É que continua a haver por cá seres com
cem por cento de desassombro intelectual para a desmontagem dos fenómenos
sociais e clarificação das questões, por manipuláveis que estas sejam, pelos
arrogantes dos afectos e das causas que os implicam: Tal é ALBERTO GONÇALVES.
“Palestinianismo”, essa doença infantil
O que para a esquerda é principalmente pretexto, para certa
“direita” é absolutamente desígnio, e a oportunidade de exercer com à vontade o
velho horror ao judeu.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 16 ago. 2025, 00:2016
O “wokismo” está em queda desde há dois ou três
anos. O primeiro prego no caixão foram os severos prejuízos das empresas que
apostaram nas maravilhas da “inclusão” e julgaram que insultar dois terços do
público era uma hábil estratégia comercial. O segundo prego, praticamente um
rebite, foi o regresso de Donald Trump à Casa Branca, tragédia que levou
incontáveis derrotados a gritar terapeuticamente para o mar, para o TikTok ou
para o psiquiatra. De
desfeita em desfeita, a coisa murchou. Começa a tornar-se difícil encontrar um
sujeito que fale em “pessoas que menstruam” sem se rir ou sem que riam dele. As
“reparações” parecem ruínas de um passado quase tão remoto quanto os absurdos
“motivos” das próprias “reparações”. E o respeito pela susceptibilidade de
criaturas “micro-agredidas” sumiu em parte incerta. Episódios
como o dos jeans/genes da modelo Sidney Sweeney são, desconfio, o estertor de
um culto esgotado.
Sucede que o culto, a que
podemos chamar esquerda, é perito a esgotar-se e a ressurgir sob novas formas,
ao estilo dos percevejos e salamandras. Há décadas que a derrocada
da luta de classes força a esquerda a consumir-se e a renascer sem parança, em
busca de trafulhices fresquinhas. Não é tarefa simples. Arranjar alternativas à arcaica defesa
dos trabalhadores dá um trabalhão. Felizmente, o trabalho dá frutos:
mal um truque é desmontado em praça pública e privada, os “activistas” puxam da
cartola outro prontinho a usar. Com as alucinações “woke” nos cuidados
intensivos, o truque em voga é o
“palestinianismo” – ou o “gazismo”, para poupar nas sílabas.
É escusado explicar a etimologia das
palavras. Basta notar que a esquerda está concentrada em
afligir-se pela “Palestina”,
sobretudo o pedaço da “Palestina” dominado pelo
Hamas, e em esconjurar
Israel. À semelhança do que acontecia no “identitarismo”,
as vítimas continuam a ser instrumentais.
A indignação face aos mortos reais e
imaginários em Gaza perde um bocadinho de legitimidade quando não se estende a
qualquer população ou grupo de facto massacrados por esse mundo afora. Do Sudão
do Sul a Moçambique, da Nigéria ao Darfur, da Síria à falecida Birmânia, não há
vivalma nas ruas da Europa e da América a protestar as matanças em curso.
A reacção às matanças,
portanto, é altamente selectiva: com a excepção de Gaza, onde na
verdade há uma guerra, os restantes desgraçados podem morrer livre e
impunemente. Porquê? Porque
as respectivas mortes não podem ser atribuídas a Israel (mesmo que através de
mentiras e “Photoshop” básico), pormenor que só por si garante boa parte da
indiferença. O bónus de, na maioria dos casos, as referidas
chacinas serem cometidas por muçulmanos assegura a indiferença completa.
Conforme o nome indica, o “palestinianismo”
não se distrai com minudências.
O “palestinianismo” também não poupa no
léxico. Benjamin Netanyahu é nada menos que um “nazi” e os esforços de Israel para eliminar um
bando de psicopatas enquanto tenta conter as baixas civis são um “genocídio”
comparável ao Holocausto. A lenda do “genocídio”, originada no
ministério da Propaganda, perdão, da Saúde do Hamas, e acolhida de braços
abertos por 90% dos “media” ocidentais, embate de frente contra uma
realidade em que a demografia de Gaza prospera em vez de encolher. Já as comparações com o Holocausto são
uma óbvia desvalorização do mesmo e um lamento dissimulado do seu parcial
falhanço: se não houvesse sobreviventes à Solução Final, Israel não existiria,
um enorme alívio para milhões de “anti-sionistas”, os boçais que desconhecem o
significado do termo e os que o usam com pura má-fé.
Embora a ignorância pese bastante, a má-fé é aqui essencial. Em larga
medida, a esquerda sabe que Israel é uma democracia e que Gaza é um covil de
assassinos. A esquerda sabe dos alertas das IDF e da crueldade
dos assassinos para com os locais, dissonantes ou sacrificiais. A
esquerda sabe do vergonhoso papel das metástases da ONU e de inúmeros
“jornalistas”. A esquerda sabe o que quer dizer “do rio ao mar” e demais
juras de extermínio. A esquerda sabe que o conflito no Médio Oriente
opõe a civilização que temos à selvajaria, e por isso não hesita em escolher o
lado da trincheira. Entre o nosso
proverbial “modo de vida” e a sua destruição radical, a esquerda nunca hesitou
e não hesitará agora. O “palestinianismo” é apenas a máscara com que
hoje a esquerda esconde, muito mal, os recorrentes objectivos de assalto,
conquista e aniquilação. Não é a
primeira máscara e não será a última.
A novidade é que, ao contrário do
“wokismo” e de todos os simulacros de “causas” anteriores, o “palestinianismo”
conta com abundantes aliados à
“direita”. E o que
para a esquerda é principalmente pretexto, para essa “direita” é absolutamente
desígnio, e a oportunidade de exercer com à vontade o velho horror ao judeu. Nesta
matéria, “skinheads”, fascistas a sério, alguns sociais-democratas e até o
ocasional libertário unem-se à esquerda e ao terrorismo islâmico na aversão
visceral a Israel. Ao conferir ao
seu povo um lugar comum, Israel oferece aos inimigos um propósito partilhado,
capaz de mitigar desavenças e apagar contradições. Ao juntar beatos às viúvas de Lenine, o
“palestinianismo” é capaz de fenómenos insondáveis. O ódio faz milagres.
PALESTINA MUNDO EXTREMA
ESQUERDA POLÍTICA ISRAEL MÉDIO ORIENTE
COMENTÁRIOS (de 21)
Hugo Silva: Viva Israel Filipe Costa: São modas Alberto, são modas. Já foi moda
andar de marcha atrás, agora parece que a coisa amainou, já houve modas de defender
os imigrantes, até serem assaltados e violados por eles. Isto é tudo por modas.
Podiam ao menos vestir-se com roupas lavadas, tomarem banho e lavarem os
dentes. Os palestinianos não podem, ou mal podem. Mas os gajos e gajas da
doença palestiniana já que podem, podiam cuidar da higiene. Pertinaz > José Paulo Castro: Os media adoptam esta “causa” pela mesma
razão que a esquerda… estão em extinção…
Alcides Longras > Pedro Fernando: Porque não lhe diz mais nada? Toda a
descrição das posturas da esquerda é-lhe indiferente ao ponto de fazer um
ataque ao homem? Rui Lima: Se considerarmos extensão do território afectado,
fome e dificuldade de acesso humanitário, em muitas áreas do Sudão/Sudão do Sul
a situação humanitária é bem pior do que em Gaza mas o ódio ao judeu é mais
forte. Israel luta pela vida do
seu povo rodeado de 2 000 milhões de inimigos a que podemos juntar mais 500 000
esquerdistas do mundo ocidental e 500 000 da direita da esquerda, Argélia
sozinha tem 2,4 milhões km² (mais de 100 vezes Israel , Israel corresponde a
cerca de 0,07% .do território muçulmano e não estou a contar com a Europa onde
já tem muito espaço ‘ Ilan com 23 anos em 2006 foi torturado até a morte por
ser Judeu em Paris, quinta feira a oliveira de homenagem foi cortada, todos
reagiram até a esquerda esquecendo que tem sangue nas mãos. “Arbre rendant
hommage à Ilan Halimi abattu: «La Nation n’oubliera pas cet enfant de France
mort parce que Juif», dit Macron. https://www.lefigaro.fr/politique/abominable-insupportable-la-classe-politique-indignee-apres-l-abattage-de-l-olivier-rendant-hommage-a-ilan-halimi-20250815 José Paulo Castro: Não existiria "palestinianismo"
sem os media. Seja de esquerda ou da direita radical. A questão maior é por que
razão os media adoptam esta causa. Suspeito que, ao contrário das outras
causas, esta tenha contributos petrolíferos muito fortes por trás.
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