Este texto de PAULO MENDES PINTO, a respeito dos judeus cá na Península
Ibérica. Devem ter deixado uma fama de espertos, pois só assim posso entender o
comentário do meu tio Manuel, irmão da minha mãe, a meu respeito, depois de
qualquer malandrice minha, feita com alegria brincalhona, mas julgo que também
com esperteza, por achar ser um comentário de elogio, visto que era meu amigo: “Tu és muito judia!” Só posso, pois,
ficar feliz com a presença dos judeus por cá, deixando bons traços da sua
estadia. Mas suponho que o masculino é mais depreciativo: “Aquele é um judeu!” tem antes um cariz negativo - de espertalhão,
se não mesmo de escroque. Mas é longa e vária a história judaica, feita também
de atrocidades em torno deles. Não podemos esquecer o auxílio que lhes prestou
no século passado, Aristides
Sousa Mendes, permitindo o seu embarque para os Estados Unidos, com
os vistos de passagem por Portugal, apesar de Salazar pairando…
PORTUGAL E A ANTIGUIDADE DOS SEFARDITAS.
UMA PEÇA IDENTITÁRIA FUNDAMENTAL
Anterior em alguns séculos ao Cristianismo, o judaísmo sefardita é
parte sem a qual é impossível compreender Portugal.
PAULO MENDES
PINTO Especialista em História das Religiões. Universidade Lusófon
OBSERVADOR, 7/8/25
É longa, possivelmente de mais
de dois milénios, a presença judaica no que hoje é o território português.
Inevitavelmente, esta espessura histórica teria de marcar de forma muito clara
as populações que hoje habitam esse mesmo espaço, dando material para o campo
identitário.
Contudo, o caminho do tempo não foi simples e linear e, no Portugal
contemporâneo, essa inevitável memória não é nada pacífica. É um
desconforto que radica numa dificuldade em definir se os judeus sefarditas
somos “nós” ou se são “eles”, vindo de séculos de perseguição que tentaram
apagar os traços identitários do judaísmo sefardita da nossa cultura.
Percebemos esta tensão no
campo do adagiário. Como que num inconsciente colectivo,
os ditados populares são uma marca do
que se consolidou ao longo dos séculos como percepção e representação.
“Trabalhar que nem um mouro” ou “fazer judiarias” são dois exemplos de como a
cultura popular portuguesa consignou chaves de intolerância na memória colectiva,
uma em relação aos muçulmanos, outra aos judeus.
Socialmente, um
provérbio é a imagem de um tempo longo, de um tecido social com pouca mudança. O
caso do judaísmo é, possivelmente, o caso mais significativo em Portugal. Se o “fazer judiarias” revela uma imagem negativa,
um outro adágio, “andar
com o credo na boca”, mostra como o medo dos critpo-judeus em serem
apanhados sem saber a oração do Credo, não conseguindo provar que eram bons
cristãos, passou para o tecido social, sem mácula da minoria supostamente
indesejada e caricaturada – saber o Credo por forma a recitá-lo imediatamente,
passou a ser imagem de um medo endémico numa população habituada a inquisições
e polícias políticas. Neste caso, o todo do tecido social irmanou-se
com o perseguido, com a minoria, com o “outro”.
De facto, se há campo da nossa memória colectiva que
com alguma dificuldade conseguimos compreender, ele encontra-se na relação que
os judeus sefarditas criaram com o território peninsular, mais propriamente com
o português. Dois fenómenos correm paralelos num rio lodoso: por um lado, muito pouco se
tem estudado sobre a antiguidade da presença dos judeus na Ibéria,
pressentindo-se, apenas, que ela será milenar; por outro, de onde virá, como
se formou essa estreita relação entre os judeus e Sefarad, uma mítica terra,
uma mítica era, um mítico espaço de que resultou, mesmo após a conversão
forçada, uma relação e uma proximidade simbólica fortíssimas?
Esta ligação,
tantas vezes comprovada, por exemplo, no facto de em algumas sinagogas, como em Amesterdão, ainda se recitarem orações
em português, vários séculos
depois da fuga, foi um dos motores e justificativas para a Lei que em 2013 foi
aprovada, por unanimidade, para permitir o acesso à cidadania portuguesa por
parte dos descendentes dos sefarditas fugidos à Inquisição.
Apesar de muitas vezes
perseguidos no início da Idade Média, os judeus peninsulares encontraram na
Ibéria, até à passagem do século XIV para o XV, um espaço de significativa
liberdade, quer religiosa, quer de acção. Foi este o fundo que resultou, ao longo dos
séculos, na construção quase mítica da ideia de Sefarad, sempre associada a um espaço de profunda
identificação e significativa felicidade.
Sinagoga Sefardita, na judiaria de Castelo de Vide.
Desde muito cedo, não sabemos
quando, esta realidade designada por «Sefarad» foi identificada com a Península
Ibérica (a palavra Sefarad surge no texto bíblico de
Abdias, versículo 21, um texto do século VI a.C.). Não podemos saber desde quando, de facto,
existiram judeus no território peninsular, mas podemos dizer, com certo grau de
verosimilhança, que isso terá acontecido muito cedo, logicamente antes do
domínio romano, aquando da grande expansão comercial dos fenícios.
Os fenícios, com as suas armadas preenchidas também com hebreus, pululavam numa época de primeira globalização em que a moeda e o ferro traziam uma rápida e brusca
homogeneização de gostos e práticas culturais. A chegada dos primeiros hebreus deve estar
relacionada, ou com a vinda de comerciantes fenícios logo no início da Idade do
Ferro, ou com a proximidade, mais tarde, ao contínuo de dominação cartaginesa
do Norte de África, onde as populações semitas dominavam, dominando também todo
um modo de vida em torno do comércio. É o próprio texto bíblico a mostrar que o hebreu Rei Salomão organizara armadas com o Rei
de Tiro para comerciar na Península Ibérica (1 Rs 10, 22). Estaríamos,
provavelmente, entre os séculos X e IX a.C., quando os primeiros hebreus
chegaram a terras, muito depois, apelidadas de portuguesas.
Com o advento do domínio
romano, a presença judaica avoluma-se e, antes da chegada do Cristianismo, já
existiriam grandes comunidades judaicas em várias regiões da Ibéria. O grande difusor do
Cristianismo, Paulo de Tarso, é quem nos confirma essa
realidade, quando afirma a vontade de vir evangelizar a este canto do mundo
mediterrânico – S. Paulo deslocava-se sempre a
cidades com grandes comunidades judaicas.
Afirma o
apóstolo na sua Carta aos Romanos (Rm 15,23-24, 28):
“Como não
tenho mais nenhum campo de acção nestas regiões, e há muitos anos que ando com
tão grande desejo de ir ter convosco, quando for de viagem para a Hispânia… Ao
passar por aí, espero ver-vos e receber a vossa ajuda para ir até lá, depois de
primeiro ter gozado, ainda que por um pouco, da vossa companhia… Portanto,
quando este assunto estiver resolvido, e lhes tiver entregado o produto desta
colecta devidamente selado, partirei para a Hispânia, passando por junto de
vós.”
Para a mesma época, a
arqueologia também nos valida esta informação. Pela mesma época, com datação da
primeira metade do séc. I d.C., foi encontrado em Mértola um grupo de onze
moedas cunhadas na Judeia, atestando as trocas comerciais entre as duas
regiões.
Pedra de anel com símbolos judaicos (Museu Cidade de
Ammaia).
Uma pedra de
anel, provavelmente proveniente da cidade romana de Ammaia, datado do séc. II
d.C., e hoje em depósito no Museu Nacional de Arqueologia, constitui um dos
testemunhos arqueológicos mais antigos para a datação da presença judaica, não
só em Portugal, mas em toda a Península Ibérica.
Anteriores em Portugal, mais
de um milénio antes de haver Portugal. Anterior em alguns séculos ao
Cristianismo, o judaísmo sefardita é parte sem a qual é impossível compreender
Portugal. Actores fundamentais na época da fundação do
reino, foram imprescindíveis na construção da expansão dos séculos XV e XVI.
Pena que a perseguição tenha caído sobre o reino e tenha destruído a riqueza
cultural antes construída.
PORTUGAL 900
ANOS HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (DE 13)
MARIA NUNES: Excelente artigo.
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