segunda-feira, 5 de novembro de 2018

«De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?»



As razões são várias, desse aforismo da criação de Pessoa, no seu heterónimo Álvaro de Campos, num excurso que não resisto a transcrever do poema “Cruzou por mim” sobre um tal mendigo numa rua da Baixa a quem ele despejou uns trocos, pretexto para uma introversão arrasadora do seu estado de alma de derrotismo sem trégua.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Sim, um poema extraordinário, que atesta uma situação de carência eterna, quer do foro psicológico, quer do foro físico, social ou moral.
O primeiro texto, de Carlos Afonso, médico psiquiatra, refere os problemas económicos, causados pela depreciação do indivíduo humano português, em vários níveis da sua actuação, entre os quais o de trabalhador. O texto é bem esclarecedor, assim como o dos vários comentários de apoio a uma situação constante e irreversível, pois que nos está no sangue e no fado. Um dos comentadores – Ricardo Barnes - refere a diferença entre o nosso modo de actuação laboral e o dos ingleses, estes exigindo dados de idade e competência, nós, de preferência, dados de identificação revisteira para efeitos de mercado de trabalho. De facto, há muitas razões para este estado depressivo e todos o sabem mas fingem não ver, neste país de lamúria e tacanhez, avivado pela esperteza saloia e a cada vez maior inapetência para o trabalho e apetência para a arruaça, que começa nas escolas e acaba nas greves devastadoras.
Quanto à frase de Guy de Maupassant, escritor realista do século XIX, sobre o arrivismo social de tantos seres desejosos de sobressair socialmente, na França capitalista desse tempo, escolheu-a Salles da Fonseca, pela sua universalidade, num propósito irónico para retratar o arrivismo social de tantos nossos, que enchem as cadeiras da Assembleia, na sua maioria, em irrisória ficção de governação, numa democracia de ruído e blasfêmia.
As angústias do trabalho depois dos 50 anos
PEDRO AFONSO
OBSERVADOR, 2/11/2018
Converte-se a vida humana numa peça industrial descartável, cujo prazo de validade se encurta sucessivamente, atirando-se as pessoas para o ferro velho, como se se tratasse de lixo não reciclável.
Para aqueles com mais de 50 anos que (ainda) trabalham, o país está dividido em dois pólos que reflectem estados de espírito distintos. Quem trabalha no sector privado vive atormentado com o fantasma das reestruturações das empresas (leia-se despedimentos), cada vez mais frequentes e imprevisíveis. Por sua vez, aqueles que trabalham no sector público vivem impacientes com a contagem do tempo para alcançarem a reforma. Se no primeiro caso prevalece o medo e a insegurança, no segundo predomina a ansiedade e o desejo de descanso. De qualquer modo, ambas situações são negativas para o país porque têm um efeito desmoralizador e afetam gravemente a produtividade.
Esta situação torna-se ainda mais grave quando um dos nossos maiores problemas está relacionado precisamente com a baixa produtividade. Neste contexto, o ambiente psicológico em que se trabalha é muito importante.   Infelizmente, quer no sector público quer no privado, o ambiente laboral está cada vez pior. Hoje em dia uma pessoa com mais de 50 anos, que seja despedida, sabe de antemão que será muito difícil voltar a conseguir encontrar emprego, pois as empresas valorizam cada vez menos a experiência profissional e a maturidade, preferindo contratar jovens com salários mais baixos. Os funcionários públicos, que tiveram as carreiras congeladas durante largos anos, sem qualquer diferenciação salarial pelo mérito e esforço pessoal, vão fazendo uma peregrinação profissional dolorosa pelas instituições públicas, na expectativa de alcançarem a sua pequena fatia de justiça laboral: a reforma.
Estes dois cenários reais são profundamente doentios e nocivos. Revelam um país derrotado, de braços caídos, e sem ânimo. O país não progride economicamente, nem tão-pouco se transforma num bom lugar para se viver com este ambiente social que só traz consigo doenças psiquiátricas; isto poderá explicar, pelo menos em parte, por que motivo o consumo de psicofármacos continua a aumentar entre nós.
Não é bom para a saúde mental de uma pessoa, após o infortúnio de ter caído nas malhas do despedimento, ser praticamente impedida, pelo critério da idade, de voltar a ter um papel útil e produtivo na sociedade. Esta situação para além de configurar uma humilhação, traz consigo enormes problemas financeiros e familiares.
Não é bom para a saúde mental de um país ter um exército de funcionários públicos vencidos, sem ânimo, desconsiderados e sem conseguirem produzir mais por falta de condições ou por ausência de estímulos. O ambiente na função pública é estranho e sombrio. Cresce o número de funcionários públicos que, numa ruminação obsessiva, procedem à contagem decrescente dos dias que faltam para a reforma, aguardando o término da sua sentença.
Não é bom para a saúde mental dos nossos jovens, viverem num ambiente familiar em que os pais estão deprimidos, ansiosos, angustiados com o futuro, sem esperança e impotentes pela instabilidade no trabalho. Viver com pais infelizes e frustrados configura um ambiente corrosivo, podendo conduzir a um maior insucesso escolar e a um enfraquecimento da célula familiar que é a base da sociedade.
Se hoje é difícil alguém com mais de 50 anos encontrar uma vaga no mercado de trabalho, é provável que em breve esta situação se agrave, e passe também a afectar aqueles que têm mais de 40 anos. Está em curso um processo de desumanização do trabalho, e os limites para se classificar uma pessoa como “profissionalmente inútil” alargam-se cada vez mais. Converte-se, deste modo, a vida humana numa peça industrial descartável, cujo prazo de validade se encurta sucessivamente, atirando-se as pessoas para o ferro velho, como se se tratassem de lixo não reciclável.
Lamentavelmente, se nada for feito, este é um problema que mais cedo ou mais tarde irá atingir quase todos. Esta inevitabilidade confronta-nos não apenas com os perigos de uma doença mental, mas acima de tudo com a tragédia de uma doença moral coletiva. Cabe à sociedade oferecer condições, não apenas físicas, mas também psicológicas, que possam garantir a dignidade do homem e a sua realização através do trabalho, mesmo depois dos 50 anos.
Médico psiquiatra
II - COMENTÁRIOS:
Filipe F: A questão é pertinente e interessante.Mas sejamos realistas, porque é que uma empresa haveria de preferir manter um profissional mais caro, potencialmente mais problemático (à experiência acrescida também se somam as manhas e técnicas de evitar as situações difíceis e protelar decisões) e menos apto para acompanhar os desenvolvimentos técnicos e dos mercados ?
E será que os mais de cinquenta estão dispostos para baixar a sua remuneração ? Porque é que o salário não pode descer ? Talvez se isto fosse possível, em muitos casos, as empresas não descartassem os colaboradores mais velhos.
Antonio Ferreira: Artigo interessante que subscrevo pois estou nessa faixa de idade, claro que não há políticos interessados no assunto. Se olharmos para a politica dos últimos anos de ordenados baixos é óbvio que as empresas querem substituir trabalhadores mais experientes, pelo tal mais caros, por trabalhadores mais baratos de idade mais baixa e que por regra são contratados a empresas de trabalho temporário, que não cumprem qualquer lei laboral e tem carta branca das autoridades.
Os governos e os partidos em geral querem que as pessoas se reformem cada vez mais tarde, mas não tomam medidas para criar condições para que isso aconteça.
O tema do  preconceito e  da discriminação pela idade  parece que não dá votos!
Luciano Barreira: Emprego depois dos 50 talvez seja difícil agora trabalho não falta, depende apenas do que se saiba ou queira fazer. Na construção civil, neste momento, raro é o trabalhador com menos de 50 anos. Os mais novos preferem outras vidas mais airosas. 
neocome liberais: Espera lá... Mas esse "processo de desumanização do trabalho"  que está em curso não é aquilo que costuma ser designado por precarização do trabalho e por flexibilidade ou liberalização laboral? O despedimento livre e a eliminação de uma série de direitos laborais não são medidas necessárias para melhorar a competitividade e a saúde da nossa economia e, consequentemente, da vida humana?
A "doença moral colectiva" de que o Dr. está a falar não é aquilo que é conhecido como neoliberalismo? O Dr., por acaso, não tem receio de ser confundido com o parasita do "Nogueira"? 
Ricardo Barnes: O tema da idade para o mercado de trabalho deveria preocupar a classe política e empresas, onde a mentalidade tacanha prevalece e Portugal, por muito que tente gritar na Europa para ser ouvido não passa de um irrelevante país no contexto europeu.  
Entristece-me como português o que se passa no mercado de trabalho, nomeadamente na área do recrutamento e potenciado pelas empresas de recursos humanos que muitas vezes são opacas e por vezes ardilosas. O próprio nome da maioria das funções referidas em sites de emprego é em inglês e por vezes com nomes caricatos (exemplo: Coordenador de Facilities, Facility Manager), o que só deveria ser admissível se e só se não houvesse tradução directa. Como exemplo, a comparação de um anúncio de emprego em Portugal e no Reino Unido, onde neste último, a clareza e detalhe da função relatada, características da pessoa pretendidas, compensação e demais benefícios oferecidos nada tem em comum, infelizmente, para prejuízo de todos aqueles que estão em transição no mercado de trabalho nacional. A questão da idade para efeitos de emprego em Portugal é um tema preocupante e tanto quanto sei, caso único porque noutros países por onde passei em trabalho, privilegia-se a idade que se relaciona com o saber e experiência profissional.
O factor idade no séc. XXI já não é sinónimo de falta de instrução ou formação e por se preterirem os mais experientes talvez explique parte da fraca produtividade do país. 
Sem me alongar, deixo em baixo um exemplo (não trascrevi) de nota de rodapé de um anúncio de emprego no Reino Unido, país onde a diversidade é total e até para efeitos de candidatura a emprego não são aceites elementos identificativos tais como fotografia, data de nascimento ou morada mas apenas o nome, telefone e e-mail. Aqui, as pessoas são contratadas pelo saber e potencial valia para a função e empresa e não pela questão da aparência. 
Antonio Costa: artigo muito realista, lamentavelmente temos a sociedade desamparada, perdida nos futebóis e discursos políticos futebolizados de esquerda - direita, sem rumo, sem estratégia, sem cuidarmos dos nossos filhos e do seu futuro... 
Ricardo Nuno: E o mais extraordinário é que não se vê nenhum partido político interessado em pegar nesta bandeira e introduzir nos seus programas eleitorais uma preocupação séria com o trabalho depois dos 50 anos (ou 45, ou até mais cedo em muitos casos)! Por exemplo, não me lembro de ouvir algum dirigente partidário a insurgir-se contra os limites injustificados de idade que todos os dias podemos encontrar nas ofertas de emprego que vão sendo publicadas, uma discriminação que até poderia e deveria merecer proibição a nível constitucional.
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 04.11.18
O DEPUTADO
«Era uma espécie de jesuíta republicano e de cogumelo liberal de natureza duvidosa, como medram tantos [deputados] sobre a estrumeira popular do sufrágio universal.»
 Guy de Maupassant
in «Bel-Ami», Abril Controljornal, Edipress, Agosto de 2000, pág. 191 e seg

domingo, 4 de novembro de 2018

Saboreando


Três textos do nosso humor e da nossa consciência: Um, de Bagão Félix, uma análise brilhante do significado de família, segundo a convenção experiente de tipo velho do Restelo ou a convenção moderna, dos não possuidores do “experto peito" daquele, sem o saber assim obtido e mais ainda com o estudo necessário - sobre casos aqui passados, da nossa ira e, acima de tudo, da de Bagão Félix, exemplo de seriedade, bom senso e veia tristemente irónica. Outro, de Alberto Gonçalves, que eu não tinha visto ainda, o qual não resistiu aos benefícios da técnica para cruzar a distância, com as provocações certeiras e temerárias do costume. O terceiro, de Salles da Fonseca, sério e conclusivo, sobre a evolução social e histórica em torno dos fascismos e dos populismos. Sem a colocação de comentários, que, sobretudo Alberto Gonçalves, atraiu... pela negativa escatológica de uns, pela positiva admiradora de outros.

I – OPINIÃO: A família tornou-se uma “incorrecção política”?
Três exemplos que ilustram a forma como se amesquinha a família enquanto primeira e decisiva instituição referencial.
ANTÓNIO BAGÂO FÉLIX
PÚBLICO, 2 de Novembro de 2018
Hoje é o dia dos Finados, tornado banal pela escassez de espiritualidade e pela rarefacção de memória que a sociedade presentista vai gerando aceleradamente. Hoje, continuamos entre Tancos e tantos (casos judiciários). Nesta apoplexia da repetição e da vulgarização, a indiferença tornou-se demolidora. É aí que medram circunstâncias insólitas, como três situações recentes, que aqui sumario. A primeira, a de um professor de uma universidade pública, “dinamizador do poliamor (!) em Portugal”, que num programa televisivo afirmou que “quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro ou da outra, desde crianças”. A segunda, a de um inquérito abjecto numa escola pública em que alunos do 5.º ano (nove, dez anos de idade) foram questionados sobre se se sentem “atraídos por homens, mulher ou ambos” e sobre o seu sexo (se é “homem, mulher ou... outro”!), no âmbito de uma “ficha sociodemográfica” (!). A terceira, a de um novo reality show chamado “Casados à Primeira Vista”, no qual os “concorrentes” vão casar com alguém que nunca viram antes e que só conhecem no próprio dia do casamento.
Estes três exemplos ilustram algumas das faces eticamente sórdidas e tóxicas com que, directa ou subliminarmente, se amesquinha a família enquanto primeira e decisiva instituição referencial.
A família não é um frágil conglomerado de emoções e estados de alma que nos é oferecido por telenovelas e outros produtos de libertinagem.
A família nasceu com o Homem e existe antes do Estado. Não foi inventada cientificamente, não resulta de qualquer legado jurídico, não foi imposta por qualquer acto administrativo, não germinou fruto de uma qualquer ideologia, não é o resultado de meras circunstâncias ou contingências históricas, nem é moldável por ideologias do género que subjuguem o seu fundamento antropológico. A família legitima-se no direito natural. A família não é para o Estado, mas antes o Estado (e a sociedade) são para a família.
A família não é de esquerda ou de direita, nem é politicamente apropriável. Não é laica ou confessional. É antes o mais perene património da humanidade, um bem para todos e não um mal para alguns.
Na família – unidade através da diversidade – todos dependem de todos. Não somos invulneráveis, nem perfeitos, mas dependentes e imperfeitos. Bem sei que a instituição familiar não está na moda politicamente correcta e fracturante. Bem sei que o excitante não é falar do casamento, mas da sua dissolução, não é defender a exigência, mas espraiar lógicas facilitistas, não é cuidar dos velhos quando a cura já não é possível, mas do seu direito à eutanásia, não é investir na maturidade afectiva, mas estimular a precocidade sexual, não é educar na liberdade e responsabilidade, mas confundir obrigação com coerção (vide a palavra “obrigada”, usada pelo interveniente sobre os beijos aos avós...).
Na política de hipertrofia obsessiva de meios materiais, a família é sempre sacrificada. Para o Estado, é perspectivada quase apenas como sujeito pagador de impostos. Na sociedade do ter, a família torna-se cada vez mais e apenas um agente consumidor. No imperialismo mediático, o sucesso da família não é notícia, apenas o é o seu fracasso.
No fundo, a família está entre dois pólos, também chamados de reivindicações da modernidade: o individualismo e o Estado. Subjugada ao poder discricionário, ao mercado, ao consumismo, ao hedonismo. Por outro lado, é menosprezada nesta Europa redutora e monetarizada e está completamente ausente de qualquer tratado europeu.
Tenho para mim que a família é e será indelevelmente um tema de futuro, de progresso e de esperança. Não para sustentar visões arcaicas. Não para isolar a família como uma entidade defensiva e fechada sobre si mesma e à margem das transformações que se vão verificando. Antes para promover uma concepção dinâmica, arejada, responsável de família, que reforce e potencie os seus traços essenciais de partilha, solidariedade, entreajuda e amor e que não descarte, antes aprofunde e aperfeiçoe, a experiência acumulada de gerações passadas.
Este aggiornamento familiar tem, é bom não esquecer, adversários poderosos, umas vezes mais à luz do dia, outras mais larvares, mas nem por isso menos dissolventes. Adversários que, no plano ético, se servem do relativismo; no plano comportamental, da indiferença e da licenciosidade; no plano da vida, da propagação da cultura da morte; no plano espiritual, do positivismo hedonista e da cultura da satisfação; no plano geracional, do egoísmo; no plano social, do individualismo predador; no plano económico, do utilitarismo puro e duro; no plano religioso, do fanatismo religioso ou ateu.
Não há verdadeiro desenvolvimento humano sem qualidade de família. Não se edifica uma “sociedade de bem-estar” radicada no “mal-estar das famílias”.
O progresso da humanidade passará sempre pelo primado da família. Fora desta, todas as soluções são falsas, circunstanciais e efémeras.
Economista
IPSIS VERBIS
CITAÇÃO: “Não é pequena contradição ser dotado de tão pouco sentimento familiar e ter tanta necessidade de uma família (José Saramago, 1922-2010)
PLEONASMO: Tenho um amigo meu
PARANOMÁSIA (fiscal):  Doa a quem doar
PALÍNDROMO (capicua de letras):  Aí, Lima falou: “Olá, família!”
SCIENTIA AMABILIS
As famílias botânicas
Neste espaço botânico e a propósito de família, talvez se justificasse falar de árvores... genealógicas. Todavia, escolhi escrever sobre as famílias botânicas. No conjunto da biodiversidade vegetal, chama-se taxon (no plural, taxa, ou aportuguesando táxones) ao conjunto de indivíduos agrupados nos diferentes níveis taxonómicos: família, género, espécie, subespécie. Estes níveis são precedidos biologicamente por reino, divisão, classe e ordem. A denominação de uma família resulta normalmente da do seu género mais representativo acrescentando-se-lhe o sufixo aceae e é escrita em itálico e iniciada por uma maiúscula. Exemplo: a família das Platanaceae advém do seu género mais significante, Platanus. Dentro de cada família, o nome científico de uma planta é de natureza binomial ou binária, ou seja, constituído por dois nomes: o primeiro designa o nome genérico (o género) e o segundo é o epíteto específico (a espécie). Escrevem-se em itálico, sendo que o nome do género (um substantivo) é iniciado por uma letra maiúscula e o da espécie (um adjectivo ou um substantivo adjectivado) por uma minúscula. A seguir ao nome da planta é assinalado o do seu classificador. Exemplo: a nogueira é designada por Juglans regia L. (L de Lineu, na ilustração).

II - Notícias do meu (ai, ai) país /premium
OBSERVADOR, 27/10/2018,
Se tomarmos os espécimes à exacta medida do que valem, tudo o que envolve o dr. Louçã e o prof. Freitas – “intelectuais” na perspectiva de um maquinista da CP – contém inegável potencial humorístico.
Ao longo da História, muitas batalhas aconteceram e muitos homens morreram semanas depois de alcançada a paz. Bons tempos, marcados pela demora nas comunicações, dependentes de cavalos, carroças e caminhos tortuosos. Por azar, não pude viver essa época, em que uma pessoa saía do país em viagem de férias, chacina ou catequização e ficava impecavelmente privado de notícias locais. Com jeitinho, regressava-se e descobria-se que, à custa dos fantásticos estadistas que temos, já não havia país ao qual regressar. Passados seis meses, recebia-se um telegrama a confirmar a falência.
Hoje as dificuldades são incomensuravelmente maiores. Apanho oito voos (juro), alugo dois carros, afasto-me nove mil quilómetros de casa e, contra todos os princípios terapêuticos, continuo a perceber, sem perceber metade, o que sucede em Portugal. Culpo as “apps” do Facebook e do Observador, que não resisto abrir com excessiva regularidade. À semelhança de um voyeur à solta num motel, é impossível evitar a espreitadela. E a ligeira melancolia que se lhe segue. Cada “facto noticioso” é absurdo, e cada reacção ao “facto” mais absurda ainda.
Houve a “remodelação” do governo, em que, além de diversas mudanças importantíssimas, o dr. Costa chutou para cima aquele funcionário do partido que tem um coisinho na orelha. O assunto gerou a indispensável indignação, como se a criatura em causa fosse substituir uma sumidade ou ocupar a vaga de outra. Quem se zanga com escolhas assim está, deliberadamente ou não, a exibir um esboço de esperança que o arranjinho no poder nunca mereceu. Por definição, a pertença ao culto faz de qualquer um devoto, de igual direito e igual descaramento.
Houve um coitado que foi à televisão falar na violência que obriga as crianças a beijar os avós. Entre a subsequente fúria das massas, ninguém lembrou a violência que obriga os avós a beijar as crianças, sejam estas “cientistas sociais” ou não.
Houve uma “jornalista”, cujo currículo consiste em frequentar a intimidade de ladrões sem reparar nos roubos, inconformada com o uso de “Até amanhã, se Deus Quiser” por uma apresentadora televisiva. É no que dá distribuir o ateísmo pelas cabeças de fanáticos.
Houve o sr. prof. Marcelo a proferir frases acerca de Tancos e houve pessoas bem-intencionadas – e irremediavelmente optimistas –  a prestarem atenção às frases que saem da boquinha do sr. prof. Marcelo, colocando-as a ocupar o espaço que deveria pertencer à informação.
Houve a publicação de novo livro de memórias do prof. Cavaco e a esquerda em peso saiu esbaforida para garantir, aos berros, que as opiniões do prof. Cavaco não possuem nenhuma relevância. A título de alívio cómico, alguns senhores do PS lembraram a falta de “sentido de Estado”.
Houve o anúncio (necessariamente discreto) de que, por obra do dr. Centeno e com a cumplicidade, demonstrável em tribunal, dos que ergueram o dr. Centeno a algo diferente de uma nulidade com dentes, as nossas contas terminaram 2017 com o segundo maior défice e a terceira dívida mais elevada da União Europeia.
E houve, claro, a oportuna carta de “intelectuais” portugueses a apelar à derrota de um determinado candidato nas eleições presidenciais brasileiras. A carta é engraçada por uma data de razões. Tem graça porque, dos “intelectuais” em questão, cinco sextos jamais se distinguiram pelo intelecto e a maioria distingue-se justamente pela respectiva, e flagrante, ausência. Tem graça porque, se tomarmos os espécimes à exacta medida do que valem, tudo o que envolve o dr. Louçã e o prof. Freitas – “intelectuais” na perspectiva de um maquinista da CP – contém inegável potencial humorístico. Tem graça porque há um evidente efeito paródico em ver a aflição dedicada ao Brasil por sujeitos que não vivem e não votam no Brasil, o mesmo efeito que teria uma carta de “intelectuais” argentinos a propósito das eleições no Ruanda. Tem graça porque o “perigo” que os “intelectuais” referem paira sobre um território arrasado pela corrupção, estrangulado pela miséria e inviável pelo crime. Tem graça porque boa parte dos “intelectuais” legitimaram pelo silêncio ou apoiaram pela palavra os bandos responsáveis pela corrupção, pela miséria e pelo crime. Tem graça porque o receio dos “intelectuais” face ao hipotético fim da liberdade no “país irmão” (?) não se verifica na real inexistência da dita em países primos, sobrinhos e cunhados. Tem graça porque, cá dentro e lá fora, o único esforço de tantos dos citados “intelectuais” a pretexto da democracia consistiu, e consiste, em lutar pela sua abolição. Tem graça porque uma curiosa quantidade desses “intelectuais” é, sem tirar nem pôr, comunista. Tem graça porque os “intelectuais” chamam “fascista” ao sr. Bolsonaro após chamarem “fascista” a Trump, Passos Coelho, Bush filho, Bush pai, Cavaco, Thatcher, Reagan, Sá Carneiro e, imagine-se, até ao prof. Freitas, agora absolvido do Mal e prova ambulante da redenção. Tem graça porque, dado o currículo dos “intelectuais” que se lhe opõem, o sr. Bolsonaro, que por acaso emite palpites um bocadinho fascistas e é sem dúvida um burgesso, é capaz de esconder duas ou três virtudes.
Confesso que não as encontrei, mas também não procurei. E não tenciono procurar. Interessar-me pela demência brasileira com a portuguesa à minha disposição é um luxo e um masoquismo escusados.

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA
OBSERVADOR, 3.11.18
ABAIXO O FASCISMO!
Fascismo de esquerda ou de direita é coisa horrível mas o populismo é um poderoso mecanismo de integração de toda a gente na vida política - uns como apoiantes e outros como críticos mas todos por claras motivações.
O populismo nasce por reacção contra uma sociedade cristalizada e, portanto, tem uma essência revolucionária independentemente de se tratar de bonapartismo esquerdino ou de direita.
O sistema de Partidos definidos numa base doutrinária cujas lideranças são democraticamente eleitas dentre um conjunto coeso de eleitores, é posto em causa pelo culto da personalidade de um caudilho com mais ou menos carisma que facilmente se pode transformar em ditador. A História está recheada de exemplos e como todos os meus leitores bem sabem, houve-os de esquerda e de direita mas todos obviamente fascistas.
E recordo as palavras atribuídas a Dino Grandi (Presidente do Grande Conselho Fascista e Ministro dos Negócios Estrangeiros do populista Mussolini) quando terá definido que «Fascismo é a prática do improviso resultante da prodigiosa imaginação do Duce».
Eis por que creio prudente pormos travão ao populismo seja ele de esquerda ou de direita e, para reforço do sistema partidário tradicional, tudo fazermos com vista ao regresso às respectivas bases doutrinárias em vez de quase todos os Partidos praticarem uma mesma política e apenas se distinguirem pelos interesses pessoais dos seus membros mais influentes. É que o caudilhismo dá asneira com muita probabilidade quer ele nos chegue pela esquerda como pela direita.




sábado, 3 de novembro de 2018

A não perder


Mais um texto chegado por via email, este de Salles da Fonseca, que, seriamente e com dados da História que por alguns de nós passou, conviria que todos conhecêssemos. E ponderássemos bem, a razão e o estudo prevalecendo sobre o excesso de “sensibilite”, que afinal, não passa de marosca apelativa de votos. Jogo bem antigo, afinal, já Napoleão dele se servira, suscitando paixões. Mas esse, pelo menos, era irrequieto e valente, usando armas concretas. Os caudilhos de hoje usam armas mais discretas, do foro abstracto, facilmente descambando em falseamentos corrosivos dos bons costumes.

O CAUDILHISMO BONAPARTISTA
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO
Historicamente, o populismo tornou-se uma força importante na América Latina, principalmente a partir de 1930, estando associado à urbanização e à dissolução das estruturas políticas até então na mão de aristocracias rurais. No Brasil, remetamo-nos à figura de Getúlio Vargas; na Argentina, a Juan Péron e a sua mulher, «Evita».
A política populista caracteriza-se menos por um conteúdo determinado do que por um "modo" de exercício do poder, a demagogia, ou seja, dizendo ao povo o que ele quer ouvir. O que, na prática mais comum, consiste apenas em dizer mal das elites.
Para ser eleito e governar, o líder populista procura estabelecer um vínculo emocional com o "povo". Isso implica um sistema de políticas ou métodos para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos através da simpatia daquelas.
O populismo é denegrido pelas correntes político-ideológicas, tanto de esquerda como de direita. O termo tem sentido pejorativo e é usado como arma de combate discursivo para a desqualificação do oponente.
Na Argentina, a anti-peronista União Cívica Radical e no Brasil, a direita representada pelo anti-varguismo da UDN – União Democrática Nacional, sempre recriminaram o populismo pelas suas práticas vulgares e atitudes "demagógicas", nomeadamente a concessão de benefícios sociais através do aumento da despesa pública, a chamada «compra de votos». Por outro lado, a esquerda criticava o carácter desmobilizador das benesses populistas que faziam crer que tudo dependia apenas da vontade de um caudilho bonapartista.
Recentemente, as críticas mais frequentes apontam para que o populismo promove uma espécie de pseudo democracia ao beneficiar os sectores de classe média e baixa com prejuízo dos demais cidadãos e limitam o poder das elites políticas.
Outubro de 2018