terça-feira, 17 de outubro de 2017

Estátuas de sal


Chegou-me o jornal às mãos, com as fotos dos tais cúmplices, alguns mesmo que admirava, nos seus discursos límpidos e sensatos, dos seus programas televisivos. De resto, sabia que havia rede, várias vezes o explicitei, ciente de que só isso justificaria a demora da Justiça e dos governos sucessivos em atalhar, além de que os experientes das fábulas e dos mitos já mo tinham várias vezes alertado para as manigâncias humanas, que o próprio Jeová se encarregara de punir nas cidades e Augias de fazer limpar, em metáfora de currais e esterco de lavagem hercúlea.
Mas este artigo do CM, com fotos de tanta gente inesperada, deixou-me cilindrada. Eu não gostava dos trejeitos da Manuela Moura Guedes, mas indignara-me com a sua saída da TVI, em tempos, por ouvir opinar que fora ordem do nosso Sócrates, ignorante de Platão.
Mas as chamas vão mais depressa na questão das limpezas no nosso país do que a nossa Justiça. E esses tais aprumadinhos no vestir e no falar, será que não olham para trás arrependidos ou envergonhados? Recearão serem transformados em estátuas de sal, tal como o foi a mulher de Lot, esta apenas por mórbida curiosidade? O sal purificante.. Qual história! Burros são os que não souberam penetrar na rede!
Quanto dó! Por eles, por nós, pelo país dos heróis do mar reduzido a indignas cinzas por tantos malfeitores encartados. Não, não precisamos de terroristas externos. Somos um país pródigo.
Os cúmplices disto tudo
Eduardo Cintra Torres
CM, 15.10.17
Um tremor-de-terra abalou o país: a acusação pública a um ex-primeiro-ministro e a líderes do sistema económico-financeiro do país durante anos entre eles o Dono Disto Tudo, Ricardo Salgado, o DDT. A acusação mostra a captura do Estado, governo e empresas por um bando mafioso de colarinho branco, que não precisa de pistolas porque está, é o poder. Revela o roubo e a distribuição, entre mesquinhez e gigantismo principesco, de dinheiro roubado em última instância aos portugueses e às empresas envolvidas e até a destruição deliberada duma das maiores empresas nacionais, a PT, para servir a avidez do roubo. O bando levou às últimas consequências a apropriação do Estado para interesses particulares — é isso "o sistema". E a roubalheira, neste caso monstruosa, teve a complacência silenciosa dos primogénitos e dos bastardos do "sistema", incluindo PCP e BE. Já PSD e CDS, com algumas grandes personagens também envolvidas em apropriações "sistémicas", quase sempre com o DDT, andaram anos coçando-se em silêncio sobre o caso para que não viesse ao espaço público o dito comum "mas vocês também andaram a mamar".
 Calhou, porém, que a Operação Marquês fosse a "Operação Rato", porque este assalto foi realizado pelo PS. A conivência de líderes, militantes e governantes de ontem e alguns de hoje foi instrumental. Sabiam e calaram. Alguns sabiam e comeram também. O PS, mais que os outros partidos do "sistema", do BE ao CDS, tornou-se o centro organizado dum assalto e controle do Estado por cleptocratas, o que nunca aconteceu com os outros partidos. Infelizmente, não se reformou. Nem fala do assunto. Diz que sente "incómodo", mas só pelo dano de reputação. Não há arrependimento, assunção de responsabilidade, mudanças. O "sistema" quer sobreviver. Os cúmplices permanecem incólumes.

E, se sobrevivem no PS, os cúmplices estão também em grandes escritórios de advogados que fazem a gestão de danos do tremor-de-terra no komentariado, na RTP, SIC, TVI, em jornais. Na TVI um ex-dirigente do PS que recebeu dinheiros de Sócrates comenta como se nada fosse. Nada lhe perguntam, porque os cúmplices estão também entre jornalistas, entre os "generais prussianos" que procuram esconder a "Operação Rato" nos media que dirigem ou empregam. Andaram anos a glorificar Sócrates e a defendê-lo desde que a operação judicial se tornou pública em 2014. O "sistema" é resiliente e continua a controlar parte dos media nacionais. Há muitos Cúmplices Disto Tudo andando por aí gerindo danos, olhando para o lado e sacudindo a água do pesado capote. 

domingo, 15 de outubro de 2017

“Vistes, acaso, aquele a que a minha alma ama?»


Verso de A ESPOSA do CÂNTICO DOS CÂNTICOS, mas poderia aplicar-se ao CASO DOS CASOS, e tinha que ser no nosso pequeno país, de um fado como cântico vibrante de paixões fortes. José Manuel Fernandes, Rui Ramos e Alberto Gonçalves exploram o assunto, em acumulação de achegas esclarecedoras, tantas vezes anteriormente focadas, sobre as andanças socráticas e outras a elas circunscritas, desejosos aqueles justos de prosseguimento e ressarcimento, embora Alberto Gonçalves, na sua aversão contra uma sociedade débil, prima antes o gatilho contra os tais que preferem defendê-lo – Constança Cunha e Sá – ou que debandam, receosos de que o céu lhes caia em cima, por participação na vinha tenebrosa.
Não sei se a seriedade de alguns conseguirá inverter uma situação de corrupção há muito evidenciada, destruidora dos alicerces de honorabilidade em que deveria assentar um país digno de o ser.  Mas a visibilidade que rodeia ainda o ex-ministro Sócrates, chamando-o à liça para as suas justificações televisivas, mostra que tudo não passará de farsa, uma vez mais. Para protelar, para resguardar, não uma, mas muitas cabeças dos que habitualmente se esgueiram pela porta dos fundos. “Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho” (Cântico dos Cânticos de Salomão, I, 2).
A montanha não pariu um rato
José Manuel Fernandes       OBSERVADOR, 11/10/2017
O que o despacho de acusação nos mostra é que este não é um mero caso de Justiça, é muito mais do que isso. Mostra até onde chegou a concentração de poder e a sofreguidão do duopólio Sócrates-Salgado.
São quatro mil páginas que ainda exigem tempo para ser digeridas. Mas tudo o que delas já resulta não deixa lugar a muitas dúvidas: a investigação do Ministério Público demorou muitos meses, mas produziu acusações pesadas e sólidas.
Desde o dia em que José Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa sabíamos que não seria fácil. O que logo nessa altura se percebeu sobre a complexidade da teia em que se apoiava e os mecanismos usados para disfarçar a forma como lhe chegava o dinheiro era suficiente para perceber que os investigadores teriam um trabalho árduo e que, se era fácil demonstrar que o antigo primeiro-ministro tinha um modo de vida de todo incompatível com o que declarava serem os seus rendimentos, ou os seus “empréstimos”, seria muito mais difícil provar a relação entre esse dinheiro e decisões que tivesse tomado enquanto primeiro-ministro.
Quase três anos depois, muitas contas bancárias passadas a pente fino e uma investigação que se alargou a outros centros de poder – em especial o que tinha à frente o antigo “dono disto tudo”, Ricardo Salgado –, temos hoje um despacho de acusação com pés e cabeça. Vai ser possível provar tudo em tribunal? Veremos, conhecendo como conhecemos a dificuldade de o fazer no nosso país (e antecedentes históricos como os casos Isaltino e BPN). Mas há que reconhecer que o Ministério Público foi muito mais longe do que alguma vez fora no passado.
Será, no entanto, um erro reduzir este caso à sua componente jurídica e à troca de argumentos entre advogados e juristas. O que este despacho de acusação nos revela – no fundo, o que esta investigação trouxe à luz do dia – foram os detalhes de como o concubinato entre o poder político e o poder económico criou o caldo de cultura ideal para projectos de poder que não olham a meios nem têm limites éticos.
Nos anos em que José Sócrates foi primeiro-ministro assistiu-se em Portugal a um esforço de concentração de poder sem paralelo na nossa história democrática. O primeiro-ministro não tolerava quem lhe fizesse frente, fosse no partido, fosse no Governo, fosse na comunicação social, fosse até na economia.
A memória dos povos tende a ser curta, a minha não. Recordo-me bem daquele que foi, porventura, o primeiro sinal de que Sócrates atropelaria quem fosse preciso atropelar para alcançar os seus objectivos: a nomeação de Armando Vara para a administração da Caixa Geral de Depósitos, uma nomeação que foi o pretexto próximo para a demissão do seu primeiro ministro das Finanças, Campos e Cunha. Colocou na CGD um amigo e cúmplice, Armando Vara – e hoje começamos a conhecer, graças a este processo, até onde ia essa cumplicidade –, e ao mesmo tempo via-se livre de uma voz incómoda no Conselho de Ministros.
Também me recordo bem como foi controlando ou desvitalizando os organismos independentes, do regulador da comunicação social ao da energia; como meteu no bolso – não consigo encontrar termo melhor – o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República, que lhe prestariam inestimáveis serviços noutros casos em que esteve envolvido (lembram-se da destruição das escutas?); como tratava a comunicação social, chegando a conseguir que a notícia sobre a sua licenciatura, dada inicialmente pelo Público que eu então dirigia, fosse silenciada durante uma semana; como intimidava os que discordavam dele dentro do PS, uma história ainda por contar; ou ainda como comandava ferreamente, a partir do seu gabinete, toda a comunicação do executivo.
Mais importante e mais relevante, não posso esquecer a forma como os seus trataram de tomar conta do sistema bancário, com o assalto do BCP, para onde passou o sempre inestimável Armando Vara; e como depois disso usou esse poder para tentar fechar um dos poucos órgãos de informação que então o incomodavam, o Sol; como procurou instrumentalizar a PT para que esta comprasse a TVI e calasse uma jornalista desalinhada; como usava as “golden shares”, nessa PT ou na EDP, para prosseguir os seus projectos mitómanos; e por aí adiante.
Neste percurso deu-se um cruzamento improvável de interesses: os de um primeiro-ministro todo-poderoso com o chefe de uma família de banqueiros habituada, porventura como nenhuma outra família em Portugal, ao concubinato com o poder. O que resultou desse cruzamento de interesses resultou num desastre para Portugal – a queda do Grupo Espírito Santo quando desapareceu o amparo dos contribuintes e a virtual destruição de um grupo como a PT, engolida por um negócio ruinoso no Brasil que fora imposto pelo próprio José Sócrates.
Esta espécie de “duovirato” durou vários anos, envenenou a política portuguesa, contaminou o sistema económico e contribuiu para uma claustrofobia que poucos tiveram a frontalidade de denunciar. Só a crise acabaria por separar o “animal feroz” do “dono disto tudo”, mas nessa altura a dimensão dos problemas já escapara ao controlo e à capacidade de ambos.
Agora que conhecemos o “saco azul” por onde passaram muitos dos milhões que olearam estas relações, os seus negócios e os seus interesses, é importante ter bem presente que, antes de o dinheiro circular, havia quem prosseguisse uma concentração de poder que não era boa para o nosso sistema democrático e que era péssima para o nosso tecido económico. E quem pudesse levar vida de rico sem ter rendimentos legítimos para isso.
Estou convicto que aquilo que já sabemos, tal como aquilo que o Ministério Público já pode mostrar para sustentar a acusação, é apenas uma parte, porventura uma pequena parte, dos abusos que foram cometidos na busca de mais e mais poder – ou de mais e mais dinheiro. Sinceramente gostaria de não me enganar quando penso que a procissão ainda vai no adro. Isto é, que os muitos segredos que esta teia ainda tem por revelar não ficarão esquecidos e serão um dia revelados.
De resto, este foi um bom dia para a nossa democracia. Não por essa democracia ter tido um primeiro-ministro que caiu desgraçadamente nas malhas da Justiça – mas por a Justiça ter feito o seu trabalho, sem se intimidar e sem esmorecer. Que assim possa continuar a acontecer.
II - Sócrates só pode ser julgado pela história?
Rui Ramos         OBSERVADOR, 13/10/2017
Tivemos um primeiro ministro cujas despesas pessoais eram pagas secretamente por um dos empresários com mais contratos com o Estado. Quando é que os políticos nos vão dizer o que pensam disto?
Perante a acusação contra José Sócrates e Ricardo Salgado, a nossa oligarquia fecha-se em copas: temos de esperar pelo fim do julgamento. Na quarta-feira, alguém fez contas: o julgamento nunca começaria antes de 2019, não acabaria antes de 2025 e, com os recursos, o caso só transitaria em julgado aí por 2030. Não sei se será assim, mas há precedentes para tais vagares. Ora, se aplicarmos a regra, muito querida da oligarquia, de que não podemos pedir a um político uma palavra ou uma linha sobre o assunto enquanto o caso estiver a ser tratado “no lugar próprio”, isto significaria que o regime, confrontado com o maior escândalo da sua história, poderia fingir que nada aconteceu até pelo menos 2030. Como será o mundo daqui a treze anos? Vamos entender-nos: a coberto do processo judicial e da invocação perversa e imprópria de princípios constitucionais como a separação de poderes e de figuras jurídicas como a presunção de inocência, há quem espere reduzir a mais grave indignidade deste regime a uma questão de interesse meramente histórico.
Temos mesmo de esperar pela sentença? Não, por três razões. Primeiro, porque o princípio da separação, que salvaguarda a autonomia de cada poder do Estado, e a presunção de inocência, que garante os direitos do cidadão perante o Estado, não existem para condicionar a liberdade de expressão e impedir o debate público, fundado na opinião legitimamente formada pelos cidadãos a partir da informação disponível.
Segundo, porque aquilo que já foi admitido por José Sócrates em público é mais do que suficiente para uma crise de regime: Portugal teve um primeiro ministro cujas despesas pessoais eram secretamente pagas pelo administrador de uma das empresas que mais contratos obteve do Estado durante o seu governo. No mundo, tem havido grandes escândalos por muito menos. É preciso aguardar por 2030 para os nossos políticos terem opinião sobre isto?
Terceiro, porque este não é só um caso de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. É um caso, segundo a acusação, de uma conspiração entre um primeiro-ministro e o presidente de um dos maiores bancos para controlarem o Estado, a economia e a comunicação social em Portugal. Sobre a corrupção, a fraude fiscal e o branqueamento de capitais julgará, em relação a cada um dos acusados, o tribunal. Mas sobre o suposto projecto de domínio político-financeiro e a aparente dificuldade das instituições para o prevenir, quem deve falar desde já, no que diz respeito ao regime, senão os políticos?
A razão da nossa oligarquia para se calar é óbvia. Há demasiada gente na política e nos seus arredores que fez carreira com um líder agora acusado de 31 crimes. Mas bastar-lhes-á aguardar pela sentença “com tranquilidade”? Não é legítimo pedir-lhes uma explicação? Por exemplo, nunca tiveram uma dúvida, quando sabemos que sempre houve suspeitas? A propósito dos abusos sexuais do produtor Harvey Weinstein, discute-se agora na América a “cultura de cumplicidade” que o teria protegido durante anos. Não deveríamos nós estar a discutir a “cultura de cumplicidade” que parece haver à volta da corrupção e do abuso do poder na democracia portuguesa? Uma cultura feita de indiferença ética, de comunhão na ganância e de um sentimento de impunidade alimentado, de alto a baixo, pela promiscuidade no Estado, pela dificuldade de provar estes crimes e por votações como as de Oeiras.
A justiça dirá se alguém merece multas e prisões; a política deveria dizer outra coisa: se alguém ainda merece a nossa confiança. Não podemos esperar por 2030. A História os julgará? Mas essa é a prerrogativa dos ditadores, como o general Franco, que, enquanto caudilho de Espanha, “só respondia perante Deus e a História”. É assim que os nossos oligarcas também já pensam: que só a História os poderá julgar?
III - Sócrates & Companhia Ilimitada
Alberto Gonçalves           OBSERVADOR, 14/10/2017
Na quinta-feira à noite, a sra. dona Constança Cunha e Sá explicou na TVI o principal motivo pelo qual a acusação de José Sócrates não vale a atenção de pessoas ilustres: não trouxe, cito, “surpresas”. Pelos vistos, trinta e um crimes não bastaram à referida jornalista, que aparentemente gostaria que o antigo primeiro-ministro fosse acusado de coisas inusitadas como o abuso de pinguins ou o roubo de tubos de escape. Na verdade, a sra. dona Constança Cunha e Sá gostaria que José Sócrates não fosse acusado de todo.
Tratou-se de um raro e bonito momento de solidariedade para com o menino que sonhava com ventoinhas e apartamentos em Paris. Em tempos, faltava pouco para que o fervor dos devotos por José Sócrates suscitasse imolações pelo fogo. Hoje, os devotos assobiam para o lado e, à cautela, preferem que o indivíduo se imole sozinho. Nem a lepra assustava assim. Uma rápida consulta às capelinhas virtuais da seita apenas encontra silêncio e distracções. Enquanto os “media”, com discrição e fastio, davam as novas da “Operação Marquês”, no blogue do peru emproado que enfiou o “engenheiro” na Sorbonne discorria-se em volta de “Che” Guevara: em Outubro de 2017, até a associação a um psicopata parece comprometer menos do que a intimidade com o “autor” de “A Confiança no Mundo”. E este é um mero exemplo. Por regra, e à semelhança dos milhões movimentados nas negociatas, os amigos de José Sócrates sumiram sem rasto nem vergonha.
O facto é tanto mais notável quanto os amigos de José Sócrates eram imensos. Alguns, fiéis à força, continuam a fazer-lhe companhia nas quatro mil páginas do processo. A maioria passeia-se sorridente. Sorridente e amnésica. Se o pacote de acusados constitui uma amostra razoável da oligarquia que regularmente enxovalha o país, convém notar que, por definição, as amostras deixam o resto de fora.
E o resto é demasiada gente. A gente dos “media”, nulidades amestradas que José Sócrates inventou ou desenterrou para o servir. A gente do comentário “isento”, sob nome próprio ou pseudónimo, cujas avenças cresciam de modo directamente proporcional à beatificação do amo e senhor. A gente dos negócios que prosperava à sombra da criatura e retribuía a prosperidade com juros. A gente da “justiça”, indivíduos com pilosidade auricular que garantiam a impunidade do benemérito que lhes arranjou emprego. A gente das “relações pessoais”, um folclórico grupo de familiares, namoradas e espontâneos que cirandava em redor de dinheiro facílimo. Sobretudo a gente da política, que subiu com José Sócrates, conspirou com ele e zelosamente lhe amparava os delírios.
É possível que essa gente não tenha sabido de nada, dado por nada, reparado em nada, desconfiado de nada, participado em nada. É possível que essa gente constitua o maior aglomerado nacional de débeis mentais desde a inauguração de Rilhafoles. É possível, e nesse caso seria um acto de mera comiseração e humanidade remover essa gente do convívio com os demais, a bem de uns e dos outros. É possível, e não se deve ficar tranquilo quando, ao inventariar a tralha “socrática” que continua a infestar lugares de decisão ou influência, imaginarmos que Portugal pode ser pasto de idiotas terminais. Ou então não é possível, e a intranquilidade aumenta.
Se calhar, não é realmente possível que essa gente não tenha experimentado o vestígio de uma suspeita, ou estranhado a folia, ou mesmo colaborado nela. E se calhar não é possível não saber que, além de obviamente ilegal, a folia acontecia à custa dos cidadãos “comuns” que essa gente finge defender em cada uma das suas descaradas intervenções. Em qualquer das hipóteses, essa gente não merece andar por aí em paz, ou porque é clinicamente incapaz disso, ou porque é moralmente indigna.

E, no entanto, é preciso repetir: essa gente anda em paz. Para cúmulo, também manda em paz, e com o exacto tipo de descontracção e alcance que José Sócrates tentou sem conseguir. Por morrer uma andorinha, ou ser julgada uma quadrilha, não acaba o regabofe. A acusação do “animal feroz” e fauna restante, do honradíssimo sr. Salgado aos portentosos gestores Bava e Granadeiro, é, para as suas inúmeras vítimas, um instante de alívio “formal”. Mas, em última instância, é só uma pedrita leve no charco de compadrios que aqui passa por regime. Salvo fogachos, na sua repulsiva natureza o regime está bem e muitos – agora incluindo certamente o próximo líder do PSD – recomendam-no. E os apreciadores farão, como costumam fazer, bom proveito.

sábado, 14 de outubro de 2017

VALENTIA


Opiniões relevantes de uma mulher de relevo. Sobre Passos Coelho e os seus hipotéticos sucessores. Sobre Puigdemont e um processo deslustrador da personagem, tanto como dos participantes na tal autonomia da Catalunha, de que ficam os ameaços.
Maria João Avillez, uma pessoa recta e firme, uma escritora igualmente firme. Dois artigos que sobressaem pela nobreza de pensamento e de escrita. A não perder.
I- PEDRO PASSOS COELHO      Elogio não fúnebre
3/10/2017
1. Esperava más noticias, teve as piores. “Veremos”, disse para si mesmo domingo à noite, no intervalo entre a expectativa de o PSD passar o cabo de 2013 e a certeza de que ficaria aquém. Depois, face à devastação nacional, reflectiu: partiria.
A decisão foi solitária, como ele. “Uma decisão destas toma-se sozinho”, disse-me Pedro Passos Coelho na madrugada de domingo, quando tentei apurar a devastação e descodificar-lhe o discurso. Deixaria a liderança e o parlamento e tudo o mais em nome “da sua responsabilidade” no desaire, apesar do carácter “local” destas eleições. Quando? “O mais breve possível”.
Tinham passado sete implacáveis anos de pressão sobre ele.
A costela transmontana forneceu-lhe a resistência, a dureza, o valor da palavra, o papel do esforço, o aço da convicção. Por de trás do olhar esverdeado e do sorriso cortês há mais razão que coração mas morou sempre, da intenção ao gesto, uma férrea vontade e uma imensa dose de auto-controlo.
Como na noite de domingo. Como certamente ontem, na Rua de S. Caetano, face a uma plateia para a qual olhou como sempre até aqui, sem réstea de ilusão. Se há coisa que em absoluto o distingue, e não é de hoje, é o nunca ter sido capaz de alimentar – ou sequer ter – qualquer ilusão sobre a natureza humana.
2. Talvez por se ter entregue totalmente ao país, tinha menos para dar ao PSD. Talvez por ter ganho duas legislativas seguidas contra tudo e todos (e da segunda vez sem proveito), enganou-se nos vaticínios. Tropeçou nos timings, errou nas apostas de insucesso do adversário sem nunca lhe ocorrer desistir da coerência do discurso e da sobriedade da atitude. Preferindo quiçá a sua antiga pele de chefe da governação, não soube abrir o PSD ou não foi capaz de cuidar dele de forma partidariamente mais sedutora e politicamente mais eficaz. Adequada ao estado do país e ao momento do mundo. Com mais gente e outra gente.
Talvez que saltar da “Europa”, com ou sem aspas, e das suas grandes tribulações; talvez que trocar o mundo e as suas desafiantes questões pelas distritais, concelhias, grandes intrigas e pequenos umbigos de um partido na oposição, seja bem mais difícil do que supõem os críticos de bancada. Mesmo assim. Estranhou-se a falta de candidatos presidenciais, permanecem um inteiro mistério os bastidores destas eleições. Que se passou? A verdade é que o seu cuidado no país e (aparentemente) menos no seu partido, a fé na sua estratégia oposicionista, a propensão natural para não abrir janelas nem frequentar o mundo, a imposição de uma “distância” que podia intimidar ou confundir, foram fazendo estragos: no PSD, nas sondagens, na militância, e não se sabe se nele próprio: a oposição – armadilhada, ainda para mais – estava a transformar-se numa inutilidade.
Pedro Passos Coelho cansou-se, desgostou-se, desiludiu-se? (Se é que algumas destas coisas ocorreu de facto). O certo é que, apesar da cabeça invariavelmente bem arrumada, da lucidez na escala das prioridades, da experiência e da resistência, a partir de certa altura alguma coisa pareceu interpor-se entre um dos seus mandamentos – saber sempre o chão que pisava – e a sua vontade política. No caso, a sua vontade partidária.
Tentei aperceber-me deste último mistério (doloroso como nos rosários) eleitoral: “Mas então eu havia de interferir nas escolhas autárquicas dos dirigentes locais? Eleitos para saberem, decidirem, escolherem?”. Pausa. Insisto. E as “suas” escolhas? “Candidatos fracos? Era perguntar a algumas das estrelas do PSD, sondadas ou convidadas, se estavam disponíveis… Não estiveram”.
3. As pessoas sérias lembram-se, reconhecem, algumas agradecerão – gostem ou não dele – a determinação meticulosa e corajosa, racional e resiliente como em 2011 ele se instalou no olho de todos os furacões. E o venceu. Quatro anos e meio de pressão non stop e massacres vários, desde a obrigação governamental de acertar as contas e prestar provas delas lá fora, até delirantes humilhações à base de manchetes falsas, irrevogáveis certezas de “segundos resgastes”, coelhos enforcados nalguns sítios por onde passava, ódios orquestrados. Nada disso distraiu nunca ou sequer comoveu este cavalheiro e ainda menos lhe esmoreceu o ritmo ou confundiu o rumo. Pelos vistos ao eleitorado também não: as últimas legislativas exibiram a vitória improvável da seriedade política sobre os massacres, das contas certas sobre falsas certezas, de uma sólida herança sob a forma da “folga” de alguns milhões (que muito confortou e serviu os vindouros).
As pessoas mais distraídas já não se lembrarão, e há outras que ainda hoje não se lembram mas um dia (a vida é assim, a política também), muitos recordarão aquele tipo decente que com uma equipa e uma boa metade dos portugueses salvou o país de catástrofes várias. Com sobriedade e boas maneiras, ainda para mais.
Haverá melhor passaporte para o futuro?
Mesmo que tudo isto agora lhe pareça, caro leitor, uma mera conversa de “passista” com ranço, olhe que não é. É muito mais que isso: é um elogio não fúnebre. Tive muita sorte em ter sido testemunha (sentada na primeira fila de tudo) da passada política de Passos. Vi muito, sei algumas coisas, apercebi-me de outras, lembro-me de tudo.
4. Não há como não antecipar o porventura agora ainda mais irrelevante futuro que espera o PSD. Nenhuns dos nomes de que se fala e dos que se pode ainda vir a falar unirá o partido, argumento pesado sempre incessantemente disparado sobre Passos Coelho, como um certificado de fracasso. Entre os que de fora querem a destruição, o sumiço, o apagamento da marca PSD e os que de dentro irão tecer a sua irrelevância, resta um débil sopro de esperança chamado ruptura geracional. E mesmo assim.
Também não há como não prever a glória desta ou outra geringonça socialista, o vento está-lhe de feição e o país, visivelmente comovido com ela (mesmo que inconscientemente endividado).
Também me surge como irresistível não pensar na alegria – pessoal, tanto quanto política – de Marcelo, mesmo que ele deteste e (muito) tema vir a lidar com Rui Rio. E claro, há ainda o inimaginável, de tão amplo, alívio de Costa. Marcelo e Costa foram, não se duvide, dois dos grandes obreiros (há outros) da teia onde desde há seis anos se tenta asfixiar politicamente o agora ex-líder do PSD e o próprio PSD.
5. E agora? Agora, Pedro Passos Coelho volta para casa. Amargura? Olímpico: “Que ideia!” O futuro: “Não sei, mas não sou de grandes necessidades”. Convites? “É sempre complicado convidar um ex-primeiro-ministro para trabalhar. Não sei se teria o feitio…”. Projectos? “Acabar o meu livro, que gostaria que já estivesse terminado”.
Com uma coisa ele irá, sem dúvida, poder contar : com ele próprio. Como assinatura e retrato, se não houvesse mais já não era modesto.

II- CATALUNHA    Breves mas não leves
OBSERVADOR, 11/10/2017
1. Escrevo estas notas, breves mas não leves, no decurso de dois acontecimentos que encenaram o dia de hoje e que embora de natureza muito diferente, deixarão marca.
Cá dentro e lá fora. Sejam quais forem as suas consequências, de um modo ou de outro, elas pesarão sobre os dias. E por isso, sobre todos nós.
2. A hora a que redijo este texto, hoje, terça feira de manhã, as nuvens adensam-se sobre o céu catalão, céu fechado sobre o desastre. A inconstitucional cavalgada das autoridades catalãs põe em sentido qualquer ser normalmente constituído. Todos os erros políticos foram cometidos numa direcção de sentido único que é uma sombria incerteza. (Não há livro de instruções porque não existem referências históricas, nem exemplos nem precedentes de como agir ou que fazer). O mundo reteve porém que a Espanha soube estar a altura do que significa — e simboliza — o gesto abrupto de Puigdemont e dos seus pares, e usou de sabedoria na resposta que deu: unindo-se contra o desvario. Um não forte e claríssimo. Sectores sempre tão sensíveis como a rua ou a media por exemplo, recusaram a manipulação e a paixão, usando quase que a uma só voz a recusa política a um imprevisivelmente perigoso estado de coisas. Um exemplo em tempos disconformes, onde o conceito de nação anda esmorecido.
Dada a história de Portugal, os seus suados oitocentos anos de vida, a sua posição geográfica, os seus interesses estratégicos, as suas gritantes necessidades económicos, esperava-se entre nós reação idêntica: que não houvesse margem para dúvidas que o país recusava “aquela” independência. Para meu grande espanto não foi assim. Com alta leviandade e alguma ignorância, privilegiou-se o ar do tempo, enfeitado de (supostos) bons sentimentos e frases de efeito, em vez de atender ao essencial que seria, a curto prazo, a muito previsível irrelevância de Portugal num quadro federativo ibérico. É difícil negar ou sequer não ver que caso a Catalunha se tornasse verdadeiramente independente, no dia seguinte o país e os portugueses transformar-se-iam, automaticamente, numa pequena região da Península Ibérica. Em vez de permanecermos o que sempre fomos desde há muito séculos: uma nação independente, com as mesmas fronteiras, a mesma língua, a mesma identidade, o mesmo povo.
Todo o dia de hoje — e ontem, e anteontem...– ouvi falar de “divisões” em Barcelona e na Catalunha. A palavra é óbvia – claro que há divisões –, mas é também cómoda e sobretudo ardilosa. Convinha sublinhar o desequilíbrio não só numérico como de vontades, entre tais divisões; lembrar como o processo está desde o seu início anticonstitucionalmente armadilhado contra a integridade do Estado espanhol; relembrar que a divisão começou por ser semeada e adubada pelo lote de ilegalidades cometidas pelo governo de Puigdemont. Havia certamente maneira mais engenhosa de alertar Madrid para os estados de alma de uma percentagem de catalães. (E também havia meios melhores e instrumentos mais adequados para lidar com os alçapões e as arestas deste processo, do que a eleita pelo governo espanhol.)
E finalmente e voltando ao início desta “sale histoire” paremos por momentos na desarmante parcialidade com que foi votada a decisão do referendo, ou — voando sobre outros artifícios pouco sérios – no anúncio, previsto para terça-feira à tarde, da declaração unilateral da independência catalã.
Serei testemunha de um golpe de Estado moderno quando logo à tarde me sentar diante da televisão e assistir a ele em directo e ao vivo?
3. No plano interno, a intenção de Pedro Santana Lopes se candidatar a liderança do seu partido, caso se concretize mesmo, é uma notícia. Pelo seu passado no PSD , o seu currículo político, a sua história no país, Santana Lopes não é qualquer pessoa. Há boas e más recordações dele mas muito antes delas, há aquilo que lhe deu um estatuto na família partidária a que pertence desde sempre: antiguidade, fidelidade, talento político, intuição alerta, coragem, desassombro. Nunca se comoveu com a esquerda e que me lembre nunca namorou com ela e ainda menos lhe cedeu. Cada coisa no seu sítio, Santana esteve sempre no dele. E depois há o resto, também estamos lembrados, precipitações, emoções, humores em alta, humores em baixa, efervescências.
Seja como for, a sua entrada em cena irá proporcionar um debate político interessante com Rui Rio — com um pouco de sorte, talvez substancial. Nada têm a ver um com o outro — o que ajuda ao confronto — nem ideologicamente, nem intelectualmente, nem humanamente. Será revelador ver que PSD sairá da contenda caso o partido ainda seja capaz de “sair” para algum lado. Sem se deixar arrumar numa arrecadação da memória ou anular aos poucos. Trabalhos de Hércules. Para ficar por aqui, porque depois falta saber se o país está interessado em olhar outra vez para o PSD, liderado por um destes dois senhores.
4. Última hora: não, Puigdemont não declarou a independência mas não baixou a guarda. Foi mais hábil que isso: “suspendeu” o processo, o que não pressupõe uma marcha atrás. Falou em “diálogo”, o que não envolve um compromisso. E citou ajudas internacionais e mencionou mediadores, a que chamou “todos”, o que fez dele um moderado. Ou seja, o chefe do governo catalão entreabriu abriu uma porta que porém nada do que disse permite abrir de vez.

Intervalo.