terça-feira, 25 de abril de 2017

Vanitas Vanitatum…



Um Diário encolhido em extensão, Vasco Pulido Valente nos oferece agora, limitando-se a lançar algumas chispas do seu muito saber, favorecido pelo seu muito engenho certeiro no desmascarar das torpezas que vão abrilhantando as relações cínicas entre os povos. Uma lógica bastante esclarecedora, e temos pena que não chegue aos olhos de Donald Trump e seus congéneres, presentes e passados. É certo que Trump, vaidoso que é, não gostaria de ser equiparado a nenhum mais, superior a todos, e em vias de produzir, talvez, qualquer coisa de muito estrondoso, se o da Coreia do Norte não parar de fazer ameaças à distância, dois galos emproados indiferentes ao resto dos mortais, um vaidoso do seu “condomínio fechado”, onde uma extraordinária coesão e harmonía, medidas ao milímetro, transforma uma parada militar em espectáculo surreal de robots humanos comandados electronicamente, o outro, orgulhoso do seu poderio, num país desde sempre dominando nos vários campos produtivos, e neste momento - quem sabe? - julgando-se dono do mundo e fazendo ameaças.
 Entretanto, o seu antecessor Obama, vai preparando os jovens, estimulando-os na ambição de futuros próximos mentores da humanidade, criando mais robots articulados, sem outros valores que não sejam esses de governar um dia, cada vez mais cedo…
E porque não? Restarão sempre os poetas, a lembrar valores, ou a qualificar acções. Leiamos António Nobre, para descontrair, enquanto pudermos:

Vaidade, Tudo Vaidade!
Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?


António Nobre, in 'Só'


O Diário de Vasco Pulido Valente
O Ocidente e o mundo muçulmano
OBSERVADOR, 23/4/2017
…hopes expire of a low dishonest decade… (A. H. Auden)

Dar um pontapé num formigueiro é uma estratégia? Em princípio, parece que não é. Mas que tem feito o Ocidente, senão isso? E, quando falo do Ocidente, falo da Inglaterra, da França e da América. Desde a primeira invasão do Iraque à chamada “Primavera Árabe” as velhas potências coloniais e a nova potência “global” não perdem uma oportunidade para influenciar, ou mesmo dirigir, o mundo islâmico. Ora esse mundo islâmico, de fora tão simples, está em guerra consigo próprio, para defender ou fortalecer as suas posições em África e no Médio Oriente e por razões religiosas que, às vezes, não se distinguem muito de razões políticas e militares. E por isso o Ocidente não sabe ao certo quem são as suas vítimas e menos quem a prazo vai beneficiar ou prejudicar. Não admira que quase todos os grupos de muçulmanos odeiem imparcialmente a Europa e a América e uma civilização inconciliável com a deles. Nós podemos ver alguma diferença entre Nova York e Paris, ou entre Paris, Dortmund e Estocolmo. Eles não vêem nenhuma; vêem só a rejeição das regras e preceitos estabelecidos pelo Corão e das tradições de catorze séculos. Quando Trump ataca a Síria com 59 mísseis Tomahawk ou os jihadistas do Afeganistão com a MOAB não inaugura um novo método para reagir às perturbações do Islão. Embora com mais brutalidade, segue o exemplo de dúzias de “estadistas” da Europa e da América.
A Direita segundo Cristas
A dra. Assunção Cristas declarou a semana passada ao Expresso que não queria, e não faria, uma aliança eleitoral com o PSD em 2019. Acha ela que não vale a pena contar com as vantagens que o sistema de Hondt dá às coligações; e que o CDS e o PSD crescendo separados terão mais votos do que juntos. De resto, a dra. Cristas já se candidatou à Câmara de Lisboa, sozinha contra mundum. O pior é se ninguém dá pela sua fascinante personalidade e pela sua notória competência para dirigir uma Câmara. Ou se, em geral, o CDS descer nas autárquicas. Ou até, por absurdo, considerando a sua vacuidade ideológica e doutrinal e principalmente a sua fraqueza, o CDS desaparecer em fumo à medida que as eleições se aproximarem. Sendo chefe de uma pequena patrulha (com novos dirigentes que Portas recrutou), a dra. Cristas devia perceber que, em última análise, a sobrevivência do seu partido depende da unidade da direita, porque só ela lhe dará força para um papel importante na política portuguesa. A afirmação da duvidosa personalidade do partido talvez lhe traga alguma popularidade interna. Nada mais. Cá fora, a esmagadora maioria dos portugueses não se interessa pelo que sucede ou deixa de suceder no Largo do Caldas. E ainda por cima Cristas não é e nunca será o dr. Paulo Portas.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

As eleições foram ontem



Maria João Avillez está preocupada e tem razões para tal. Embora se compreendam os motivos de Marine Le Pen e do povo que a apoia, saturado de penetração estranha, de terrorismo, e desejoso de tranquilidade e retoma de uma vida mais normal e produtiva, a verdade é que a espécie de aliança com as teorias de repulsa anti islamista ou tão só racista de Trump, do Reino Unido, que se libertou da U.E. pelo Brexit, ou de tantos que vão observando a degradação a vários níveis, a que se chegou, nem sequer compensada pela melhor distribuição da riqueza - a miséria aumentando e a desigualdade social, apoiadas, contudo, no progresso das assistências sociais, que mais inferiorizam os povos e os reduzem a um estado de dependência esmoler pouco saudável - apesar, pois, desses discursos xenófobos virulentos, de Marine Le Pen, Maria João Avillez também não está tranquila com os discursos de Emmanuel Macron, bem intencionado nas promessas mais sensatas, mais, on ne sait jamais…
E esses são mesmo os candidatos da segunda volta, Macron com probabilidades de apoio dos candidatos perdedores será certamente o próximo Presidente da República Francesa. Prossigamos, pois, como sempre: Le Roi est mort! Vive le Roi!

OBSERVADOR, 20/4/2017
Quem - por acção, intenção, omissão, inação - permitiu a fecunda sementeira da árvore lepenista e outras árvores venenosas? Sim: só perguntas. Mas alguém tem respostas?
1. É um desconhecido conhecido. Está na política mas diz se “de fora”, utiliza frases de “efeito”, é prolixo, nunca foi provado na arena política, não tem currículo, nem programa , nem partido. Foi um ministro “jovem promessa” com lugar cativo nos palcos mediáticos. Ou seja, está no sistema, auto-proclamando-se porém fora dele. (“Fui sempre um apaixonado pela política mas nunca gostei da sociedade política. Não são as pessoas mais interessantes, há muito cinismo nelas”.)
Veio da banca (Rothchild), é jovem, enche auditórios, recruta candidatos na Net, casou com uma professora muito mais velha (mãe do seu maior amigo) e foge-lhe o pé para desabafos desconcertantes nos confessionários da media: “A poesia é mais importante que a acção que “l’on porte”, a acção sem poesia torna-se na brutalidade, não soa bem”; “para mim a política é criar, criar as formas de “liberté première…”.
Não sei o que fará a França desta espécie de banalidades enceradas.
2. Chama-se Emmanuel Macron, tem 39 anos, nunca disputou eleições mas pode ser o próximo Presidente da França. O abismo entre uma campanha carburada por auditórios repletos e sondagens felizes e a quase impossível liderança (sem tropas!) de um país exangue e em cujo mapa partidário se esvaem os partidos ditos tradicionais e de onde se sumiu o conceito de centro político não parece impressioná-lo. Não me lembro de combate eleitoral tão simultaneamente incerto e tão tremendamente determinante para o futuro francês e para o nosso, europeus amarrados uns aos outros, numa união tremelicante e indecisa.
Há muito que não se vivia momento sulfuricamente tão perigoso como o que se vive hoje, em França, na Europa, nos Estados Unidos e em tanto mundo, embora me pareça não haver ainda a consciência da perturbante incerteza que são os dias que correm (para o abismo, certamente)
3. E no entanto (pequeno entre-parêntesis) há optimistas. Um estudo recente de uma empresa de sondagens (IFOP) mostrou que 71% dos franceses que pensam votar Le Pen dizem-se “pessimistas” quanto ao futuro do seu país, enquanto com o eleitorado de Emmanuel Macron (maioritariamente de esquerda e de centro) sucede o oposto: 72 /% confessam “optimismo” e fé na França.
Trevas versus luz? Ressentimento versus esperança? Medo versus confiança ? Instalação versus abertura? Vale o que vale que é nada ,mas o interesse reside no facto de o optimismo do eleitorado de Macron não ser geracional. Isto é, este “optimismo” tão expressivamente confessado, vai dos 18 aos 65 anos.
4. Tudo porém no puzzle francês parece contaminado pela iminência do perigo, todas as combinações políticas nos surgem marcadas pelo selo da imprevisibilidade. E quando são já realidades, metem medo: a Frente Nacional de Marine Le Pen está a crescer. Se aumentar substancialmente o seu número de deputados (risco talvez não totalmente inverosímil), a FN poderá assumir o comando parlamentar da Assembleia. E depois? Que fará com isso e face isso outro Presidente da República que não a líder da FN?
E já agora… como me proibi a mim a mesma de não descartar nenhuma hipótese por mais absurda ou indigesta que ela se coloque no panorama político francês e europeu, já agora que seria da França a arder na fogueira dos extremismos? Entalada entre a líder lepennista — amparada numa confortável base politica –, e um presidente de extrema-esquerda como Mélenchon?
Claro que é demasiado inverosímil para ser verosímil, mas nas mais imprevisíveis — e, repito, perigosas — eleições francesas de que há memória, eis o radical Mélenchon galgando velozmente os degraus na escada das intenções de voto (supostamente com alguma direita a ajudar à subida). E mesmo sabendo nós como as pessoas mentem nessas “auscultações”, eis ainda o dito Mélenchon a poder “de repente” ver-se catapultado para uma segunda volta das presidenciais. Deixando muito atrás o socialista Hamon e a sua efémera glória de modesto vencedor das primárias do PSF (suspeito até que a esta hora, face às ruínas socialistas, haja alguém no PS francês a pensar que as eleições primárias são capazes de não ter sido uma ideia assim tão boa).
5. François Fillon também se tornou num caso: não pelos casos que arrasta e para onde o arrastaram mas por ter logrado o feito de se manter no cartaz eleitoral e não apenas como figurante, antes o oposto. É um sobrevivente de si mesmo. Mas mesmo que vá longe (é como lhes digo, nada descarto) tem às costas um partido incapaz, fratricida e rancoroso que é hoje quase infrequentável. Ao contrário do que de relance — mas só de relance — possa parecer, não é só a social-democracia como a conhecemos e com a qual coabitámos durante décadas que agoniza: quem “compraria” hoje os “Les Republicains” de François Fillon, Sarkozy e os outros, mesmo que estivessem em saldo?
6. Por tudo isto e para muitos, a vitória de Emmanuel Macron pode ser um alívio só porque mete menos medo e porque é um moderado civilizado e pró-europeu (embora ninguém saiba o que ele quer politicamente. nem o que pensa sobre o que quer que seja). Mas… com que partido ganhará autoridade, peso, influência e um governo para a França – tudo enfim o que faria dele o “chefe” que não é – se só tem adeptos? Sem tropas próprias e em terreno tão minado politicamente, que poderá fazer para garantir a sobrevivência do próprio regime e combater a ameaça de implosão da V República que tanto agradaria a alguns? Dizer risco é ainda dizer pouco.
No plano externo, o mínimo: uma forte convicção europeia, a fé no euro, a confiança na revitalização do papel da França no mosaico europeu. No resto, a imprevisibilidade, a simultaneidade, a natureza dos actuais conflitos em cena — como actuará o inexperiente e francês Macron? Com que prioridades e parceiros?
Sim, não nos restam senão perguntas.
Tão grave quanto a origem tóxica do que hoje ameaça o mundo, há aquilo que Alain Touraine resumiu há dias em Lisboa: “um vazio no pensamento social e político”. Um vazio tão grande e tão vazio que não se vê quem possa saltar do palco presidencial francês (ou seja de que palco for) e começar a trocar as perguntas por respostas.
7. Que teve que acontecer à ex-gloriosa pátria francesa, hoje fragmentada, abstencionista e decadente, para chegar a esta terra política inabitável? Quem — por acção, intenção, omissão, inação — permitiu a fecunda sementeira da árvore do lepenismo e outras árvores venenosas?
Sim: só perguntas. Peço desculpa. Mas alguém tem respostas?

Extractos da Internet:
Contexto
O Presidente da República Francesa é eleito para um mandato de cinco anos num sistema de dois turnos promulgado nos termos do artigo 7º da Constituição. Se nenhum candidato obtiver a maioria absoluta (isto é, incluindo as cédulas em branco e nulos) de votos no primeiro turno, um segundo turno será realizado duas semanas mais tarde entre os dois candidatos que receberam mais votos. Em 2017, o 1º e 2º turnos estão previstos para 23 de Abril e 7 de Maio, respectivamente.

Resultado das Eleições Presidenciais em França, em 23/4/17
23 Abr, 2017, 22:48
Quase 47 milhões de franceses foram este domingo chamados a votar na primeira volta das eleições presidenciais francesas.
Emmanuel Macron e Marine Le Pen foram os dois candidatos mais votados na primeira volta e passam à derradeira votação. François Fillon e Benoît Hamon anunciaram já que apoiam o ex-ministro socialista.
Candidatos do En Marche! e da Frente Nacional de novo a votos a 7 de maio. Hamon e Fillon apelam ao voto em Macron.


Notas da Internet:
Segundo as estimativas do instituto Ipsos, o centrista Emmanuel Macron é o vencedor da primeira volta, com 23,7%, seguido de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, com 21,7%. Ambos vão à segunda volta, a 7 de maio, com todas as sondagens realizadas até hoje a darem uma larga vitória ao fundador do En Marche! face à líder da FN.
Em terceiro lugar, empatados, surgem François Fillon e Jean-Luc Mélenchon, com 19,5%. O socialista Benoît Hamon não vai além dos 6,2%. Os restantes candidatos não vão além dos 5%.
Depois de saudar os apoiantes a caminho do palco, Emmanuel Macron começou por dizer "Voilá!". Dirigindo-se aos "caros compatriotas", o candidato do En Marche! lembrou que neste 21 de abril, o povo francês foi votar em massa. E "decidiu levar-me à vitória na primeira volta" deste escrutínio.
O candidato do En Marche! chegou à Porte de Versailles de mão dada com a mulher, Brigitte. Mostrando-se "honrado" com a escolha dos franceses, o ex-ministro saudou os dez rivais, nomeando-os um a um.
Recebido com gritos de "Macron, presidente!!!", disse que quer "reconciliar a França para ganhar dentro de 15 dias e amanhã governar o país". E promete ser um presidente que "protege, transforma e constrói".
"O desafio a partir desta noite não é ir votar seja contra quem for", afirmou. "O desafio é que todos possam encontrar o seu lugar em França e na Europa". O candidato prometeu criar uma nova maioria de governo, feita de "novos rostos".
"Não há várias Franças. Há apenas a França dos patriotas", garantiu, acrescentando: "Quero ser o presidente dos patriotas face à ameaça dos nacionalistas", antes de admitir ter pela frente uma tarefa "imensa".
Um pouco antes, Marine Le Pen já tinha reagido aos resultados. "Chegou o momento de libertar o povo francês", disse. Afirmando-se como "a candidata do povo", a líder da Frente Nacional apelou a todos para se juntarem a ela na segunda volta a bem do "interesse superior do país". Garantindo estar em jogo "a sobrevivência da França", Marine Le Pen recordou que a grande questão destas eleições passa por travar a "mundialização selvagem que ameaça a nossa civilização". Agradecendo aos franceses por lhe terem permitido passar a "primeira etapa que deve conduzir os franceses ao Eliseu", a líder da Frente Nacional considerou o seu resultado como "um acto de orgulho francês, o de um povo que volta a erguer a cabeça, certo dos seus valores e confiante no futuro".
Pouco antes, fora François Fillon a reagir. "Não há outra escolha a não ser votar contra a extrema-direita. Votarei a favor de Emmanuel Macron", anunciou o candidato da direita. O ex-primeiro-ministro e candidato d'Os Republicanos admitiu que não o fará "de ânimo leve", mas explicou ser necessário "escolher o que é preferível para o nosso país". Recordando o passado de violência da Frente Nacional, Fillon explicou ainda que com Marine Le Pen no Eliseu, França iria à falência, sublinhando que "o extremismo só pode trazer infelicidade".
Também Alain Juppé, o ex-primeiro-ministro derrotado por Fillon nas primárias da direita, apelou a votar Macron. "O nosso país precisa de reformas corajosas para reconstruir um Estado forte, voltar ao pleno emprego, voltar a colocar a educação e a formação no centro das políticas públicas. Espero que Emmanuel Macron restabeleça a credibilidade de França no cenário europeu e mundial, e que dê à juventude de França a esperança num mundo novo".
O primeiro a reagir foi Benoît Hamon. "Falhei, falhei!", afirmou o candidato da esquerda, sublinhando que esta foi "uma derrota moral para a esquerda, toda a esquerda". Afirmando-se "orgulhoso" de ter feito uma campanha "positiva" que "voltou a dar esperança aos jovens do país", o ex-ministro garantiu no entanto que "a esquerda não está morta".
Apesar de considerar Macron um adversário político, Hamon apelou a votar no candidato do En Marche! para "abater a extrema-direita". Também o primeiro-ministro socialista Bernard Cazeneuve pediu aos franceses para irem às urnas a 7 de maio votar em Macron "para bater a FN, para travar o projeto desastroso [de Marine Le Pen] de regressão da França e de divisão dos franceses".
O presidente François Hollande, que decidiu não se candidatar a um segundo mandato, já ligou a Macron a felicitá-lo.
No Twitter, Manuel Valls juntou-se ao apoio socialista ao candidato do En Marche!. "Como na primeira volta, votarei Macron a 7 de maio. Cada um deve medir a gravidade do momento e fazer tudo pela união. Pelo França.", escreveu o ex-primeiro-ministro, derrotado por Hamon nas primárias da esquerda.
Estas são as primeiras presidenciais a decorrer em estado de emergência, que foi declarado em novembro de 2015 após os atentados de Paris. A segurança foi garantida por 50 mil polícias e gendarmes e sete mil militares da Operação Sentinela (antiterrorista).
Primeiro-ministro francês apela ao voto em Macron na segunda volta

domingo, 23 de abril de 2017

Enfim! Sós!



Nem vale a pena insistir, é bater no ceguinho, parece mesmo que a tautologia contida na sentença “quanto mais me bates mais gosto de ti” se aplica a este caso. Eu não acredito que o nosso PR não conheça Alberto Gonçalves ou Vasco Pulido Valente que são os mais arrojados a desmascarar as nossas patetices - o que por vezes lhes causa sensaborias, mas igualmente prestígio acrescido, embora mais a nível da Internet, onde funciona a liberdade dos desabafos. Várias vezes ambos lhe apontaram o excesso de exibicionismo nos afectos ou nos gestos, a provocar as manifestações populares de aparente empatia, as mais das vezes salientando deselegância ou atrevimento de povo incontinente mais inspirado nas arremetidas da sua subjectividade indecorosa do que no rigor de uma análise racional. Por isso, não há nada a fazer, sozinhos na nossa casa, abjectamente sui generis e não refazível. Não, o PR continuará pela via apalhaçada e impante do seu procedimento vistosamente conciliatório, que “os pasmados” apreciam, apesar do atestado de “menoridade mental” da designação séria de A. Gonçalves.

O prof. Marcelo no jardim-de-infância
OBSERVADOR, 22/4/2017
Os pasmados são livres de elogiar fervorosamente a zelosa actuação do prof. Marcelo. Mas convinha notar que cada elogio é um atestado de menoridade a Portugal.
Uma avioneta caiu em Cascais e o lugar do acidente foi invadido pelas entidades necessárias: ambulâncias, mirones, estagiários televisivos e o prof. Marcelo. Num instante, a chegada do prof. Marcelo tornou-se o centro da notícia, e o rosto dele omnipresente nas intermináveis reportagens que encheram o dia e animaram a melancolia das redacções. De cada vez que alguém falava para uma câmara, o prof. Marcelo plantava-se atrás, a abençoar o que era dito. Ao que tudo indica, o prof. Marcelo não coordenou a logística, não prestou primeiros-socorros aos feridos, não ressuscitou os mortos e, ao contrário do que se esperaria, nem sequer emitiu qualquer palpite.
Então, o que fez ali? Na TVI, salvo o erro, um sujeito tentou uma explicação: o prof. Marcelo evitou o pânico. Sem ele, a acreditar nesta apologia, multidões teriam corrido pela A5 afora, numa debandada em que valeria tudo incluindo arrancar olhos. Com ele, imperou a calma. Para os que acham que “calma” está longe de ser a palavra mais adequada a um desastre aéreo, não achem. No dia seguinte, e só no dia seguinte, o prof. Marcelo apresentou a própria versão dos acontecimentos: “Estava próximo e as notícias que tinha eram, felizmente, porque depois não se confirmou, muito piores”.
Apetrechado do extravagante optimismo com que troca os sintomas de ruína económica por boas novas, o prof. Marcelo limitou-se a acomodar às circunstâncias a sua visão alternativa (digamos) da realidade. De facto, a avioneta podia ser um 747, o parque de estacionamento do Lidl podia ser a audiência do Rock in Rio e – se por redobrado azar o prof. Marcelo não estivesse próximo – Portugal podia agora chorar milhares de vítimas fatais. Assim, chora apenas cinco, o que, de acordo com o prof. Marcelo, é quase motivo de festança.
Enquanto o champanhe não refresca, vale a pena uma perguntinha: o que é isto? Ao que consta, é um Presidente da República. Os cépticos, aliás uma minoria desprezível, dividem-se em inúmeras teorias para decifrar o comportamento do prof. Marcelo desde que entrou em Belém, no caso da avioneta e no resto. O que é que, afinal, fundamenta o alegre frenesim do homem?
Uns defendem que o prof. Marcelo se encontra francamente ao serviço dos poderes vigentes. Outros julgam que o prof. Marcelo procura armazenar legitimidade e “peso” para o dia em que o arranjinho governamental nos devolver à bancarrota. Outros ainda juram que o prof. Marcelo possui um medo fóbico da impopularidade. Outros, por fim, garantem que a euforia inconsequente é o estado natural do prof. Marcelo. Todos terão um pedacinho de razão.
A mim interessa menos a psicologia do prof. Marcelo do que a essência dos respectivos súbditos. É inegável que, voluntariamente ou não, o prof. Marcelo recuperou a tradicional figura do pai colectivo e, ao invés de Soares ou Cavaco, adaptou-a à sensibilidade da época. Os portugueses de sempre precisam de quem pareça protegê-los. Os delicados portugueses de hoje precisam de quem o faça com meiguice ou, para usar o ridículo termo em voga, “afectos”. A mistura de ambos os atributos descreve o sucesso imediato do prof. Marcelo, e descreve-nos melhor a nós, o “povo menino” a que se referia um falecido poeta – um poeta que acrescentava: o que não dá é para ser país.
No fundo, não é ao prof. Marcelo que compete poupar nas fantasias e esclarecer os cidadãos acerca da fraude em que os afundam. São os cidadãos que, se querem merecer o nome, a deviam identificar. Os pasmados são livres de elogiar fervorosamente a zelosa actuação do prof. Marcelo. Mas convinha notar que cada elogio é um atestado de menoridade a Portugal.
Nota de rodapé
Soube-se recentemente que os representantes de alguns clubes da bola recebem um relatório semanal com as opiniões que, a bem da isenção de cada um, devem reproduzir nos programas televisivos em que participam. No fundo, isto não é mais do que a imitação do que acontece no mundo partidário, onde os comentadores do ramo – invariavelmente independentes – se limitam a debitar o evangelho aprendido na respectiva sede. Umas vezes, é o futebol que segue a política. Outras, como quando governantes contemplam jogos ao lado de dirigentes desportivos ou se atropelam para tirar uma “selfie” com Cristiano Ronaldo, é a política que anda a reboque do futebol. O importante é que a velha e saudável promiscuidade não se perca.
Por sorte, nem todos se contentam em manter viva a tradição: há aqueles que procuram renová-la. O PSD, por exemplo, arriscou um passinho em frente e, na sensata convicção de que duas desgraças juntas produzem uma benesse colectiva, propôs à câmara de Loures um senhor que se notabilizou a falar de penáltis na CMTV. Além de constituir um gesto de simpatia para com os autarcas que passaram a analistas de arbitragem, a coisa promete. E já começou a cumprir.
Para início de conversa, o sujeito em causa, um tal André Ventura, acusou o FC Porto de “ingerência eleitoral”. Certas almas ofenderam-se sem razão. É natural que o sr. Ventura leve para a disputa as únicas referências que compreende, mesmo que absurdas. Se o escolhido fosse um cozinheiro, toda a gente esperaria que a campanha se centrasse no plágio de ementas. E, a julgar pelas amostras, aposto que o PSD candidatou um cozinheiro algures. Falta de respeito pelo poder local? Talvez, e o engraçado é que o poder local merecia ainda pior.

Um comentário arguto:
De Mauro Pires
O Marcelo é e sempre foi, um grande Pirómano chico-esperto. Ele de facto quer e abusa da popularidade para reforçar a "mão invisível" do seu poder Presidencial, Marcelo e Costa foram Professor e Aluno, mas nada impede de Marcelo ser o que foi sempre, um maquiavélico político, que pensa só em si. No momento em que isto correr mal, será o primeiro a dizer que fez tudo para apoiar o governo e foram eles que estragaram tudo. Marcelo tem um ódio de estimação a Passos pois este não é de Cascais, foi um Primeiro-Ministro em situação complicadíssima e mesmo assim ganhou as eleições, e não é maçon. Simples e limpinho.