córsega, o então jovem adulto D. Manuel de Sousa Coutinho foi pirateado e levado para Argel na precária condição de «alimento» do negócio do resgate de cristãos cativos em terras de Mafamede. No cativeiro, teve a companhia de um tal Miguel de Cervantes y Saavedraum, escreveu em reconhecidas maiúsculas; o outro, tem quem o recorde; um descreveu o mundo fantasioso e inútil em que vivia a elite espanhola por contraste com o rude pragmatismo popular; o outro, não.

Depois de resgatado, D. Manuel ficou-se pelas Espanhas… até que regressou à sua Lisboa natal. Casou com D. Madalena de Vilhena, tida por viúva de D. João de Portugal, desaparecido em Alcácer Quibir. O novo casal teve uma filha que não vingou.

Grassando a peste em Lisboa, refugiaram-se em Almada instalando-se confortavelmente. Educado e activo, D. Manuel desempenhou diversos cargos de nomeação régia, mas, sobretudo, foi escolhido por três vezes pelos seus pares mesários para Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Almada.

Mas a História nem sempre parece ser como no-la contam e …

* * *

… neto de D. Manuel I de Portugal, a Filipe II de Espanha meteu-se-lhe na cabeça que havia de reinar em toda a Península pelo que o jovem Rei D. Sebastião era um empecilho que tinha de ser arredado. Começou por fazer com que a mãe do jovem Rei regressasse à sua Espanha natal deixando o Monarca infantil de Portugal entregue à educação ministrada por tutores escolhidos por si, Filipe II, a fim de imbecilizarem a imatura real cabeça lusa com sonhos de cruzada e glória cristã contra o famigerado Islão.

E também havia que evitar que o rapaz se virilizasse pondo mais algum herdeiro a caminho. A expedição contra a moirama tinha de ser gloriosa. A força portuguesa de combate incluía a fina-flor da heráldica militar do Reino. Avisadas, preparadas e quiçá apoiadas pelos espanhóis, às forças sarracenas foi fácil atrair as nossas tropas para um atoleiro onde ficaram à mercê da adaga inimiga… quem sobreviveu rumou ao cativeiro. Só o poder do Rei de Espanha conseguiria fazer as delícias dos mouros pagando-lhes um real resgaste por D. Sebastião. E, se assim foi, assim terá começado o cativeiro espanhol do Rei português. Este, sim, o cativo que interessava a Filipe II; todos os demais que servissem o negócio da moirama. O Cardeal Rei, D. Henrique exauriu as finanças da Coroa de Portugal no resgate de captivos em Marrocos. Mesmo assim houve quem penasse mais de uma vintena de anos. Terá sido o caso de D. João de Portugal que, depois de desaparecer e ter sido dado como morto, surgiu em Almada sem outro propósito que não fosse o de infernizar a vida do inocente casal. Deixou também no ar a possibilidade de tão longos cativeiros não serem de martírio, mas sim de luxo.

O próprio «Infante Santo» poderá ter-se «convertido ao Islão» passando a constituir peça triunfal dos Marroquinos. Sim? Não? Talvez!

E não bastara esta «ressurreição» de D. João e logo de Lisboa lhes surgiu um oficial da justiça requisitando a mansão para uso de importantões que fugiam da peste que matava na cidade-capital. Furioso, D. Manuel deitou fogo à casa e pôs-se a milhas. Os importantões que se aquecessem ao borralho! E os tempos passaram… Foram ao Panamá e ao Peru e voltaram a Lisboa para abraçarem a vida religiosa. D. Madalena ingressou no Convento do Sacramento, à Pampulha, assim passando ao esquecimento do mundo; ele rumou a Benfica para se fazer dominicano passando a denominar-se Frei Luiz de Sousa.

* * *

E assim fica escrito o que João Baptista. Visconde de Almeida Garrett, não escreveu.

Julho/Agosto de 2025

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA: Wikipédia

 

COMENTÁRIOS:

Henrique Salles da Fonseca 04.08.2025 18:12: Que factos! Que vississitudes!!! Elli os

Henrique Salles da Fonseca 04.08.2025 18:14: Descrição viva e entusiasmante dos factos históricos E foi já como Frei Luís de Sousa que escreveu a biografia do nosso santo Frei.

Henrique Salles da Fonseca 04.08.2025 18:16: Bartolomeu dos Mártires, activo participante do concilio de Trento onde bradou em alta voz " que os reverendíssimos cardeais precisavam de uma reverendíssima reforma' MARIA JOÃO BOTELHO

Anónimo 06.08.2025  12:33: A Batalha de Alcácer-Quibir também grafada Alcácer-Quivir, foi a antevisão do que iria ocorrer no século XX na Índia e em África. Não há povos estúpidos que admitam ser colonizados. Mas Salazar que era um labrego da província não tinha entendido. ANTONIO TÁVORA

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