quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Citando Cícero


Da Internet: «A verdade se corrompe tanto com a mentira como com o silêncio.» Cícero

Nesta questão da Covid, eu já ouvi muita coisa, além do que afirma António Pimenta Brito, que é professor universitário e investigador, e parece mostrar seriedade no que afirma sobre a Covid, fazendo extrapolações para o silêncio em torno de Chernobyl e outros casos que foram encobertos. O silêncio por conveniência dos próprios governos, em torno da origem e responsabilidades dos factos…

Dentro de anos, talvez se venha a conhecer melhor tudo à volta destes nadas que são as epidemias como esta, ou outros casos do medonho humano, não relevantes então, nesse futuro histórico, como coisa passada, de origem obscura, de que talvez um Sherlock Holmes de encomenda desses tempos a chegar, venha a descobrir a trama …

Chernobyl, Boston, Hollywood, Wuhan?

O que liga a catástrofe de Chernobyl, o escândalo na Igreja Católica de Boston e o #Me Too em Hollywood? O encobrimento. É assim tão remota a hipótese de ter acontecido aqui o mesmo?

ANTÓNIO PIMENTA DE BRITO Professor Universitário e Investigador

OBSERVADOR, 17 AGO 2021

Recentemente, a China rejeitou voltar a investigar a origem da pandemia da Covid-19, apesar do pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS). A mesma já tinha feito sair um relatório inconclusivo quanto às causas da pandemia e em que considerava remota a hipótese de um erro de laboratório, mas face a esta relutância em aprofundar o tema, os especialistas, a comunidade internacional e o próprio director geral da OMS querem investigar esta possibilidade. E se tiver acontecido mesmo um erro? A pandemia do Covid-19 que começou em Wuhan, na China, ter começado por um estúpido erro, o qual foi ocultado. Se tivesse sido logo assumido e atacado, será que se teria propagado com as proporções bíblicas a que assistimos?

O que liga a catástrofe de Chernobyl, o escândalo dos abusos sexuais na Igreja Católica de Boston e o #Me Too em Hollywood? O encobrimento que foi feito pelos líderes e membros dessas organizações antes do conhecimento público. É assim tão remota a hipótese de ter acontecido aqui o mesmo?

Se sim e o erro prontamente identificado, comunicado e, desde logo, se existisse um trabalho colaborativo entre os países, esta catástrofe que já vitimou mais de 4 milhões de pessoas, tinha-se manifestado com estas proporções? Esta era uma hipótese apenas avançada por “extremistas”, mas agora vem de pessoas insuspeitas como Tedros Ghebreyesus, líder da OMS, e precisamente do cientista que liderou a missão internacional a Wuhan, o dinamarquês Peter Ben Embarek. O mesmo afirmou que uma hipótese forte terá sido a infecção de um empregado de um laboratório de Wuhan, segundo a agência AFP, “while taking samples in the field falls under one of the likely hypotheses as to how the virus passed from bats to humans”.

Antes que se prove o contrário, não sou daqueles que acredita em experimentações maquiavélicas ou ardis montados pelos ricos e milionários como Bill Gates ou George Soros. Também não acredito que a China esteja a tentar governar o mundo através deste ataque premeditado e outras teorias da conspiração que por aí pululam (veiculadas, infelizmente, até por pessoas com estudos e que se pensava de bom senso).

Quem viu a série televisiva “Chernobyl” ou o filme “Spotlight”, os quais retratam magistralmente duas catástrofes, percebe que têm muito em comum. O partido comunista e a Igreja Católica? Como é possível? Pois, é verdade, os extremos tocam-se. Em comum, duas organizações em que se instalou uma fuga no sistema e que, em virtude da sua cultura e comportamentos, esta mesma ajudou a que se espalhasse, aumentasse e causasse males irreparáveis a muitas dezenas de milhar de pessoas. O que tinham em comum era uma cultura organizacional burocrática, baseada no silêncio e no encobrimento de poderosos. Ou, como diria Brené Brown, inimigas da vulnerabilidade. Nestas organizações, não há defeitos, são um grupo de “puros” e “escolhidos”.

Mas a corrupção não é exclusiva de organizações “conservadoras” ou “tradicionais”. Veja-se o caso de Hollywood, um mundo cheio de glamour e supostamente perfeito e que todos almejam participar, encobriu durante anos a conduta de actores e produtores predadores sexuais como Harvey Weinstein, Kevin Spacey ou Bill Cosby. Veja-se também o caso do desvendar do esquema de doping liderado pelo ciclista Lance Armstrong ou o escândalo de fraude financeira da empresa Enron. Em todos os exemplos existe algo que está encoberto, muitos sabem, mas o medo e o poder inibem que se desvende a verdade. O problema, em vez de tratado a tempo, aumenta e chega a proporções já sem retorno.

“Chernobyl” retrata muito bem duas realidades destas organizações. Se houver um problema, há medo de questionar o status quo, pois os chefes é que sabem. Depois, mesmo que existam erros indesmentíveis, a verdade é posta em causa a todo o custo, de modo a salvar a pele da organização.

A imagem e o poder são colocados à frente da pessoa por parte da organização e das suas cúpulas, sempre com o falso argumento de que assim se protegem as pessoas e o bem que a organização faz à sociedade. Nesta lógica – o colectivismoo grupo, é mais importante do que o indivíduo. Por fim, também existe o medo das vítimas a dificultar a acção da denúncia, mas este impedimento é mais compreensível.

Olhando para a China dos dias de hoje, não é o comunismo de Mao Tse Tung que vigora, os tempos são outros. É uma economia de mercado moderna, mas com uma nuance que não é pequena. É um regime autoritário, dirigista e também coletivista e nestes regimes é frequente a falta de transparência. É muito possível que, a existir um erro, este não seja assumido e corrigido, mas ocultado e encoberto. Mas a natureza é mais forte do que o homem. A confirmar-se esta hipótese, a questão que se coloca é quando é que a realidade se imporá à narrativa.

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