sábado, 21 de abril de 2018

Saboroso prato


Divertido, cáustico, como sempre, benfazejo. Aponho comentários de outros, apenas interessada no naco saboroso que nos fortalece a alma. O texto de Alberto Gonçalves, de sábado, altas horas.
 Acrescento o texto de uma mulher – Maria João Avillez - das que não se ofende por não ser enquadrada na lista fatal que uma tal “lei de paridade” mais menospreza do que parece favorecer. Texto escrito para o lançamento de um livro de um seu amigo – Victor Cunha Rego – dos ilustres que participaram na fabricação do Portugal novo. De quem eu ouvia falar, desconhecidamente embora, apreciador, ao que parece, do assaltante do “Santa Maria”, Henrique Galvão, imagem de marca para os adeptos do Portugal novo que se reviam em “romanticismos”.  Surpresa para mim, que vi a sua acção mais em termos de petulância criminosa, apelativa de correcção exemplar, embora exemplaridade não seja exigência nossa, que ainda hoje ouvi, a um inglês estudioso de incêndios, que quase cem por cento dos fogos cá no país têm mão criminosa. E vi igualmente imagens de animais enviados para o Médio Oriente, em condições tão absurdamente miseráveis, que desejei, para esses impunes promotores de atrocidades, que ocupassem o lugar dos animais - envoltos em excrementos, a morrer lentamente, e os incendiários a arder mais velozmente, nos próprios fogos por eles ateados.
Volto a ler o saboroso prato de Alberto Gonçalves. Talvez, todavia, para mais me afundar neste atoleiro bestial, que é o nosso, em tantas frentes.

I TEXTO:                      POLÍTICA                Humilhadas e ofendidas
ALBERTO GONÇALVES                          OBSERVADOR, 21/4/2018
O problema põe-se ao contrário: a maioria das senhoras (e dos cavalheiros, calculo) é competente o bastante para evitar a política e deixá-la ao cuidado dos que, independentemente do sexo, não são.
“Terão os partidos mulheres suficientes para as listas?”, aflige-se o “Diário de Notícias”. É extraordinário. Por um lado, que, com cerca de 72 leitores (contando comigo), o “Diário de Notícias” continue a existir. Por outro, que a misoginia vigente insista em aumentar por decreto a “participação” feminina na política, agora elevada a 40%.
Não é por acaso que a “participação” leva aspas. A relativa escassez de senhoras nos partidos sempre foi um indício da higiene daquelas e da sujidade destes. Desde tempos imemoriais, é sabido que, com excepções tão raras quanto dignas de estudos científicos, apenas chafurdam nesse meio criaturas rotundamente incapazes de prestar qualquer tarefa válida à humanidade ou sequer ao condomínio lá do prédio. Se alguém demonstra uma absoluta inaptidão para o trabalho e a vergonha na cara, candidata-se a uma repartição das Finanças. Se nem para isso prestar, alista-se num partido, onde poderá exibir a presunção dos simples, traficar “ajudas de custo” e tratar juízes por “pá”. Salvo por um pequeno número de casos perdidos, boa parte das mulheres tem mais o que fazer – sobretudo não fazer figuras tristes. E é triste que, por obra e graça de políticos, uma quantidade crescente de fêmeas da espécie se vejam arrastadas pela e para a lama. Dada a ética do sector, e a necessidade de “preencher” as “quotas”, imagino algumas convertidas sob sequestro e ameaça de navalha.
Não vou questionar o direito de o Estado intervir nestas matérias: a pergunta seria absurda e, em Portugal, a resposta seria ainda pior. O que é interessante – e notável, na perspectiva do marketing – é que tamanho enxovalho seja vendido a título de “promoção” ou, na versão épica, de avanço civilizacional. Os factos mostram exactamente o oposto. Se o verdadeiro objectivo do exercício é a “emancipação” das mulheres, porque é que esta não se aplica a profissões honradas? Porque é que não se impõem “quotas” nos ofícios de carpinteiro (de limpos e de sujos), camionista (longo e médio curso), trolha, canalizador, futebolista, guarda-nocturno, mineiro, pedreiro, sapateiro, palhaço, etc.? Porque é que o reconhecimento da igualdade se restringe a cargos que diminuem os titulares? Porque é a humilhação que se pretende. Chegar a autarca, administradora pública ou ministra é das menores proezas ao alcance do ser humano: com as “ligações” adequadas, uma grafonola desempenharia funções idênticas com mestria e honestidade superiores.
Aliás, a confirmação de que a “lei da paridade” visa achincalhar especificamente as mulheres está na circunstância de não abarcar critérios “identitários” cujo achincalho é desaconselhado pela moral vigente. Só no que respeita ao “género”, a coisa fica-se pelo tradicional binário e esquece-se deliberada e cautelosamente do próspero sector “trans”. Ninguém propõe a reserva de pedacinhos do Parlamento para os/as indivíduos/as agénero (1,5%, digo eu), bigénero (1,2%), intergénero (0,8%, obviamente), pangénero (idem), nanogénero (aqui hesito), demigénero (já me perdi) e travesti não-binária (chiça). A razão? Ninguém ousa ofendê-los/las/lis/los/lus.
O receio de ofensa também explica a ausência de propostas paritárias para os restantes factores de identidade. Para não insultar os gays, o “sistema” não arrisca bulir na representatividade segundo a orientação sexual. Para não caluniar as religiões, não se sugerem proporções de budistas, muçulmanos, animistas ou presbiterianos. Para não difamar as etnias, não se enfiam à força asiáticos, negros, ciganos, ameríndios ou esquimós nas listas das “legislativas”. Ou uma determinada porção de boavisteiros, ceguinhos, circuncisados, flautistas, vegetarianos ou o que quer que seja que torna a pessoa aquilo que é. Não, senhor: o único “grupo” empurrado à força para a política é o das mulheres, um acto machista, ressentido e quase perverso.
Para cúmulo, os adversários das “quotas” reagem a tamanha infâmia com a lengalenga de que a maioria das mulheres é competente o bastante para entrar na política sem ajudas ou favores estatísticos. O problema, meus caros, põe-se ao contrário: a maioria das senhoras (e dos cavalheiros, calculo) é competente o bastante para evitar a política e deixá-la ao cuidado dos que, independentemente do sexo, não são. Antes e depois do reforço percentual, a “lei da paridade” rebaixa as mulheres e exalta os políticos – adivinhem quem a aprovou.
Nota de rodapé:
A tese dominante assegura que os vídeos dos interrogatórios ao “eng.” Sócrates foram divulgados pelo advogado do próprio. Talvez a tese esteja correcta. Mas se a ideia é a de que aquele repositório de prepotência, ridículo e até alguma maluquice redime o sujeito aos olhos dos portugueses, aconselho o “eng.” Sócrates a trocar de advogado. Ou o advogado a trocar de “eng.” Sócrates. Ou Portugal a trocar de portugueses.
ALGUNS COMENTÁRIOS
Diogo Mendes
Que a "causa" das quotas para as mulheres chegarem mais facilmente ao pote do unto é justíssima, é. É mesmo consensual. Só não entendo é como reconhecem uma mulher. Antigamente, quando só havia dois sexos, antes do avanço civilizacional das quotas, a malta topava as mulheres pelo aspecto e/ ou pelo nome. Hoje, qualquer macho pode ostentar o bonito nome de Maria Albertina no cartão do cidadão ou cidadona. Quanto ao aspecto, o portador dum belo par de glândulas mamárias pode ser homem. Além disso, ligar a esses sinais, poderia configurar uma intolerável eternização de estereótipos de género. Assim, como é que recrutam as mulheres para a honrosa missão do cumprimento das quotas?!
Professor Pardal
É mais do que óbvio, para qualquer comum mortal, que esta história das paridades e das quotas só diminui o mérito das mulheres. Não acredito que nenhuma mulher, que queira ver o seu valor reconhecido, se sinta valorizada com esta decisão. Pelo contrário. No fundo, aquilo que esta lei, supostamente "anti-discriminação", faz, é discriminar. Para quem acompanhou os efeitos da "affirmative action" nos EUA, o desfecho é evidente.
A nota de rodapé é sublime. Nem precisava de escrever a crónica porque aquelas sete linhas conseguem resumir o triste regime em que vivemos de uma maneira cristalina. A conclusão, essa, é brutal.

II TEXTO:      LIVROS                 O cavaleiro de cristal
MARIA JOÃO AVILLEZ                          OBSERVADOR, 14/4/2018
O livro traz-nos intacto o ar dos muitos tempos que o Victor testemunhou, com alguns dos quais privou intimamente, nalguns dos quais interveio directamente. Com desapiedada lucidez.
1. Raras vezes, na minha vida fui confrontada com a honra de um convite que é antes do mais um temível desafio. Não pelo livro, por causa de quem o escreveu. Passageira solitária no desconcerto que de início me provocava o Victor, demorei a ver de que lado é que a vida encaixava nele e ele nela. Com o passar dos anos entendi aquela inteligência filha de um pessimismo activo que podia coexistir com a fé, o mistério de uma fragilidade que vivia paredes-meias com uma desapiedada lucidez. Victor Cunha Rego tinha as tormentas como certas. Admirei-o muito, guardo-lhe um imenso respeito. Amava a verdade e praticava a coragem mesmo quando estas o faziam sofrer. Captava o ainda não captado, traduzia-nos o mundo que habitava e, claro, era um sedutor: tornei-me devota e… de quantas pessoas seria eu capaz deste desabafo?
Teve muitas vidas, ofícios, lugares. Vendeu lâmpadas e ferros de engomar de porta a porta, foi expulso de alguns países, às vezes não tinha papéis, houve mandados de captura internacionais. Conheceu meio mundo, fez muitas coisas, acreditou em poucas. Um dia, quando me abria esses leques, lembrou-se de Stendhal: “Do ‘Lamiel’ ao ‘Le Rouge et le Noir’, você tem lá todos os personagens que compõem as setes vidas e os sete ofícios…”
Trocámos olhares, almas e risos, discorremos mil vezes sobre esta coisa da política, demos mil voltas à vida. Talvez porque soubesse que as ideias têm consequências e as enfrentava nesse lugar incerto que precede a ilusão, confessava-me que “ia perdendo sucessivas batalhas”: “Perdi muitas batalhas políticas, mas ganhei uma: sempre que enfrentei o PC ganhei. Batalhas pequenas, mas ganhei sempre.” E um dia ouvi-lhe isto: “Empenhei-me politicamente na bipolarização e na alternância do poder. Esses princípios venceram. Não sei é se convenceram, ou ficarão muito tempo…”. Venceu a batalha que interessa que é a da inocência e da boa fé. Com cepticismo e muita compostura.
Na minha cabeça misturam-se hoje imagens, bocados de vidas e de conversas, restaurantes, comboios, bares de hotéis, campanhas políticas, jantares, resultados eleitorais. A casa dele e a minha, o André e o Vicky quando ele queria falar-me deles.
Lembro-me do Victor em reuniões, a cabeça inclinada sobre as mãos, o olhar distante e aparentemente distraído, o humor oblíquo, e recordo como de repente se soerguia e emitia para o ar o essencial do que deveria ser conversado, escrito ou feito.
Leu antes de ninguém em desordenadas folhas de print ainda quentes do meu computador os livros que fiz com Mário Soares, leu-os na penumbra da Travessa do Pinheiro, 23, 3.°. Uma sala exígua e sempre fria onde havia, numa mesinha baixa frente à janela, um minúsculo cinzeiro de vidro atulhado dos nossos cigarros que ele se esquecia de despejar. Quando nos deixou, eu pedi o cinzeiro, o André nunca mais o encontrou, o Victor levou-o de certeza.
Às vezes, Deus passava por ali, havia uma alusão mais sentida, uma invocação breve. “Eu tenho muita fé, ela é a única maneira que temos de fazer com que a nossa inteligência viva acima dos seus próprios meios, que uma certa dignidade tenha algum espaço e algum sentido.” Ia às igrejas a horas mortas, procurando um porto de abrigo que lhe pacificasse a fé que praticava, lembrando-se de Job, outro anti-herói. Deus, que nunca o perdeu de vista, queria-o por perto. E o Victor ficou.
2. O livro que hoje nos ocupa é de um jornalista inclassificável. Abstenho me de o definir — não seria capaz –, direi o que ele me disse, por uma vez consentindo-se um laivo de auto-reconhecimento: “Sim, filha, fiz bom jornalismo. Comecei e acabei com ele, era o meu fio de Ariane”.
Este livro é uma surpresa e um privilégio. A surpresa é este Victor antigo, menos nosso conhecido, escrevendo na lonjura do seu exílio além-Atlântico; o privilégio é o acesso que estas páginas nos permitem ao seu pensamento, cunhado em meio século de uma vida que também foi a nossa. “Na prática a teoria é outra” (Dom Quixote-Leya) é um grande livro em português, escrito por um patriota português.
Não o esperávamos, em Portugal morre-se de vez e tem-se isso como um hábito ou uma fatalidade. Mas, hoje, estes textos tão laboriosa e inteligentemente selecionados pelo André Cunha Rego e pelo Vasco Rosa trazem-nos intacto o ar dos muitos tempos que o Victor testemunhou, com alguns dos quais privou intimamente, nalguns dos quais interveio directamente. Trazem-nos o perfume e a substância de um imenso arco de tempo que vai dos anos 50 até ao final dos 90. Vocação e aventura iniciadas no Diário Ilustrado em Portugal, em 1956, continuaram no seu exílio em influentes jornais internacionais, até ao seu regresso a Portugal em Março de 74 onde Victor voltou, com rigor e fulgor, a pensar em voz alta para nós.
É Jose Cutileiro que aqui apresenta o jornalista, com essa invejável inteligência, a subtileza, o refinamento e uma admirável justeza de tom só possíveis pela fecunda, cúmplice, lealíssima amizade entre estes dois homens tão dotados.
Das prosas do exílio — que têm como cicerone o interessantíssimo texto de Otávio Frias, filho, director do jornal “A Folha de S. Paulo” — temos o Brasil, Europa, Américas. Portugal, claro, Salazar, as oposições, a preocupação de Cunha Rego com África, na senda de um Norton de Matos ou de um Henrique Galvão. Política e vida. Temos tudo, diria eu, e ainda alguns retratos. Retive o de Henrique Galvão, breve excerto: “O Galvão era um romântico, um desprendido, um intelectual… Atraía-me por esse lado. Humberto Delgado nunca me atraiu. O que me ligava ao Galvão era o problema africano, achávamos que ou se chegava a África antes dos comunistas ou chegavam eles. Aliás, o problema era o mesmo aqui, correr contra o tempo, chegar antes deles.”
Regressado ao país, Cunha Rego dirige o DN entre 75/76, na quentura do PREC. Quase dez anos depois, segue-se o vespertino A Tarde, aqui tão bem introduzida por Manuel Lucena, “o maior amigo”; e depois o Semanário que VCR fundou e dirigiu oito anos, rodeado por alguns dos nossos melhores. Uma boa história que José Miguel Júdice também aqui nos conta num regalo de informação e memória.
Nas vésperas de o Semanário ir para a banca, perguntei ao Victor o que seria o jornal. Eis a sua extraordinária resposta: “Um jornal não substitui um governo e não deve sequer criar um partido. Mas sendo esta República menos generosa e menos patriótica que a de 1910/26, e não havendo moral e civismo que originem uma Seara Nova, há que tentar, no modelo intermédio entre a revista doutrinária e o jornalismo, acompanhar os últimos passos deste sistema, e em liberdade, dizer que é preciso o que é preciso”.
3. Foi o que o Victor fez, no jornalismo e na política num combate desigual: o Victor destoava. Via mais longe, antes dos outros, e, pior, estava de boa fé e cultivava a ética. Dividia, perturbava, confundia. Destoou logo no rescaldo dos festejos do 1.° de Maio de 74, face ao que ele classificou de “ tremendo equívoco” traduzido na alegria com que “a burguesia e a classe média” acolhera e participara nos festejos.
“Mário, está tudo perdido”, disse ele nessa própria noite a Soares, que o ouviu como se ele fosse de Marte. Não era de Marte, estamos bem lembrados. Mas foi no PS que lutou, e ao lado de Mário Soares, nessa tão sobressaltada relação, quente e fria, fascínio e evidência. E sempre dizendo “que era preciso o que era preciso” aos ouvidos ainda demasiado surdos de civis e militares. “Os comunistas chegaram onde eu disse e isso deu-me força moral de tornar a avisar as pessoas…”.
Sempre esteve dentro da política: no palco, com cargos oficiais e responsabilidades directas, ou oficiando na penumbra, mas sempre, como aqui diz o Manuel Lucena, “florescendo à beira de precipícios”. A sua ética era inversamente proporcional à ilusão — a primeira era-lhe congénita, a segunda quase nunca existiu.
Gostou de Madrid, onde foi embaixador nomeado por Mário Soares e Medeiros Ferreira, e terá apreciado o reconhecimento público obtido: pela sua colaboracão no Tratado que viria a substituir o Pacto Ibérico; e pelo prestígio — diplomático, político, social e pessoal: “A Embaixada de Portugal juntava naquele tempo Adolfo Suarez com González, ou Santiago Carrillo com Fraga Iribarne. E fazia-o com grande à-vontade… E eu juntava todos os portugueses sem excepção que se haviam exilado em Espanha, congregando-os numa casa mãe.” Depois, como o PS se portou mal com ele, a honra pesou mais que a pena e a ética mais que o luto, saiu de Madrid e despediu-se da família socialista.
Aproximou-se de Sá Carneiro, de quem dizia que “se odiava ou admirava e ele admirava”. Tentara até uma aliança de regime entre ele e Soares, em nome de um desejável pedido comum de adesão à então CEE, organizando encontros sigilosos, saldados por rotundos fracassos. Sá Carneiro, que lhe admirava o carácter, foi um dia a Madrid perguntar-lhe se o PSD, em 1979, deveria concorrer em listas comuns com o CDS. Cunha Rego disse-lhe “que era preciso fazê-las”, senão, mais valia sair da política. Já primeiro-ministro, o líder da AD leva-o para o seu innercircle, que reunia às segundas em S. Bento e oferece-lhe a “cruz” — palavra de Victor – da presidência da RTP. O então primeiro-ministro convidara-o mais que uma vez para o seu governo, o convidado recusara sempre. Face a proposta de outra natureza, ter-lhe-á sido porventura difícil voltar a recusar.
4. Não se pode falar do jornalismo de Cunha Rego sem falar de tudo isto — e muito resumo eu. Sem evocar a política e a imprensa, as duas faces da sua moeda. Indesligáveis.
A ida para a A Tarde é a vontade de reerguer das cinzas o espírito e a letra da AD; o Semanário não é senão a trave mestra de sempre: mudar o regime, civilizando-o, estruturando-o com a bipolarização e a alternância de poder, autonomia da sociedade civil, iniciativa económica, o ar da europeização.
Perguntei-lhe uma vez se andara com a direita às costas. Foi sério na resposta, lúcido na análise: “Eu sempre me bati pela autonomia da sociedade civil. Ora, a direita estava mais propensa a travar esse combate. A minha passagem pela política coincidente com essa direita era fatalmente episódica e meramente instrumental para os dois lados. Andámos às costas uns dos outros”. Depois, muito naturalmente, voltou para Soares. Voltou para casa, num certo sentido.
Entre 1992 e 99, na última página do DN, com escrita tão clara que chegava a ser luminosa e tão forte que não nos deixava iguais, continuaria a dizer-nos “que era preciso o que era preciso”.
5. Um itinerário geográfico, cívico, intelectual, político, sentimental, só possível porque, dizia-me ele, “fez tudo, sempre, de boa fé” e viveu essas vidas com uma imensa “inocência”.
E o passado, perguntava-lhe eu às vezes, tanta coisa, tanta vida? “Soube, mas já esqueci”, murmurava ele apenas, deixando o olhar perder-se em brumas inconfessáveis. Dizia-me que tivera “sorte, privilégios e recompensas”. Quando largou cargos e encargos, queria escrever as memórias mas “ainda queria mais, se pudesse, escrever uma peça de teatro” que me detalhou com surpreendente júbilo. Intitular-se-ia “O Quarto de Cama” e ele estava entusiasmado com a ideia: “É uma peça passada nos dias de hoje, com quatro personagens, dois casais da mesma geração, representados pelos mesmos actores, que em dois quartos de cama, instalados num palco giratório, repetem as mesmas cenas com resultados muito diferentes. Em função da inocência ou da não inocência — e cá está o problema da inocência outra vez… — dos personagens. Tenho muita vontade de a escrever, é pelo menos aquilo em que penso com mais interesse”.
Não pôde escrever nem uma coisa nem outra porque o dia e a hora vieram antes. Mas, isso, ele sabia que não sabia.
6. Não sei se o Victor queria que o percebessem, por isso o mais natural é que para cada um haja o seu Victor. O meu é este que hoje aqui deixo: um solitário cavaleiro de cristal, desencantado e patriota.
Texto lido por Maria João Avillez no lançamento do livro “Na prática a teoria é outra” (Dom Quixote-Leya), que reúne as crónicas de Victor Cunha Rego.



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Quem são, afinal, os maus da fita?


As imagens que nos são mostradas, de crianças retiradas de escombros, de sofrimentos sem dúvida inenarráveis, vêm dar razão a Marisa Matias que ataca EUA, a França e o RU por se terem coligado atacando com mísseis a Síria, contra um Assad que a Rússia protege, e que não se cansa de retaliar o seu povo rebelde.
Nunca mais, de facto, ouvi falar dos jihadistas, a opinião ocidental calou-se com esses, que praticam o crime em nome da religião. O que se dizia dos jihadistas deixou de ter relevância no nosso jornalismo piedoso, agora assestando as suas baterias, como Marisa, nos ocidentais desejosos de protagonismo.
O artigo de Marisa Matias aparenta os bons sentimentos do costume esquerdista, e tem razão, que as imagens de atropelo sírio destruidor são de horror. Mas, como afirmam alguns comentadores, a sua imparcialidade peca por omissão de responsáveis. Por isso, dou a palavra aos seus comentadores, e termino com um artigo sobre Bashar al-Assad, extraído da Internet, que de modo nenhum o engloba no rol dos grandes criminosos do poder. Aliás, a sua figura serena julgo que atrai as simpatias gerais, e a própria Marisa, talvez por o saber protegido por Putin, o preserva da sua crítica, preferindo pôr a ridículo os três parceiros ocidentais, ao que parece, desejosos de saliência política ultimamente em  déficit, por razões políticas ou de arrogância apenas. Marisa não lhes reconhece bondade no gesto atacante, o povo sírio continua a ser destruído, ao que parece por um Assad apoiado na Rússia, refractários ambos ao terrorismo.
Mas os comentários sobre o artigo de Marisa são elucidativos da sua parcialidade analítica, a mesma que observamos nas suas “irmãs” e irmãos em alma.
OPINIÃO
Ninguém quer saber da Síria
O único lado que há para defender é mesmo o do povo sírio. O mundo está a ser comandado por loucos. Se aceitarmos fazer-lhes companhia, somos cúmplices.
MARISA MATIAS
PÚBLICO, 17 de Abril de 2018
O recente lançamento de 100 mísseis sobre a Síria, a mando dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido, é apenas mais um triste episódio da tragédia que se abateu sobre o povo sírio. Não faltaram as vozes que ecoaram: “finalmente uma resposta”. Nada mais errado. O ataque de mísseis nada resolve a adia a solução política e diplomática que o povo sírio há tanto tempo merece. Repudiar este ataque não é em nada sinónimo de apoiar a política de Assad ou de não querer derrotar o terrorismo na região. Repudiar e condenar este ataque tem a mesma importância que repudiar e condenar o uso de armas químicas ou os sucessivos ataques contra o povo sírio. Nesta história, não há lideranças boas e más. São todas más.
A guerra alimenta-se a si própria. Trump enfrenta problemas nos Estados Unidos com as investigações que o FBI continua a conduzir a seu respeito e com a sua queda de popularidade, Theresa May enfrenta problemas com as consequências e as negociações do Brexit, Macron enfrenta problemas com os trabalhadores franceses e com a sua própria incapacidade política. Três líderes fragilizados nos seus países resolveram, sozinhos, que dar seguimento à tragédia síria seria o seu principal desígnio. Não consultaram nenhum dos seus respectivos órgãos de soberania - fazendo da democracia um detalhe do passado - e ridicularizaram de uma assentada os esforços das Nações Unidas e do seu Secretário-Geral, António Guterres. Só a ingenuidade pode permitir pensar que o objectivo é a paz na Síria. Se o objectivo fosse a paz, onde estiveram e o que têm feito nas Conversações de Genebra lideradas pelas Nações Unidas e pelo seu representante Staffan de Mistura? Se o objectivo fosse a paz, onde estiveram e o que fizeram aquando da Cimeira de Astana? Se o objectivo fosse a paz, onde estiveram e o que fizeram na Conferência de Sochi, cujo objectivo era precisamente um plano para a paz e os britânicos boicotaram? Se o objectivo fosse a paz, por que razão estes países, que são das maiores potências de armamento mundial, se recusaram a suspender a venda de armamento para os países que alimentaram e alimentam o terrorismo?
Há pouco tempo, Donald Trump decidiu retirar as tropas americanas da Síria, chegando mesmo a declarar que se a Arábia Saudita as quisesse manter que as pagasse. Mas, entretanto, contratou John Bolton para seu conselheiro (sim, o mesmo de Bush e um dos "ideólogos" da guerra do Iraque) e conversou com Macron. Tudo mudou, uma vez mais. Como já referi, a guerra alimenta-se da guerra e estes três líderes estão a precisar de “mostrar quem manda”.
A posição da União Europeia foi igualmente penosa. Da Comissão ao Parlamento, declaram-se intenções de que a “Europa deve falar a uma só voz”. Curiosamente, ou não, a União Europeia é - e foi na hora da decisão - absolutamente irrelevante e daí a tentativa desesperada de não ficar de fora de uma fotografia por muito má que ela seja. Os líderes europeus perceberam, mais uma vez, que ninguém lhes liga nenhuma.
Uma das tragédias da Síria é estar no sítio onde está. É ponto de passagem de muitos interesses e as grandes potências tanto mundiais como regionais querem ocupar o “caminho” que por aí passa. Após 2011, e na sequência das sucessivas revoltas que tiveram lugar nos países do Magreb e do Maxerreque, poderia apostar-se que a Síria seria um dos países onde mais facilmente se encontrariam soluções políticas. Não foi assim. Assad mandou disparar contra o seu povo, todos os actores internacionais quiseram tomar partido e armou-se até aos dentes todo o tipo de grupos, reemergindo em força o terrorismo. Morreram centenas de milhares de pessoas, milhões tiveram que fugir. Na altura em que foi preciso demonstrar solidariedade com as pessoas que fugiam à guerra e ao terrorismo, a União Europeia e as grandes potências internacionais ditas democráticas e defensoras da Carta dos Direitos Humanos viraram a cara. Como se nada fosse, permitiram que se produzisse a maior crise humanitária de refugiados da história. As pessoas que se viram forçadas a deixar as suas casas foram ainda usadas por muitos dos países ditos democráticos e defensores dos direitos humanos para acicatar o discurso do ódio, do racismo, da xenofobia. Quando mais precisaram, ninguém quis saber dos sírios. Como hoje. Quem se levanta para aplaudir uma clara violação do direito internacional continua a não querer saber do povo sírio.
É preciso ter coragem e força de condenar este ataque, a mesma força e coragem que alguns têm tido para condenar a acção de Bashar Al Assad e da Rússia. O único lado que há para defender é mesmo o do povo sírio. O mundo está a ser comandado por loucos. Se aceitarmos fazer-lhes companhia, somos cúmplices.

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OPINIÃO
Ninguém quer saber da Síria
O único lado que há para defender é mesmo o do povo sírio. O mundo está a ser comandado por loucos. Se aceitarmos fazer-lhes companhia, somos cúmplices.
MARISA MATIAS
PÚBLICO, 17 de Abril de 2018
O recente lançamento de 100 mísseis sobre a Síria, a mando dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido, é apenas mais um triste episódio da tragédia que se abateu sobre o povo sírio. Não faltaram as vozes que ecoaram: “finalmente uma resposta”. Nada mais errado. O ataque de mísseis nada resolve a adia a solução política e diplomática que o povo sírio há tanto tempo merece. Repudiar este ataque não é em nada sinónimo de apoiar a política de Assad ou de não querer derrotar o terrorismo na região. Repudiar e condenar este ataque tem a mesma importância que repudiar e condenar o uso de armas químicas ou os sucessivos ataques contra o povo sírio. Nesta história, não há lideranças boas e más. São todas más.
A guerra alimenta-se a si própria. Trump enfrenta problemas nos Estados Unidos com as investigações que o FBI continua a conduzir a seu respeito e com a sua queda de popularidade, Theresa May enfrenta problemas com as consequências e as negociações do Brexit, Macron enfrenta problemas com os trabalhadores franceses e com a sua própria incapacidade política. Três líderes fragilizados nos seus países resolveram, sozinhos, que dar seguimento à tragédia síria seria o seu principal desígnio. Não consultaram nenhum dos seus respectivos órgãos de soberania - fazendo da democracia um detalhe do passado - e ridicularizaram de uma assentada os esforços das Nações Unidas e do seu Secretário-Geral, António Guterres. Só a ingenuidade pode permitir pensar que o objectivo é a paz na Síria. Se o objectivo fosse a paz, onde estiveram e o que têm feito nas Conversações de Genebra lideradas pelas Nações Unidas e pelo seu representante Staffan de Mistura? Se o objectivo fosse a paz, onde estiveram e o que fizeram aquando da Cimeira de Astana? Se o objectivo fosse a paz, onde estiveram e o que fizeram na Conferência de Sochi, cujo objectivo era precisamente um plano para a paz e os britânicos boicotaram? Se o objectivo fosse a paz, por que razão estes países, que são das maiores potências de armamento mundial, se recusaram a suspender a venda de armamento para os países que alimentaram e alimentam o terrorismo?
Há pouco tempo, Donald Trump decidiu retirar as tropas americanas da Síria, chegando mesmo a declarar que se a Arábia Saudita as quisesse manter que as pagasse. Mas, entretanto, contratou John Bolton para seu conselheiro (sim, o mesmo de Bush e um dos "ideólogos" da guerra do Iraque) e conversou com Macron. Tudo mudou, uma vez mais. Como já referi, a guerra alimenta-se da guerra e estes três líderes estão a precisar de “mostrar quem manda”.
A posição da União Europeia foi igualmente penosa. Da Comissão ao Parlamento, declaram-se intenções de que a “Europa deve falar a uma só voz”. Curiosamente, ou não, a União Europeia é - e foi na hora da decisão - absolutamente irrelevante e daí a tentativa desesperada de não ficar de fora de uma fotografia por muito má que ela seja. Os líderes europeus perceberam, mais uma vez, que ninguém lhes liga nenhuma.
Uma das tragédias da Síria é estar no sítio onde está. É ponto de passagem de muitos interesses e as grandes potências tanto mundiais como regionais querem ocupar o “caminho” que por aí passa. Após 2011, e na sequência das sucessivas revoltas que tiveram lugar nos países do Magreb e do Maxerreque, poderia apostar-se que a Síria seria um dos países onde mais facilmente se encontrariam soluções políticas. Não foi assim. Assad mandou disparar contra o seu povo, todos os actores internacionais quiseram tomar partido e armou-se até aos dentes todo o tipo de grupos, reemergindo em força o terrorismo. Morreram centenas de milhares de pessoas, milhões tiveram que fugir. Na altura em que foi preciso demonstrar solidariedade com as pessoas que fugiam à guerra e ao terrorismo, a União Europeia e as grandes potências internacionais ditas democráticas e defensoras da Carta dos Direitos Humanos viraram a cara. Como se nada fosse, permitiram que se produzisse a maior crise humanitária de refugiados da história. As pessoas que se viram forçadas a deixar as suas casas foram ainda usadas por muitos dos países ditos democráticos e defensores dos direitos humanos para acicatar o discurso do ódio, do racismo, da xenofobia. Quando mais precisaram, ninguém quis saber dos sírios. Como hoje. Quem se levanta para aplaudir uma clara violação do direito internacional continua a não querer saber do povo sírio.
É preciso ter coragem e força de condenar este ataque, a mesma força e coragem que alguns têm tido para condenar a acção de Bashar Al Assad e da Rússia. O único lado que há para defender é mesmo o do povo sírio. O mundo está a ser comandado por loucos. Se aceitarmos fazer-lhes companhia, somos cúmplices.

Comentários:
Portugal 18.04.2018:  A autora repudia um ataque que não provocou vitimas e atingiu apenas objetivos militares de um miserável regime assassino. Significativo.
  17.04.2018: Bem, até certo ponto acho que tem razão!... Atualmente os únicos rebeldes sírios na Síria são os do YPG, que são apoiados pelos americanos, russos até por Assad... Tudo o resto são mercenários jiadistas contratados pelos países ocidentais... Mas a razão principal desta guerra não são os ataques com gases ou coisa que o valha...  Estão-se borrifando para o povo sírio... A Arábia Saudita quer acabar com Assad porque quer fazer um pipeline para o mediterrâneo... Por outro lado, os russos já o estão a fazer através da Turquia e por isso têm as bases em Latakia... Os americanos e os rebeldes são pagos pela Arábia Saudita, para fazerem o trabalho... Mas os russos já estão adiantados.... Vamos ver como isto acaba...a ideia dos russos é uma Síria federal com zonas autónomas... Os americanos não têm ideias!.
  17.04.2018: A opinião de uma troll russa que só serve para encher chouriços, nem me dou ao trabalho de ler . . . aposto que o conteúdo é Ocidentais malvados que matam sírios sem dó nem piedade (apesar dos misseis não terem provocado mortos) e a santificação do Putin e companhia que despejam toneladas de bombas em cima de sírios inocentes matando centenas por dia . . .
18.04.2018: Pelos vistos dás-te ao trabalho de fazer comentários sem ler. Mais valia estares quieto. Santa ignorância....
17.04.2018: Extraordinário! Um artigo de opinião sobre a Síria e em nenhuma linha encontramos a Rússia e os interesses russos; o Irão e os interesses iranianos; etc..... Este é um exemplo de imparcialidade! Há que aprender se queremos estar na onda! Dá prazer bater na Europa e, ainda por cima, sendo-se eurodeputada!
Portugal 18.04.2018 : De facto, extraordinário pela negativa. O nome da Rússia aparece uma única vez: «É preciso ter coragem e força de condenar este ataque, a mesma força e coragem que alguns têm tido para condenar a acção de Bashar Al Assad e da Rússia.»
  Portugal 17.04.2018: Eu gosto da Marisa. Curiosamente, ela usa neste texto creio que quatro vezes a palavra “terrorismo” … vá lá… é que estou farto e cansado de em todos os textos dos opinadores que se dizem “especialistas” sobre a Síria, com milhares de palavras e centenas de parágrafos, nunca falarem em “terroristas”… São catadupas de narrativas manipuladoras e branqueadoras que omitem os “terroristas” e também o “povo”… esse povo ou essa população, esses opinadores sebentos e belicistas e encobridores dos terroristas só utilizam quando lhes dá jeito para demonizar os militares sírios que morrem que nem tordos a combaterem os terroristas.
Mas a Marisa foca e acentua o sofrimento da população no meio desta guerra de interesses globais sebentos e criminosos, e lá fala no terrorismo patrocinado pelas hipócritas “democracias” e seus aliados sem o qual não haveria guerra nem sofrimento. Muito bem Marisa.
Li ontem um artigo no Independent “Watching on as Islamist fighters are evacuated from war-torn Eastern Ghouta” de um reporter occidental que está no terreno… não está como a maioria sentado em Londres a reescrever e a reescrever vezes sem conta a narrativa dos patrocinadores dos terroristas, a aliança saudita/americana e seus aliados. Achei mais que curioso que ele descreve os “islamitas” que saíram de Ghouta nos últimos dias… vale a pena ler… e o mais curioso é que ele contou milhares e milhares desses barbudos de sandálias e metralhadora e pergunta: “Onde estava esta gente que nunca, nunca aparece nas fotos dos media ocidentais?”… sim, reparemos que os media ocidentais nunca falam em terroristas, nunca mostram fotos de terroristas e … há-os aos milhares e milhares ...
Diz o repórter que os terroristas exigem sempre nos acordos que não haja fotos, nem mesmo da sua saída e das suas famílias… de facto noto que dos milhares e milhares que saíram de Ghouta (talvez mais de 20 mil?) não há fotos nos media ocidentais, apenas uma ou outra imagem quase indefinida e se calhar captada às escondidas. Além de omitirem e apagarem os terroristas, os media ocidentais também apagam e omitem os civis que buscam a protecção dos militares sírios, cerca de 16 milhões ou mais… É obra! É obra os media de “referência” conseguirem omitir milhares e milhares de terroristas armados e milhões e milhões de civis sírios que fogem a esses terroristas. É obra!
17.04.2018: Caro joao, os media ocidentais também são peritos a omitir o armamento dos terroristas. Com a libertação de Ghouta têm sido descobertas dezenas de caves onde os terroristas guardavam as suas munições. um verdadeiro arsenal de guerra, que causou muita mortandade à população de Damasco. As imagens estão disponíveis e são do domínio público mas os jornalistas ocidentais por motivos óbvios (propaganda) nunca nos trazem uma imagem das bombas e mísseis que os terroristas tinham na sua posse.
  18.04.2018:  "têm sido descobertos dezenas de caves onde os terroristas guardavam as suas munições." - E esses terroristas são os Capacetes brancos, pois eram eles que ocupavam essas instalações.

Bashar al-Assad
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Bashar Hafez (Damasco11 de setembro de 1965) é um político sírio e o atual presidente de seu país e Secretário Geral do Partido Baath desde 17 de julho de 2000. Sucedeu a seu pai, Hafez al-Assad, que governou por 30 anos até sua morte.
Al-Assad formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Damasco em 1988, e começou a exercer a profissão no exército. Quatro anos mais tarde, ele participou de estudos de pós-graduação do Hospital Ocidental Eye, em Londres, especializando-se em oftalmologia. Em 1994, depois de seu irmão mais velho, Bassel al-Assad, ser morto em um acidente de carro, Bashar foi chamado para a Síria para assumir o seu papel como herdeiro aparente. Ele entrou na academia militar, assumiu o comando da ocupação da Síria no Líbano em 1998. Em dezembro de 2000, Assad se casou com Asma al-Assad, nascida Akhras. Al-Assad foi reconfirmado pelo eleitorado nacional como o presidente da Síria em 2000 e 2007, após o Conselho Popular da Síria ter votado para propor o titular de cada vez.

Inicialmente visto pela comunidade nacional e internacional como um potencial reformador, essas expectativas cessaram quando ele ordenou uma repressão em massa e cercos militares contra manifestantes pró-rebeldes em meio a uma guerra civil recente, descrito por alguns comentaristas como relacionados ao amplo movimento da Primavera Árabe. Posteriormente, a renúncia de al-Assad da presidência foi pedida por grande parte da oposição doméstica sunita do país, pelos Estados Unidos, pelo Canadá, pela União Europeia e pelos Estados membros da Liga Árabe. Ele pertence à seita minoritária alauita e seu governo tem sido descrito como secular. 

EDITORIAIS PONTUAIS



Por cá – entre notícias dos jornais mais de mazelas do que de êxitos – na Educação, na Saúde, na penúria em vários níveis - o nosso Bloco abespinhado - na referência pontual de David Dinis na sua Editorial - a um Ministro das Finanças – Mário Centeno - irredutível e insensível aos doestos da sua esquerda recalcitrante, que DD equipara à zanga passada de Paulo Portas em tempo de Passos Coelho e de Vítor Gaspar. Rodam e mudam os tempos e as linhas ideológicas governativas - os sentimentos, nas suas impotências, se equiparam, mau grado a distanciação ideológica. Paralelo a merecer reacção de queda do Carmo e Trindade, dos visados, ou até de mão no nariz, as democracias que pregam o amor e as igualdades mais separando de que aproximando os homens.
Lá por fora, o mundo em revolução, na referência das três Editoriais seguintes: a de Nuno Pacheco sobre uma nova Cuba em previsão, talvez falaciosa, de alguma mudança, com a mudança de chefe partidário, embora do mesmo partido, mas mais jovem e mais sério, segundo informa o articulista. Não deixa de ser uma previsão simpática, para quem é do tempo dos descalabros que a revolução comunista trouxe a esse mundo cubano e a outros mundos em que ele se imiscuiu como porta-voz de uma nova bandeira tripudiante. As de Diogo Queiroz de Andrade, a mais recente sobre Trump e os seus escândalos, na denúncia perversa de James Camey, que o equipara maldosamente a um chefe da Máfia, num livro seu recente. A segunda Editorial de DQA, embora de execução anterior à primeira, é, todavia, a mais importante, pela denúncia dos maquiavelismos que tornam os povos joguetes dos seus governantes criminosos – caso da Síria – e os outros povos se envolvem em aparência de apoio ou desagravo de oportunismos sem consistência, enquanto a China vai minando firmemente, do Oriente ao Ocidente, em resposta liminar à “rota da seda”...
I – EDITORIAL: A montanha pariu um Bloco?
Se há pessoa que percebe pelo que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa estão a passar é Paulo Portas.
DAVID DINIS                             PÚBLICO, 16 de Abril de 2018
Se há pessoa que percebe o que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa estão a passar é Paulo Portas. Lá nos idos anos da troika, a luta era com outro ministro das Finanças, Vítor Gaspar. Havia, também nessa altura, linhas vermelhas traçadas em público. Havia deputados do CDS a protestar, reclamando que era preciso mudar os orçamentos, para que se tornassem menos pesados para os portugueses.  A resposta, essa, era sempre igual. Paulo Portas poderá contar, por exemplo, como uma vez, num conselho de ministros, Gaspar fechou a reunião pedindo que cada um dos ministros enviassem para as Finanças ideias alternativas, que todos voltariam a discutir numa última sessão do conselho. Quando ela chegou, Gaspar explicou: as ideias não tinham sido incluídas, porque tinha acabado o prazo de entrega — os técnicos do ministério tinham de fechar as contas e não havia tempo para as refazer. Na verdade, Gaspar nunca mexia. Fingia, para a coreografia. 
Agora, o Gaspar é Centeno. Com a sorte de a Europa não estar em recessão, com a bênção de a devolução de rendimentos estar a sentir-se, com a vantagem de já ter acesso a financiamento. Mas com o azar de ser ministro das Finanças num país que ainda tem uma dívida insuportável, umas contas difíceis de gerir e um Estado a cair — fruto de muitos anos de desinvestimento. E Centeno, claro, faz como Gaspar: fixa os objectivos, traça as metas, não sai do rumo.
Catarina e Jerónimo estão, pois, como Paulo Portas. Cansados de Centeno, aumentam os protestos. E Centeno está como Gaspar, lembrando-nos como o pior já passou, mas como temos de fazer para que não volte.
No CDS, vimos como essa luta acabou: Portas demitiu-se, voltou atrás, assumindo um compromisso que se chama governação. A diferença para Catarina é que o Bloco ainda não chegou ao momento — mas está a ficar perto dele.
Na apresentação deste Programa de Estabilidade, Centeno empurrou o Bloco para uma decisão, tratando-o já como oposição e a sua alternativa como “pesadelo”. O Bloco respondeu com uma resolução que vai a votos, propondo um défice maior e que se usem os 800 milhões de “sobra” nos serviços públicos. 
Sabendo que a resolução será chumbada, pode parecer uma saída de sendeiro. Mas se nos lembrarmos que, nesse voto, ela pode juntar PS e PSD, pode ser bastante mais do que isso: o Bloco a empurrar o PS para uma clarificação, a devolvê-lo ao espaço onde antes esteve. Com consequências para os próximos meses, com um aviso para o último Orçamento. 
No fundo, pode ser Catarina a dizer que se lembra do que aconteceu com Paulo Portas. E o Bloco a dizer que não se vê como um CDS. Será? 
II – EDITORIAL:    Cuba, a leveza de uma transição anunciada
Aparentemente, em Cuba pouco ou nada mudará. Mas nem sempre as aparências correspondem ao que, por detrás delas, em silêncio germina.
NUNO PACHECO                     PÚBLICO, 18 de Abril de 2018
A era Castro terminou em Cuba? Só à superfície, embora essa “era Castro” já antes se dividisse em duas: aquela em que Fidel deteve directamente as rédeas do poder e a que, já com o seu irmão Raúl Castro a substituí-lo, foi encenando sinais de abertura, mais social que política. O que hoje sucederá é a substituição de Raul, já com 86 anos e a caminho dos 87 (que completará em Junho), por Miguel Díaz-Canel Bermúdez, que fará 58 anos logo após a posse, no dia 20 de Abril. Porém, a única surpresa deste processo foi a antecipação, para hoje, do arranque dos trabalhos parlamentares em que tal mudança se consumará. Porque tudo o resto era previsível. Díaz-Canel, membro do politburo do Partido Comunista de Cuba e, desde 1997, primeiro vice-presidente do Conselho de Estado, é um homem do aparelho (no qual foi ascendendo com segurança ao longo dos anos) e já era dado como “natural” sucessor de Raúl Castro, assim como este era visto como sucessor óbvio do irmão. Além disso, Raúl continua à frente do Partido Comunista, onde se decide o rumo das políticas estatais, pelo que Díaz-Canel, abaixo dele na hierarquia, certamente se lhe submeterá.
Há, apesar de tudo, sinais de que algo possa mudar de forma mais acelerada agora. O primeiro é a urgência numa série de medidas (entre as quais avulta a reforma monetária) adiadas por desleixo, perante a bonomia de Obama, mas que agora, perante a hostilidade de Trump, devem ser levadas mais a sério. O segundo é o carácter do novo presidente que, embora refém do Partido Comunista que co-lidera, já nasceu após a revolução cubana (um ano depois, em 1960), e, segundo os seus conterrâneos de Santa Clara, onde nasceu, “é um homem de palavra” e exibe os traços de carácter dos campesinos, bem diferente dos habaneros, ou seja, será simples e humilde, afável mas reservado, trabalhador, dedicado e solidário. Numa sociedade como a cubana, ainda fortemente presa aos ditames da política não-democrática (a própria “escolha” de Díaz-Canel é fictícia, os deputados do partido único só vão ratificar uma decisão já tomada por Raúl Castro), isto pode servir de pouco. Mas com a pressão social, há muito detectada, para que sejam feitas mudanças, o carácter de quem preside pode acabar por beneficiar novos rumos à história. A transição anunciada é, do ponto de vista político, de uma desmotivadora leveza. E aparentemente pouco ou nada mudará. Mas as aparências nem sempre correspondem ao que, por detrás delas, em silêncio germina.
III – EDITORIAL                      O CERCO A TRUMP
O presidente americano está num beco cada vez mais apertado e o livro do ex-director do FBI vem criar novos problemas
                         PÚBLICO,  17 de Abril de 2018 
Mesmo em tempos relativistas como estes que vivemos, comparar um presidente em exercício a um chefe da máfia não é de somenos. Mas foi exactamente isso que fez o ex-director do FBI James Comey, no livro que fica hoje à venda e nas entrevistas que tem vindo a dar.
James Comey será a testemunha-chave do processo que o procurador especial está a desenvolver contra o Presidente. Mas é importante esclarecer que Comey não é nenhum santo: com um ego de um tamanho quase comparável ao do actual Presidente, este é mesmo homem que não teve problemas em denunciar uma averiguação contra Hillary Clinton ao mesmo tempo que silenciou as investigações contra Trump a poucos dias das eleições. O antigo director do FBI escreveu este livro por despeito face à sua demissão – porque se essa não tivesse ocorrido o funcionário público continuaria seguramente calado no que toca a estas revelações.
E é alguém que não se consegue controlar ao ponto de evitar tecer considerações sobre a cor da pele de Trump, o tamanho das suas mãos ou o comprimento da gravata. A quebra de solidariedade institucional justificada pela megalomania e pelo ódio não fazem muito pela credibilidade do conteúdo, mas este continua a ser grave. E é o produto directo do estilo de poder que Donald Trump cultiva, em que fala mais alto quem mais pode – e em que nem os cinquenta milhões de seguidores no Twitter podem concorrer com milhares de notícias relacionadas com o livro polémico.
O presidente americano está num beco cada vez mais apertado: ou deixa que a investigação se arraste e ponha em causa todos os seus aliados e familiares e no limite o atire para uma prisão, ou despede o procurador especial e arrisca levantar uma onda de indignação que pode virar o próprio partido Republicano contra ele, à semelhança do que aconteceu com Richard Nixon. É uma escolha entre duas opções demasiado más, mas seja o que for que aconteça não haverá maneira de manter a experiência americana de democracia sem mácula. Seria sensato que algo mudasse nas lógicas de financiamento das campanhas e no sistema político, de forma a reduzir a extrema dominação bipartidária. a nível nacional. Afirmar que a coisa não está a correr bem é o mínimo. Este é mais um paradoxo dos extraordinários Estados Unidos, que se entregam a experiências extremas de democracia directa ao nível do poder local mas depois se colocam num modelo oligárquico
IV- EDITORIAL:    Uma guerra de aparências
Estes bombardeamentos servem para fazer os líderes ocidentais dormir melhor à noite, mas não ajudam ninguém.
DIOGO QUEIROZ DE ANDRADE               PÚBLICO, 15 de Abril de 2018,
Os 110 mísseis que caíram em Damasco serviram para marcar uma posição contida. O Presidente americano vai continuar a julgar que gere o planeta pela força dos tweets, os franceses e ingleses vão continuar a julgar-se importantes, mas, no fundo, nada vai realmente mudar: Moscovo vai manter a retórica firme, mas não vai fazer nada para retaliar; Assad vai continuar alegremente a massacrar quem lhe apetece, com a habitual tranquilidade soberana; os chefes de Estado ocidentais vão continuar a engrossar a voz sem que façam nada de substancial; e os cidadãos sírios vão continuar a ser assassinados pelo líder que os oprime.
A verdade é que o Médio Oriente se mantém como palco de conflitos alheios. E 30 anos depois do fim da Guerra Fria continuam a disputar-se guerras por procuração e por encomenda — sempre com preocupações de não afrontar demasiado os adversários do momento. Porque um conflito diplomático pode ser aceitável, uma guerra já não. O alerta de Guterres faz sentido: uma Guerra Fria sem mecanismos nem regras é um risco acrescido no caminho para um conflito mundial. A globalização que elimina fronteiras continua a acicatar medos e ódios antigos, forçando demonstrações de força mais ou menos bacocas. A Rússia vai tomando poder onde consegue, de acordo com as suas limitações, para aproveitar os restos de uma corrida ao armamento que já perdeu. A China domina o que lhe apetece e vai espalhando os seus interesses pelo planeta, sempre olhando muito mais para a frente e sem preocupações mesquinhas como essas coisas dos direitos humanos. A Europa ainda não tem, nem é, uma política coerente. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estão enterrados até aos joelhos numa guerra que nem Bush, nem Obama nem Trump entenderam como travar. E os líderes do Ocidente vão-se congratulando com palmadinhas nas costas por atirarem mais uns mísseis para uma nação árabe, sem consequências reais para os poderes que vão vigorando. Assim até dizem que fazem alguma coisa, sem fazerem o suficiente que perturbe verdadeiramente Assad ou o amigo russo. Pois seria melhor que das duas uma: ou não fizessem nada, ou assumissem que o ditador sírio é um louco à escala de Pol Pot ou Idi Amin e que precisava de ser travado. Mas isso já seria pedir mesmo de mais. Por isso continuamos assim, com meias políticas que não servem a ninguém, muito menos aos povos que levam com estes déspotas.