segunda-feira, 25 de junho de 2018

Aqueles vagões



Foi no tempo do Hitler. Mas a gente só soube mais tarde, quando começaram a aparecer os filmes sobre as atrocidades então cometidas. Nunca consegui ver bem esses filmes, os dos vagões com gente encurralada, para um destino incerto. Ou outros que metiam as manigâncias da Gestapo, os alemães sempre os maus da fita, explorando a sua tirania com o requinte do seu poder e da sua loucura. É certo que havia os livros e os filmes que punham a nu outros valores, os do amor e da resistência, e, como o livrinho do Vercors, “Le Silence de la Mer”, a equiparação em nobreza de sentimentos do alemão usurpador de um espaço alheio, afinal também vítima do poder que lhe impôs essa ocupação, e os da francesa fechada no seu repúdio de ódio resistente contra o usurpador. Mas o desfecho da guerra veio provar que a ordem se restabelecia e que a civilização continuava a progredir, em solavancos é certo, e que as ditaduras da crueldade já só podiam estar reservadas aos povos selvagens, entregues a si próprios, na liberdade que lhes fora concedida após a definição dos direitos e das igualdades universais, expostas em papel e impostas como prova de modernidade e progresso e bons sentimentos.
Afinal não é assim. O século XXI, rico em inovação e colorido e espectáculos de liberdade e prazer de viver em trepidação e desvergonha, mostra, a cada passo, panorâmicas de crueldade que nos deixam estarrecidos, terrorismo, guerra, gente que foge em desordem e morre afogada, gente que percorre espaços, com as suas crianças e os seus velhos, em fuga e em busca de vida, abandonando os animais à sua sorte. No século XXI. E, de repente, um estranho ser desordeiro, que um país responsável por tanto sonho, criatividade e beleza no mundo, aceitou para mentor do seu povo. Um homem desequilibrado do século XXI, que, tal como o homem dos vagões de gente encurralada e de fornos crematórios para essa gente, dos anos quarenta, encurrala crianças que separa dos pais. E o seu país permite. Tal como o país do outro permitiu. Mas este, talvez nem o soubesse tão bem, a televisão e o resto da aparelhagem não faziam ainda parte do progresso, os aviões com as bombas ou os submarinos mortíferos faziam-no pela calada, sem se dar conta. Agora já se dá, é tudo imediato. E a gente assiste e permite, apesar do que condenou e condena ainda, no homem dos vagões.
Mas leiamos antes as crónicas demonstrativas de como tudo isso está mal e não se sabe por quanto tempo ainda as crianças vão ficar encurraladas e separadas dos pais, e aquele homem eleito pelo seu povo irá continuar a cometer todos esses crimes, com a anuência e a impassibilidade desse povo. Leiamos João Miguel Tavares e José Pacheco Pereira, que analisam os factos com rigor. E raiva, naturalmente.
A destruição da América por Donald Trump
Não se separam crianças de pais em situações de absoluta fragilidade para ambos. (...) Não se sacrificam crianças para dar exemplos à humanidade.
JOÃO MIGUEL TAVARES
PÚBLICO, 21 de Junho de 2018
Eis a justificação jurídica boazinha para as autoridades americanas separarem pais e filhos na fronteira com o México: para travar a imigração ilegal é necessário processar criminalmente os adultos que tentam entrar nos Estados Unidos; as crianças imigrantes não podem, segunda a lei americana, ser detidas e apresentadas a um tribunal; logo, pais e filhos têm de ser separados.
Eis a justificação política boazinha para separar pais e filhos na fronteira com o México: os imigrantes da América Central que querem entrar ilegalmente nos Estados Unidos são obrigados a enfrentar um percurso violentíssimo até a fronteira, colocando-se nas mãos de cartéis que os exploram, maltratam e, muitas vezes, violam; as crianças são usadas nesse percurso como escudo protector das famílias junto das autoridades; o circuito tem de ser estancado e destruído; separar pais e filhos na fronteira é um mal menor e um forte incentivo para que outras famílias deixem de arriscar tanto na viagem.
Há ainda outras justificações boazinhas, como a bíblica, segundo Jeff Sessions: “Citaria o apóstolo Paulo e o seu mandato claro e sábio, em Romanos 13, que diz para obedecer às leis do Governo porque Deus as criou com o propósito da ordem.” Vamos passar por cima da péssima interpretação bíblica de Sessions e centrarmo-nos no ponto essencial, que é este: para qualquer barbaridade que seja cometida no mundo é possível encontrar alguém a defendê-la com uma argumentação estruturada. Se até para o Holocausto e para o Grande Salto em Frente foi possível alinhavar discursos supostamente racionais, com muito maior facilidade se encontra uma justificação boazinha para separar pais e filhos numa fronteira.
O problema está naquilo a que habitualmente se chama “linha vermelha” – a consciência de que há coisas que não se fazem, por mais magníficos que sejam os argumentos para as fazer. Essas linhas vermelhas têm a ver com uma herança humanista partilhada pelas pessoas de bem, que considera serem tendencialmente invioláveis determinados valores – valores como o da família, por exemplo, quando estão envolvidas crianças. Não se separam crianças de pais em situações de absoluta fragilidade para ambos, porque naquele momento aquelas crianças e aqueles pais são mais importantes do que o desmantelamento de uma rede de tráfico
Esses são os momentos em que as lógicas jurídica ou política devem ser suspensas para responder a pessoas muito concretas que estão diante de nós em profundo sofrimento. A América costumava acreditar nisto. Aliás, a América já fez muitos filmes sobre isso – actos de heroísmo onde a importância do indivíduo se sobrepõe à importância de cartéis, governos, conspirações e toda a espécie de declinações geopolíticas. Mais: se o senhor Sessions soubesse realmente ler a Bíblia saberia que os Evangelhos não são outra coisa senão uma radical valorização de cada indivíduo em si mesmo, tido como absolutamente sagrado aos olhos de Deus (Lucas 12: “até os fios de cabelo da vossa cabeça estão todos contados”).
Portanto, interessam-me pouco as pessoas que, diante de pais e filhos separados por uma decisão bárbara, e milhares de crianças abandonadas em campos a que só por pudor não chamam prisões, aparecem por aí a alinhavar magníficos argumentos para justificar o injustificável. A América que eu conheço é muito melhor do que isto. Seria bom que Donald Trump não destruísse essa América.


OPINIÃO
O pequeno chora, o grande rosna
Ou a gente defende a fina película da civilização ou os brutos que adoram a força a partem por todo o lado.
PÚBLICO, 23 de Junho de 2018
Há argumentos utilitários a favor da imigração: uma economia que cresce precisa de imigrantes. Como os EUA. Há um segundo argumento utilitário: os países com uma demografia deprimida precisam dos filhos dos imigrantes. Como Portugal. Nestes casos, abrir as portas à imigração não é favor nenhum.
Há um conjunto de percepções realistas sobre a imigração: a imigração é tanto mais integrada quanto um determinado país tem o elevador social a funcionar e existe grande mobilidade social. Foi o caso dos EUA, que permitiu um melting pot imperfeito, mas mais eficaz do que o europeu. Os imigrantes integram-se no mercado de trabalho sem parecer afectar os nacionais, educam os seus filhos, prosperam e querem ser os novos nacionais. Foi o caso dos EUA, permitindo, por exemplo, ao boat people do Vietname, prosperar na sociedade americana a partir de uma situação de absoluta miséria. Na Europa, de há muito não é assim, e o desastre do upgrade político da Europa começou com o “canalizador polaco”. A crise financeira de 2008 coincidiu com o afluxo de refugiados e a xenofobia cresceu na Europa.
Há um outro aspecto complicado da imigração que atinge mais a Europa do que os EUA: a alteridade cultural exacerbada pelo fundamentalismo tornou muito difícil acontecer o que de há muito acontecia nos EUA — era-se italiano e americano com o mesmo fervor, era-se árabe e americano com o mesmo fervor. Os novos imigrantes queriam ser americanos, mesmo mantendo os seus costumes e tradições, fossem palestinianos, coreanos, filipinos ou portugueses. Nem sempre tudo corria bem, houve variações temporais, em certos locais era mais complicada a integração, noutros a integração era rápida. Na Europa, os turcos na Alemanha, os marroquinos em Espanha e os argelinos (da geração pós-guerra da independência) em França desejavam ser alemães, espanhóis ou franceses por razões utilitárias, mas não se sentiam como tais. Em Inglaterra, as coisas eram menos lineares devido à tradição do Império. As diferenças culturais e religiosas acentuaram uma fractura que se tem alargado com o risco terrorista, mas também com o comportamento muitas vezes ostensivo de certas franjas da imigração muçulmana em matérias como, por exemplo, a situação das mulheres.
Há um argumento moral a favor da imigração: os que estão em melhores condições devem ajudar os que têm mais necessidade. Esta é uma essência do que chamamos “civilização”. A riqueza torna-se obscena quando à sua porta está a miséria. Merecem aquilo que um conto de Poe simbolicamente retrata na Máscara da Morte Vermelha: não há sítio para fugir, “And Darkness and Decay and the Red Death held illimitable dominion over all”.
Há na Europa um ainda maior argumento moral, mais do que um argumento, uma obrigação: muitos dos imigrantes que fogem das guerras e da violência fogem de guerras que os europeus irresponsavelmente desencadearam na Líbia e na Síria.
O que se está a passar nos EUA com Trump, a sua “base” e o partido de Trump, que antes se chamava “republicano”, é uma violação flagrante e inaceitável dos direitos humanos, fazendo tudo para que se torne um exemplo de violência e brutalidade contra os “infectos dos imigrantes”. Se o resto dos países democráticos, e com uma réstia de respeito pelos valores humanistas, tivessem uma coisa que vem aos pares e que tem o nome de um fruto vermelho e que não são os morangos, que não são um fruto, punham o bruto em quarentena, e nem rainha, nem Marcelo, nem ninguém lhe iam apertar a mão e tratavam dos assuntos comuns por via de um qualquer estagiário no serviço diplomático.
Do mesmo modo, o que se está a passar na Europa, em particular na Hungria, Itália e Áustria, e nalguns dos seus aliados menores, não pode ser aceitável pelo resto da Europa que ainda mantém pelo menos o lip service aos direitos humanos. A recente legislação da Hungria deveria implicar a expulsão da União e um movimento, em primeiro lugar, húngaro e, depois, europeu de desobediência cívica, indo lá ajudar os imigrantes.
Não tomem a sério o que se está a passar e, a prazo, a serpente sairá do ovo. Uma serpente moderna, que se sabe manobrar nas redes sociais, e mover-se na televisão, que encontrará primeiro numa franja de imbecis, e depois em gente que adora o poder e que será cada vez mais sofisticada no mal, uma corte de defensores, como já se percebe nos EUA Por cá ainda estamos na fase dos imbecis, mas há uma corte invisível que namora as mesmas ideias de poder e de exclusão, de frieza e de autoridade, em nome do que for preciso. Não, não há progresso na história. Ou a gente defende a fina película da civilização ou os brutos que adoram a força a partem por todo o lado.



Nenhum comentário: