terça-feira, 11 de setembro de 2018

L’Écume des jours…


A crónica de João Miguel Tavares é, como sempre, impregnada de um bom senso próprio de uma mentalidade aberta a todas as conquistas e novos ventos que a Revolução trouxe à sociedade, contrariando os convencionalismos quantas vezes mais aparentes do que reais, da sociedade de ontem, idênticos aos de hoje, e que pertencem a uns como a outros, a todas as sociedades, brancas ou de outras cores, mantendo as distanciações resultantes quer de ódios quer de diferenças educacionais ou sociais. As imagens de agora, no que se refere ao desporto, por exemplo, de camaradagem e ou de amizade entre negros e brancos, em nada diferem das que colhíamos quando Eusébio era acarinhado ou, nas classes mais educadas, Craveirinha respeitado como escritor, ou o Dr Torres da Académica era médico obstetra no Hospital de Lourenço Marques, além dos colegas com quem acamaradei, cá e lá, sem comichões racistas. Mas a pecha ficou, e de vez em quando retoma em fereza, atacando todos os representantes dos convencionalismos segregacionistas quer de antanho quer de agora, no ódio dos negros contra os brancos, o sonho de transformação social de Luther King, mantendo-se com toda a acuidade, ainda, mau grado as simpatias e amizades que tantas vezes se estabelecem entre uns e outros, como acontece em todas as camadas sociais. Mas a rebeldia que se processa em alguns, fruto das suas vaidades de conquistadores de êxitos, caso da tenista citada, logo atrai os defensores dos oprimidos, num alarido maldoso e grotesco. João Miguel Tavares esclarece-o bem, seguido de alguns comentadores. Eu recordo as redondilhas camonianas a uma escrava negra, sua amada, que supera em doçura e beleza o louro convencional das temáticas do amor clássico, a provar que o amor existe desde sempre, e a escravatura também, contanto que muitas vezes dulcificada. Pelo amor e pela beleza. Ontem como hoje. Apesar da cor divergente.
Endechas a Bárcara escrava
Luís de Camões
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo,
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse m
ais fo
rmosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Um
a graça viva,
Que neles lhe mora,
Pa
ra ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

I -OPINIÃO: Serena Williams e o vício da vitimização
O discurso anti-racista de hoje é demasiado parecido com o discurso racista de antigamente.
PÚBLICO, 10 de Setembro de 2018
O comportamento de Serena Williams na final do Open dos Estados Unidos está a dar muito que falar em todo o mundo e tem recebido especial atenção entre nós, devido ao envolvimento do árbitro português Carlos Ramos.questões que são para serem debatidas pelos especialistas da modalidade – deve ou não o coaching ser autorizado num jogo de ténis; foi ou não o árbitro português pouco tolerante na sua primeira admoestação –, mas há uma outra questão, bem mais funda e importante, que diz respeito a todos nós e àquilo que se está a tornar um terrível tique social do século XXI: o vício da vitimização.
De repente, a discussão não é simplesmente sobre se o comportamento desportivo de Serena Williams é aceitável ou não, ou se a decisão do árbitro português foi ou não a mais correcta. Aquilo que o mundo discute é até que ponto o comportamento de Serena se justifica por ela ter atrás de si uma história de sofrimento e humilhação por ser negra num desporto maioritariamente de brancos – e portanto aquele teria sido um grito compreensível de revolta racial –, e se as decisões de Carlos Ramos não foram especialmente duras por ela ser mulher – e portanto aquele teria sido um compreensível grito de revolta sexual. Fosse Serena Williams lésbica e alguém já teria com certeza denunciado Carlos Ramos por comportamento homofóbico, completando o bingo das políticas de identidade, que no seu desejo descontrolado – e totalitário – pela igualdade têm vindo a construir um mundo profundamente discriminatório, onde certas características biológicas recuperam uma proeminência contra a qual as correntes mais progressistas lutaram desde sempre.
Quando, em 1956, Althea Gibson (que ainda foi treinadora de Venus e Serena Williams) se tornou a primeira tenista negra a ganhar Roland Garros, ela certamente ambicionaria que a considerassem em primeiro lugar uma tenista como qualquer outra, independentemente da sua cor. Mas hoje em dia, mais de 60 anos depois, Serena Williams está condenada a ser em primeiro lugar uma mulher negra, e só depois tenista. É mesmo este o mundo em que queremos viver? Durante séculos, senão milénios, os negros lutaram para que a sua cor de pele não fosse relevante; as mulheres lutaram para que o seu sexo não fosse motivo de opressão; os gays lutaram para que as suas preferências sexuais dissessem respeito só a eles. E no momento em que vivemos no mundo mais igualitário de sempre – certamente não tão igualitário como gostaríamos, mas indiscutivelmente igualitário como nunca antes foi –, eis que os alegados progressistas do século XXI vêm garantir-nos que, afinal, a cor da pele, o género ou a preferência sexual são as principais características identitárias dos seres humanos. O discurso anti-racista de hoje é demasiado parecido com o discurso racista de antigamente.
Daí decorre o vício da vitimização. Serena Williams não é apenas uma tenista que não soube perder. Agora ela é uma vítima. Vítima por ser mulher. E vítima por ser negra. O valor da vitimização supera o valor do próprio desportivismo. Antigamente, desportivismo era sinónimo de saber perder (mesmo quando a derrota era injusta), aceitar a decisão de um árbitro (mesmo quando essa decisão estivesse errada), aprender a lidar em campo com a injustiça (por muito que isso nos custasse). Eu não sei quando é que aquilo que era sinónimo de força interior passou a ser um sintoma de fraqueza. Mas sei que antes estávamos certos, e agora estamos errados.

Um comentário:
João Borges Porto 10.09.2018: Viu-se uma tenista desesperada e mal educada (e encarada) que não esperava o desempenho da adversária e descarregou a bílis em cima do árbitro (onde é que já vimos isto?). O resto vem depois....

Mas leiamos, do mesmo jornal, para amenizar, a breve crónica de Miguel Esteves Cardoso, despretensiosa e leve, descrevendo uma linda cidade onde também já vivi. Sem dinheiro, contudo, para comprar os ovos moles da minha tentação…
II - CRÓNICA: A doçura de Aveiro
PÚBLICO, 10/9/18
Também os ovos estão melhores, não sei como porque já eram perfeitos. Não são um produto turístico, fazem parte do dia-a-dia dos habitantes. São como Aveiro.
Já me tinha acontecido em Évora: vinte anos depois, encontrei a cidade ainda mais bonita do que era. Agora aconteceu com Aveiro, já tão bonita há vinte anos atrás. Recuperaram muitíssimos edifícios e aqueles que ainda não foram restaurados estão tal e qual como estavam quando foram construidos, arruinados mas com a cara intacta com que nasceram.
Mas os edifícios só não chegam. É o tamanho de Aveiro que está exactamente à escala humana: maior que Aveiro é grande demais, mais pequeno que Aveiro é pequeno demais. É a maneira como passeiam as pessoas num sábado à noite. Não há enchentes nem desertos. Um festival de jazz ao ar livre decorre com duas centenas de espectadores: está cheio mas há sempre lugar para mais dois. Não há nervos. Não há medo. Não há pressão.
A disposição de Aveiro à volta da ria é encantadora porque vive-se com duas margens facilmente transponíveis. As pessoas têm tempo para conversar mas não é uma cidade pachorrenta. É - não acredito que vou dizer isto - jovem e dinâmica.
Na loja da Maria da Apresentação compramos ovos moles divinos, de formas elegantes, a 85 cêntimos. Uma barrica de porcelana, lindamente pintada e cheia de ovos moles, custa 8 euros. Como é que conseguem? Juntamo-nos às famílias aveirenses que fazem fila para comprá-los. Comemos enquanto compramos. Falamos. Despachamo-nos num instante. É um prazer.
Também os ovos estão melhores, não sei como porque já eram perfeitos. Não são um produto turístico, fazem parte do dia-a-dia dos habitantes. São como Aveiro.


Nenhum comentário: