domingo, 17 de junho de 2018

O mundo pula e avança



Sempre que o homem sonha. Que homem, afinal? António Gedeão, na sua “Pedra Filosofal”, usou imagens concretas referentes à evolução do mundo, a partir do sonho humano, desde a tela e o pincel aao desembarque em foguetão na superfície lunar. Muitas mais coisas foram descobertas desde este último. Também nós criámos o Simplex facilitador da vida. Mas o mal é a visita às Laranjeiras e as suas filas de espera demonstrativas da nossa “miséria institucional”, como nos conta ANTÓNIO BARRETO. No meu tempo, era na FIL, a fila, onde se ia receber o ordenado ultramarino num longo abraço ao edifício, que levava um dia inteiro, prova que o nosso mundo não pula assim, nem com Simplex. Quanto ao artigo de MANUEL VILLAVERDE CABRAL, que só li hoje, ele vem provar o nosso modo de pular e de avançar, não pelo sonho (ou talvez sim), mas no artifício e na falcatrua da nossa “miséria moral”, tentando impor uma lei não referendada, e nem sequer referida aquando das eleições de batota.
E assim vamos pulando. Enganando. Pedinchando. Impondo, ditatorialmente, as regras, em falso clima de uma falsa democracia, à medida dos orgasmos intelectuais de uma esquerda que não se enxerga.
I - Simplex e proximidade nas Laranjeiras
ANTÓNIO BARRETO
DN, 16/6/18
Um dia de Junho. Dias depois da organização do Festival da Eurovisão, ainda os portugueses estão felizes com a sua modernidade. Dias antes do início do Campeonato do Mundo de futebol, no qual Portugal participa após um enorme esforço de talento. Ao mesmo tempo, no Terreiro do Paço, um zepelim anuncia no céu mais um avanço do Simplex na humanização dos serviços públicos.
Na Loja do Cidadão das Laranjeiras, em Lisboa, às oito da manhã, as filas de espera contam com umas centenas de cidadãos de todas as cores, feitios e idades. Alguns chegaram às cinco e meia, para marcar vez. Outros às sete, para tirar a senha. Quando a Loja abre, há longas filas de pessoas. Algumas já não serão atendidas nesse dia.
A Loja, realização de um governo socialista, logo adoptada por todos os governos desde há 20 anos, poderia ter simplificado a vida a milhões de pessoas. Uma só ida para resolver vários problemas. Alta eficiência. Absoluta coordenação entre serviços e total comunicabilidade entre instituições, dizem as leis e a propaganda. Rapidez e prontidão. O cidadão pode ali tratar da Segurança Social, do Cartão do Cidadão, do SEF, dos papéis para casar, do passaporte, da ADSE, da Carta de condução, do registo criminal, das pensões, dos impostos, das certidões de registo civil e ainda da EDP, da NOS, dos CTT, da CGD, da Via Verde...  Foram numerosos os benefícios. Há testemunhos a demonstrar os progressos conseguidos. Mas, como tantas vezes acontece, a rotina e a propaganda levam a melhor. Uma visita às Laranjeiras dá o sentido da realidade. A miséria institucional está à espreita.
Depois de horas de espera na rua, os cidadãos obtêm as senhas. Quem estava ali desde as 07.00, só às 09.10 obteve senhas com números de 95 a 150, conforme os serviços. Quem tentou às 10.00 já não conseguiu! Como era sexta-feira, "venha segunda"! Não há maneira de obter, dias antes, as senhas com datas. Por vezes, são precisas três horas de espera só para saber o que é preciso.
Há gente a mais. Poucos funcionários para aquela gente toda. Pessoas sentadas no chão. Muitas de pé. Não há cadeiras que cheguem. Nem espaço. Em dia de chuva e frio ou de calor a 30 oC a situação é aflitiva.
É frequente haver problemas de tradução, de compreensão e de literacia. Em salas com centenas de pessoas, mais de metade são estrangeiros. Africanos, árabes, paquistaneses, chineses, tailandeses e o mais que se queira. Muitos brasileiros. Da Europa Oriental já há poucos.
Em certos guichés, como no da Segurança Social, para cerca de cem pessoas, há dois funcionários, uma para o atendimento geral, outro para os prioritários (doentes, idosos, deficientes, grávidas...). Duas horas depois, há três funcionários para o atendimento geral, um para os prioritários. E mais pessoas à espera. Às 10.20, foi chamada a senha A034. Às 11.58, a A062. Ainda faltam 90!
Em poucas horas os funcionários ficam exaustos e nervosos. Uns mal-dispostos, outros desesperados. Os cidadãos também. Seguir os números das senhas permite perceber quanto tempo de espera se tem diante de si. Quem chegou às 07.00 e obteve senha às 09.10 foi recebido às 14.50!
Na net não há indicações sobre o que é necessário preparar, o que faz que muitas pessoas, depois de passarem horas à espera, fiquem a saber que têm de voltar. Como fazem os que trabalham com horários rígidos e não têm folga? E os que não têm em casa uma reformada, um velhote ou um desempregado para tratar destas coisas?
Os grandes sistemas tecnocráticos sustentáveis e as plataformas digitais ultramodernas, todos nossos amigos, todos de grande proximidade, têm o pequeno defeito de não perceber que há gente no fim da linha, que há pessoas de carne e osso, por vezes com pouca cultura e menos escolaridade, outras vezes com escola e leitura, a quem estes sistemas nada dizem. São pessoas que pedem ajuda. Pessoas a quem as Laranjeiras trouxeram promessas. Mas que, sem humanidade, não conseguem derrubar os muros da desigualdade. Pior: da indiferença.
As minhas fotografias
Turistas em fila de espera, Martim Moniz, Lisboa. Foi há pouco tempo, três anos, e era assim. Os eléctri-cos, designadamente o 28, estavam em ascensão. O turismo também. Muitos "amarelos" estavam já destruídos, abandonados, vendidos... Mas ainda sobravam os suficientes para a ressurreição. Hoje, não há eléctrico que não esteja sempre esgotado, cheio, à cunha. E muita fila de espera. Em Portugal (e noutros países imprevidentes, deve dizer-se...) é sempre assim: algo com êxito? Fila de espera. Uma coisa interessante? Fila de espera. Cuidado de saúde, segurança social, um procedimento administrativo, uma certidão? Fila de espera. O problema é que as filas de espera para a Arena e o Rock in Rio, por exemplo, são facultativas e dependem da escolha de cada um. Enquanto as filas de espera para os transportes públicos, a Segurança Social e o centro de saúde são necessidades, frequentemente urgências e muitas vezes desespero.
Não se metam onde não são chamados /premium
OBSERVADOR, 26/5/2018
A eutanásia é algo de bem diverso do suicídio. A proposta do PS e outros é uma enorme mistificação que não ousa assumir o seu nome nem as suas consequências. Trata-se, pois, de uma hipocrisia total.
Volto ao assunto da tentativa de liberalização da eutanásia pois o PS e alguns apaniguados não desistem de se meter onde não são chamados. A menos que esses deputados proclamem que possuem competência para tudo o que lhes passe pela cabeça, esta inexplicável insistência é inadmissível. É literalmente um abuso de confiança cometido por umas escassas dezenas de deputados sem mandato para isso. Com efeito, a eutanásia não é uma questão política, muito menos uma coisa de partidos de «esquerda» ou de «direita», como mostra aliás a posição do PCP. Nem sequer uma questão ética. No meu caso tão pouco se trata de uma convicção religiosa, mas sim de resistir a um abuso de confiança com consequências lamentáveis.
Aquilo que o PS pretende fazer é uma questão duplamente deontológica, isto é, uma questão de comportamentos impróprios, eticamente reprováveis. Em primeiro lugar, uma falta deontológica desses deputados que não têm mandato para isso, pois nenhum dos partidos cujos membros pretendem agora impor a liberalização da eutanásia se atreveu a colocar tal questão nos seus programas ou sequer nos seus comícios de propaganda.
É aliás o segundo abuso de confiança política que o PS pretende cometer depois de se ter aliado ao PCP e ao BE sem anunciar previamente essa possibilidade, na qual, contudo, já pensava seguramente, pois sabia que não teria a maioria absoluta nas eleições legislativas de 2015! Se não o sabem já, o PS e os seus apaniguados que façam uma sondagem discreta para saber se a população é a favor ou contra tal medida raramente adoptada no mundo e em nenhum país de base cultural católica.
Em segundo lugar, trata-se de um ilícito deontológico em relação aos médicos, cuja vocação e prática não consiste em matar, mas exactamente o oposto: fazer tudo o que sabem e podem para salvar os doentes, seja de que doença for, mortal ou não. Por exemplo, não há doenças mentais ou perturbações psicológicas mortais, que eu saiba, e contudo a eutanásia frequentemente é aplicada a esses doentes nos países que a liberalizaram. Sofrimento, isso sim, há com toda a certeza, mas existe hoje uma quantidade de paliativos que a ciência não cessa, felizmente, de aumentar. Todas as profissões que se prezam têm um código deontológico: a mais antiga delas – a medicina – tem o Juramento de Hipócrates e é por ele que os médicos se devem reger a fim de nos inspirar confiança.
A única coisa que esses deputados insensatos estariam a fazer ao despenalizar a eutanásia seria autorizar a abertura ao público de clínicas cujos donos colocariam à porta o cartaz: «Aqui matam-se pessoas por tantos €€€». Foi praticamente o que se passou há semanas, numa clínica suíça autorizada a praticar aquilo a que eufemisticamente dão o nome de «suicídio assistido» a um cientista australiano de 104 anos disposto a pagar as despesas, conforme badalado na comunicação social.
A propósito de «mass media», desta vez é uma «colunista» que pretende defender a legalização da eutanásia invocando a ideia de «boa morte» do filósofo Séneca. Ora a autora finge ignorar que, na época de Séneca, há 2000 anos, não havia nem deixava de haver eutanásia. Havia drogas fatais que os patrícios romanos tomavam ou não a fim de se suicidarem se achavam chegada a hora. Algo semelhante se passava com outro artigo do «Público» acerca do qual aqui escrevi e onde nunca é dito que qualquer de nós tem a liberdade de se suicidar no caso de a vida nos pesar demasiado: para isso, não precisamos de médicos; no máximo, alguém incógnito que nos proporcione uma droga fatal.
Por solidariedade, sou favorável àquela droga instantânea proporcionada aos fugitivos judeus durante o nazismo e com a qual se matou Walter Benjamin, assim como um Wilhelm Friedmann, notável e corajoso professor de Literatura refugiado em França, que se suicidou em 1942 ao ser capturado pelos nazis nos Pirinéus, onde foi sepultado e onde se lhe juntou em 2006, por solidariedade familiar, o filósofo português Fernando Gil.
A eutanásia é, pois, algo de bem diverso do suicídio. A proposta do PS e apaniguados é, sim, uma enorme mistificação que não ousa assumir o seu nome nem as suas consequências. Por isso é que se recusa a submetê-la a referendo, como sucedeu com a liberalização do aborto. Trata-se, portanto, de uma hipocrisia total que apenas pretende abrir uma «fractura» na sociedade portuguesa, ao mesmo tempo que convida os médicos a fazerem o contrário daquilo para que foram formados.

sábado, 16 de junho de 2018

O barrete da Catarina, cor contente



Já Rousseau se reclamava da propriedade, causa da corrupção das almas, no seu “Discurso sobre a Desigualdade”: “O primeiro ser que, tendo murado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou seres suficientemente simples para nele crerem, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores teria poupado ao género humano aquele que, arrancando a estaca ou atulhado o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: «Livrem-se de escutar este impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos pertencem a todos, e que a terra não é de ninguém!»
É sobre Catarina Martins que tratam os artigos seguintes – de Alberto Gonçalves e de Rui Ramos – sobre a sua enorme vocação para achincalhar a sua nação branca de quem se contam as glórias de pioneirismo no alargamento do mundo, mas ao que parece, também, de escravização de raças negras, e isto ela não perdoa, denegrindo , denegrindo, nem querendo saber d’ Os Lusíadas para nada, onde Camões conta as glórias do “peito lusitano” e já usa termos tendenciosamente racistas, ao descrever, pela boca do Gama ao rei de Melinde, que  nem sabemos se ficou melindrado, as reacções de um nativo colhedor de mel na montanha, como “selvagem mais que o bruto Polifemo”, às tentativas apaziguadoras do Gama de o chantagear com ofertas de coisas preciosas e a concluir, com grande despudor racista que “a nada disto o bruto se movia”, para logo aquele se deixar amansar com “as coisas mais somenos”, como um “barrete vermelho, cor contente”. É a estes barretes que a Catarina Martins nos quer promover, na igualdade de direitos a que apela, e mesmo castigo dos prevaricadores, e que nem sei se leu no Rousseau que também era alma muito sensível, e assim contribuiu para as mudanças sociais trazidas pela Revolução Francesa, onde se matou e esfolou que foi um ver se te avias. Julgo que à Catarina Martins não se lhe dava de que as raças negras, que são todas de brandos costumes, viessem impor-se agora às brancas portuguesas, sobretudo, como represália por terem sido escravizadas.
Mas quem a descreve bem e conta como foi, é Rui Ramos, com o 10 de Junho da nossa glória, despedaçado pelas investidas polifémicas de Catarina Martins, contra as proezas odisseicas dos portugueses aventureiros denegridas pelo seu parti pris de uma sensibilidade protectora de todos os desventurados e que, nos festejos gloriosos deste ano, se centrou no racismo dos exploradores portugueses, como temática da sua saliência em progressão. Alberto Gonçalves, por seu lado, não a poupa, com o humor próprio da sua verrina superior.

Um dia contra Portugal? /premium
OBSERVADOR, 12/6/2018
Catarina Martins não quer ver "reconhecida" a "enorme violência da expansão portuguesa", quer apenas usar a história para deslegitimar os regimes ocidentais -- e só esses.
Enquanto o presidente da república, em Boston, declarava Portugal capaz, como nenhum outro país, de “compreender, de dialogar, de aproximar pessoas”, por cá, Catarina Martins revoltava-se, muito indignada por os “discursos oficiais” não terem “reconhecido a enorme violência da expansão portuguesa, a nossa história esclavagista”. Que dizer? O 10 de Junho deveria ser um dia de vergonha e de penitência nacional – não o dia de Portugal, mas o dia contra Portugal?
Nada disto é novo. Se a memória não me está a trair, lembro-me de a RTP, em 1974, transmitir um esforço artístico progressista em que os personagens repetiam monotonamente “Diogo é cão, Diogo é cão”. Com as colónias de África em vias de serem trespassados a novas ditaduras, nada mais conveniente do que tratar a expansão portuguesa como uma nódoa para ser lavada rapidamente. A história da expansão entrou então de quarentena. Não por muito tempo, porque a democracia não arranjou mais nada com que tornar Portugal interessante para audiências internacionais (não é certamente com a história do imposto de selo), e a “globalização” valorizou novamente a origem das conexões entre os continentes.
Foi assim que, na década de 90, muitos dos actuais indignados com os Descobrimentos colaboraram, então sem indignação, com a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Portugal foi nesses anos o “pioneiro da globalização”.  Nos últimos tempos, tudo mudou outra vez, quando a “internacionalização” das ciências sociais submeteu a investigação portuguesa à agenda racialista das universidades americanas. De repente, os mesmos que só viam na expansão portuguesa “multiculturalismo” e “encontro com o outro” descobriram que, afinal, tudo foi racismo e exploração, e que é preciso “reconhecê-lo”. Digamos que é uma exigência bizarra, na medida em que nem as fontes clássicas – lembrem-se de Gil Vicente ou de Fernão Mendes Pinto – escamotearam a violência das “descobertas e conquistas” (como se dizia). Sobre a escravidão, nunca houve silêncio. Mas não é a história, com as suas complexidades, que importa a Catarina Martins, mas apenas o uso de uma história caricaturalmente simplificada para deslegitimar os regimes ocidentais, e só esses.
O chamado “anti-colonialismo” não é, por isso, uma ruptura com o colonialismo: é apenas a sua última fase, no sentido em que continua o velho etnocentrismo que um dia exaltou o “homem branco” como o agente da civilização, e agora o trata como o responsável por todo o mal do mundo. A expansão moderna, porém, não foi uma simples história europeia – pensar assim, é precisamente o primeiro erro etnocêntrico. Muitas das sociedades locais com que os portugueses se “encontraram” não eram compostas de nativos sossegados num idílio à Rousseau, mas impérios militares, também eles em expansão, com os seus escravos e as suas violências. Os portugueses escravizaram, mas — em menor escala — também foram escravizados, por exemplo pelos piratas argelinos que atacaram as costas portuguesas até ao século XVIII. Os Otomanos cativaram  imensa gente na Europa e, em conjunto com os árabes, terão tirado tantos escravos de África como os europeus. O que verdadeiramente distinguiu os europeus nesta história não foi apenas o uso de escravos na agricultura da América colonial, mas terem sido os primeiros a abolir a escravidão. A Arábia Saudita só a ilegalizou em 1962, o Omã em 1970 e a Mauritânia em 1980. Talvez os portugueses não tivessem feito o mundo melhor, mas também não o fizeram pior.
Catarina Martins parece muito infeliz por o passado não ser igual ao presente. Não foi, de facto. A essa diferença, chama-se “história”. E para a compreender, não há caminho pior do que o simplismo das glorificações e das criminalizações com pequenos fins políticos.

Uma enorme violência /premium
OBSERVADOR, 15/6/2018
Como se viu no Dez de Junho, na visão erudita de Catarina, a Grande, o mundo era um lugar de harmonia e paz até ao momento em que os ocidentais decidiram afundá-lo em infâmia.
Mesmo na época remota em que as televisões ainda não estavam convertidas à propaganda do Estado e aos flagelos no Sporting, nunca sequer espreitei uma cerimónia do Dez de Junho. Não o faria agora, quando qualquer criatura honrada foge dos canais indígenas com o pavor com que fugiria da gripe espanhola. Desgraçadamente, a gripe espanhola apanhou-me através da internet, que numa emboscada me atirou à cara as comemorações do dia de Portugal, de Camões, da Raça, das Comunidades, dos Pastéis de Nata e do entulho que calha. Apesar de carregar aflito em botões sortidos, não escapei à impressão de que, este ano, os nossos estadistas andaram a afirmar a grandeza pátria por Ponta Delgada e, supremo enxovalho, pela costa leste dos EUA. Há coisas piores, mas não muitas.
Uma delas é a amadora dramática que preside ao Bloco de Esquerda, a qual, em vez de ocupar o Dez de Junho com as humilhantes fanfarras da praxe, preferia consagrar a data à “enorme violência” da expansão soviética, perdão, da expansão islâmica, perdão, “da expansão portuguesa” (assim é que é) e à “história esclavagista, a responsabilidade no tráfico transatlântico de escravos”. Na visão erudita de Catarina, a Grande, o mundo era um lugar de harmonia e paz até ao momento em que os ocidentais decidiram afundá-lo em infâmia.
Há quem acredite em unicórnios. Catarina, a Colossal, acredita que a propensão para o Mal é um exclusivo do “homem branco”, cujo fardo não tem fim e cujas proezas tecnológicas facilitaram a subjugação e a exploração do “outro”. O “outro”, claro, é o bom, generoso, pacífico e meigo selvagem, que antes de 1500 passava os dias a acariciar passarinhos e raramente a enfiar em estacas as cabeças dos inimigos – ou a escravizá-los com gentileza. Não vale a pena lembrar que, na vergonhosa e aparentemente interminável cronologia da escravatura, o papel dos europeus é relativamente fugaz. Na perspectiva de Catarina, a Desmesurada, o selvagem não só é bom como é ingénuo. E tonto. E mais estúpido do que uma porta.
Trata-se de um evidente exagero. Ao pensar as relações humanas com a profundidade reflexiva de um calço, Catarina, a Imensa, é que, na melhor das hipóteses, é boa. E inocente. E tonta. E porta. E também profundamente racista, conforme notou Rui Ramos aqui no Observador. Para inúmeras Catarinas, as pessoas do Terceiro Mundo e arredores não são bem pessoas, complexas, contraditórias, às vezes lamentáveis, às vezes incompreensíveis. São estereótipos passivos e unidimensionais, prontos a acolher as projecções alucinadas de oportunistas que os utilizam em seu proveito. Ao negar a essencial humanidade de africanos ou ameríndios, a heróica gesta anti-racista de Catarina, a Vasta, recorre aos exactos preconceitos do racismo convencional e chega a conclusões pouco diferentes.
Não quero ser demasiado severo. Provavelmente, Catarina, a Descomunal, não tem culpa. Com certeza julga os habitantes das demais civilizações pelos padrões disponíveis nos acampamentos do BE, onde simpáticos zombies sofrem portentosos enxovalhos e não dão um ai. No próximo acampamento, já em Julho, esses maravilhosos selvagens sairão de uma missa em prol da lapidação das adúlteras e da tortura dos gays (“Boicote a Israel e Celebração da Palestina”) para almoçar tofu no Espaço Queer ou hummus no Espaço Feminista. E, inocentes, não perceberão o absurdo. À tardinha, hão-de frequentar o workshop “Desconstrução da Masculinidade Tóxica” e, cândidos, não perceberão a idiotia. À noite, vão dançar na Festa Anti-Racista e, castos, não perceberão o insulto. E insulto maior é presumir que o “outro” é igual a eles.
Não me custa admitir que os discursos do Dez de Junho servissem para uma catarse nacional, limitada a calamidades actuais para a efeméride não ultrapassar os seis meses. Só uns três seriam necessários ao reconhecimento da enorme violência que o BE comete sobre a inteligência alheia.
Nota de rodapé
Parece que o “Diário de Notícias” vai acabar enquanto tal. Felizmente, segundo a directora-executiva daquilo (olá, Catarina), trata-se de uma boa notícia, dado que a conversão a semanário e ao “on line” manterá a óptima tendência “dos últimos anos”, em que, após “uma fase complexa”, o DN voltou a ser “um jornal sério, conservador, sem ofender as pessoas e com bastante atenção àquilo que são os pólos de decisão do país”. Repito: “um jornal sério, conservador, sem ofender as pessoas e com bastante atenção àquilo que são os pólos de decisão do país”. Não sei se lamente o descaramento, se exalte a sinceridade.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Temas complexos, simplificados para os meninos do 3º ciclo básico


I - A religião no ocidente europeu
Desde sempre o Homem, desconhecedor da origem e destino do Universo, e de si próprio, precisou de se apoiar em entidades supremas para os justificar. Assim nasceram os mitos dos deuses, e o animismo primeiro, e o politeísmo depois, foram, nos primeiros tempos, a forma que os povos antigos criaram para justificar as várias manifestações da vida.
Mas, no mundo ocidental, o monoteísmo nasceu na Palestina, como crença num só Criador. Chamou-se Jeová, no Antigo Testamento bíblico, que foi escrito por hebreus em vários livros, que, entre outras coisas, preconizaram a vinda de um Salvador da Terra. Mas além do Antigo Testamento, a Bíblia, um livro extraordinário, (traduzido primeiro para o Grego e deste para o Latim), contém o Novo Testamento, que narra a vida e os milagres e doutrina desse Salvador, chamado Jesus Cristo. Este nasceu em Belém (Palestina) e morreu crucificado, precisamente porque se considerou o representante do Deus na Terra, no tempo do Império Romano, que tinha subjugado toda a zona mediterrânica e, portanto, a Palestina. Alguns Apóstolos seguidores de Cristo criaram os Evangelhos – o de São Mateus, de São Marcos, São Lucas e São João - que, juntamente com outros textos, formaram o Novo Testamento bíblico, traduzido do grego para latim, por S. Jerónimo, já no fim do Império Romano (a «Vulgata Latina» que a Igreja cristã e protestante seguem).
É do Novo Testamento e da doutrina pregada pelos seguidores de Cristo - como S. Pedro (o 1º Papa) e S. Paulo e outros doutores da Igreja – Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, este último doutor da Igreja, ou teólogo, tendo vivido já na baixa Idade Média – que se formou o Cristianismo, como religião católica, universal.
Por alturas do Renascimento, surgiu a Reforma da Igreja, e, com a Contra-Reforma o cristianismo cindiu-se em cultos seguidores de normas um pouco diferentes – O Protestantismo no Norte europeu e o Catolicismo no Sul. Mas há ainda a Igreja Ortodoxa, mais rígida, da Europa Oriental – Rússia, Grécia…
O chefe da Igreja Católica é o Papa, que vive no Vaticano.
O Catolicismo actua no mundo inteiro, principalmente na América Latina, e Filipinas, divulgado na época dos Descobrimentos, pelos Jesuítas Manuel da Nóbrega, no Brasil, S. Francisco Xavier, na Ásia.

II- Alguns dados sobre Os LUSÍADAS
Epopeia: Narrativa em verso exaltador de feitos heróicos (épicos), guerreiros, de um herói individual: Aquiles (“Ilíada”), Ulisses (“Odisseia”) – de Homero, poeta grego; Eneias (“Eneida”) de Virgílio, poeta latino; ou de um herói colectivo, caso do Povo Português (“o peito ilustre lusitano”- 3ª estrofe,  Canto I de “Os Lusíadas”).

Estrutura Interna de “OS LUSÍADAS: Divisão em 4 partes, segundo o modelo clássico de 3 partes, (pois não continha a Dedicatória): Proposição (I-III); Invocação (às Tágides, ou ninfas do Tejo) (IV-V); Dedicatória (a D. Sebastião), (VI-XVIII) e Narração, que começa na estrofe XIX - no plano da Viagem, e logo na estrofe XX é desviada para o plano dos Deuses (20-41, “Consílio dos Deuses”), retomando a seguir (XLII…) o plano da Viagem, “in medias res”, isto é, não a partir do seu início em Belém, mas quando estas se encontravam já no Oceano Índico, no Canal de Moçambique, próximas do destino final, a Índia).
Assim, a interposição do plano dos deuses (Consílio dos Deuses), no plano da Viagem, logo à partida, foi não só um meio de imitação clássica segundo o modelo estético renascentista, mas para criar, segundo esse modelo clássico, uma maior coesão ou unidade de acção, fazendo depender a acção épica mas pesada, monolítica, dos nautas, dos amores ou desavenças e intrigas dos deuses - favoráveis (Vénus, Marte, Júpiter, Cupido, Ninfas), ou contrários (Baco, Neptuno – Adamastor), estabelecendo logo de início tais premissas, como alerta para uma intriga que irá tornando a narrativa mais romanesca e sedutora.
Deste modo, a Narração, n’Os Lusíadas, divide-se em quatro planos: O da Viagem, o da História de Portugal, do conhecimento de Vasco da Gama, narrada ao rei de Melinde por aquele, (Cantos III e IV - origens, 1ª e 2ª dinastias), além da sua própria viagem desde a partida em Belém até Melinde, como narrativas de encaixe); através de vaticínios, nas referências à história posterior ao Gama:  pelo Adamastor, Canto V, ou pela Ninfa (C. X) contando das proezas dos vice-reis futuros da Índia, que Camões, posterior ao Gama, já conhecia. Além desses três planos – da Viagem, da História e dos Deuses, a Narração d’Os Lusíadas contém ainda o plano dos Excursos do poeta, de lamentos ou conceitos pessoais cheios de significado e beleza.

Estrutura Externa d’ Os Lusíadas: Divisão em 10 Cantos, com estrofes de oito versos (oitavas), em verso decassílabo, de rima cruzada e emparelhada, segundo o esquema ABABABCC. Total de estrofes: 1102. Total de versos: 8816.