«Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?
Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...
Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.
Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.»
Camilo Pessanha, Clepsidra
e outros poemas Colecção Poesia
Edições Ática, 1973 (Transcrito da Internet)
E ainda:
A repetição de um COMENTÁRIO excelente a
um excelente texto de PATRÍCIA FERNANDES
:
De João
Floriano: “Excelente” rima com “diferente”. Uma crónica extremamente interessante e
elucidativa sobre a nova dimensão da
Guerra dos Sexos. De um ponto de vista pessimista, o panorama é verdadeiramente
desolador e sobretudo doloroso. Milhares de homens e mulheres que não conseguem
ter um relacionamento emocional com alguém do sexo oposto, apesar de o
desejarem. Veja-se só a quantidade de aplicações destinadas a encontros. Mas o
problema vai muito para além do desejo frustrado de uma relação hetero, porque
nos homossexuais e lésbicas os problemas são os mesmos e também fora da esfera
sexual é extremamente complicado estabelecer relacionamentos sólidos. A solidão
vai muito para além do relacionamento sexual e antes de lá chegarmos, teremos
de nos perguntar porque nos tornamos tão sós, tão isolados, logo agora que os
meios de comunicação são tão fáceis.
Uma terra só deles
Como chegamos ao ponto de os mais
extremistas dos dois lados considerarem que o outro sexo é dispensável? Como
podemos corrigir o que foi feito? Eis duas das questões mais importantes do
nosso tempo.
PATRÍCIA FERNANDES Professora
na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 25
nov. 2024, 00:1822
1O comprimido vermelho
Será possível não nos lembrarmos da voz
com que Morpheus
oferece a Neo uma escolha? O comprimido azul garantia o regresso à
vida anterior de ignorância tranquila; o comprimido vermelho permitiria
conhecer a verdadeira realidade. Neo não hesita e acaba por descobrir
o deserto do real, e de como a humanidade
está ao serviço da inteligência artificial num Matrix que a mantém sob engano.
A ideia é tão cativante que dificilmente
poderia escapar a utilizações políticas, e foi isso que aconteceu naquilo a que
habitualmente se designa como manosfera: no
mundo dos movimentos masculinistas (quase sempre digital), a palavra “redpill”
remete para a escolha que permite compreender como a narrativa feminista se
apoderou do mundo para subjugar os homens e destruir a sociedade. Ao
compreendermos como tal aconteceu (tomando o comprimido vermelho),
compreenderíamos a verdadeira realidade.
Há aqui uma dimensão conspirativa que nos deixa imediatamente de
sobreaviso, mas não é, na verdade, difícil de compreender por que razões terá
florescido. Pensemos na consagração do termo “masculinidade
tóxica” e da ideia maniqueísta de que a feminilidade é sempre boa e a masculinidade é sempre
má; ou na publicação de livros como The end of men
e Detesto os homens.
Há, de facto, uma ocupação do espaço público por uma linguagem e um discurso
que, em sentido contrário, seriam considerados “discurso
de ódio”.
A título de exemplo, consideremos
Suzanna Danuta Walters, professora de sociologia e directora do Women’s, Gender,
and Sexuality Studies Program na Northeastern University. Em 2018, Walters
perguntou no The Washington Post: “Why can’t we hate men?”
Tratava-se de uma pergunta retórica e a autora termina o artigo deixando claro
o que os homens deveriam fazer:
“Curvem-se para que nos possamos
levantar sem sermos derrubadas. Comprometam-se a votar apenas em mulheres
feministas. Não se candidatem a cargos públicos. Não assumam qualquer cargo.
Afastem-se do poder. Nós tomamos conta de tudo. E saibam que as vossas lágrimas
de crocodilo não serão mais enxugadas por nós. Temos todo o direito de vos
odiar. Vocês fizeram-nos mal. #BecausePatriarchy. Já é mais do que tempo para a
Equipa Feminista jogar. E ganhar.”
É
assim tão surpreendente que posições deste género conduzam a narrativas de tipo
“redpill”? Em bom rigor, a experiência social e cultural a que fomos sujeitos
com a chamada “revolução sexual” desarticulou dinâmicas com milhares de anos e
não é, por isso, inesperado que homens e mulheres estejam em dificuldades para
reencontrar um lugar no novo mundo e, em particular, para articular um aspecto
fundamental para o futuro da humanidade: como estabelecer relações pessoais ou
aquilo que, em linguagem antiga, se chamava “constituir
família”?
2Celibatários involuntários
É possível que o melhor episódio de Black
Mirror seja o especial de Natal de 2014, “White Christmas“. O criador
da série (não aconselhada para quem sofre de algum tipo de luditismo), Charlton
Brooker, tem sido considerado um visionário por conciliar uma percepção astuta
das ânsias humanas com a projecção mais apurada das inovações tecnológicas. No caso de “White Christmas”, Brooker
imagina um homem mais velho a aconselhar homens jovens no processo de sedução
através de ferramentas tecnológicas que o mantêm em contacto (bem como ao
restante grupo) com o orientando. No vocabulário da manosfera,
esta pessoa seria uma espécie de pickup artista (PUA), o grupo uma pickup
community e o
orientando um incel.
O termo incels (diminutivo para “involuntary celibats”)
é usado para referir jovens adultos que gostariam de estar numa
relação física e emocional com uma mulher, mas que não conseguem vingar no
“mercado das relações”. A sua
frustração é muitas vezes canalizada contra as mulheres, acusadas de os
condenarem a uma solidão atroz. No artigo “Men are in trouble. ‘Incels’ are proof”, a jornalista Christine Emba identifica o
problema:
“As suas conclusões são erradas, para
dizer o mínimo. Até as mulheres mais atraentes passaram pela experiência de
estar solteiras quando preferiam não estar, e as mulheres não são obrigadas a
ter relações, muito menos sexo, com alguém. Estes homens estão obviamente a
operar sob uma nuvem negra de ilusão que se perpetua. Mas devíamos estar
atentos ao que este nível de desespero nos está a dizer: os incels
são o rosto de uma geração de homens em dificuldades.”
Não se trata, na verdade, de um problema
só masculino: os dados revelam que o número de casamentos tem sofrido quedas
substanciais e inéditas e muitas mulheres expressam igualmente insatisfação por
não conseguirem encontrar companheiro. Mas, de acordo com dados recolhidos pelo
Pew Research Center em 2019, “os homens que não namoram têm duas vezes mais probabilidades do que as
mulheres de afirmar que uma das principais razões para não estarem à procura de
alguém é a sensação de que ninguém estaria interessado em sair com eles (26%
contra 12%).
Com a crescente afirmação
feminina, os jovens do sexo masculino revelam problemas de confiança, agravados
pelo movimento #MeToo, que conduziu a receios em adoptar comportamentos antes
entendidos como naturais. Como um entrevistado diz a Emba, em Rethinking Sex:
“Eu
nunca abordaria uma mulher sentada sozinha num café. Sinto que isso é… é uma
espécie de movimento agressivo nas circunstâncias actuais. Quase nunca vejo
isso. Mantemo-nos na nossa faixa.”
Esta dimensão relacional acresce aos factores
que vimos na semana
passada e que têm dado forma à chamada crise de
masculinidade. E no centro
desta crise estará a ausência de referências masculinas que ajudem os jovens no
seu processo de afirmação. Em Men are lost, Emba recorre ao trabalho do
antropólogo David Gilmore para
recordar que “os rapazes
tinham geralmente de ser introduzidos na virilidade e na masculinidade por
outros homens. E esse parece ser um elo fundamental que falta hoje.”
O problema é que essas referências
masculinas têm vindo a desaparecer. Em
Lisboa ainda restam, como relíquia, clubes reservados a homens, mas, nos
Estados Unidos, o problema enquadra-se em termos familiares: as famílias
monoparentais (sem pai) têm estado a aumentar continuamente e nunca como hoje
os pais têm sido retirados da dinâmica familiar. Mas as consequências estão
identificadas: “Menos faculdade, menos trabalho
e mais prisão para os jovens do sexo masculino que crescem sem o seu pai
biológico
Com a falta de referências masculinas
e sem um reconhecimento político dos seus problemas, os jovens têm-se retirado
da esfera pública e passado cada vez mais para o mundo digital masculino.
3Uma terra só deles
Designados
como NEETs (sem estudar, trabalhar ou estagiar), estes jovens estão desde cedo
familiarizados com o mundo digital: os jogos de computador já não são uma
experiência partilhada fisicamente, mas feita no mundo virtual e sem
fronteiras, e acompanhados por espaços de conversação que se tornam rapidamente
políticos (o Discord é o mais popular desses espaços). É nesse mundo digital que floresce a chamada manosfera,
um espaço para movimentos masculinistas e figuras de influência que oferecem,
acima de tudo, empatia: reconhecem os problemas desses jovens e dão
recomendações, mais ou menos eficazes e mais ou menos tóxicas.
Entre estas últimas figuras estará
certamente Andrew Tate, com uma
popularidade crescente entre os rapazes mais novos; mas entre os primeiros
estará, por exemplo, Jordan Peterson:
um intelectual controverso, mas que aparece quase como uma figura paternal que
oferece orientações básicas. Regras como “levanta a cabeça e endireita as costas” e “arruma o teu quarto”, que
constam do livro 12 Regras para a Vida, são
indicações básicas de sobrevivência e sucesso social – simplesmente faltam elementos paternais a desempenhar este papel. Mais do que criticar estas figuras, devemos perguntar, como Emba, por que razão têm
tanta influência:
“O que os críticos não percebem é
que, se não houvesse nada de válido no cerne destas ideias, elas não teriam
este tipo de popularidade. As pessoas precisam de códigos para saber como ser
humano. E quando esses códigos não são fáceis de encontrar, aceitam o que lhes é oferecido, independentemente do que lhes esteja
associado.” (itálico meu)
Na verdade, tudo isto já estava nos
Antigos. Não ensinou Aristóteles que a educação é fundamentalmente imitação (mimesis)?
E Jesus, que devemos viver sendo exemplos de virtude? Parecemos acreditar,
hoje, que devemos fazer o que quisermos; os antigos sabiam que devemos imitar
os mais virtuosos.
Deixemos, por agora, esta questão
antropológica tão importante, para nos concentrarmos no verdadeiro
problema da manosfera: ele reside nas suas dimensões mais obscuras e que
estão retratadas no livro A revolta do homem branco, da
jornalista Susanne Kaiser (sim, a
introdução é um manifesto político e constitui um bom exemplo do mau trabalho
que o jornalismo tem feito, mas os capítulos descritivos valem a pena).
Nas franjas da manosfera, onde
o filme Fight Club se tornou uma referência,
encontramos muita violência, e que não é só verbal: há já uma longa lista de actos
violentos da revolução incel e que não se fica pelo espaço norte-americano.
E à semelhança dos movimentos
separatistas feministas mais extremistas, também estas franjas têm falado de uma terra só
deles – e recorrido, até, aos
mesmos recursos tecnológicos. É o que acontece com a defesa dos úteros artificiais: se
algumas feministas vêem esta inovação assustadora como a possibilidade de se
libertarem do fardo da maternidade, também os masculinistas mais radicais a
apreciam. Afinal, os úteros artificiais permitiriam tornar as mulheres supérfluas.
Como chegamos até aqui? Ao ponto de
os movimentos mais extremistas dos dois lados considerarem que o outro sexo é
dispensável? E como podemos corrigir o que foi feito? Estas são, provavelmente,
duas das questões mais importantes do nosso tempo.
PS: Farei
uma pausa nas minhas crónicas durante o mês de dezembro, voltando no início do
novo ano. Deixo a todos os leitores, e às suas famílias, votos de um Santo
Natal e boas entradas em 2025.
EXTREMISMO SOCIEDADE SEXO AMOR E SEXO LIFESTYLE WOKISMO FEMINISMO
COMENTÁRIOS (de 22)
Carlos Chaves: “Curvem-se
para que nos possamos levantar sem sermos derrubadas. Comprometam-se a votar
apenas em mulheres feministas. Não se candidatem a cargos públicos. Não assumam
qualquer cargo. Afastem-se do poder. Nós tomamos conta de tudo. E saibam que as
vossas lágrimas de crocodilo não serão mais enxugadas por nós. Temos todo o
direito de vos odiar. Vocês fizeram-nos mal. #BecausePatriarchy. Já é mais do
que tempo para a Equipa Feminista jogar. E ganhar.” Isto foi escrito por um ser humano? Ajuda psiquiátrica
é urgente! Obrigado
Patrícia Fernandes, desejo-lhe igualmente a si, à sua família e amigos, um
santo e feliz Natal!
Luis Santos: Artigo muito oportuno Existe ainda uma terceira ameaça, a dos movimentos que pretendem a todo
o custo implementar a ideologia de género, atacando crianças e jovens imaturos. Patricia Boas Festas e Feliz Natal 🎄🎁 Jorge Freitas: Sempre que a Patrícia Fernandes tem uma
crónica nova sei que vou ler algo interessante. Actual, relevante, incisivo,
bem argumentado e bem escrito. Pedro Belo: Excelente crónica, como sempre. Um Feliz e
Santo Natal! Rosa
Lourenço: O absurdo em vez do
complemento? Há sempre duas faces complementares em vez de antagónicas. Há que promover a harmonia em vez
do confronto, a compreensão e o diálogo para um futuro em que todos tenham o
seu espaço e possibilidade de se tornar felizes e realizados como seres
humanos. Joaquim
Almeida: Excelente.
Um terrível exemplo da acção neo-marxista: estilhaçar a sociedade
capitalista, em múltiplas guerras fratricidas, até ao âmago da sociedade-mãe - sedução, namoro, amor e
família.
Simples e diabolicamente demolidor. Francisco Almeida: O fim da família é o fim da humanidade. Independentemente dos que o desejam e
promovem e dos que a defendem e preservam, multiplicam-se os sinais do Fim dos
Tempos. Manuel
Magalhaes: Essa
dos extremistas dos dois lados é uma grande treta, quando é que o Chega
desconsiderou as mulheres, isto de ser jornalista faccioso(a) é muito feio!!! Joaquim
Almeida > Carlos Chaves: O manicómio está na rua, meu caro. Qualquer dia
somos nós os internados.
Joaquim Almeida: Ou seja: conservador é aquele que aproveita a experiência dos seus pais,
avós e antepassados mais ou menos recuados para, a partir dessa experiência,
rasgar o seu próprio caminho prudente e inovador. Não é um reaccionário. É um
troglodita avesso ao progresso... Coxinho: Quem inventou / começou a "guerra dos
sexos" ?? Guerra
porquê ? Em
nome de quê ? Com
que fim ? Havia
um inimigo a abater ? Qual é
ou era o inimigo a abater ? A
única guerra que consigo imaginar como justa seria uma GUERRA PELA RESTAURAÇÃO
DO BOM SENSO: -- o
bom senso a imperar nas relações privadas e públicas entre as pessoas, os
grupos, as nações -- um bom senso que substituiria com vantagem incalculável as
ideologias sociais, políticas e outras que tais, que actualmente norteiam as
relações públicas, as relações internacionais e até as simples relações
inter-pessoais. Ah, e
já sabemos que vale sempre a pena ler o que a Patrícia escreve. Emanuel Jardim: Excelente Artigo. Obrigatório para leitura dos
meus dois filhos. Sem a emoção e a seducao natural entre o homem e a mulher a
vida deve ser um flagelo e uma escravidão. Obrigado Patrícia GateKeeper: Top 5. Maria Augusta Martins: Mais valia estar a fazer croché! Ou já está a
alinhar na cachaça como a Janja! João Floriano: “Excelente” rima com “diferente”. Uma crónica
extremamente interessante e elucidativa sobre a nova dimensão da Guerra dos Sexos. De um
ponto de vista pessimista, o panorama é verdadeiramente desolador e sobretudo
doloroso. Milhares de homens e mulheres que não conseguem ter um relacionamento
emocional com alguém do sexo oposto, apesar de o desejarem. Veja-se só a
quantidade de aplicações destinadas a encontros. Mas o problema vai muito para
além do desejo frustrado de uma relação hetero, porque nos homossexuais e
lésbicas os problemas são os mesmos e também fora da esfera sexual é
extremamente complicado estabelecer relacionamentos sólidos. A solidão vai
muito para além do relacionamento sexual e antes de lá chegarmos, teremos de
nos perguntar porque nos tornamos tão sós, tão isolados, logo agora que os
meios de comunicação são tão fáceis.
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