sexta-feira, 24 de março de 2017

Um texto de Francisco Assis



Um artigo de um homem sábio - Francisco Assis - que, pertencendo ao partido socialista, aparenta uma lisura de comportamento e discurso sério que se impõe não só pela educação como pela inteligência e honradez do seu espírito esclarecido. Não esqueço que foi o único socialista (julgo), que se opôs à mascarada da eleição fraudulenta de António Costa, sem receio de condenações ou marginalizações dos seus confrades. Alguém independente capaz de valorizar os outros, independentemente da cor partidária, e apenas por afinidade de pensamento. É o caso da defesa do posicionamento de Rui Tavares relativamente aos problemas de intolerância xenófoba dos novos populismos antidemocráticos, e que direciona a sua tese para um entendimento com a direita europeia numa tentativa de criar uma maior justiça social. Caso igualmente do seu apreço pelo desafio de Rui Pena Pires lançado à esquerda, de “recusa da anatematização do capitalismo e economia de mercado, com o que isso significa de valorização da livre iniciativa individual como factor concorrente para o desenvolvimento das sociedades”.
Quanto à questão da Venezuela, merece-lhe naturalmente uma síntese de alerta e preocupação, pela sua extrema gravidade, num mundo que vai deixando passar impunes tais desmandos, como acontece em tantas outras partes da esfera.

ESQUERDA CONTRA-CORRENTE
Francisco Assis
Público,quinta-feira, 10 de Março de 2017
Seria dramático que a social-democracia no séc. XXI perdesse contacto com o que significa inovação
1- Esta semana fica a meu ver marcada pela publicação neste jornal de dois excelentes artigos da autoria  de articulistas que,pertencendo ao partido socque se integram no espaço público e doutrinário da esquerda democrática. Rui Tavares e Rui Pena Pires, abordando assuntos diferentes, demonstraram como é possível elaborar uma análise e um pensamento nos antípodas do estereotipado discurso dominante, o qual se limita a reproduzir a monocórdica litania antiliberal. Pelo contrário, nos textos em apreço descortina-se uma compreensão da presente realidade histórica com outro grau de elaboração intelectual.
Em “De que se queixam os Holandeses” (Público,15-03-2017), Rui Tavares, a propósito das eleições ontem realizadas na Holanda, lembra que o crescimento de um certo populismo nacionalista e xenófobo ocorre em sociedades bastante prósperas, dotadas de um Estado-Providência muito forte e com níveis de desemprego especialmente baixos. Daí conclui, quanto a mim acertadamente, que o recurso às explicações de base exclusivamente económica e social não permite a correcta apreensão da origem desse fenómeno e ,como tal, acaba por impedir o adequado combate ao mesmo. Ao situar o centro da discussão no plano  de uma disputa de valores, reconduzida a uma oposição entre nacionalistas e cosmopolitas, Tavares contribui para um melhor discernimento de que se passa hoje não só na Holanda mas em vários outros países Europeus.
Na verdade, como já aconteceu no caso do “Brexit”, estão a surgir novas linhas de fractura política que, não subvertendo totalmente as tradicionais, obrigam a uma redefinição significativa da natureza do próprio campo da discussão política.
Nesse sentido ,será útil indagar o que aproxima e afasta o cosmopolitismo de direita, e, de igual modo, o que relaciona as posições nacionalistas de um lado e outro lado desta dicotomia política clássica. Isso leva-nos directamente para a discussão do problema europeu e confronta-nos com a necessidade de estabelecer um novo modelo de interpretação dos consensos e dissensos que em torno dele se geram.
Para bem das nossas democracias, seria bom que a esquerda democrática assentasse em duas ideias básicas: a de que pode e deve convergir com a direita democrática e liberal no domínio da formatação jurídico-institucional do espaço político europeu, e a de que deve garantir claramente a sua autonomia no âmbito das políticas concretas, nomeadamente daquelas que mais têm a ver com  a promoção da justiça social. A partir daí poderá ser possível uma discussão útil com a direita europeia sobre a natureza das reformas institucionais a levar cabo, de modo a que se criem condições mais propícias à afirmação das divergências no plano da política quotidiana, as quais são imprescindíveis para o próprio bem-estar da democracia. Trata-se de um caminho difícil, exigindo apurado sentido de responsabilidade de todas as partes envolvidas, mas que aparenta ser o único capaz de permitir a superação dos bloqueios actualmente existentes no espaço político europeu.
Rui Pena Pires , num artigo de invulgar ousadia nos tempos que correm, intitulado “Outubro de 1917”(PUBLICO,12-03-2017), formula, sob a forma de um repto ao Bloco de Esquerda, uma série de considerações sobre a renovação da social-democracia deveras interessantes. O que mais singulariza o seu texto é a sua explícita recusa da anatematização do capitalismo e economia de mercado, com o que isso significa  de valorização da livre iniciativa individual como factor concorrente para o desenvolvimento das sociedades. Esta perspectiva tem sido excessivamente desvalorizada por uma nova esquerda que, no seu afã de se distanciar de qualquer suspeita colaboração com o pensamento económico liberal, acaba por deitar fora o menino com a água do banho. Uma das principais questões que se coloca hoje à esquerda europeia é precisamente a de não ceder à tentação de se transformar numa ampla provedoria de múltiplos interesses corporativos, na maior parte dos casos com grande ligação ao Estado. Seria dramático que a social-democracia no séc. XXI perdesse contacto com tudo o que significa inovação e transformação nos mais diversos planos da vida económica, social e política. É por isso mesmo que são importantes reflexões doutrinárias que apontem no sentido contrário.
2- O que se está a passar na Venezuela, com o silêncio cúmplice de alguns e a adesão entusiástica de outros, reveste-se de excepcional gravidade. O regime bolivariano confiscou as liberdades públicas, controlou o poder judicial, anulou a autonomia parlamentar e provocou um desastre económico e social que já atingiu as dimensões de uma verdadeira crise humanitária. A subnutrição galopante e a falta de acesso a medicamentes conduz a mortes evitáveis. A situação nas prisões, onde se encontram detidos centenas de presos políticos, atingiu tal estado de degradação que já há alertas para a prática de canibalismo entre a população prisional. Até agora todas as tentativas levadas a cabo por diversas instâncias e personalidades internacionais, desde o Papa Francisco a José Rodriguz Zapatero, têm esbarrado com a intransigência autoritária do regime de Maduro. É assim que acabam as revoluções populistas.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Onde é eu já li isto?



Um jovem indignado contra a manipulação do pensamento pretendida por indivíduos que, provavelmente, o que têm no seu próprio pensamento não são mais do que estereótipos ou lambedelas de falsos saberes, provenientes não de verdadeiro aprofundamento cultural, mas de pingos de convenções que não permitem mais do que o marrar no seu preconceito, desinteressados da autenticidade da pesquisa racional que a esses passa ao largo, apesar de os ditos de quem se fala pertencerem a uma universidade de Ciências Sociais. Não esqueço velhos tempos de Coimbra e conferências dadas por artífices do saber, quantas vezes de bastante idade, alguns estrangeiros, que estudantes perturbavam, saindo da sala de conferência a meio, em grupo ou solitariamente, sala onde provavelmente entraram por a terem confundido com qualquer evento lúdico da sua prática estudantil. Foi assim nos meus tempos de ontem, mas já Verney, séculos antes, condenava a palhaçada de tanta da nossa pretensão a uma prática cultural anquilosada e viciosa, e, um século depois, a Geração de Setenta de finais de oitocentos bem se esforçou por lhe alargar os horizontes, mas não resultou, num país onde se permite ainda hoje - mais do que ontem - a prática de crime a coberto de praxes que põem a nu a nossa falta de respeito e educação, verificável também nas praias que estrangeiros por vezes se entretêm a limpar-nos, para nos fornecerem lições que não pretendemos seguir, os nossos areais extensos possibilitando o encobrimento da nossa incúria manhosa e tosca.
O artigo de João Miguel Tavares, na sua indignação que outros articulistas igualmente manifestaram, a respeito do boicote à conferência de Jaime Nogueira Pinto, aponta desassombradamente um caminho de maior racionalidade e lisura:

VINTE E QUATRO PALERMAS E UM DIRECTOR MEDROSO
Publico, 9 de Março de 2017
João Miguel Tavares

Comecemos por relativizar as coisas: foram 24 estudantes. Não foram 2400,nem 240.Foram 24. Vinte e quatro tontos que numa RGA na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas votaram favoravelmente uma moção que exigia o cancelamento da reserva da sala onde se iria realizara conferência de Jaime Nogueira Pinto. Como é que 24 pessoas conseguiram tal coisa numa faculdade que tem quase cinco mil alunos? Simples: participando numa RGA onde, pelos vistos, só havia membros da associação de estudantes e seus amigos. Como a inexistência de quorum não impede a tomada de decisões, 0,5% dos alunos da FCSH conseguiram desprestigiar uma faculdade inteira e inaugurar em Portugal a censura de esquerda nos meios universitários. Primeira lição a tirar deste caso: a deserção cívica é o primeiro passo para os extremistas imporem a sua lei.
Segunda lição a tirar deste caso: a luta pela liberdade de expressão é um dos combates mais sérios e necessários dos nossos dias. Aquilo que se está a fazer em nome de uma agenda progressista é promover o exercício da censura nos espaços que nasceram para estimular o debate intelectual livre. Ler a acta da RGA que impediu Nogueira Pinto de falar, o conteúdo da moção que aprova e a subsequente justificação da associação de estudantes é chocante, desde logo porque encaixa como uma luva na vergonhosa cultura dos trigger warnings e atenta contra a mais básica lição de John Stuart Mill: silenciar uma opinião é roubar a humanidade do seu mais valioso património, pois se essa opinião estiver errada perdemos uma oportunidade de denunciar a sua falsidade.
Numa das primeiras justificações que apresenta para a sua decisão censória, a associação de estudantes da FCSH afirmou esta coisa extraordinária: ”Por sermos, efectivamente, uma universidade onde a liberdade do pensamento e o pensamento crítico são promovidos, não compactuamos com eventos apresentados como debate sob égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional.” Que é como quem diz: promovemos a liberdade de pensamento e de crítica desde que as pessoas pensem como nós. Ora ,estes estudantes, tão preocupados com o fascismo e com a “inconstitucionalidade” do grupo que promoveu a conferência de Jaime Nogueira Pinto, está a decalcar a argumentação inscrita na Constituição fascista de 1933.
Também ela garantia “a liberdade de expressão do pensamento sob qualquer forma”, exceptuando aqueles ”factores que desorientem contra a verdade, a justiça, a moral e o bem comum”. É por isso que extrema direita e extrema esquerda são duas faces de uma mesma moeda: uns gostam de Salazar, outros copiam os seus métodos.
Mas nada disto teria sido possível sem o lastimável papel do director da FCSH. Receoso de que o evento pudesse “ desviar-se para extremos que não interessam”, Francisco Caramelo deixou cair a conferência, prometendo que “chegará o momento em que a instituição, no quadro de um debate mais alargado, considerará oportuno” voltar a convidar Jaime Nogueira Pinto. Esta é a terceira lição a tirar do caso: à deserção cívica e ao desprezo pela liberdade de expressão junta-se a cobardia intelectual. É uma vergonha ver o director de uma faculdade portuguesa deixar espezinhar o direito ao debate livre e ao exercício da palavra para evitar empurrões e insultos. A liberdade na FESH está a ser vendida a um preço demasiado baixo.

Mas o artigo de João Miguel Tavares lembra-me um que escrevi (in Pedras de Sal”, 1974) - “Quem são os carrascos?, de resposta a uma tentativa (dos democratas moçambicanos) - bem sucedida - de boicote à minha colaboração “fascista” no jornal Notícias. Dele transcrevo o 1º e o 4º parágrafos que um estado de espírito de repúdio tornou parecido com o de JMT:

«Quem são os carrascos? : A folha informativa nº 10 dos nossos Democratas, (25/5/74), ataca um artigo da «Tribuna Livre» de 20 do corrente o qual, por ser meu, me proponho defender dentro da independência de pensamento que sempre norteou os meus actos e cujo direito reivindico:
…..3º- Exigem os nossos Democratas que essas vozes se calem, em nome dos “Direitos Fundamentais do Homem. Creio bem que entre esses direitos se conta exactamente o da liberdade de expressão, antes reprimida - embora não totalmente - e agora permitida. Pergunto, pois, aos nossos Democratas, em nome de que princípio exigem o silêncio dessas vozes, apenas porque contrariam as suas. Será que a liberdade  concedida não poderá manifestar-se senão dentro do seu programa democrático? Mas isso seria uma incompreensível adesão dos seus princípios aos princípios fascistas! Não me parece justo que eles assim se queiram identificar com o regime tão energicamente repudiado!...»

Não se muda assim, ora essa!! Qual Salazar! Qual carapuça!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Email linguístico



Email linguístico
Enviado por João Sena. Imagens não captadas.

EXPRESSÕES POPULARES: significado e origem.
Significados interessantes!

ERRO CRASSO: Significado: Erro grosseiro. Origem: Na Roma antiga havia o Triunvirato: o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro destes Triunviratos, tínhamos: Júlio César, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar um pequeno povo chamado Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair.
Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um "erro crasso".
TER PARA OS ALFINETES: Significado: Ter dinheiro para viver. Origem: Em outros tempos, os alfinetes eram objecto de adorno das mulheres e daí que, então, a frase significasse o dinheiro poupado para a sua compra porque os alfinetes eram um produto caro. Os anos passaram e eles tornaram-se utensílios, já não apenas de enfeite, mas utilitários e acessíveis. Todavia, a expressão chegou a ser acolhida em textos legais. Por exemplo, o Código Civil Português, aprovado por Carta de Lei de Julho de 1867, por D. Luís, dito da autoria do Visconde de Seabra, vigente em grande parte até ao Código Civil actual, incluía um artigo, o 1104, que dizia: «A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»
DO TEMPO DA MARIA CACHUCHA: Significado: Muito antigo. Origem: A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, ao som das castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.
À GRANDE E À FRANCESA: Significado: Viver com luxo e ostentação. Origem: Relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.
 COISAS DO ARCO-DA-VELHA: Significado: Coisas inacreditáveis, absurdas, espantosas, inverosímeis. Origem: A expressão tem origem no Antigo Testamento; arco-da-velha é o arco-íris, ou arco-celeste, e foi o sinal do pacto que Deus fez com Noé: "Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na Terra" (Génesis 9:16).
Arco-da-velha é uma simplificação de Arco da Lei Velha, uma referência à Lei Divina.
Há também diversas histórias populares que defendem outra origem da expressão, como a da existência de uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice, ou devido a uma das propriedades "mágicas" do arco-íris - beber a água num lugar e enviá-la para outro, pelo que velha poderá ter vindo do italiano bere (beber).

DOSE PARA CAVALO: Significado: Quantidade excessiva; demasiado. Origem: Dose para cavalo, dose para elefante ou dose para leão são algumas das variantes que circulam com o mesmo significado e atendem às preferências individuais dos falantes.
Supõe-se que o cavalo, por ser forte; o elefante, por ser grande, e o leão, por ser valente, necessitam de doses exageradas de remédio para que este possa produzir o efeito desejado. Com a ampliação do sentido, dose para cavalo e suas variantes é o exagero na ampliação de qualquer coisa desagradável, ou mesmo aquelas que só se tornam desagradáveis com o exagero.
DAR UM LAMIRÉ: Significado: Sinal para começar alguma coisa. Origem: Trata-se da forma aglutinada da expressão «lá, mi, ré», que designa o diapasão, instrumento usado na afinação de instrumentos ou vozes; a partir deste significado, a expressão foi-se fixando como palavra autónoma com significação própria, designando qualquer sinal que dê começo a uma actividade. Historicamente, a expressão «dar um lamiré» está, portanto, ligada à música (cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). Nota: Escreve-se lamiré, com o r pronunciado como em caro.
MEMÓRIA DE ELEFANTE: Significado: Ter boa memória; recordar-se de tudo.
Origem: O elefante fixa tudo aquilo que aprende, por isso é uma das principais atracções do circo.
LÁGRIMAS DE CROCODILO: Significado: Choro fingido. Origem: O crocodilo, quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, ele chora enquanto devora a vítima.
NÃO PODER COM UMA GATA PELO RABO: Significado: Ser ou estar muito fraco; estar sem recursos. Origem: O feminino, neste caso, tem o objectivo de humilhar o impotente ou fraco a que se dirige a referência. Supõe-se que a gata é mais fraca, menos veloz e menos feroz em sua própria defesa do que o gato. Na realidade, não é fácil segurar uma gata pelo rabo, e não deveria ser tão humilhante a expressão como realmente é.
MAL E PORCAMENTE: Significado: Muito mal; de modo muito imperfeito. Origem: «Inicialmente, a expressão era "mal e parcamente". Quem fazia alguma coisa assim, agia mal e ineficientemente, com parcos (poucos) recursos. Como parcamente não era palavra de amplo conhecimento, o uso popular tratou de substituí-la por outra, parecida, bastante conhecida e adequada ao que se pretendia dizer. E ficou "mal e porcamente", sob protesto suíno.»(1) (1) in A Casa da Mãe Joana, de Reinaldo Pimenta, vol. 1 (Editora Campus, Rio de Janeiro)
JÁ A FORMIGA TEM CATARRO: Significado: Diz-se a quem pretende ser mais do que é, sobretudo dirigido a crianças ou inexperientes.
FAZER TIJOLO: Significado: Morrer. Origem: Segundo se diz, existiu um velho cemitério mouro para as bandas das Olarias, Bombarda e Forno do Tijolo. O almacávar, isto é, o cemitério mourisco, alastrava-se numa grande extensão por toda a encosta, lavado de ar e coberto de arvoredo. Após o terramoto de 1755, começando a reedificação da cidade, o barro era pouco para as construções e daí aproveitar-se todo o que aparecesse.
O cemitério árabe foi tão amplamente explorado que, de mistura com a excelente terra argilosa, iam também as ossadas para fazer tijolo. Assim, é frequente ouvir-se a expressão popular em frases como esta: 'Daqui a dez anos já eu estou a fazer tijolo '. in 'Dicionário de Expressões Correntes' ; Orlando Neves.
FILA INDIANA: Significado: enfiada de pessoas ou coisas dispostas uma após outra.
Origem: Forma de caminhar dos índios da América que, deste modo, tapavam as pegadas dos que iam na frente.
ANDAR À TOA: Significado: Andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.
Origem: Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está "à toa" é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.
EMBANDEIRAR EM ARCO: Significado: Manifestação efusiva de alegria. Origem: Na Marinha, em dias de gala ou simplesmente festivos, os navios embandeiram em arco, isto é, içam pelas adriças ou cabos (vergueiros) de embandeiramento galhardetes, bandeiras e cometas quase até ao topo dos mastros, indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa. Assim são assinalados esses dias de regozijo ou se saúdam outros barcos que se manifestam da mesma forma.
CAIR DA TRIPEÇA: Significado: Qualquer coisa que, dada a sua velhice, se desconjunta facilmente. Origem: A tripeça é um banco de madeira de três pés, muito usado na província, sobretudo junto às lareiras. Uma pessoa de avançada idade aí sentada, com o calor do fogo, facilmente adormece e tomba.
FAZER TÁBUA RASA: Significado: Esquecer completamente um assunto para recomeçar em novas bases. Origem: A tabula rasa , no latim, correspondia a uma tabuinha de cera onde nada estava escrito. A expressão foi tirada, pelos empiristas, de Aristóteles, para assim chamarem ao estado do espírito que, antes de qualquer experiência, estaria, em sua opinião, completamente vazio. Também John Locke (1632-1704), pensador inglês, em oposição a Leibniz e Descartes, partidários do inatismo, afirmava que o homem não tem nem ideias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência. «No começo», dizia Locke, «a nossa alma é como uma tábua rasa, limpa de qualquer letra e sem ideia nenhuma (Tabula rasa in qua nihil scriptum). Como adquire, então, as ideias? Muito simplesmente pela experiência
AVE DE MAU AGOURO: Significado: Diz-se de pessoa portadora de más notícias ou que, com a sua presença, anuncia desgraças. Origem: O conhecimento do futuro é uma das preocupações inerentes ao ser humano. Quase tudo servia para, de maneiras diversas, se tentar obter esse conhecimento. As aves eram um dos recursos que se utilizava. Para se saberem os bons ou maus auspícios (avis spicium) consultavam-se as aves. No tempo dos áugures Romanos, a predição dos bons ou maus acontecimentos era feita através da leitura do seu voo, canto ou entranhas. Os pássaros que mais atentamente eram seguidos no seu voo, ouvidos nos seus cantos e aos quais se analisavam as vísceras eram a águia, o abutre, o milhafre, a coruja, o corvo e a gralha. Ainda hoje perdura, popularmente, a conotação funesta com qualquer destas aves.
VERDADE DE LA PALISSE:  Significado: Uma verdade de La Palice (ou lapalissada / lapaliçada) é evidência tão grande, que se torna ridícula. Origem: O guerreiro francês Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (1470-1525), nada fez para denominar hoje um truísmo. Fama tão negativa e multissecular deve-se a um erro de interpretação.
Na sua época, este chefe militar celebrizou-se pela vitória em várias campanhas. Até que, na batalha de Pavia, foi morto em pleno combate. E os soldados que ele comandava, impressionados pela sua valentia, compuseram em sua honra uma canção com versos ingénuos: "O Senhor de La Palice / Morreu em frente a Pavia; / Momentos antes da sua morte, / Podem crer, inda vivia." O autor queria dizer que Jacques de Chabannes pelejara até ao fim, isto é, "momentos antes da sua morte", ainda lutava. Mas saiu-lhe um truísmo, uma evidência. Segundo a enciclopédia Lello, alguns historiadores consideram esta versão apócrifa. Só no século XVIII se atribuiu a La Palice um estribilho que lhe não dizia respeito. Portanto, fosse qual fosse o intuito dos versos, Jacques de Chabannes não teve culpa.
Nota: Em Portugal, empregam-se as duas grafias: La Palice ou La Palisse.
TER OUVIDOS DE TÍSICO: Significado: Ouvir muito bem. Origem: Antes da II Guerra Mundial (l939 a l945), muitos jovens sofriam de uma doença denominada tísica, que corresponde à tuberculose. A forma mais mortífera era a tuberculose pulmonar.
Com o aparecimento dos antibióticos durante a II Guerra Mundial, foi possível combater esta doença com muito maior êxito. As pessoas que sofrem de tuberculose pulmonar tornam-se muito sensíveis, incluindo uma notável capacidade auditiva. A expressão «ter ouvidos de tísico» significa, portanto, «ouvir tão bem como aqueles que sofrem de tuberculose pulmonar».
COMER MUITO QUEIJO: Significado: Ser esquecido; ter má memória.  Origem: A origem desta expressão portuguesa pode explicar-se pela relação de causalidade que, em séculos anteriores, era estabelecida entre a ingestão de lacticínios e a diminuição de certas faculdades intelectuais, especificamente a memória. A comprovar a existência desta crença existe o excerto da obra do padre Manuel Bernardes "Nova Floresta", relativo aos procedimentos a observar para manter e exercitar a memória: «Há também memória artificial da qual uma parte consiste na abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como são lacticínios, carnes salgadas, frutas verdes, e vinho sem muita moderação: e também o demasiado uso do tabaco». Sabe-se hoje, através dos conhecimentos provenientes dos estudos sobre memória e nutrição, que o leite e o queijo são fornecedores privilegiados de cálcio e de fósforo, elementos importantes para o trabalho cerebral. Apesar do contributo da ciência para desmistificar uma antiga crença popular, a ideia do queijo como alimento nocivo à memória ficou cristalizada na expressão fixa «comer (muito) queijo».
ACORDO LEONINO: Significado: Um «acordo leonino» é aquele em que um dos contratantes aceita condições desvantajosas em relação a outro contratante que fica em grande vantagem. Origem: «Acordo leonino» é, pois, uma expressão retórica sugerida nomeadamente pelas fábulas em que o leão se revela como todo-poderoso.
QUE MASSADA! Significado: Exclamação usada para referir uma tragédia ou contra-tempo. Origem: É uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto dos Zelotes, onde permaneceram anos a resistir às forças Romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio colectivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo.
PASSAR A MÃO PELA CABEÇA: Significado: perdoar ou acobertar erro cometido por algum protegido. Origem: Costume judaico de abençoar cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronunciava a bênção.
 GATOS-PINGADOS: Significado: Tem sentido depreciativo usando-se para referir uma suposta inferioridade (numérica ou institucional), insignificância ou irrelevância. Origem: Esta expressão remonta a uma tortura procedente do Japão que consistia em pingar óleo a ferver em cima de pessoas ou animais, especialmente gatos. Existem várias narrativas ambientais na Ásia que mostram pessoas com os pés mergulhados num caldeirão de óleo quente. Como o suplício tinha uma assistência reduzida, tal era a crueldade, a expressão "gatos pingados" passou a denominar pequena assistência sem entusiasmos ou curiosidade para qualquer evento.
 METER UMA LANÇA EM ÁFRICA: Significado: Conseguir realizar um empreendimento que se afigurava difícil; levar a cabo uma empresa difícil. Origem: Expressão vulgarizada pelos exploradores europeus, principalmente portugueses, devido às enormes dificuldades encontradas ao penetrar o continente africano. A resistência dos nativos causava aos estranhos e indesejáveis visitantes baixas humanas. Muitas vezes retrocediam face às dificuldades e ao perigo de serem dizimados pelo inimigo que eles mal conheciam e, pior de tudo, conheciam mal o seu terreno. Por isso, todos aqueles que se dispusessem a fazer parte das chamadas "expedições em África", eram considerados destemidos e valorosos militares, dispostos a mostrar a sua coragem, a guerrear enfrentando o incerto, o inimigo desconhecido. Portanto, estavam dispostos a " meter uma lança em África".
QUEIMAR AS PESTANAS: Significado: Estudar muito. Origem: Usa-se ainda esta expressão, apesar de o facto real que a originou já não ser de uso. Foi, inicialmente, uma frase ligada aos estudantes, querendo significar aqueles que estudavam muito. Antes do aparecimento da electricidade, recorria-se a uma lamparina ou uma vela para iluminação. A luz era fraca e, por isso, era necessário colocá-las muito perto do texto quando se pretendia ler o que podia dar azo a "queimar as