Do Vanitas
vanitatum et omnia vanitas, mas desta vez segundo um mito de uma
profundidade flutuante, como essa que justifica o narcisismo através de uma
versão aquosa, que revela a inanidade de quaisquer valores, afinal, quer os
seus próprios, que as águas do rio não deixam Narciso apanhar, embora por si
apaixonado, no reflexo daquelas, quer os alheios, representados pela tagarela e
desprezada Eco, desvalorizada nos discursos repetitivos. Será assim? Mas bem mais
pobre seria a Humanidade se não houvesse acções e reflexões que se poderão
sempre debater em diferentes pontos de vista, necessariamente, provando que o
homem tem tantas facetas transformadas em tantas diversas realizações, de maior
ou menor prazer para uns e para ouros. Sim, “l’homme n’est qu’un roseau, le plus faible de la nature, mais c’est un
roseau pensant”. E Pascal bem o provou. Como o provam esses do snooker, e
tantos atletas e gentes superiores, destes tempos e dos anteriores, e mesmo os
que se realizam e realizam através dos seus mundos próprios… Para o Bem, para o
Mal, embora nos espantemos, tantas vezes, e nem sempre pelos bons motivos, quer
ao espelho quer à vista para além dele… Roseau
pensant, é o que o Homem é, sempre, por egocêntrico que seja.
Um poema, um erro e o eco de Tirésias
Ovídio não especifica a razão pela
qual Narciso ficou horrorizado com a visão de Eco, mas diz-nos que o arrebatamento
com o seu próprio rosto foi disso uma punição.
PAULO RAMOS Investigador no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e tradutor
OBSERVADOR, 16 ago. 2025
A versão mais completa do mito de
Narciso pode ser encontrada em METAMORFOSES, um
poema do século I d.C., da autoria de Ovídio, um romano apaixonado pela cultura
grega. Ovídio foi, no auge da
fama, exilado por Augusto – uma espécie de Reagan da época, um homem astuto que
percebia que a retórica dos valores familiares era uma ferramenta política bem
mais eficaz do que eleições ou exércitos – por razões que, até hoje, permanecem
um mistério.
A única pista que temos é do próprio
poeta, que, numa série triste de cartas em verso dirigidas ao pétreo e implacável
imperador, menciona um certo carmen et
error, “um poema e um erro”. O consenso académico é, desde há muito, de que tanto o poema como o
erro seriam de natureza erótica. Quando
li pela primeira vez Metamorfoses, despojado da poesia num semestre frio e cinzento,
senti como meu esse erro de desejo capaz de, terrível, nos afastar para sempre
de casa, daquele lugar que nos define.
O mito que Ovídio narra – entrançando
mitos antigos que ouvira e lera, e moldando-os naquilo que consideramos a
versão definitiva – é-nos familiar: Narciso,
um belíssimo jovem, apaixona-se irremediavelmente pelo seu próprio reflexo
depois de parar para beber numa fresca clareira. Encantado pela
sedutora imagem que pensa ser um espírito da água, vê constantemente frustradas
as tentativas de lhe tocar: sempre que se inclina para lhe acariciar o
pescoço, toca apenas água insubstancial; quando amorosamente se dirige àquele
branco rosto de mármore, os lábios que cobiça movem-se também, mas não proferem
um discurso claro. Depois de dias de desespero, definha e morre. “A Morte”, escreve Ovídio, “fechou os olhos maravilhados com a beleza
do seu dono”.
Mas
o mito de Narciso em Ovídio é, na
verdade, a segunda parte de uma história mais longa. A primeira parte relata como, antes de
ter o azar de se ver, o belo Narciso provocou uma ninfa chamada Eco, que há
muito o amava em segredo. Eco vivia uma maldição terrível, uma punição pela sua
tendência para a tagarelice: não era capaz de falar, mas apenas de repetir o
que outros dissessem. Um dia, enquanto caçava numa floresta densa, Narciso
separou-se dos seus companheiros. “Está alguém aí?”, gritou; e Eco,
escondendo-se, conseguiu apenas gritar de volta: “Aí!” Curioso, Narciso pediu
que o estranho aparecesse. “Vem!” gritou Eco de volta. Por fim, Narciso disse:
“Vamo-nos encontrar”, palavras que Eco alegremente… ecoou. Mas quando ela se revelou,
Narciso ficou horrorizado e fugiu-lhe. E de um eco ferido, definhando em
saudade e desejo, fica apenas, como bem sabemos, uma voz. Ovídio não
especifica a razão pela qual Narciso ficou horrorizado com a visão de Eco; mas
diz-nos que o subsequente e fatal arrebatamento com o seu próprio rosto foi
disso uma punição.
O mito de Eco nada mais é senão uma
história sobre a diferença confundida com a semelhança: nela, objecto e sujeito são de facto
distintos, dois indivíduos separados, mas (pelo menos inicialmente) parecem
indistinguíveis; e a história de Narciso, como sabemos, é uma
história sobre a semelhança confundida com diferença, na qual o objecto e o
sujeito são de facto o mesmo, mas parecem ser diferentes.
Quando
ponderada contra as densas complexidades da experiência vivida, essa leitura da
“identidade” não pode deixar de parecer inadequada – mais útil do que
verdadeira; plana, fácil, segura. A imagem que a água reflecte
nem sempre é a imagem complacente que desejávamos; a verdade é mais rica, mais complexa,
muito mais exigente.
E,
escusado será dizer, mais problemática. Pois um homem sonhar com a sua
própria imagem reflectida nas águas era, pensavam os gregos, uma premonição da
sua própria morte. O conhecimento – uma visão clara da sua própria imagem
– pode ser perigoso. O conhecimento pode tornar-nos conscientes de que
as certezas dos outros são muitas vezes mais convenientes do que verdadeiras,
permitindo que aqueles que as alimentam vivam uma vida coerente e serena,
permitindo que as suas escolhas e ideias façam uma espécie de sentido. O conhecimento das complexidades, dos
homens e das coisas, desestabiliza-nos, fragmenta o sentido de quem somos,
estilhaça-nos a identidade.
O que me leva ao meu segundo ponto: sabemos que a mãe de Narciso, uma ninfa,
perguntou certa vez ao cego profeta Tirésias se a criança viveria até a velhice. Em Ovídio, a ninfa consulta o vetusto vidente logo
após dar à luz; mas numa outra versão, uma versão que prefiro – pois não serão a profecia e a gravidez
duas condições em que se está cheio de futuro? – a mãe de Narciso
aproxima-se do velho profeta pouco antes do parto, quando ainda transporta a
criança dentro de si.
Nesta versão, a rapariga procura
conhecimento, desejando saber se o filho por nascer terá uma boa vida. O velho, exausto de todo o conhecimento, com
a pele tão dura como couro velho, de mãos retorcidas, assusta, talvez, a
rapariga com os olhos riscados de albumina que, dentro de si, na escuridão,
vêem tudo. E que vêem eles? Vêem a bela miúda que ali está de pé, lábios
húmidos de medo; vêem, sob o vestido de gaze, a pele esticada e brilhante da
enorme barriga pronta a estourar, como um fruto, tão grande que o crescente de
pelos púbicos desapareceu, para baixo daquela linha, onde apenas os seus olhos
cegos podem ver; vêem o feto crescido dentro da barriga, e, além disso, como a
semente no interior da fruta, um belo rapaz, membros longos, dentro da rapariga
cansada e deformada. E eles conseguem ver, por fim, o rapaz a tentar abraçar o
que vê na água; o vidente consegue ver as pontas molhadas dos seus caracóis no
lago; consegue ver a visão do rapaz embaçada à medida que o seu rosto se
aproxima da água, todas as distinções ondulando já para o nada:
o velho consegue ver tudo, e ele já sabe, como o rapaz não sabe e jamais poderá
saber, que aquilo que ele procura não está ali, que o abraço que ele procura
iludi-lo-á sempre, que não há nada
entre os lábios e a água, entre o desejo e o reflexo, apenas o mito e o
espelho, apenas desejo irrealizável, e loucura e extinção.
Sim, diz o velho por fim, piscando os
seus olhos cegos de volta ao presente: um homem cego tentando não ver, um velho
tentando impedir que a rapariga tente conhecer o mistério da identidade; uma
tarefa desesperada, como bem sabe. Sim, a criança que ainda não nasceu pode
viver até a velhice: Si se non
noverit. Apenas se jamais se conhecer.
COMENTÁRIOS:
Maria Paula Silva: Pois é, o narcisismo está muito na moda : esta frase traduz, na
perfeição, a solidão do narcísico, daquele que nunca se encontra: "aquilo que ele procura
não está ali, que o abraço que ele procura iludi-lo-á sempre, que não há nada
entre os lábios e a água, entre o desejo e o reflexo, apenas o mito e o
espelho, apenas desejo irrealizável, e loucura e extinção." Pobre Portugal: "O conhecimento das complexidades, dos homens e
das coisas, desestabiliza-nos, fragmenta o sentido de quem somos, estilhaça-nos
a identidade." Obrigada, Paulo Ramos. por partilhar tão fabulosa sabedoria.
João
Floriano: Se falamos de Narcisismo é inevitável falar de Ecoismo. Na prática o
resultado é o mesmo: Narciso e Eco acabam por morrer devido à sua essência. Há
no entanto outra vertente oposta ao Narcisismo: os «narcisistas» que se olham
ao espelho, ou se miram/avaliam constantemente, sem nunca sentirem
contentamento ou auto-estima naquilo que contemplam. Cisca Impllit: Ter esperança (ou estar de esperanças) e ao mesmo tempo procurar saber (por
profeta que seja) sobre a sua esperança é um contra senso de vida.
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