terça-feira, 27 de setembro de 2016

Um filho de boa gente


Acho Alberto Gonçalves um escritor de grande riqueza crítica, informada por leituras de apoio às suas teses e suficientemente conhecedor do mundo para tratar os seus temas com destreza, subtileza e muito sentido de humor. Não o pensava participando numa polémica pessoal, mas face à torpeza de quem o atacou, acho que tem o direito de se defender com idêntica virulência, embora sabendo que prega no deserto, o dr. Louçã tendo adeptos devotados e apreciadores dos seus modos coruscantes, embora ultimamente menos  evidenciados televisivamente, suplantado, na representatividade, pelas suas ex-partenaires trepadoras, com os seus jeitos mais gracilmente despejadores de sentenças virtuosas, que quadram ao sentimento do nosso povo amplamente ciente dos seus direitos, e que ataca os ricos, não lhes reconhecendo o esforço e só lhes invejando o taco.
Mas a demonstração aí está, bem urdida, da canalhice do Dr. Louçã, ao considerar que Alberto Gonçalves defendera o livro de José António Saraiva, quando apenas estranhara a actual proeminência de um livro de denúncias e alcovas, tendo ignorado iguais faltas de escrúpulo narrativo numa produção anterior de São José Almeida, sobre gente do Estado Novo, mas que não provocaram, como o último, “as vozes do arruído pela cidade”, que já eram vulgares nos tempos de Leonor Teles, e de Fernão Lopes que os descrevera, e que a sociedade amestrada do novo governo repudia virtuosamente, provavelmente deliciada com os escândalos, mas censurando-os como é de bom tom. De resto, também Alberto Gonçalves o fez, remetendo tudo isso para a categoria de lixo, mas Francisco Louçã preferiu não ver tal, na sua competição de polemista encartado, preferindo mentir na sua denúncia, coisa que Alberto Gonçalves denuncia com a magistralidade de sempre, comprovando a sua arte e saber, com o texto seguinte, desassombrado na crítica, contra, ao que parece, mais um vendedor de banha de cobra que não conheço.

Mais depressa se apanha o dr. Louçã do que um coxo
Alberto Gonçalves
DN, 25 /9/16
Há oito dias, escrevi aqui sobre o livro Homossexuais no Estado Novo, onde a "jornalista" São José Almeida inventariou, sem o consentimento dos próprios e com alegada legitimidade académica, a orientação sexual de diversas figuras mais ou menos ligadas ao regime anterior. A coisa veio a propósito de um livro recente de José António Saraiva, Eu e os Políticos, nova colectânea de mexericos (a acreditar na imprensa) que deu brado principalmente por causa da anunciada, e entretanto cancelada, apresentação a cargo de Pedro Passos Coelho. No fundo, limitei-me a notar que, excepto pelas inclinações ideológicas dos autores, não compreendia o escândalo provocado pela segunda "obra" face à indiferença ou à exaltação suscitadas pela primeira.
Pois bem. Num blogue que mantém no Expresso (Tudo Menos Economia), Francisco Louçã resolve proclamar que o opúsculo do arq. Saraiva foi "defendido naturalmente por um cavalheiro do mesmo calibre que dá pelo nome de Alberto Gonçalves, no DN, e porventura por ninguém mais". Na mesma página, em resposta a um leitor que discordava da afirmação, o dr. Louçã acrescenta: "Que bem que lhe fica defender o Gonçalves, que defende o Saraiva como pode e mais não consegue." Abaixo, em resposta a outro leitor, o Louçã, perdão, o dr. Louçã (não quero intimidades com gente dessa) aconselha: "Leia todo o artigo do Gonçalves para ver como ele banaliza o feito do Saraiva." Questionado por um terceiro leitor acerca do Homossexuais no Estado Novo, afinal a referência que permitiria determinar a "banalização", o dr. Louçã esclarece: "Não li."
Regresso à crónica da semana passada para lembrar a minha "defesa" arrebatada do Eu e os Políticos, da qual sinceramente não fazia ideia. Talvez por não ter existido. Fundamentado nas citações e alusões que saíram nos jornais, chamei-lhe "baldinho de lixo", e garanti não duvidar de que se tratava de "uma porcaria". É certo que não cheguei a exigir a lapidação ou o enforcamento do arq. Saraiva, mas isso deve-se apenas à brandura do meu carácter. Em qualquer dos casos, suponho, "lixo" e "porcaria" não são epítetos habitualmente utilizados na defesa seja do que for. Em qualquer dos casos, ou o dr. Louçã é demasiado burgesso até para os padrões do Bloco de Esquerda ou, para recorrer à deprimente retórica parlamentar, o dr. Louçã faltou à verdade. Em português, palpita-me que o dr. Louçã mentiu. E mentiu de maneira tão tosca, no sentido em que a verdade é tão fácil de repor, que o facto só tem uma explicação.
Ao longo da sua curiosa carreira, o dr. Louçã contou sempre com uma plateia de bonequinhos amestrados que levam a sério os incontáveis disparates que regularmente profere. Se a criatura se alivia de uma mentira pequenina, os bonequinhos acreditam. Se a mentira é grande, os bonequinhos acreditam também. Há muito que a criatura percebeu não valer a pena enfeitar as absurdas intrujices que diz, um produto com procura suficiente para, no estado bruto, permitir-lhe ganhar a vida sem preocupações. À semelhança dos correligionários dele, o dr. Louçã é, literalmente, um mentiroso profissional, ofício para cúmulo favorecido pela reverência dos media, a indigência da universidade que o emprega e o enviesado primarismo do nosso "debate" público. E como mentiroso profissional é incansável: se o dr. Louçã dá os bons-dias, é garantido que está a chover.
Admito que nada disto possui particular importância. Simplesmente não gosto que me acusem de proezas que não pratiquei. Por uma vez, convém que as desastradas mentiras do dr. Louçã não fiquem impunes. Por uma vez, uma singela vez, é higiénico avisar que tudo o que sai da cabecinha daquela criatura não passa - vamos lá rever a matéria - de um lixo e de uma porcaria. E agora espero encarecidamente que o dr. Louçã não me acuse de defendê-lo a ele, uma inominável vergonha e uma calúnia ainda maior do que a da defesa do arq. Saraiva.

Quinta-feira, 22 de setembro
Outro economista de nível
O americano Joseph Stiglitz, economista e Nobel do ramo, elogia portugueses, gregos e espanhóis por, cito o DN, "terem melhores noções de economia do que a troika" e derrotarem nas urnas "os governos defensores da austeridade depois de 2008".
Em primeiro lugar, convém explicar ao homem que, Grécia discutivelmente à parte, Portugal elegeu um governo alegadamente "austeritário" em 2011 - e, descontadas moscambilhas parlamentares, voltou a elegê-lo em 2015 -, e a Espanha continua, na medida do possível, sob um governo do PP. Em segundo lugar, acredito que portugueses, gregos, espanhóis, guatemaltecos e curdos tenham melhores noções de economia do que o sr. Stiglitz.
Em 2007, este portento andava por Caracas a prever a irreversibilidade do "sustentável" (sic) crescimento local, a admirar o nível de vida vigente e a declarar irrelevante a elevada inflação. Em 2016, enquanto vende utilíssimos conselhos ao Sul, assegura ainda que a Alemanha está aqui, está na miséria.
Para a semana, aposto que o sr. Stiglitz vai anunciar que a Irlanda, que cresceu 26% em 2015, não sai da cepa torta. Esperem lá: já anunciou, em Janeiro passado. Ou seja, em economia, história, actualidades e no que calha, o sr. Stiglitz é bem capaz de ser o indivíduo mais à nora e menos esclarecido do mundo. Aparentemente, o homem só é óptimo a esconder de uns tantos a sua prodigiosa incompetência. E isso, sim, merecia um Nobel.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A tristeza do Sicut erat in principio


Um artigo de António Barreto que corresponde a um sentimento de frustração há muito por nós badalado, sobretudo no café de domingo, com igual indignação, embora menor expressividade discursiva, acerca da lamechice torpe das notícias que se quer a todo o custo sensacionalistas, com muito apelo ao sentimento e tolas entrevistas a lesados, colaborantes na simpatia para desabafo televisivo da sua dor. Se for estrangeiro perdido na serra, pede-se que este conte a sua história, destacando a gratidão pelo povo prestável. Somos assim, até mesmo um fidalgo - Gonçalo Mendes Ramires, da «Ilustre Casa de Ramires» - combinava em matéria de carácter, uma simpatia afectuosa e manobras leoninas escondendo cobardias, as ambições enroladas em espertezas de menor escrúpulo, um todo de inércia e bondade, de arroubos e desistências, de insatisfação e boa camaradagem, e era fidalgo e escritor. Eça ressalva-lhe a bondade, no final do livro, e Eça sabia quanto a bondade é necessária nas relações humanas. Mas também o espírito.
Mas António Barreto, ao pôr a descoberto a crescente mediocridade dos nossos noticiários – e não só esses – aponta a grave crise da nossa educação que não há meio de arrancar, apesar das muitas tentativas e das vozes críticas bem armadilhadas, como a deste artigo de António Barreto.

As notícias na televisão
António Barreto
DN, 25/9/16
Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo
É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.
Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.
Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.
Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.
É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.
Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.
A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.
A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo!


Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.
A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos papagaios no seu melhor!
Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.


Não mais “A Encomendinha” de Trindade Coelho


Eu até acredito que quem faz a sua escolaridade inicial com a família pode conseguir melhores resultados do que os alunos sujeitos a cargas horárias distribuídas por grande espaço do dia a professores com maior ou menor competência pedagógica e de empatia, a turmas com uma massa escolar extremamente diversificada, num laxismo de turbulência inconcebível, dificilmente propiciador de estímulo para a aquisição de conhecimento ou mesmo para uma saudável competitividade. Ainda nestas férias, por alturas dos exames, contou-me a minha filha sobre o exame oral de uma aluna preparada em casa, realmente prestando boas provas, mas extremamente convicta da sua importância, ao considerar com desprezo, para alguém, que a mãe dela sabia mais do que as professoras da escola onde, humilhantemente, era sujeita às mesmas provas dos alunos da escola que não frequentara. Como diz João Taborda da Gama, um acompanhamento inteligente em casa por pais qualificados e estimulando a leitura como meio mais eficaz para o desenvolvimento cultural e mental é muito válido. Ainda bem que agora as Ls. já poderão desenvolver os seus raciocínios e destrezas linguísticas no remanso disciplinado, sem o afobamento dos meninos que têm que se levantar mais cedo para irem ser deixados na escola pela mãe ou pelo pai que vão para os seus serviços. Oxalá haja muitas Ls. nessas condições, orientadas pelas mães que não precisam de trabalhar fora, os pais ganhando o suficiente para prover às necessidades da família, a casa e o seu recheio já pagos, no melhor dos mundos de bom gosto e sabedoria.
Não deixo de ter pena das crianças educadas em casa, sem os recreios para a brincadeira e a comunicação, mas convenho que, se se arranjarem amiguinhos para os espaços de brincadeira, as Ls. têm todas as hipóteses de fazer um bom percurso escolar nas calmas. Nos países com maior nível cultural e económico, as mães ficam em casa nos primeiros tempos para acompanharem melhor a educação dos filhos. Dificilmente isso poderia passar-se connosco, dados os condicionalismos conhecidos. Lembro-me duma aula em que, em momento de pausa, para esclarecer os alunos de uma turma sobre a  subida do custo de vida, lhes contei os meus primeiros tempos de professora, em que alugara uma casa a estrear, que me custava 700#00 de renda, o que correspondia a 1/3 do meu vencimento de professora. Fora isto nos anos 57-59, em Aveiro, mesmo ao pé do liceu, (palavra já arcaica no nosso país). Trinta e tantos anos depois, um dos vencimentos do casal servia para pagar a casa, tinham ambos os pais que trabalhar para poderem sobreviver. Nos anos de agora, nem já isso chega. Por isso, é uma situação ideal, a referida por João Taborda da Gama. A propósito, tenho muita pena dos professores de agora, que não só enfrentam inúmeros problemas de ensino – em que não é a menos despicienda a complexidade pedante das matérias escolares – e não me refiro só ao ensino básico, em que se retirou a noção de bases  fundamentais, com o auxiliar da memória pela repetição – sofisticadaamente posta de lado como psitacismo embrutecedor, o apelo à inteligência pela compreensão dos fenómenos possuindo eficácia mais decisiva no alargamento das competências…. Dizia eu que admiro os professores de agora, vítimas de imposições de exigências  que nada têm a ver com o curso que tiraram. Tanto que eu gostava de estudar e ensinar as literaturas, na sua progressão cronológica enquadrada numa visão histórica! Que pena tenho dos professores chamados a ensinar alunos que mal sabem ler e escrever ou sequer falar, e nunca aprenderão, nos agrupamentos de escolas para retirar elitismos e cada vez mais massificar aprendizagens. E os discentes. Mas estou longe disso agora, talvez me engane. Toda esta elegia a propósito do convidativo artigo “Ficar em casa”, de João Taborda da Gama, cuja tese, em todo o caso, me parece um pouco castradora para as Ls.

Ficar em casa
João Taborda da Gama
DN 25/9/16
Neste regresso à escola, a L. não regressou à escola. Vai fazer a quarta classe em casa, a casa como escola, a mãe como professora, a mesa da cozinha como carteira, a rua como recreio. Mas isso pode-se? é legal?, é a primeira pergunta que nos fazem. Sim, a lei prevê que os pais possam educar os seus filhos em casa, e o Estado controla a coisa verificando quem é o encarregado de educação, o plano de estudos seguido e sujeitando a criança a exames. As regras estão espalhadas em vários sítios, mas são relativamente simples.
Mas no fundo, no fundo, quando as pessoas perguntam "isso pode-se", não querem saber se isso se pode ou não, porque presumem que se possa, que os pais, que até são ambos juristas, tenham visto bem isso e não queiram que a Segurança Social lhes retire a filha. No fundo, esta pergunta é mais para ganhar balanço para a que vem normalmente logo a seguir, o porquê? A L. estava na escola, mas a verdade é que não adorava. Gostava muito dos colegas, mas não de todos. Gostava da professora, das auxiliares, sem dúvida. Mas, sem ingratidão, gosta mais da mãe do que das professoras, de ler Um Atalho no Tempo quando lhe apetece, do que apenas no fim do dia cheia de sono, depois da escola, da guerra civil do deitar, do arrumar a mochila; gosta mais de cozinhar o almoço do que comer do refeitório. E ter tempo para aprender outras coisas, ao seu ritmo, trabalhar mais o que tem mais falta e o que mais gosta.
O Ministério da Educação explica: "As modalidades de ensino doméstico e a distância revestem-se de carácter excecional e visam responder a solicitações de famílias que, por razões de mobilidade profissional e outras de natureza estritamente pessoal, pretendem escolher os métodos de ensino mais apropriados para os seus educandos." É uma solicitação, e são razões de natureza estritamente pessoal - quem diz é o ministério. E são. Pessoalmente achamos que a ideia de escola é muito bonita, sem ironia, que sem escolas nada havia, e que é por isso que é bom pagar impostos, e por isso os nossos outros filhos continuam na (mesma) escola. Mas também achamos que momentos, circunstâncias e crianças diferentes recomendam caminhos diferentes.
O sistema educativo é mais do que uma escola-parede e professor - é também este sistema que permite espaços de maior liberdade em relação ao próprio Estado, em que o Estado recua ao essencial, se remete à verificação da capacidade dos pais para educar segundo um programa. Um Estado que deixa que os pais sejam plenamente o que naturalmente são, educadores, com as suas virtudes, os seus defeitos. Um Estado que deixa os filhos estarem mais tempo com os pais, mais tempo em casa. Os horários da escola, cada vez mais amplos para acudirem às necessidades profissionais sufocantes dos pais, deixam pouco tempo para coisas que não são menos importantes do que a aula de Educação Física. Almoçar e passar uma tarde com os avós, ir ao Pingo Doce, andar de bicicleta - três coisas que uma criança na quarta classe tem hoje dificuldade em fazer sem estar a faltar a qualquer coisa. Que sentido faz isto?
Há sempre o fantasma da socialização, se ela não vai sentir falta dos amigos. Temos começado por esclarecer que não a vamos fechar numa cave como o Sr. Fritzl, nem vamos viver para o Parque Natural de Montesinho, que a L. vai continuar a viver numa casa com cinco irmãos, numa rua com pessoas, que vai continuar a fazer muitas horas de desporto por semana e outras atividades. E que as amigas da escola vão continuar a falar com ela e a poderem ir lá a casa, mesmo depois dos pais lhes dizerem, quando elas lhes pediram para também ficarem em casa como a L, que a L. e os pais da L. não são bons da cabeça.
E tudo é reversível, se a coisa não correr bem, se deixarmos de achar que é o melhor, se ela deixar de querer está lá sempre a escola, o Estado, o colégio, tudo como rede, e os amigos, a família, a darem imenso apoio, com "told you" escrito na testa.
Claro que para fazer isto é preciso poder, poder ter um dos pais em casa, e que esse pai queira ensinar, e que a criança queira ficar em casa. Mas querendo e podendo, só há uma razão para não fazer, o medo do que os outros possam pensar, o desconforto, o ter de explicar, o receio de ser diferente, ou, pior ainda, de assumir e viver essa diferença. E só por isso, por essa libertação, que também queremos que seja parte da lição da L., já valeu a pena.

E, sim, vamos continuar a vacinar os miúdos.