domingo, 25 de junho de 2017

De antologia


Talvez como remate. Mas não.

Luto nacional
OBSEVADOR, 24/6/17
…hopes expire of a low dishonest decade…

A primeira obrigação do Estado é garantir a segurança física dos cidadãos. Em Pedrógão Grande o Estado Português não a cumpriu e mostrou assim a sua fraqueza e a sua essencial ilegitimidade. Na sopa de aletria da meia dúzia de agências ou subagências governamentais que intervieram no caso, ninguém se entendia sobre nada. A que horas tinha começado o fogo e porque tinha começado? Porque não se tinha fechado a tempo a chamada “estrada da morte”? Porque não se tinham evacuado as pessoas que deviam ser evacuadas? Tinha caído um avião ali, a uns quilómetros, ou não tinha caído um avião? Existia um jornalista fantasma ou não existia? O que transpirava desta confusão eram informações contraditórias das várias autoridades envolvidas, todas visivelmente preocupadas em sacudir a água do capote para o parceiro do lado. A cena foi deprimente e aterradora. E no meio do caos, para o completar, desembarcaram o primeiro-ministro e o Presidente da República, com fatos de bombeiros, que não iam lá fazer coisa alguma de útil ou louvável, excepto evidentemente exibir a sua alma, exercício que ninguém lhes pedira ou agradecia.
Este espectáculo, pelo mortos e pelo sofrimento dos que não morreram, comoveu o país. Mas o mesmo país habitualmente assiste em paz de espírito às mais graves demonstrações da incompetência e degradação do Estado: investigações criminais que duram anos e anos (como a de Oliveira e Costa e, a seguir, a de Sócrates, a de Ricardo Salgado e as de várias dezenas de suspeitos menores); julgamentos sem fim; a maior dívida da história, que vai crescendo; políticas que se atenuam, interrompem ou simplesmente se metem na gaveta para não ofender parcelas ínfimas do eleitorado; actos egrégios de nepotismo e compadrio; a corrupção que se manifesta ou descobre em cada recanto da vida corrente e da vida pública nacional. O parlamento, depois de lamentar a infindável sequência de comissões de inquérito para prevenir incêndios, que não chegaram a parte alguma, nomeou outra comissão de inquérito; e as “personalidades” que roubaram milhões continuam a passear tranquilamente pelas ruas.
A grande pergunta é simples: porque havia de aparecer em Pedrógão Grande, por milagre flagrante do Altíssimo, um Estado previdente, eficaz e responsável? Não apareceu; e, como de costume, os mais fracos pagaram a conta. Seria bom que fizéssemos mais três dias de luto. Por nós.


Não somos auto-suficientes


Parece que sem os EU não formamos uma U.E. em condições. Vicente Jorge Silva e Teresa de Sousa explicam, a democracia exige camaradagem e força económica e sem o apoio americano o futuro parece enevoado, na opinião deles. O que vale é que Donald Trump muda facilmente de opinião, o que era não passa a ser sim, o que era sim poderá ser não a seguir, como também já escrevera Torga, em 1934, na sua PRECE:Onde era sim digo não, / Onde era não digo sim”. Talvez Trump tenha lido Torga, esperemos que vá mudando.

Opinião
Casa arrumada, trancas à porta
Se os pesos e contrapesos da democracia americana não funcionarem rapidamente, resta-nos a desordem mundial encarnada pelo actual Presidente. Por isso, mesmo com a casa arrumada, trancas à porta.
Vicente Jorge Silva
Público, 28 de Maio de 2017
A semana que passou foi marcada, sobretudo, pelo atentado terrorista em Manchester e a primeira viagem internacional de Trump, iniciada festivamente na Arábia Saudita. Ou seja, no país que funciona como inspirador ideológico e sustentáculo financeiro do radicalismo muçulmano sunita, em guerra santa contra os irmãos inimigos xiitas encabeçados pelo Irão (onde o candidato presidencial mais moderado e aberto ao exterior ganhou há dias as eleições contra o representante dos ultraconservadores).
Entretanto, vimos Portugal arrumar a casa – apesar dos engulhos da oposição – com a saída do Procedimento por Défice Excessivo, o que proporcionou ao inefável Schauble a mesquinha ironia de comparar Centeno com Ronaldo. Aliás, por causa de Schauble e do seu duelo com o FMI, a Grécia continua refém de um fardo financeiro insuportável e de uma dívida impagável (espectro que igualmente nos persegue, embora de forma menos asfixiante, apesar dos sinais estimulantes da nossa economia). A esperança de um novo horizonte para a (re)construção europeia, estimulada pela eleição de Macron em França, parece assim suspensa de demasiadas incógnitas, em especial das próximas legislativas na Alemanha – em que Merkel aparece já como clara favorita contra o social-democrata Schulz e tendo em pano de fundo a castigadora sombra de Schauble.
Em Manchester, um jovem britânico de origem líbia foi o bombista suicida do atentado contra crianças e adolescentes classificados de «cruzados» pelo Daesh. Mais uma «tragédia europeia», como a qualificou o Le Monde, o que não deixa de constituir uma trágica ironia nestes tempos de campanha eleitoral em que a primeira-ministra Theresa May pretende precisamente consagrar a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Mas para tornar o cenário ainda mais bizarro, o líder trabalhista Jeremy Corbyn não hesitou em encontrar álibis para o acto de barbárie contra os jovens «cruzados» britânicos, invocando as guerras em que o Reino Unido se envolveu no Médio Oriente. Ora, a provar que as sentenças mais repulsivas não caem em saco roto (vide Trump), Corbyn já parece ter recuperado parcialmente da sua abissal desvantagem eleitoral em relação a May. O ensimesmamento britânico não se ficou pelo Brexit.
Mas faltava mesmo Trump – crescentemente perseguido pelas suspeitas de cumplicidade com a Rússia de Putin, que ele tenta disfarçar com uma subtileza de elefante em loja de porcelanas – para carregar ainda mais nas tintas. Não por acaso, foi na Arábia Saudita que apelou ao combate ao terrorismo como se os seus anfitriões não fossem, precisamente, protagonistas de uma das correntes incentivadoras do extremismo islâmico sunita (e de que o Daesh é o braço armado mais radical).
O perigo maior, segundo Trump, vem do xiismo de inspiração iraniana, apesar dos sinais de moderação transmitidos pelo reeleito Presidente Rohani, quase um modelo de democracia por comparação com o autoritarismo feudal saudita. Eis assim Trump no seu papel favorito de incendiário das tensões e agente do caos. No fim da sua viagem à Europa e em reunião do G7, empenhou-se em crispar as relações com os aliados e rasgar a agenda tão arduamente negociada sobre as alterações climáticas.
A pretexto das divergências sobre o financiamento da NATOem que lhe assiste, reconheça-se, alguma razão – foi o próprio princípio de solidariedade entre os membros da Aliança que Trump fez questão de varrer para debaixo do tapete. Ele vê o mundo como uma abstracção, em que apenas conta a América do contrabando negocial e das alianças subterrâneas (ou nem tanto…) com parceiros impróprios para um convívio civilizado. Se os pesos e contrapesos da democracia americana não funcionarem rapidamente, resta-nos a desordem mundial encarnada pelo actual Presidente. Por isso, mesmo com a casa arrumada, trancas à porta. Jornalista

OPINIÃO
Não é o dinheiro, são os valores
Teresa de Sousa
A Europa descansou demasiado na protecção americana. Podia ter acordado mais cedo.
Público, 28 de Maio de 2017
1. Muita gente escreveu que a eleição de Donald Trump seria uma ameaça à solidez do Ocidente, numa altura em que, mais do que nunca, a sua influência e as suas regras são desafiadas por novos pólos de poder. Nessa altura, ninguém acreditava que Trump ganhasse as eleições. Ganhou. E o que se previa passou a estar à vista. O Presidente já aprendeu algumas coisas. Mas nada daquilo que é essencial na sua forma de ver o papel da América no mundo parece ter mudado significativamente. A cimeira da NATO foi mais uma prova. O seu périplo pelo Médio Oriente também. Ontem, no G7, em Taormina, um tweet matinal sobre a NATO voltou a deixar muita gente perplexa: “O dinheiro já está a entrar”. Se separarmos as várias “frentes” da sua política externa, podemos chegar à conclusão de que Trump até tem alguma razão em algumas delas. É uma leitura comum a muitas das análises da sua primeira visita ao estrangeiro. Dois exemplos. Quando o Presidente exige com palavras ameaçadoras que os europeus têm de passar a pagar muito mais pela sua própria defesa, não só tem razão como está em linha com as exigências dos seus antecessores. Quando Trump acusa a Alemanha de gerar um gigantesco excedente comercial que prejudica o crescimento das outras economias desenvolvidas, é fácil de concluir que não é só ele a denunciar. O último foi Emmanuel Macron.

2. Seria, no entanto, um erro reduzir o significado das suas decisões à imprevisibilidade de um Presidente visivelmente impreparado para lidar com as questões internacionais, que estaria ainda em fase de aprendizagem. Para além da incoerência e da imprevisibilidade, Trump está a pôr em causa o mundo que a América construiu depois da II Guerra e os fundamentos da ordem liberal que criou. É aqui que entra a ideia de Ocidente. A aliança transatlântica, garantida pela NATO, significou desde a sua criação (1949) que a segurança europeia era inseparável da segurança americana. Foi assim durante a Guerra Fria. Continuou a ser na nova era da globalização e da emergência de novas potências não democráticas como a China, ou o regresso da Rússia nacionalista e agressiva. Os BRIC integravam também duas grandes democracias: o Brasil e a Índia. Mas o espírito que os unia era o desafio da hegemonia ocidental e não a partilha dos seus valores.
A NATO conseguiu responder a todos os desafios que se lhe foram colocando. Interveio nos Balcãs, na segunda metade dos anos 1990, para provar a sua razão de ser. Como dizia na altura o velho senador republicano Richard Lugar, “out of area or out of business”. Respondeu sem vacilar ao 11 de Setembro, colocando-se incondicionalmente ao lado da América. Sobreviveu ao unilateralismo de George W. Bush, que chegou a questionar a utilidade de uma aliança permanente. Recompôs-se da crise iraquiana, que a dividiu profundamente, muito mais depressa do que se previa. Com a nova desordem internacional e o mundo multipolar que desafia a pax americana, a ideia de Ocidente voltou a ser de uma enorme importância estratégica. Para conter o revisionismo russo, para conseguir integrar pacificamente a China e para fazer frente às novas formas de extremismo islâmico e de nacionalismo que tentam subverter as suas democracias.
A pergunta seguinte é simples: por que razão a aliança transatlântica sobreviveu às mudanças tectónica que o mundo está a viver, incluindo a sua poderosa aliança militar? Porque assentava no património comum dos valores da democracia liberal e da defesa dos direitos humanos, que via como universais, para além dos interesses comuns que ainda hoje partilha.
3. É a ruptura com este património comum que torna a presidência de Trump tão preocupante. Os valores não têm a mais leve ressonância na forma como olha para o mundo, e nem sequer se dá ao trabalho de recordá-los, mesmo que apenas por dever de ofício. Os pilares da relação transatlântica – a integração europeia e a indivisibilidade da segurança transatlântica – não lhe dizem nada. Se dúvidas restassem, bastaria olhar para os políticos europeus de quem gosta mais: Le Pen era a sua preferida até à semana passada, Farage o seu velho amigo, o "Brexit" uma ideia “maravilhosa” para acabar com a hegemonia alemã. Haja o que houver, vai ser difícil vê-lo condenar Putin e as suas agressões. O Presidente americano não tem uma ideologia. As suas ideias não correspondem nem ao património dos republicanos moderados, nem sequer ao Tea Party, que permitiu a sua ascensão para se ver derrotado por ele. É este o gap intransponível que afecta todas as suas decisões em matéria de relação com o mundo e as torna verdadeiramente perigosas.
4Por uma vez, a Europa apenas tem uma parte da culpa, porque não viu os sinais, até eles lhe entrarem pelos olhos dentro. Já mudou de agulha em matéria de aumento das suas despesas militares, que crescem desde 2014. Já percebeu até que ponto precisa da NATO neste novo mundo instável e perigoso que a rodeia. Nunca desejou tanto que os EUA continuassem a liderar o mundo como agora. A questão é saber se não será já tarde demais.
Com o fim da Guerra Fria, o arsenal nuclear e convencional soviético deixou de estar às portas de Berlim e de visar território americano. A redução das despesas militares foi uma consequência óbvia. A democracia expandia-se e a economia de mercado também. A Europa chegou a embriagar-se com este novo mundo, acreditando que poderia afirmar-se como a nova superpotência com capacidade para desafiar a América e equilibrar o seu poder. Acreditou que poderia dispensá-la nos Balcãs, quando a desagregação da Jugoslávia se transformou num trágico conflito. Quatro anos e milhares de mortos depois, teve de bater humildemente à porta da Casa Branca. A França e o Reino Unido responderam a esta humilhação, lançando em St. Malo (Chirac-Blair, 1999) um embrião de defesa comum. O que é que faltou? Primeiro, a divergência de fundo entre Londres e Paris sobre uma defesa europeia autónoma da NATO. Essa divergência acabou por ser ultrapassada, quando a França regressou à estrutura militar da Aliança, da qual De Gaulle a retirou em 1966. Depois, a incapacidade alemã de assumir as suas responsabilidades em matéria de segurança e defesa. Convém lembrar que, em 2011, na Líbia, Berlim esteve ao lado da China e da Rússia, abstendo-se na votação que permitiu a intervenção militar contra Kadhafi. Já mudou. Mas a Alemanha ainda não consegue ir para além do apoio logístico à França ou ao Reino Unido, mantendo muitas das limitações que a impedem de entrar em combate. Sem o Reino Unido, a defesa europeia, com dinheiro ou sem ele, limita-se à França e ao apoio, mais ou menos limitado, de alguns outros parceiros. É uma questão de dinheiro? Também é. Mas, antes de sê-lo, é uma questão de vontade política para pôr em comum as capacidades já existentes (e que não são assim tão poucas), mas que continuam a funcionar numa lógica totalmente nacional. A parte mais fácil é o financiamento, apesar da ortodoxia dos défices. Falta acrescentar que, durante muito tempo, foram os EUA que impediram a criação de uma defesa europeia, mesmo que no seio da NATO, preferindo lidar com uma dezena de aliados do que com um bloco europeu.
5. A Europa descansou demasiado na protecção americana. Podia ter acordado mais cedo. Quando Robert Gates, que chefiou o Pentágono no primeiro mandato de Obama, foi despedir-se a Bruxelas deixou um aviso claro como a água. Se a Europa não começar a fazer mais pela sua segurança, haverá um dia em que a opinião pública americana deixará de compreender a necessidade de garantir a segurança europeia. Gates tinha razão. Trump é o intérprete desse sentimento. A única coisa boa é que ainda não parece ser maioritário. Um estudo da Pew sobre a defesa colectiva mostra que 62% dos americanos consideram que os EUA devem ir em auxílio de um aliado vítima de uma agressão. Na Alemanha, há uma maioria que pensa exactamente o contrário.


sábado, 24 de junho de 2017

Raiva


Os artigos que seguem são bem reflexo do sentimento de raiva impotente contra uma calamidade em várias frentes, corporizada numa tragédia inesperada, decerto, e logo tratada de forma obscena, nas reportagens espectaculares por amantes do sensacionalismo, nos governantes sem pingo de vergonha, de pieguice balofa ou de táctica desresponsabilizadora, permitindo atribuir a um fenómeno de trovoada seca  repentina a responsabilidade exclusiva do incêndio descontrolado e imediato, para melhor desculpabilizar a distracção dos recursos humanos e  logísticos e os muitos interesses e inércia geral que estão na base dos crimes. Triste que assim seja, mas a maioria dos comentários que leio ao texto de Alberto Gonçalves mostram bem a falta de seriedade e compostura dos comentadores tão deselegantes e ocos quanto aquilo que condenam, de forma galhofeira e perversa, o que igualmente envergonha quem se dê ao trabalho de os ler para analisar o panorama intelectual e moral do povo a que pertencemos.
Alberto Gonçalves é objectivo, directo e feroz, sem mastigações de atenuação, revelando o clima de trafulhice, impunidade e palração cínica em que vivemos sob a batuta dos que governam, que de igual raiz provêm. Pedro Tamen assesta o dedo crítico, com igual ferocidade, sob a capa da ironia, num jornalismo primário a que não há estômago que resista.
Morrer entre brutos é triste
OBSERVADOR, 24/6/2017

Portugal não cede à baixa política, leia-se permite a impunidade geral. Portugal, repete-se, é uma nação muito forte, leia-se um recreio de oportunistas, desnorteados ao primeiro assomo da realidade.
Anteontem, o “Jornal de Notícias” recordava o “‘inferno’ idêntico ao de Pedrógão”, que “reduziu a cinzas cidade no Canadá”. Aconteceu em 2016, queimou 590 mil hectares e obrigou a evacuar Fort McMurray, uma cidade de 80 mil habitantes. O “JN” diz, provavelmente com razão, que “ninguém poderia prever” aquilo. O que o “JN” não diz é o número total de mortos. Digo eu: zero.
Ao invés dos abundantes especialistas em floresta que despontam por cá a cada Verão (ainda assim insuficientes para impedir a floresta de arder com empenho), acredito existirem fogos impossíveis de prever e quase impossíveis de controlar. Fortuita ou provocada, por árvore delinquente ou pirómano de aldeia, a destruição leva sempre vantagem. Embora Portugal queime de forma rara em regularidade e dimensão, às vezes há catástrofes devastadoras até em paragens desenvolvidas e organizadas e demograficamente equilibradas. Às vezes, a resignação é o único remédio.
Pedrógão Grande, porém, é um caso diferente. Aquele não foi um simples incêndio. Foi, desde que há registos fiáveis, um dos incêndios florestais mais mortíferos da História, portuguesa, europeia ou mundial. Na Califórnia, onde as chamas costumam arrasar territórios imensos e lugarejos inteiros, o recorde de fatalidades são 29, em 1933, e a regra duas ou três. Sessenta e quatro vidas, contas provisórias e para cúmulo numa área pouquíssimo povoada, não é um dado comum. É um massacre evitável. E é um crime fingir que não.
Na quarta-feira, o exacto dia em que a nomenclatura do regime compareceu pesarosa ao funeral de um bombeiro, o Presidente da República declarou que a “unidade nacional” perante a tragédia “mostra bem como somos uma nação antiga e uma nação muito forte”. À superfície, tais palavras são apenas um deprimente vazio. Sucede tratar-se do exacto PR que, entre abraços sortidos, ocupou os minutos iniciais que os noticiários dedicaram ao incêndio para garantir que fora feito tudo o que se podia fazer. Pelo meio, o país tomou conhecimento de dezenas de mortos e da radical desorientação ou impotência das autoridades. E o país viu-se atacado por uma operação, talvez inédita, de manipulação informativa liderada pelo governo e patrocinada por boa parte dos “media”. O país que quis perceber percebeu que a “nação muito forte” é uma coisinha débil, e que a “unidade nacional” é uma estratégia repugnante para, em nome das vítimas, socorrer os suspeitos. Note-se que não acuso ninguém. Não é preciso: os esforços para suprimir culpas são a sua maior admissão.
A “incompetência do Governo não pode encontrar justificação na meteorologia”, berrava o BE em 2015, face a 28 mil hectares queimados e, suponho, morto nenhum. Agora, a actriz Catarina Martins implora no Twitter: “Que venha a chuva. Bom dia”. A brandura é partilhada pelo PCP, o qual, salvo por um patético “pedido de esclarecimento”, refugiou-se no luto. “Luto”, aqui, é código para “ganhar tempo”. Não surpreende a cumplicidade dos partidos comunistas no arranjo. Não surpreendem os esforços do PS na elaboração do arranjo. Não surpreende o aval do PR ao arranjo, visto que já só os ceguinhos não vêem a verdadeira função do prof. Marcelo. E não surpreende a ajuda das televisões e dos jornais à eficácia do arranjo.
Numa proeza sem grandes precedentes na cronologia do servilismo ocidental, um diário de rever…, perdão, referência, mobilizou todo o corpo de colunistas para atribuir Pedrógão Grande à desdita, à conspiração dos elementos e – segurem-se – ao “fogo que voa”. É um mero, mesmo que particularmente asqueroso, exemplo. Descontadas as excepções, o tom das “notícias” não tem fugido à produção de prosa “poética” e sentimento. Em contrapartida, foge a oito pés na hora de escrutinar o poder. Editoriais espanhóis decretam o fim da carreira do primeiro-ministro, mas ignoram que o repórter português médio permite que o excelentíssimo espécime coloque as perguntas que quer em lugar de responder às que não quer. Mal habituados,  jornalistas a sério não concebem que o jornalismo a brincar colabore com estadistas de trazer por casa em sinistras encenações de compaixão. Aliás, o jornalismo a brincar também não concebe o seu oposto: um colunista do “El Mundo”, crítico das nossas desgraças, anda a ser investigado pelos colegas de cá, abismados com o desplante.
Em nações menos exóticas, haveria quem expusesse o talento do dr. Costa, de certos amigos do dr. Costa e de outras personalidades admiráveis no “investimento” de milhões em comunicações que não comunicam e em helicópteros que não descolam. E quem fosse directa ou indirectamente responsabilizado pelas famílias encurraladas e carbonizadas em plena estrada, que se apelida “da morte” para efeito “dramático”. E quem denunciasse as mentiras cometidas por figuras ditas de relevo a partir do ponto em que a quantidade de cadáveres era demasiada para continuar a adiar a divulgação. E quem, acima dos estropícios que entopem a Administração Interna, explicasse em língua de gente a recusa dos bombeiros galegos. E quem lembrasse que é tão fácil quanto inútil ganhar campeonatos de futebol, festivais de cantigas e incumbências na ONU: difícil é ganhar vergonha na cara.
Nações menos infantis não descansariam até varrer os demagogos que celebram glórias imaginárias e fintam as desgraças autênticas. Portugal, não. Portugal respeita os mortos, leia-se espera que os vivos não perturbem a “estabilidade”. Portugal observa prioridades, leia-se deixa arrefecer o assunto. Portugal não cede à baixa política, leia-se permite a impunidade geral. Portugal está unido, leia-se criou-se um ambiente hostil a questões desagradáveis. Portugal, repete-se, é uma nação muito forte, leia-se um recreio de oportunistas, desnorteados ao primeiro assomo da realidade.
Sobra uma lição, que a “nação muito antiga” teima em não aprender. Em Pedrógão Grande, o Estado falhou no solitário papel que lhe devia caber: proteger fisicamente os cidadãos. Logo o Estado, de que os portugueses esperam tudo e, no momento que importa, obtêm nada. Não é coincidência.

As vantagens dos incêndios
OBSERVADOR, 23/6/2017
A economia daquilo a que chamam tragédias é favorável à comunicação social. Enquanto nos períodos normais, vive de luzes e plumas que tem de pagar, nos desastres tudo é a baixo custo.
Há razões para em Portugal se usar a palavra ‘tragédia’ para uma classe larga de acontecimentos, que inclui o genocídio e o desaparecimento do vinho de Carcavelos. As palavras ‘acidente’ ou ‘desastre’ parecem insatisfatórias, porque de facto não prometem nada: apenas indicam que uma coisa violenta, triste, e inesperada aconteceu. ‘Tragédia’ pelo contrário garante que aquilo que aconteceu é um episódio numa história muitíssimo maior, normalmente oculta, e por isso susceptível de ser revelada.
Encarregam-se das revelações os jornalistas, que explicam o sentido do que acabou de se passar e transmitem histórias de interesse humano. O trabalho de jornalista cobre de uma capa de vileza moral tudo o que é o caso: sugere que há uma explicação para os acontecimentos, que naturalmente é a que ocorre aos jornalistas; e transforma tudo o que lhes interessa em interesse. Os jornalistas alegarão que a sua profissão se ocupa do interesse humano: mas na realidade o interesse humano de tudo o que acontece coincide sempre com o seu interesse profissional; nada do que é profissional lhes é estranho.
A economia daquilo a que chamam tragédias é favorável à comunicação social. Enquanto nos períodos normais a televisão e a imprensa vivem de luzes, música, plumas, comentadores e lantejoulas, que têm de ser pagos e custam muito dinheiro, um acontecimento imprevisto fornece grandes cenários naturais e humanos a baixo custo. A consequência evidente para quem presta atenção a esses acontecimentos é a atenção extraordinariamente demorada a tudo aquilo que sai de graça. Num barranco em chamas, e entre blocos de publicidade, o mesmo jornalista improvisa infinitamente sobre o barranco em chamas; e quando escasseiam imagens variadas de barrancos em chamas, o mesmo jornalista improvisa infinitamente sobre as mesmas imagens. O seu género é a stand-up tragedy.
Mas são os cenários humanos obtidos de graça que tornam o espectáculo mais repelente. Nessas alturas o jornalista aproxima-se pé ante pé e faz perguntas que sabe antecipadamente serem de êxito garantido. É o herdeiro das mães que gostam de ver os filhos a chorar, e das crianças que arrancam as pernas às moscas. A sua vileza maior consiste em tornar pessoas vis: em deliberadamente e com premeditação converter o mundo num repositório de figurantes em que cada pessoa paga o seu aparecimento na televisão com o espectáculo público daquilo que em circunstâncias normais lhe deveria aparecer apenas em sonhos.
Embora alguns jornalistas gostem de se mostrar entre pessoas mortas, são os barulhos e os gestos das pessoas vivas que lhes permitem ocupar o tempo de emissão com mais proveito; e são eles que mobilam com conteúdos o que de qualquer maneira os jornalistas nunca conseguiriam por si só imaginar: um cão, um filho, um tractor, uma mala de roupa. Visto o que se tem visto, os acontecimentos recentes sugerem que nem sempre será boa ideia não matar o mensageiro.