sábado, 28 de fevereiro de 2026

Desunião por aí

 

Uma forma de nos superiorizarmos, quer seja nas famílias, entre amigos, entre países, invejas ou egocentrismos justificando tudo isso, tanta zanga, tanta guerra… E que bem o disse Camões, atribuindo, é certo, a culpa aos Céus… Modo de desresponsabilização que nos convém, naturalmente:

No mar tanta tormenta, tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na Terra, tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e ser induigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?...

De amigos a inimigos. A guerra aberta entre o Paquistão e os talibãs: "O pior ainda está para vir

Paquistão começou ofensiva contra Afeganistão, acusando talibãs de apoiarem terroristas e de terem transformado o país em "colónia da Índia". "Escalada é progressiva" e solução diplomática está longe.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR, 27 fev. 2026, 21:553

ÍNDICE

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibãs e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

Quando os talibãs tomaram o poder no Afeganistão em 2021 após a saída das tropas norte-americanas do país, o Paquistão reagiu com agrado. Nas últimas décadas, o Governo paquistanês tinha sido um dos principais apoiantes do grupo fundamentalista islâmico e esperava que a sua chegada ao Governo abrisse um capítulo positivo nas relações entre os dois países. Cinco anos depois, essas expectativas foram totalmente defraudadas. Esta sexta-feira, o Paquistão declarou uma “guerra aberta” ao país vizinho, no que foi o culminar de meses de tensão.

A ilusão de que o Paquistão ganharia um aliado cedo se desvaneceu. Logo no final 2021 começaram a surgir tensões: em vez de o combater, os talibãs apoiaram tacitamente o grupo rebelde Tehrik‑e‑Taliban (conhecido pela sigla TTP e que, apesar do nome, não está relacionado com os talibã afegãos) considerado um inimigo declarado do Governo paquistanês. O TTP foi responsável por vários ataques terroristas dentro do Paquistão nos últimos anos, causando mil incidentes no país em 2025.

Os talibãs têm negado categoricamente as acusações do Paquistão de que o Afeganistão serviria como base para o TTP preparar ataques terroristas no país vizinho. Por sua vez, o Governo paquistanês não acredita nesta versão e até faz uma ligação com um dos principais rivais geopolíticos: a Índia. O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, acusou, esta sexta-feira, os talibãs de terem transformado o Afeganistão “numa colónia” de Nova Deli:Reuniram todos os terroristas do mundo no Afeganistão e começaram a exportar terrorismo.”

O copo transbordou”, declarou Khawaja Asif numa publicação nas redes sociais, na qual anunciou o início de uma “guerra aberta”. Sendo uma potência nuclear, o Paquistão tem claramente mais meios militares à sua disposição e o Executivo paquistanês já ameaçou reduzir Cabul a pó”. Islamabad lançou vários ataques contra o território do país vizinho, numa operação militar cujo objectivo estratégico a longo prazo ainda não é bem conhecido. Já os talibãs pediram a abertura de um canal de “diálogo” e estão prontos para chegar a uma “solução pacífica”.

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibãs e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Na semana passada, as Forças Armadas paquistanesas já tinham atacado vários alvos militares em território afegão ao longo da fronteira de 2.600 quilómetros que separa os dois países. Numa escalada de provocações e de ataques e contra-ataques nas últimas semanas, o Paquistão indicou que atacou campos ligados ao TTP, assim como também a alvos do ISIS-K (um ramo do autoproclamado Estado Islâmico com presença no Afeganistão e no Paquistão).

As forças talibãs responderam esta quinta-feira com ataques contra postos fronteiriços paquistaneses, admitindo que se tratou de uma retaliação. Os bombardeamentos e captura de bases na fronteira causaram, segundo o lado afegão, pelo menos 55 mortos. Essa estimativa é contestada pelo Paquistão, que dá conta que apenas de meia dúzia de soldados do país perderam a vida, rejeitando qualquer sugestão do que o Afeganistão tenha capturado bases militares.

 Soldado dos talibã perto da fronteira com o Paquistão,AFP via Getty Images

ÍNDICE

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibã e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

Independentemente das diferenças na contagem do número de mortos, o Paquistão encarou esta retaliação como a gota de água que fez transbordar o copo. Em resposta, na madrugada desta sexta-feira, as forças paquistanesas lançaram ataques aéreos contra Cabul e outras cidades afegãs, incluindo a cidade de Kandahar, onde vive o líder supremo do Afeganistão e um dos principais rostos dos talibãs, Hibatullah Akhundzada.

Admitindo ter “perdido a paciência” com o país vizinho, as autoridades paquistanesas anunciaram a ofensiva Ghazab lil Haq (em português, Fúria em Nome da Verdade), apresentando-a como uma campanha militar de retaliação contra os ataques dos talibãs e também como uma forma de defender a “integridade territorial” do país. Na mesma medida, o Paquistão não esconde que esta operação servirá para atingir infraestruturas militares do regime afegão, do TTP e do ISIS‑K.

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, prometeu que haverá “zero tolerância” para as “acções maliciosas” do TTP e dos talibãs. “O Paquistão sabe defender-se contra qualquer agressão”, declarou o chefe do executivo, avisando que qualquer actividade hostil será inaceitável e terá uma resposta apropriada. Frisou também que o Paquistão procura desmantelar todas as células terroristas no Afeganistão.

 Hospital no Afeganistão após os ataques do Paquistão

AFP via Getty Images

ÍNDICE

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibã e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

Até ao momento, o director-geral das comunicações das Forças Armadas do Paquistão, Ahmed Sharif Chaudhry, anunciou a morte de 274 combatentes dos talibãs, resultante dos ataques das últimas horas. O mesmo responsável dá conta também de 400 feridos, bem como da destruição de vários equipamentos de guerra pertencentes ao regime afegão.

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

660 mil homens, armas nucleares e aeronaves modernas. O Paquistão está claramente em vantagem contra os 172 mil membros das Forças Armadas afegãs, com equipamentos de guerra obsoletos e sem força aérea. Islamabad tem uma vantagem real no terreno e está, neste momento, a explorá-la para obrigar o Afeganistão a recuar. Mas os talibãs têm vários trunfos à disposição, incluindo os grupos armados inimigos do Paquistão.

Horas após ter começado a ofensiva, o Paquistão não dá sinais de recuar, mesmo com os circuitos diplomáticos já a funcionar. Aliados como a China, o Qatar, a Turquia, a Rússia e o Egipto têm-se oferecido para mediar a situação e tentar aliviar as tensões. Em paralelo, os dirigentes talibã asseguraram que não desejam um prolongamento do conflito armado e apelam ao diálogo com os paquistaneses. Porém, a ser atacado, o regime afegão promete não ficar de braços cruzados e contra-atacar o Paquistão.

 Manifestação a favor do conflito no Paquistão NurPhoto via Getty Images

Índice

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibã e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

Ou os talibãs basicamente recuam da beira do precipício, ou podem avançar e continuar a lutar na fronteira, aumentando o apoio ao TTP e a outros grupos que operam dentro do Paquistão”, resume, à Reuters, Avinash Paliwal, professor de Relações Internacionais na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.

Mesmo tendo negado qualquer ligação com os grupos terroristas ou tendo recusado as alegações que lhe providencia apoio, os talibãs sabem que podem mobilizá-los contra um inimigo em comum: o Paquistão. E há vários pontos de vulnerabilidade para explorar contra as forças paquistanesas: a oeste, na fronteira com o Irão (outro país onde há uma escalada de tensão, mas desta vez com os Estados Unidos), e a leste, na fronteira com a Índia.

Até dentro do território paquistanês, as Forças Armadas podem enfrentar problemas. Na região mais a oeste do país, existem grupos armados separatistas: a Frente de Libertação do Baluchistão e o Exército de Libertação do Baluchistão. Desejando a independência face a Islamabad, estes movimentos podem aproveitar um contexto em que as tropas estão mais sobrecarregadas para levarem a cabo qualquer tipo de operação contra o Governo central.

"Ou os talibãs basicamente recuam da beira do precipício, ou podem avançar e continuar a lutar na fronteira, aumentando o apoio ao TTP e outros grupos que operem dentro do Paquistão."- Avinash Paliwal, professor de Relações Internacionais na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres

Índice

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibãs e a ofensiva. Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

“Uma situação de duas frentes tem sido há muito tempo um cenário que é um pesadelo para o Paquistão“, destacou à Reuters a antiga diplomata paquistanesa, Maleeha Lodhi, que avisa que uma guerra prolongada para Islamabad “acarreta um desafio de segurança“, lembrando a situação instável na fronteira oriental com a Índia, o país que é o principal rival e que o Paquistão acusa de financiar os grupos armados terroristas.

No que concerne a cenários de guerra, o conflito desenrola-se, até ao momento, na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, não tendo sido aberta mais nenhuma frente. Além disso, esta sexta-feira de madrugada, os militares paquistaneses também levaram a cabo ataques aéreos em várias cidades afegãs. “O pior ainda está para vir”, preconizou à Al Jazeera Tariq Khan, um general paquistanês na reserva que liderou operações contra o TTP.

Ainda que o conflito pareça estar longe de estar terminado, não deverá evoluir para uma grande ofensiva militar terrestre paquistanesa ao Afeganistão, devido aos riscos para a segurança que isso representaria para o próprio Paquistão. Violência separatista no Baluchistão, uma fronteira instável com Índia e a tensão com o Afeganistão são demasiados teatros de operação para as forças armadas de Islamabad conseguirem gerir em simultâneo.

 Situação é tensa no Baluchistão

FAYYAZ AHMAD/EPA

Índice

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibãs e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

Há espaço para a diplomacia?

Vários países já se ofereceram para mediar o conflito. A Rússia é um desses países, mantendo boas relações com Cabul e Islamabad. A Turquia também tem boa reputação na região, assim como o Qatar, o emirado habituado a mediar conflitos no Médio Oriente. Contudo, o nível de confiança entre os dois países está praticamente num mínimo histórico e os ataques desta sexta-feira ainda vieram aumentar o fosso e as oportunidades para uma solução diplomática.

Em outubro de 2025, o Paquistão já tinha levado a cabo ataques aéreos e tinha havido escaramuças violentas na fronteira entre os dois países. Num esforço de mediação conjunto, a Turquia e o Qatar conseguiram que os dois países assinassem um cessar-fogo. O regime talibã comprometeu-se a não permitir que grupos armados usassem o solo afegão para atacar o país vizinho, enquanto Islamabad prometia suspender os ataques a posições militares afegãs.

O acordo revelou-se muito frágil e acabou por durar poucos meses, apesar de ter sido renovado. Neste seguimento, o falhanço desta solução diplomática gerou uma crise profunda de confiança entre as duas partes: o Paquistão refere que não vê os talibãs a afastarem-se do TTP e o Afeganistão alega que os paquistaneses continuam a incentivar os confrontos na fronteira.

Para o analista de segurança afegão Tameem Bahiss, o conflito tem como base apenas um assunto: “As tensões têm a ver com as acusações repetidas do Paquistão de que as autoridades afegãs estão a permitir que o TTP funcione desde o seu território”. À Al Jazeera, prevê que “até que esse assunto seja resolvido, os ataques vão continuar”. “Da perspetiva de Islamabad, estas operações são vistas como medidas antiterrorismo. Na perspetiva de Cabul, são violações da soberania e integridade territorial.”

É difícil conciliar duas posições tão distintas, acreditam muitos especialistas, que não vêem uma solução diplomática a curto prazo. Em declarações a vários órgãos de comunicação social internacionais, Abdul Basit, especialista em política afegã e paquistanesa, preconiza um “verão sangrento”, numa alusão à chegada das temperaturas mais altas mais cedo do que o normal ao Paquistão e ao Afeganistão. “Tem havido uma escalada progressiva: não houve nenhum revés. As tensões podem diminuir temporariamente, mas não há volta atrás.”

A estratégia do Paquistão, acredita Abdul Basit, acaba por ser contra-intuitiva para combater o terrorismo. “Entendo a necessidade de o Paquistão retaliar. Não entendo a lógica de como o vai ajudar a combater o terrorismo. Vai levar a instabilidade e é na instabilidade que as redes de terrorismo prosperam, incluindo o TTP e outros grupos armados que procuram santuários no Afeganistão.

"Tem havido uma escalada progressiva: não houve nenhum revés. As tensões podem diminuir temporariamente, mas não há volta atrás." Abdul Basit, especialista em política afegã e paquistanesa

ÍNDICE

Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibãs e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade

Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo

Há espaço para a diplomacia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a divisão do Império Britânico deu origem a uma das rivalidades mais profundas na comunidade internacional: a da Índia e do Paquistão. Os dois paísesum laico de maioria hindu, outro muçulmanoacumularam inúmeros diferendos ao longo das décadas, em particular em redor da região de Caxemira, uma região que ambos reivindicam como sua. A animosidade também se reflectiu na política externa: o Paquistão aliou-se à China (país com o qual a Índia tem tensões) e com o mundo árabe, ao passo que a Índia se virou para o Ocidente e até para Israel, país que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, visitou esta semana.

As duas potências nucleares procuram explorar potenciais vulnerabilidades do inimigo, de maneira a enfraquecê-lo. É nesta lógica de rivalidade que o Paquistão acusou a Índia de transformar o Afeganistão numa “colónia” e apoiar o TTP. Nova Deli teria arranjado parceiros (como o grupo rebelde e o regime dos talibã) que contribuíram para desestabilizar Islamabad.

Por sua vez, a Índia sempre negou essas alegações. Em relação aos últimos ataques, o Governo indiano ainda não reagiu oficialmente. Quanto aos da semana passada, o porta-voz do Ministério Estrangeiros indiano, Randhir Jaiswal, “condenou fortemente os ataques aéreos em território afegão” durante o “mês sagrado do Ramadão”. “É outra tentativa de o Paquistão externalizar os falhanços internos”, atirou a diplomacia de Nova Deli, garantindo que “reitera o apoio à soberania, integridade territorial e independência do Afeganistão.”

Não há provas concretas de que a Índia esteja a apoiar efectivamente o Afeganistão ou os grupos rebeldes anti-Paquistão. Porém, Nova Deli aproximou-se recentemente do regime talibã, organizando encontros entre os líderes dos dois países. Em outubro de 2025, o ministro dos Negócios Estrangeiros afegão, Amir Khan Muttaqi, visitou Nova Deli, declarando que Cabul “procurou sempre estabelecer boas relações com a Índia”. Anunciou também que seriam inaugurados canais de comunicação onde iriam interagir com frequência.

Numa lógica de confronto permanentemente iminente, o Paquistão pode estar a tentar afirmar-se perante a Índia. À Al Jazeera, Raghav Sharma, professor e director do Centro Indiano de Estudos Afegãos na Universidade OP Jindal Global, explica que Nova Deli não quer que a aliança entre o Paquistão e a China “tenha via livre” no sul da Ásia. O Afeganistão é um país que a Índia vê como um obstáculo ao seu domínio na região.

Há interesses de segurança que Nova Deli quer proteger e para isso interagir com os talibãs é a única opção”, destaca Raghav Sharma, que ressalva, porém, que existem “diferenças ideológicas” entre os dois países. Apesar desta ligação estratégica, há pouca sustentação de que a Índia tenha mesmo transformado o Afeganistão numa “colónia”. Ainda que os talibã agradeçam o apoio indiano, ainda mantêm alguma autonomia e também se têm aproximado de outros países, como a Rússia.

"Há interesses de segurança que Nova Deli quer proteger e para isso interagir com os talibãs é a única opção." Raghav Sharma, professor e director do Centro Indiano de Estudos Afegãos na Universidade OP Jindal Global

ÍNDICE

Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?

A “guerra aberta” entre o Paquistão e o Afeganistão começou apenas agora, mas é o culminar de tensões acumuladas durante anos. Vendo o país vizinho cada vez mais próximo da Índia, Islamabad parece não estar disposto a recuar perante os talibãs, um adversário militarmente mais fraco, mas com capacidade para mobilizar grupos aliados e também para contra-atacar.

PAQUISTÃO      ÁSIA      MUNDO      ÍNDIA      AFEGANISTÃO      TALIBà     TERRORISMO

COMENTÁRIOS:

 Lily Lu: O Paquistão atacar os talibãs é uma boa notícia. Hoje e sempre. Que regime do demónio.                     Zé Colmeia:  [Comentário em moderação]              ana rita > Zé Colmeia: Ai falava. Quem é que ia pagar a bomba?                 João Abreu > ana rita: Huuuummmm, o "amigo" do singenheiro Sócas?           Tiago Mexia > Zé Colmeia: Eu não percebo como o genocídio de dois países é uma ideia socialmente aceitável no século XXI. Devia ter vergonha. Se quisesse fazer um argumento inteligente sobre a culpa que o Paquistão, os seus generais, a ISI (Inter Services Intelligence) entre outros têm em alimentar o extremismo no Afeganistão e no Vaziristão, podia fazê-lo, mas eu percebo que ter bons argumentos requer que uma pessoa se informa e leia livros, e isso é complicado. E é por isso que o senhor optou fazer um comentário sem pensar "porque os Muçulmanos são todos maus".             Vitor Batista > Tiago Mexia: Os muçulmanos não são todos maus,longe disso,mas a religião e a ideologia que a precede é má e violenta,tanto no uso como nos costumes,é um facto. 

Seriedade


E também diversão, numa análise própria de quem perfeitamente se apercebe dos ridículos enviesamentos nas ideologias reinantes.

"Mais estúpido que um gajo das direitas, só um gajo das esquerdas!"

Nestes tempos de ânimos extremados, vai-se tornando cada vez mais evidente que, afinal, a estupidez não é um exclusivo da Direita, e pode ser fatal.

JAIME NOGUEIRA PINTO, COLUNISTA DO OBSERVADOR

OBSERVADOR, 27 fev. 2026, 00:2445

 

Há muitos anos, na Versalhes, comentando à mesa do café uma frase infeliz de um conhecido direitista da época, desabafei: “Estes nossos gajos das direitas são muito estúpidos!” E logo o MANUEL MARIA MÚRIAS, que estava no grupo: “Jaime Nogueira Pinto, mais estúpido que um gajo das direitas, só um gajo das esquerdas!

A estupidez continua a ser, de facto, uma coisa muito bem distribuída. O que em tempos de ânimos extremados como os que agora correm – tempos em que parecem ser cada vez mais os que não estão para subtilezas nem para distinções entre verdade e ficção e já só reagem a mensagens simplistas e a estímulos fortesse vai tornando ora cada vez mais caricato, ora cada vez mais grave.  Tão caricato como, recentemente, o enfurecido arremesso de fruta podre por anti-fascistas ao actor que fazia de fascista na peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”; tão grave, tão fatalmente grave, como o recente linchamento de Quentin Deranque, a pontapé, por um grupo com excesso de apego à “beleza de matar fascistas”.

Comecemos pelo arremesso de fruta podre

Aconteceu em Bochum, na Renânia-Westfália, quando da exibição da peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.

Na peça, de que já aqui falei por ocasião da sua estreia no “D. Maria”, uma família do Baleizão tem por tradição raptar e matar um fascista por ano. O discurso de ódio e os seus emissores devem ser definitivamente sancionados regularmente e em beleza. Ora nesta família fictícia, os jovens são iniciados na prática aos 26 anos. Acontece que a jovem Catarina, mostrando-se pouco consciente em matéria de classe e de antifascismo, desafia a tradição, recusando-se a matar o fascista que a família, atenta e carinhosamente, lhe rapta e prepara para o dia da sua iniciação.

Tudo pronto, o fascista já a jeito, e Catarina hesita; até que, num rebate de consciência, sugere o impensável – que apesar da maldade e perversidade intrínseca dos fascistas a prática pode não ser lícitae comete a imprudência de o poupar. E quando, no final da peça, o fascista em questão faz um discurso típico de um fascista do ano de 2028 (ano em que se desenrola a peça), ou seja, um discurso típico da extrema-direita populista, racista, homofóbica e xenófoba, cantando vitória e falando dos horrores que vai fazer, vem a moral da história, que se quer interrogativa: Catarina foi ou não ingénua? Devia ou não ter quebrado uma tradição tão bela e necessária, poupando o fascista que lhe calhou em sorte?

Foi durante o discurso incendiário do fascista poupado que alguns antifascistas alemães, quiçá mais tradicionalistas, galvanizados pelo título da peça e cegos pela beleza ritual do abate, atacaram com fruta podre o actor que fazia de fascista; espectadores antifascistas tão pouco subtis e tão estúpidos como, ao que parece, eram os fascistas portugueses que, depois do 25 de Abril, se coligaram em “associações de malfeitores” para disfarçar os seus propósitos maléficos e antidemocráticos.

A acreditar em Mateja Koleznik, a directora do grupo teatral, o desgraçado do actor em causa, Ole Lagerpush de seu nome, ficou extremamente “traumatizado com o ataque”, que esperava que viesse do outro lado, dos “fascistas”, e não “dos que deviam estar do nosso lado”.

O mundo é um palco: “Hey fascist, catch!”

“Matar fascistas” foi, para muitos, uma tradição correctiva ou profilática, uma actividade praticada em várias circunstâncias históricas no século passado – em Espanha, no Verão e Outono de 1936, ou em Itália, na Primavera de 1945. Também nos finais da Segunda Guerra Mundial, à medida que avançavam os exércitos soviéticos, se foram matando fascistas, e as mulheres e os filhos dos fascistas, não fosse ficar algum para semente.

Por cá – como, sobretudo desde Salazar, passámos a ser um “país de brandos costumes– a restauração democrática em 1974-75 não deu espaço à prática da modalidade, a não ser que se considerem fascistas os “colonos” da África Lusófona.  E mesmo depois do 28 de Setembro de 74 e do 11 de Março de 75, quando umas centenas de “fascistas” locais foram presos pelo COPCON sob a acusação de pertencerem às tais “associações de malfeitores”, os fuzilamentos que existiram foram fuzilamentos simulados.

Foi talvez essa insuficiência nacional da prática da modalidade que levou um dos nossos compatriotas, distinguido no estrangeiro como director do Festival de Avignon, a escrever a peçaCatarina e a Beleza de Matar Fascistas”.

Dá-se, porém, que a vida real está cheia de espectadores tão ou mais estúpidos do que os que, munidos de fruta podre, assistiam à peça do português.  Espectadores paranóicos e pouco subtis, incapazes de interpretar mensagens “interrogativas e complexas” e prontos a entrar em acção para reparar, em beleza, o erro de Catarina.

Vou limitar-me a falar de dois casos, bem recentes e bem públicos: Charles Kirk e Quentin Deranque.

Kirk foi assassinado por um jovem perturbado que se sentiu licenciado para matar, quem sabe seduzido por um difuso conjunto de “mensagens interrogativas e complexas” sobre os odiosos emissores de “discurso de ódio” (um exclusivo da Direita) que ameaçam o mundo, a autodeterminação de género e a democracia.  Na mira da sua arma estava, então, a possibilidade de salvar o mundo e a democracia, silenciando um intelectual cristão conservador, para ele um fascista, ou pior, um missionário do fascismo.  E foi o que fez.  E para o fazer em beleza tinha mandado gravar na bala: “Hey fascist catch!”

Mais recentemente, lembro, em França, o assassinato de um “militante de extrema-direita”, Quentin Deranque, por membros de um grupo de “idealistas de esquerda”, chamado Jovem Guarda.

Quentin tinha 23 anos e era conservador e militante nacionalista; era também um católico baptizado aos 14 anos que fizera a primeira comunhão aos 20; um neófito aplicado que convertera os próprios pais e se dedicava à acção social junto dos sem-abrigo de Lyon, que atendia semanalmente. Pouco importa o que fazia ou deixava de fazer, digamos que, para os devidos efeitos, era fascista.

A 12 de Fevereiro, sete raparigas militantes do grupo feminino de direita Nemésis decidiram protestar numa conferência da deputada europeia da France Insoumise, Rima Hassan, no Instituto de Estudos Políticos de Lyon. Quentin e alguns correligionários deslocaram-se para as proteger dos possíveis ataques dos esquerdistas. Quando eles as atacaram efectivamente e os direitistas tentaram interpor-se, foram agredidos por umas dezenas de militantes da Jeune Garde.

A Jeune Garde, Jovem Guarda, é uma milícia fundada em Lyon, em 2018, por Raphael Arnaut e proibida pelo governo em Junho de 2025. É um desses grupos “antifascistas” violentos, braço activista da France Insoumise do radical de esquerda Mélenchon.

Charlie Kirk foi caricaturado depois de morto como homófobo, racista e neo-nazi. Quentin apareceu nos noticiários do Le Monde pintado como um “activista violento de extrema-direita”.

“A parteira da História”

Para a grande maioria dos intelectuais e comentadores, a eventual violência empenhada da Esquerda é sempre mera reacção à violência congénita dos grupos racistas e neonazis da extrema-direita populista, nacionalista, racista, xenófoba, homofóbica e conservadora.

O facto de, historicamente, a Esquerda, no poder ou fora dele, nunca ter hesitado em usar a violência, ou não é referido ou é sempre atribuído à sua proverbial “sede de justiça” e “ânsia por um mundo melhor”: desde o Terror na Revolução Francesa, em que o progresso e a trilogia revolucionária justificaram e santificaram milhares de guilhotinados, de afogados, e o quase genocídio da Vendeia, às matanças, aos campos de concentração e à torturas de milhões de homens e mulheres na Rússia de Lenine e Estaline, na China de Mao, nas repúblicas populares da Europa Oriental, no Camboja de Pol Pot.

No século XIX, Marx e Engels não deixariam de exaltar a violência como “parteira da História”, e Sartre, no prefácio a Les Damnés de la Terre, de Franz Fanon, também não hesitaria em louvar a beleza do abate e da supressão e a sua utilidade para pôr fim à miséria de opressores e oprimidos: “Abattre un Européen c’est faire d’une pierre deux coups, supprimer en même temps un oppresseur et un opprimé.”

Evitando, farisaicamente, falar com esta frontalidade, a actual esquerda radical, com a cumplicidade de outras esquerdas e mesmo de algumas franjas do centrão, continua a proceder, sem escrúpulos, à fascistização, que é como quem diz à desumanização, dos adversários.

A direita e as direitas são sempre autoritárias, iliberais e fascistas, e têm ainda o hábito fatal de estarem sempre a “emitir discurso de ódio”…podem ser estúpidas: não percebem que isso é estar mesmo a pedir a fruta podre, a bala mortal, o linchamento de grupo de algum jovem idealista e desejoso de justiça mais sensível à beleza de matar fascistas e menos capaz de compreender a complexidade e a subtileza das mensagens interrogativas?

Extrema Esquerda       Política

COMENTÁRIOS:

José B Dias: Já todos percebemos que discurso de ódio é coisa de sentido único ... nas "canhotas" apenas existem sentidos figurados e metáforas inteligentes!              Miguel Seabra: Mas os “fascistas” não são apenas atacados com balas, fruta podre ou espancamentos. São também despedidos do seu emprego, censurados, cancelados boicotados e escorraçados das universidades como o Jaime Nogueira Pinto já sentiu na pele. Verdadeiramente estúpidos  são aqueles que não só permitem isto como apoiam directa ou indirectamente: “a direita de quem a esquerda gosta”.                    Fernando ce: Por isso me afirmo desde 1976, aos 19 anos de idade, como um homem de Direita. Tido como estúpido e proto-fascista, pela “elite caviar”, bem-pensante e bem na vida. É a vida.         Tim do A: Longo, mas excelente artigo. E ainda querem (a AD e a extrema esquerda, na qual incluo o PS) fazer crer que o perigo vem da direita.  E o discurso de ódio só se aplica quando é contra a esquerda. Quando vem da esquerda não conta. A lei só se aplica à diteita. Isso é  totalitarismo do pior. Ainda dizem que somos um pais democrático. Este novo ministro da administração interna é mais um radical de esquerda a juntar-se à ministra da cultura, que podia ser do BE. A AD é o PS2 ou o BE2. Agora até já é inimiga de Passos Coelho porque este não é de esquerda.  Os antifascistas são os novos nazis.           Maria Nunes. Excelente artigo. JNP, um dos melhores cronistas do Observador.              Paulo Silva: É o Teatro e a plateia do absurdo... Seria burlesco se não fosse trágico. Ainda recordo discussões aqui acerca da peça escrita pelo antifa Rodrigues, e de uma entrevista que deu ao Observador onde afiançava que não ia fazer dela um apelo ao discurso de ódio nem à violência, apesar do título já trazer todos os ingredientes para o efeito. Chamei na altura a atenção para a literalidade em que os espíritos mais fracos poderiam cair. O tempo veio dar-me razão... O anti-fascismo foi capciosamente elevado a sinal de virtude, mas não é... A emotividade, a arbitrariedade, a prepotência, a violência, atributos que são apontados aos fascismos, não são um exclusivo dessa ideologia. Outras ideologias os perfilham e o mais curioso é que os antifas também...       Jose Carmo: Fantástico artigo.                Manuel Lourenço: O Chicão devia fazer parte dos espectadores do teatro.        Jose Carmo > Américo Silva: Obrigado por servir de demonstração da tese de JNP.          Paulo Silva > Manuel Lourenço: O Chicão era a fruta arremessada...                António Costa e Silva: Como JNP escreve, a estupidez está de facto muito bem distribuída. Mas os estúpidos da direita tiveram a sorte, ou o azar, de acertar no lado menos torto. Quando temos estúpidos da esquerda com peças publicitadas e destacadas em toda a comunicação com o título "Catarina e a beleza de matar fascistas", outros a apelar (senão a promover) "a morte do homem branco", podemos lembrar-nos que em Portugal, estúpidos juízes e juízas de esquerda condenaram a 3 anos de prisão efectiva um estúpido da direita por escrever que "se deviam violar mulheres de esquerda". Ou que estão presos (por ordem do novo ministro da administração interna?) outros 4 ou 5 da direita, porque tinham 3 pressões de ar, 4 canivetes, 2 corta-unhas e um saca-rolhas.              Carlos F. Marques: Excelente. Os Mélenchon's desta vida andam a semear ventos...               Rui Lima: A presente crónica revela erudição e ironia ao confrontar a estupidez da violência política , só alguém como JNP poderia tê-la escrito. Para restabelecer o equilíbrio depois da peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, teremos talvez Jacinto e a Beleza de Matar Comunistas. Acredito que este título desta nova peça  eventual, também deixará a imprensa maravilhada.          Paradigmas Há Muitos! > José B Dias: E quando a coisa se torna mesmo indefensável concedem que usaram um nadinha de hipérbole ou no limite que se deixaram levar pela emoção. E todos os "decentes" fingem que acreditam!            Nuno Chambel Lima: Muito obrigado pelo seu artigo. O enviesamento mediático dos casos Quentin e Kirk é pan-europeu. Ouço a Deutschlandfunk ou a Bayerischer Rundfunk de manhã. Não há imparcialidade.             Alfredo Vieira: O Socialismo (e variantes) é uma doença MORAL.                 Hugo Vieira > João Proença: Não há contrassenso nenhum. A direta é estúpida porque permite e engole a estupidez da esquerda. Tendo a concordar no contexto de Portugal e na generalidade da Europa. Já não concordo tanto no contexto dos EUA.                    Tim do A > Manuel Lourenço: O Chicão é outro que pactua com a esquerda.                 Cisca Impllit: Uma peça que perpétua o rapto daquela mãe  aos seus filhos. A filha já  disse que não  queria ter nada a ver com a politica, que ate o corpo e da memória dela se apropriam                  graça Dias: Um artigo fascinante e apropriadamente sublinhado pelo sarcasmo elegante de JNP. Parabéns.            Victor Goncalves > Tim do A: Isto acontece porque os esquerdoidos conseguiram controlar a narrativa a seu favor, diabolizando tudo o que está à sua direita, controlando a Academia, a cultura e a CS. Vocês vêem o PS2 a reverter alguma coisa woke do tempo do Costa? Não porque é tudo a mesma mer,@da. O Fukuyama  tem de sair do lar de terceira idade para reformular o seu " fim da história". Ao final a luta ainda não terminou.                Antonio Rodrigues: Faço aqui um apelo aos responsáveis do Observador. Aos vossos jornalistas, estagiários e a quem escreve, ou simplesmente faz 'copy/paste' das notícias da Lusa, deve ser dado a ler este artigo.                 Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                Maria Alva: Muito bem 👏🎯👍                unknown unknown: Muito bem                  José Paulo Castro: Os 'gajos' das esquerdas, depois de matarem os outros, começam a matar-se entre eles. É só ver a história desses movimentos quando chegam ao poder. O que interessa é justificarem-se. O resto, fazem.             maria santos: violência faz parte do modo de vida das Esquerdas. Lembrando tempos próximos. Foi assim na 1ª República, foi assim em Espanha nos anos do governo das Esquerdas que antecedeu a Guerra Civil e também com a ETA nas Vascongadas. Foi assim no nosso tempo com o Processo Revolucionário em Curso/PREC e os assassinos das FP25Abril amnistiados por Mário Soares presidente e uma condecorada por Jorge Sampaio presidente. Temos memória, temos História e temos tempo.                 Vitor Batista > Hugo Vieira: MAInada!