segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Bagão Félix, um escritor frontal - II


Uma autêntica avalanche de horrores esta da manipulação da funcionalidade humana pelas empresas de trabalho britânicas sobre os seus trabalhadores. Aquilo que Charlie Chaplin satiriza em Tempos Modernos, através das cenas poderosas de humor desempenhadas pelo mágico actor crítico, transformado o homem em escravo da máquina, perde em dimensão ante a monstruosidade do que conta Bagão Félix no primeiro texto, sobre o controle da rentabilidade humana pelos senhores do capital, sobre um trabalho de absoluta escravização e controle, de desrespeito pelos valores de responsabilização ensinados em tempos idos como valores dignificantes do Homem. Sim, é preciso ser-se cumpridor, mas em liberdade de consciência. Nós, por cá, talvez não o sejamos muito, e nem sequer sabemos reconhecer competências, a menos que estas sejam industriadas na subserviência às chefias, proporcionadoras da tal progressão nas carreiras, por que se aspira. Seremos desleixados, mas a disciplina imposta da forma por que o descreve Bagão Félix, de resto, como bem acentua, já preconizada, no livro de George Orwell, 1984, sátira aos governos totalitários que o olhar sinistro de um big brother simboliza, na realidade torna os homens mais escravos ainda, não tanto das máquinas produtoras de trabalho, mas das máquinas de controlo humano, medidoras hediondas de eficiência, a cargo dos donos das empresas, forma totalmente vil de rebaixar o ser humano à categoria de ovelha de rebanho. Um artigo arrepiante o de Bagão Félix, sobre uma tal monstruosidade possível neste século XXI, que se deveria esperar de uma racionalidade mais apurada e, pelo contrário, revela um total desprezo pelo bicho homem, cada vez mais reduzido a um “Ninguém” inconsciente, apesar dos aparelhos sofisticados do seu bem-estar material, que os donos do capital possibilitam, em aparência de solidariedade respeitadora do bem-estar.
Quanto ao segundo texto de Bagão Félix, olhar atento aos desmandos da política governativa, é mais uma prova de uma presença que ainda, neste país livre, se pode permitir revelar, acusando, não para castigar, mas para corrigir - se cair em alguma consciência corrigível - o que, dum modo geral, não é o caso, a ironia desmistificadora caindo, as mais das vezes,  em saco roto.

1º TEXTO: Economia humana? Onde está ela?
António Bagão Félix
27 de Novembro de 2017
Há tempos, vi num jornal britânico uma notícia acerca de novos instrumentos de controlo sobre o trabalho em empresas do Reino Unido. Eram dados exemplos de “people analytics”, através de sofisticados aparelhos e softwares de controlo ininterrupto. O objectivo não disfarçado é o de medir a produtividade, o empenho, a preparação, mas também coligir dados sobre contactos, emoções, descanso, vida pessoal.
Segundo a notícia, pelo menos quatro importantes empresas, incluindo um dos maiores bancos de retalho, estão a utilizar cartões colocados junto ao pescoço com um microfone para análise em tempo real da voz, sensores Bluetooth para escrutinar a proximidade de colegas e um medidor da actividade física e do tempo de conversa. “Através do tratamento destes dados pode ter-se uma informação detalhada de como as pessoas comunicam e a previsão de aspectos psicológicos e comportamentais”. Mede-se o tom, embora (ainda) não o conteúdo das conversas. Nas actividades de venda, é possível registar toda a linguagem corporal.
Outra empresa aplicou uma tecnologia para aferir o estado físico das pessoas quando se levantam, para medir a actividade cerebral e as emoções, a fadiga, o stress, a relação com o álcool e os padrões de sono. O próximo passo parecer ser o de “CV biométricos” que possibilitem um quadro exaustivo da adequação, qualificação e aptidão para o trabalho.
Surpreendente é que sendo estes registos (aparentemente) voluntários, a sua adesão ande perto dos 90%. Mas percebe-se porquê…
Este Big Brother de enésima geração vai avançando, pelos vistos, inexoravelmente. Com o silêncio dos atingidos, a omissão dos poderes regulatórios, o entusiasmo gestionário que olha para as pessoas como instrumentais, e a incapacidade das forças sindicais em se reposicionarem num mundo que pouco já tem a ver com a sociedade assalariada de outrora.
Distraída ou talvez não, a sociedade mergulha delirantemente nas novas tecnologias, correndo o risco de ficar algemada pela violação consentida ou forçada da sua privacidade e do seu direito à individualidade e à plena expressão dos direitos de personalidade.
As novas técnicas são sedutoras, mas a nossa autonomia exige que a sua aplicação seja acompanhada de responsabilidade moral no seu uso. O seu fascínio é ambivalente. Vale para nos libertar pelo progresso a elas associado, mas também para desumanizar as relações e encarcerar as consciências.
Outrora, o maior risco era a escravidão. Agora e numa espiral alucinante, robotizam-se atitudes e as pessoas correm o risco de ficar prisioneiras e vítimas das novas máquinas e softwares, com que muita gente se deixa envolver alegremente. Quando prevalece a absolutização da técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios. Corre-se o risco de não ser o homem a dominar a máquina, mas a ela se submeter, levantando-se insondáveis interrogações sobre a ligação entre técnica e ética. O trabalho tem um sentido ético e não apenas técnico. É que nem tudo se reconduz a mais ou a menos algoritmos impostos à natureza humana. As inteligências artificiais são isso mesmo: serão inteligências, mas também não deixarão de ser artificiais. Não sentem, não desejam, não vivem…
Ao mesmo tempo, os grandes operadores nestas áreas são glorificados acriticamente, na sua lógica capitalista predatória e na inovação de puro apelo consumista levado aos extremos. Passaram a mandar, de facto, no mundo global e a ameaçar os poderes democráticos. Fogem fácil e descaradamente aos impostos, mas são endeusados como símbolos da transparência (?) e da inovação. Hoje, a sigla FAAMG (Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google) determina mais no mundo de que os chefes de Estado e de Governo.
Economia humana? Onde está ela?

2º TEXTO: Sal sem remédio e perguntas sem sal
António Bagão Félix
Público, 30 de Novembro de 2017
Dias frenéticos na actual política portuguesa que espelham, a meu ver, o seu lado mais inconsequente e errático. Seleccionando apenas quatro situações, qual delas a mais patética:
1. Infarmed: eis, de súbito, uma avassaladora vontade de pretensa descentralização (em bom rigor de apenas desconcentração). De súbito, uma tão serôdia quanto improvisada transferência para o Porto. Já não de súbito, uma mentirola do PM numa recente entrevista, fingindo que o assunto estava há muito congeminado. O ministro da Saúde – fazendo fé nas palavras da presidente do Instituto em entrevista ao PÚBLICO – dizendo que, afinal, não se trata de uma decisão, mas tão-só de uma “intenção”, suponho que para diminuir a tensão. Entretanto, o presunçoso presidente da CM do Porto exultou e logo escreveu nas redes sociais (para depois apagar) que estava “a adorar o ressabiamento de alguns. Assim vale a pena!”, evidenciando, além do mais, uma enorme falta de respeito pela quase totalidade dos técnicos e funcionários do Infarmed. Por fim, o sempre escasso dinheiro não será problema (o que custa a mais e o que entra a menos…) para tão súbita prioridade. Em suma, um verdadeiro “jackpot” de asneiras, vacuidades, precipitações, demagogias e vaidades.
2.Taxa sobre produtos com excesso de sal: chumbada na AR por proposta do CDS (e viabilizada pela abstenção do PCP!), por entender que esta tributação não passa de uma medida para arrecadar mais receita e que não é pela via fiscal que se promove a adopção de hábitos alimentares mais saudáveis”. Não se lhes enxergou que esta medida (tecnicamente um imposto “intencionalmente distorcedor”) é uma forma de compensar a “externalidade negativa” para a sociedade do notório excesso de consumo de sal, com reflexos nas despesas públicas e familiares de saúde. Não se deram ao trabalho de constatar como a indústria alimentar se adaptou bem a um imposto semelhante antes lançado sobre produtos com alto teor de açúcar. E o PCP, numa improvável e espúria coligação momentânea, a achar que basta mais um romântico plano de prevenção sobre o sal. Vá lá a gente entender tudo isto…
3. Isenção de IMI para os imóveis que arderam nos fogos deste ano: PS, BE e PCP chumbaram esta isenção temporária (2017 e 2018). Disse o deputado A. Leitão Amaro (PSD) que “o Estado falhou, mas ainda quer que os contribuintes paguem impostos por património que já não existe ou que já não tem o mesmo valor. isto é inaceitável! “. Onde está a sensibilidade do Governo e dos partidos que o apoiam perante uma proposta tão óbvia e justa? É isto a esquerda?
4. Encenação de perguntas ao CM. Um exercício farsante e quase “chavista”. Perguntas recorrentes de catálogo e respostas tão banais, quanto abstractas. Não diria melhor que Dalai-Lima no seu blogdodalailima.blogspot.pt: “as perguntas originais não eram do conhecimento do Governo, e poderiam variar entre «Tem, V. Ex.ª, Sr. Primeiro-Ministro, a consciência de que o Executivo que V. Ex.ª tão brilhantemente chefia, é responsável por um surto de progressos sem precedentes na história democrática da Nação?» e «Perdoe-me a dúvida, Sr. Primeiro-Ministro, mas não lhe parece que a verba que V. Ex.ª reservou para a satisfação das justas reivindicações dos professores portugueses de contagem de tempo de serviço […] relativamente aos nove anos de intervenção nociva do Governo que antecedeu o seu, 650 milhões de euros, mais não é que uma medida da mais elementar justiça?»



domingo, 10 de dezembro de 2017

Bagão Félix, um escritor frontal - I


Tenho-o deixado de lado, na floresta de bons cronistas e na premência de artigos que os ventos da história vão fazendo abanar, largando folhagem em breve dispersa e perseguida por outra e outra, no frenesim dos acontecimentos sem tréguas que a irrequietude dos homens transpõe ao tempo.
 E, no entanto, Bagão Félix é um escritor que prezo, e que me faz recuar aos seus comentários clarividentes. São já antigos os dois que seguem, mas a justeza de observação e a qualidade da sua imagística, na natural repulsa pelo espectáculo degradante que refere – o primeiro, sobre os comentadores futebolísticos açambarcando os canais televisivos, escarrando sobre os lorpas que os escutam a imundície da sua desenvoltura em toda a pujança de um à-vontade e de uma má criação ilimitada e sem controle, que a televisão surpreendentemente acata, imune a uma função formativa que deveria ser seu apanágio; o segundo, sobre as coisas do OE e do governo de cedências e de arrogantes ficções de fortaleza, que uma forte hipocrisia conduz, na ânsia de o não perder…

A miséria do nosso futebol
António Bagão Félix
Público, 4 de Novembro de 2014
Sempre me interessei pelo futebol. Sou entusiasticamente adepto de um clube. Vibro com os seus sucessos e padeço com os seus desaires. Um sentimento naturalmente tão autêntico, como não isento. É esta aparente contradição que faz do jogo jogado simultaneamente uma delícia e um risco. Reconheço que nem sempre a racionalidade fica à frente da emoção. Como adepto, evidentemente.
Acontece que a atmosfera em redor do nosso futebol está a atingir tais níveis de inquinamento e poluição que, crescentemente, sinto necessidade de me voltar para dentro e ignorar o que quase sempre me aprazeu.
Chegou-se ao nível zero? Não, antes a um nível abaixo de zero. É como, com alguma indulgência, poderemos qualificar o estado a que chegou o ambiente no panorama futebolístico nacional. Jamais houve uma tal degradação, ainda que paradoxalmente num tempo em que até somos vitoriosos campeões europeus de selecções.
Estamos diante de um ar irrespirável. Tudo vale porque nada parece valer. Como na tourada, há todos as personagens e todas as cortesias. Os peões de brega que, mandatados na penumbra do submundo de ordenantes, fazem a figurinha (travestida de “anjo”) de mestres de graçolas, instigadores de veneno e geradores de ódios. Às vezes, até são pessoas com curricula respeitáveis que, todavia, se deixam envolver por afrodisíacos momentos de efémeros protagonismos. Depois, há os picadores que habitam em certos fora (não todos, diga-se em abono da justiça) e que têm sempre uma lógica fosforeira nos seus momentos de vã glória. Há os cavaleiros que, do alto dos seus animais, usam a táctica do toca e foge, lançando farpas e espalhando sangue e lama em jeito de ventoinha. Há os forcados (alguns até com c cedilhado) que, laboriosamente, tecem teias em troca de favores, prebendas e outras mordomias, sempre com um ar independente a fingir pegar pelos cornos do bicho. Há os toureiros, uns mais exuberantes no manejo da muleta, outros mais silenciosos e escondidos. Por fim, há o inteligente. Que sempre se considera moralmente acima dos outros, que sempre é o único e inimitável, que sempre se proclama peregrino da revolução ética que urge fazer.
Como no Titanic, todos cantam e bailam ao som da música, contribuindo para afundar o que ainda está emerso. Que lhes importa isso? Actuam na aparência de “salvadores da pátria”, quais redentores ungidos pela providência. Nem sequer querem saber que o desastre de uns é o desastre de todos. Falam como detentores de uma verdade que se esfarela no virar de um fim-de-semana seguinte. Agem como predadores sem se aperceberem que se estão a auto-mutilar. Desrespeitam-se uns aos outros com uma frequência tão regular, como institucionalmente letal. Não enxergam que, no dia seguinte, a água que os afunda lhes entra pelos poros da boçalidade e pelos pulmões da imbecilidade. Julgam-se imunes a todas as contingências e isentos de todas as formas respeitáveis de relação. Alimentados freneticamente por alguns modos ínvios de comunicação social, uns são verdadeiros vampiros à busca de sangue e raiva, outros há imperadores da má-criação, da barbárie ética, da vilanagem, da mentira, do boato, do anonimato ou da cobardia.
Os poderes públicos – com a honrosa, ainda que impotente, excepção da FPF – assobiam para o lado, ou prestam parvas vassalagens e distribuem honrarias, ou, ainda, dizem umas pias palavrinhas sem qualquer resultado. Isto já não vai lá assim. Legislem de modo a não beneficiar os infractores, actuem de maneira a não favorecer os incendiários. Todos agradeceremos, mas principalmente os futuros adultos que, hoje, enquanto crianças, só conhecem o lado mau deste entusiástico desporto.


O supermercado orçamental
Público, 7 de Novembro de 2017,
António Bagão Félix

O itinerário orçamental para 2018 revelou, de um modo indisfarçável, a lógica de sustentação de um governo minoritário através de uma maioria parlamentar ad hoc que, sem ter a responsabilidade de governar, é capaz de condicionar o Executivo, senão mesmo de o acorrentar.
O governo não tem uma estratégia minimamente consistente. Navega ao sabor do cardápio da reversão austeritária, procura satisfazer as clientelas eleitorais pensando obsessivamente nas próximas eleições, dança alternadamente com o PCP e o BE em função dos assuntos, manipula as expectativas de um modo ilusório, põe de lado qualquer laivo de reformas de fundo, aliás incompatíveis com o seu tacticismo calculista.
Nunca é responsável por nada que corra mal. Nos últimos tempos, a tragédia dos fogos foi culpa do acaso, Tancos uma historieta, a Legionella num hospital público um acidente inimputável, a  candidatura para a Agência Europeia do Medicamento uma vitória moral. Por sua vez, a “Web Summit” foi um pretexto para ver o poder português em permanente genuflexão bajulante perante uns “rapazes do futuro”. Nem vale a pena falar dessa “panteãominice” em que a lógica de Pilatos passou, como um furacão, pelo Primeiro-ministro e outros responsáveis públicos. Ou da mudança demagógica do Infarmed para consolar o Porto (paixão serôdia e oportunista do governo) e, no fim, aumentar a despesa.
A discussão na especialidade do OE para 2018 é a expressão do carácter errático da política nacional. É o tempo de o PCP e o BE abrirem o supermercado das medidas das suas clientelas e de o grupo parlamentar do PS as acompanhar “assim, assim” num exercício de trapezismo e contorcionismo para fingir que ganhou seja qual for o resultado final. O Governo promete hoje uma coisa em abstracto (usando a linguagem do PM), amanhã diz que, em concreto, não há condições ou que, talvez sim, em pseudo concreto a partir de 2019… Honra seja feita ao ministro das Finanças que é o único que verdadeiramente sente quão nefasta é esta lógica e procura limitar os danos.
O caso dos professores é paradigmático. Independentemente da razão (parcial) que cada uma das partes tem, eis novamente o Estado a pôr e a dispor dos impostos para alimentar as pretensões do seu aparelho. Os sindicatos até terão razão em dizer que tempo de carreira congelado não é o mesmo que tempo de carreira eliminado. Mas são os mesmos sindicatos que sempre se têm oposto a uma avaliação efectiva (e não meramente formal ou procedimental) dos professores. Entretanto, com o ministro-sindicalista ausente, houve apenas horas e horas de negociação e fingimento de acordo, com jogos de palavras entre recomposição, reconstrução e recuperação no “quadro das especificidades desta carreira unicategorial” (mais um palavrão criado).
E já se perfilam outras categorias da Administração com a mesma pretensão dos professores. É no que dá o estilo ambíguo, pouco frontal e pretensamente “abrangente” do governo.
Há, ainda, dois pontos que merecem ser referidos. Um tem a ver com a obsessiva lógica dos sindicatos afectos à função pública sempre a invocar injustiças face à actividade privada, excepto quando não lhes convém (foi o caso das 35 horas de trabalho semanal). Neste caso, porque é que o dinheiro dos impostos deve ir inteirinho para os descongelamentos públicos e não também, directa ou indirectamente, ser afecto aos trabalhadores não públicos? É que foi nestes que o desemprego atingiu valores socialmente insuportáveis e houve congelamentos de toda a espécie, sem possibilidade de recuperação do tempo perdido.
Por fim e sempre, a lógica sindical só olha para os activos. Por que razão não se fala dos professores aposentados no período de congelamento das suas carreiras que viram inexoravelmente a sua pensão ficar mais reduzida? Será porque não podem fazer greves?



NEVOEIRO


Repita-se o último poema da “MENSAGEM”, para corroborar a nossa pobreza, de que, tanto o texto de José Manuel Fernandes como o de António Barreto, se fazem eco. Sem resultado prático, os vícios de educação e de feitio estando subjacentes ao marasmo construtivo, e à chiadeira pipilante, esperando o cibo. Bonita a foto de António Barreto, e a explicação.
Afinal, somos bem discípulos de Pessoa, tal como de Eça, na insatisfação argumentativa:

 Quinto
        NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!
                                 Valete, Fratres.

O PSD está uma coisa muito deprimente
OBSERVADOR, 6/12/2017
A disputa pela liderança do PSD lembra um penoso regresso ao passado, uma disputa fulanizada sem propostas diferenciadoras e sem a capacidade de dizer ao país o que ele precisa de ouvir. E quer ouvir.
Deve haver poucas coisas mais deprimentes do que a actual corrida à liderança do PSD. Pela ausência de ideias novas, pela vetustez dos protagonistas, pelo desinteresse do país, pela percepção de que ali não há alternativa credível ao actual estado das coisas.
Nem sei bem por onde devo começar, pelo que começo pelo óbvio: quando uma corrida à liderança do maior partido da oposição é reduzida, pelos próprios, a uma espécie de concurso para saber quem pode ser melhor a ganhar eleições fica-se de imediato com a ideia de que apenas estamos a debater quem é o mais capaz para as perder por pouco – o que é em si mesmo uma receita para perder por muito.
Há quem defenda que a política é hoje quase só um jogo de personalidades, mas defendê-lo é não perceber nada do que está a mudar na política. É não perceber que todos os fenómenos eleitorais recentes, do americano Trump ao britânico Corbyn, do francês Macron à catalã Arrimadas, resultam não apenas da singularidade dos seus protagonistas, mas sobretudo de protagonizarem projectos políticos fortes e afirmativos que despertaram o entusiasmo de certas faixas decisivas do eleitorado. Mais: como estes exemplos demonstram, isso tanto pode acontecer nos extremos do espectro político e ser detestável, como surpreender exactamente naquele centro onde se costuma dizer que se ganham e se perdem as eleições e ser magnífico.
Nem Rui Rio nem Santana Lopes parecem ter percebido que procurarem apenas surgir como políticos bem-comportados, responsáveis e experientes não serve para nada. Tal como não serve para nada deixarem cair umas frases soltas bombásticas (como as de Rio sobre as “doenças do regime”) mas falhas de substância. Tal como ainda é menos produtivo tratarem de se posicionar por referência a Passos Coelho, pois isso apenas os deixa prisioneiros de um jogo de lealdades ou ressabiamentos cuja exibição pública pelas duas candidaturas chega a ser penoso.
Eu sei que o ponto de onde ambos partem não é fácil. Nos últimos anos o PSD deixou-se aprisionar num discurso que valorizava (justamente) a coragem, determinação e rigor com que governara o país nos anos da troika, reconduzindo-o a uma trajectória de crescimento e emprego, mas que ao mesmo tempo dependia de as coisas correrem mal ao Governo para demonstrar que o PS não se libertara da sua congénita tendência para a irresponsabilidade orçamental. Fazendo eu parte daqueles que estão convencidos que as escolhas da geringonça não só não asseguram crescimento económico sustentado no futuro como, num prazo que pode ser mais longo ou mais curto, acabarão por revelar-se desastrosas também a nível orçamental, não creio que seja uma boa estratégia de oposição ficar apenas à espera que António Costa prove o fel das dificuldades no dia em que a factura das “reversões” deixe de estar coberta pela folga dada pelos juros baixos (suportados pelas políticas do BCE) e por um crescimento económico quase exclusivamente dependente do turismo e da procura externa.
Acontece, porém, que, escutando o que os candidatos à liderança do PSD nos têm para dizer, não se vê como possam eles extrair o partido dessa armadilha, desta espécie de beco sem saída. Não porque não tenham razão nas críticas que fazem às políticas da geringonça e às suas opções orçamentais, mas porque as escolhas do país não são, não podem ser, apenas entre a austeridade dos impostos directos (a de Vítor Gaspar) e a austeridade dos impostos indirectos e das cativações (a de Mário Centeno). A escolha é, ou devia ser, entre um país centrado no que faz e oferece ao Estado, e, portanto, prisioneiro de todas as suas clientelas e dependente dos seus serviços, e um país com mais fé nos portugueses e no seu engenho, mais livre e, por isso, mais aberto à mudança, ao risco e à inovação.
O primeiro sinal de que tanto Rui Rio como Santana Lopes têm as cabeças presas a referências do passado é a sua insistência na chamada “matriz social-democrata”. Claro que estamos a falar de um partido chamado PSD, claro que estamos a falar do partido fundado por Sá Carneiro, mas 2017 não é 1974 ou mesmo 1980. Arejem as cabeças e não finjam que o mundo não mudou com Thatcher e com Reagan. Abram os olhos e percebam que até a esquerda socialista é outra coisa depois de Clinton e Blair. Não façam de conta e percebam que, na Europa, se sentam ao lado dos cristãos-democratas e já se sentaram entre os liberais. Deixem de ter complexos e afirmem as diferenças em relação ao PS em vez de se sentirem bem no “centro-esquerda”, como se o país tivesse apenas como escolha socialistas ortodoxos e socialistas envergonhados.
Há quem no PSD dê indicações interessantes sobre as linhas de fractura com o PS – e não apenas com o PS da geringonça. Quem defenda, por exemplo, que o partido deve ser pela igualdade solidária, e não pelo igualitarismo social, que deve acreditar num Estado social que liberta, autonomiza e responsabiliza o cidadão e não num Estado social que o cativa, condiciona e infantiliza. Quem acredite que a exigência na educação pode tornar os cidadãos mais iguais em vez de presumir que o facilitismo os trata por igual, tal como defenda que a família e a comunidade devem guiar a educação em vez de ser o Estado a formatá-la. E por aí adiante, já que estas frases estão todas, quase palavra por palavra, num artigo recente de Paulo Rangel, um artigo que era quase um manifesto da candidatura à liderança do PSD que afinal nunca existiu.
O problema é que cada um destes pontos necessita de ser concretizado e defendido com convicção. O problema é que por trás desta visão há uma ideia liberalizadora do papel do Estado e, no PSD e no país, tem-se horror à palavra liberal. O problema é que o PSD (ou pelo menos o aparelho do PSD) está hoje quase tão colado ao Estado como o PS. O problema é que um país envelhecido, dependente e temeroso como Portugal é um país que receia mudanças, é avesso ao risco e onde boa parte da população mais depressa tem inveja de quem triunfa do que está disposta a tentar a sua sorte.
Sempre defendi, mesmo nos anos mais duros da troika, que no discurso do governo de então havia medo de assumir que ao país não bastava ser mais poupado e mais contido – precisava de ser diferente. E ser diferente implicava pensar de forma diferente a relação do Estado com os cidadãos. Num país com muitos pobres a questão não é querer menos Estado social, é defender um Estado social onde o sector público partilhe mais responsabilidades com a sociedade civil (o que incluiu as empresas e o sector social) em nome de uma maior eficiência e de mais liberdade. Da mesma forma que num país já cheio de burocracia e de regras não se deve ter medo de descomplicar fazendo desaparecer regulamentos em vez de pensar que tudo se resolve colocando um “simplex” por trás de cada nova complicação.
Podia continuar a multiplicar os exemplos, mas não vale a pena sequer abrir um debate se não se tiver consciência que num país onde a direita é quase tão estatista e dirigista como a esquerda fazê-lo implicará sempre percorrer o caminho das pedras. Mas se nunca se começar a fazer um discurso político diferente é que nunca sairemos da actual pasmaceira e desta tonta concorrência entre partidos feita apenas de uma mistura de promessas e de juras de rigor orçamental.
Infelizmente nem Rui Rio nem Santana Lopes parecem querer ir buscar a Sá Carneiro aquilo que realmente o diferenciava, e que não era a adesão a uma social-democracia que à época significava algo bem diferente do que significa hoje. E o que o diferenciava era a férrea vontade reformista, a coragem de fazer rupturas e acreditar mais nos portugueses do que nas suas elites bem-pensantes e temerosas.
Infelizmente, repito, o PSD de hoje é uma coisa muito deprimente.

COMO NAS CLAQUES
ANTÓNIO BARRETO
DN, 10/12/17
A comparação já foi feita: o debate político parece-se cada vez mais com o futebol e respectivas claques. O que interessa é a cor e a camisola. O que conta é saber quem apoia e quem critica. Ou quem é apoiado e quem é condenado. O caso, o objectivo, a decisão, o programa, o valor e a ideia são de menor apreço e quase indiferentes. Importa, isso sim, é saber se é a favor ou contra o grupo, o chefe e o partido. Importa berrar e bramar, ameaçar e apoiar, vibrar de prazer ou rosnar de ódio, bajular ou agredir. Se os meus são criminosos, desculpam-se, porque a culpa é dos outros, batoteiros por definição.
Os meus têm valores. Os outros têm interesses. Os meus têm causas. Os outros têm bolsos. Os meus preocupam-se com o interesse nacional e o bem comum. Os outros só pensam nos seus grupos e nas suas corporações. Os meus são democratas, justos, racionais, eficientes, com causas, pergaminhos sociais, cultura e mérito. Os outros são candidatos a ditadores, oportunistas, mentirosos, prisioneiros dos lobbies e defensores de interesses ocultos. Se entre os meus já houve corruptos e aldrabões, esquecemo-nos facilmente. Os corruptos dos outros, por seu turno, são eternos.
Ouvir os socialistas falar hoje dos sociais-democratas e dos populares é ficar a conhecer um rosário de insultos e calúnias. Só comparável ao que se ouve aos sociais-democratas quando estes se exprimem sobre os socialistas; aos comunistas e aos bloquistas quando se referem aos partidos da direita; e a todos e cada um quando se exprimem sobre os outros. Um dos objectivos desta oratória consiste em explicar os saneamentos políticos e as nomeações dos amigos: os que vão sair são incompetentes, mentirosos e eventualmente corruptos. Os que entram, os meus, são exemplos de virtude e competência.
Outra dimensão de fino recorte intelectual é a da culpa. Não fui eu, foste tu! Não fomos nós, foram vocês! O vosso governo fez muito pior! A culpa é do governo anterior! As causas já vinham de trás! A pobreza e a miséria dos professores, a destruição do Serviço Nacional de Saúde, a imprevidência na Protecção Civil e a vulnerabilidade das instalações militares são da total responsabilidade do governo anterior. Assim como o aumento das desigualdades sociais. Ou o escândalo das energias renováveis. Tal como o anterior governo dizia. E o antes desse.
A este tom grave de acusação não corresponde depois acção judicial. Nem sequer demonstração pública das malfeitorias dos outros. Bem se pode esperar para saber mais sobre as famigeradas parcerias, as falências bancárias, as fugas de milhares de milhões, os offshores, a descapitalização fraudulenta, o mero roubo e os ajustes directos! Bem se pode esperar pela conclusão de processos de negligência na Protecção Civil!
Como o futebol, a política tem regras próprias e especiais. É permitido mentir, ameaçar, caluniar, roubar, corromper e não cumprir os contratos... E quando não é permitido é tolerado. E se não é tolerado, o autor fica, em geral, impune. A verdade é que, como no futebol, o que os meus fazem é justo, o que os outros fazem é crime. Os meus podem "meter a mão", quebrar os pés do adversário e faltar às regras, desde que o árbitro ou o juiz não vejam. A grandeza deste debate e a qualidade destes termos são surpreendentes! A escola de oratória política e parlamentar é hoje o comentário desportivo das televisões, horas a fio, diariamente, em todos os canais! O que criou o estilo político parlamentar foi a televisão, o futebol, a democracia directa dentro dos partidos e o sistema eleitoral. O que se diz, mente ou berra não se destina a ser ouvido pelos eleitores, mas sim pelos colegas de partido. São eles que decidirão se um deputado é fiel ao chefe e se é suficientemente agressivo contra os inimigos. Não parece que tão cedo haja condições para alterar este estado de coisas. A calúnia e o insulto têm uma função redentora: a de servir de biombo à falta de justiça.

As minhas fotografias - Judeu em oração, com chapéu, na esplanada do Muro das Lamentações

Este senhor usa um chapéu tradicional, um dos vários usados habitualmente, com relevo para a kipá (solidéu) e o shtreimel (de pele), os mais curiosos de todos. Jerusalém é um dos sítios mais carregados de história. Todas as variedades de cristãos, judeus e muçulmanos têm aqui os seus lugares sagrados. Além de outros, David, Salomão, Cristo e Maomé andaram por ali. Na cidade, com seis mil anos, há centenas de sinagogas, igrejas e mesquitas. Nada é simples, nada é fácil. Se há sítio no mundo onde há problemas sem solução, Jerusalém é um deles. Equilíbrio instável, paz provisória, tempo de espera... são estas as expressões que substituem as de paz, estabilidade ou solução. Há milhares de anos que é assim. A recente decisão do presidente Trump é estranha. É um governo estrangeiro que, de facto e não de direito, designa a capital de Israel! O gesto, criticado por quase todo o mundo, tem potencialidades para desencadear mais uma série interminável de acidentes e incidentes. Mais uma...