O CRISTO-REI. Na Bíblia, no Mundo, no Oriente – Ocidente asiático - onde nasceu, nestes escritos corajosos do P.
GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA, cuja leitura é sempre aprazível e firme.
O fracasso de Cristo-Rei
Olhando para o mundo e, especificamente para a Terra
Santa, é-se levado a crer no fracasso de Cristo-Rei.
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 23 nov. 2024, 00:1710
A última solenidade do ano
litúrgico é a celebração da realeza de Jesus Cristo, no domingo imediatamente
anterior ao primeiro do Advento, o tempo litúrgico que prepara o Natal. Essa
celebração tem um carácter eminentemente apocalíptico: no final dos tempos será manifesta a realeza universal
de Jesus de Nazaré.
Alguns
cristãos, talvez mais impacientes, quiseram antecipar na terra o reino de
Cristo, mediante transformações sociais e políticas susceptíveis de realizar os
ideais evangélicos da justiça e da paz. Escusado será dizer que todas essas
tentativas, ainda que bem-intencionadas, ficaram muito aquém do ambicioso
propósito que as animava.
A realeza de Cristo é uma constante da sua vida terrena. É porque
nasceu como Rei dos Judeus que Herodes, por temor de ser destronado, mandou
matar todas as crianças recém-nascidas em Belém (Mt
2, 16-18).
Foi recebida, com grande expectativa, a missão de João
Baptista, o precursor, que alguns pensaram ser o Messias (Jo 1, 19-28). Decapitado por um outro Herodes (Mc 6, 14-29), a população voltou-se então para Jesus de
Nazaré, um rabi desconcertante,
porque parecia pouco ortodoxo nalguns dos seus ensinamentos e práticas: recorde-se a parábola dos vinhateiros homicidas, que
profetizou a substituição de Israel por um novo povo de Deus (Lc 20,
9-19); os
anúncios da destruição da cidade de Jerusalém e do seu templo (Mt 24, 21); bem como a sua interpretação, algo heterodoxa, do
descanso sabático. Por ser
alguém revestido de um poder sobrenatural, atestado por inúmeros milagres,
esperava-se dele a tão desejada restauração da independência e grandeza de
Israel.
Os discípulos de Jesus, ante a
evidência de um grande milagre, quiseram entronizar o Mestre (Jo 6,
15-21),
na expectativa de que,
assumindo a chefia de Israel, restaurasse a sua liberdade, pondo fim à
dominação romana.
Também os discípulos mais próximos do Mestre, primeiros
destinatários dos seus ensinamentos e a quem tudo o Senhor Jesus explicava em
pormenor (Mt 13, 10-17), partilhavam esse ideal político. Dele dão conta os filhos de Zebedeu,
quando pedem ao Mestre os dois principais lugares no seu reino (Mc 10, 35-40); ou quando o exaltam na sua
entrada triunfal em Jerusalém, já na iminência da sua paixão e morte na Cruz (Lc 19, 28-38).
A pretensão de converter a missão do
Filho de Deus numa acção política precipitará, até, o desfecho da sua vida
terrena. Embora
condenado à morte, por blasfêmia, pelo Sinédrio, a máxima autoridade religiosa
judaica (Mt 26, 57-66), o título da sua condenação civil foi, no
entanto, a sua confessada realeza (Jo 18, 28-40). Por isso, na Cruz, foi
afixado um letreiro com a inscrição: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus (Jo 19,
17-19). Palavras, decerto, providenciais, como providencial
foi também que essa inscrição constasse em três línguas – “hebraico, latim
e grego” (Jo 19, 20) –
atestando desse modo que a realeza de Cristo não é apenas nacional ou regional,
mas universal, porque “ele é, verdadeiramente, o Salvador do mundo” (Jo 4, 42).
Mesmo
depois da sua gloriosa ressurreição, ainda houve quem perguntasse ao Mestre se
era então que ia, finalmente, restaurar o reino de Israel (At 1, 6)!
O sonho de um regime político cristão, que realizasse os seus
propósitos de justiça e paz, não se realizou na vida do Mestre, nem depois,
quando os cristãos eram maioria no império romano.
É verdade que, no ano 313, com o édito de Milão, do Imperador Constantino que,
no final da sua vida, se converteu ao Cristianismo, a religião cristã deixou de
ser oficialmente perseguida pelas autoridades imperiais, sem que se inaugurasse
um regime político inspirado nos Evangelhos. Com a queda dos impérios romanos do
Ocidente e do Oriente, a principal ameaça contra a Cristandade veio dos
bárbaros e muçulmanos, respectivamente.
Depois de evangelizados os povos germânicos, a Europa cristã sofreu
um dramático colapso com a invasão árabe. A Reconquista, que teve em Pelágio o
seu fundador, nasceu como luta pela independência dos povos peninsulares e pela
sua liberdade. Não
em vão, a nossa primeira insígnia nacional foi a bandeira dos cruzados – uma
cruz azul sobre um fundo branco – como cruzados foram também muitos dos
libertadores do que seria depois o reino de Portugal.
Liberta a Europa do jugo islâmico – que
agora, de novo, ameaça a liberdade europeia – a república cristã medieval atribuiu aos monarcas um carácter quase
sagrado, que encontrou justificação na teoria da sua eleição divina, confundindo
muitas vezes o plano temporal com a dimensão sobrenatural. Se o
monarca era ungido – Cristo
quer dizer, precisamente, o ungido –, atentar
contra o poder real era, portanto, um sacrilégio e um crime, que devia ser
punido pela Igreja e pelo Estado. Por sua vez, a heresia, sendo um pecado para
a Igreja, era também um delito para o Estado, que era quem punia, até com a
morte, os que o tribunal eclesiástico condenara como hereges.
Com o fim do Antigo Regime, a Europa cristã sofreu um novo e sangrento
sobressalto: a revolução
francesa, embora ocorrida na nação
que se orgulhava de ser a filha primogénita da Igreja, e proclamasse os ideais
cristãos da liberdade, igualdade e fraternidade, inaugurou uma nova era de
terror, que
antecipou os genocídios provocados pelas ditaduras ateias do século XX,
nomeadamente a nacional-socialista e a comunista.
Então, assim sendo, que resta da realeza
de Cristo?! De que serviu, afinal a sua vinda a este mundo, se, dois mil anos
depois, há ainda tantas guerras e injustiças?! Será de concluir que, como
reformador social, Jesus de Nazaré fracassou?
Sim,
olhando para o mundo e, em especial, para a sua terra, que não em vão é a Terra
Santa, é-se levado a supor o fracasso de Cristo-Rei. Não obstante a aparência dessa derrota, a
realeza de Cristo não só se verificará, visivelmente, no final dos tempos, como
é já uma gozosa realidade nos corações dos muitos milhões de
mulheres e homens que o amam e seguem e que, “no meio de uma nação
depravada e corrompida”, brilham “como astros do mundo” (Flp 2,
15). É neles e por eles que Cristo, embora de forma ainda não manifesta, reina
no mundo. Viva Cristo-Rei!
CRISTIANISMO RELIGIÃO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 10)
Maria Emília Santos Santos: Todos querem o poder e quanto maior melhor, pensam os
poderosos! O dinheiro do mundo acumulou-se nas mãos de gente suja, que agora o
usa para impor as suas ideias de globalização, com um governo único, com a
população mundial bastante diminuída e a que restar que seja totalmente
submissa! Jesus Cristo é o oposto disto tudo, por isso não serve, é preciso
erradicá-LO como se fosse um vírus perigoso! A ridicularização do Sagrado na
inauguração dos JO mostrou com clareza o que pretendem aqueles que querem
governar o mundo, seja à custa do que for! Jesus Cristo não cabe nas ditaduras
seja qual for, porque Ele AMA a todos, pobres e ricos, doentes e sãos, negros,
brancos ou amarelos! Esta é a diferença! Deus é amor e os ditadores são ódio! As
guerras não acabarão nunca, porque os homens afastam-se de Deus e deixam-se
dominar pela ganância do poder e de dominar os outros. Jesus Cristo é a
verdadeira Paz e sem Ele esta não pode existir! João Paulo Reis: Na minha simplicidade e porque não, ignorância, gosto
de amar a Jesus Cristo englobado na Santíssima Trindade, a minha fé diz que
esta será a melhor forma de O ver como Filho de Deus Pai, que viveu entre nós e
se entregou na Cruz por todos nós, que sabendo como morreu e ressuscitou o
reconhecemos como Rei, não de terras ou palácios, mas como todos os que nele
acreditamos. O Divino Espírito Santo, que é Deus com Ele e o Pai, ilumina-nos e
dá-nos força para O adorarmos, defender e divulgar e ao seu Evangelho.
Obrigado! Jorge
Frederico Cardoso Vieira Barbosa: a
nossa sobrevivência mental no nosso mundo real cada vez mais áspero e
turbulento, fazendo recordá-la. Mais uma vez mto obrigado ao padre Gonçalo,
agora por este seu artigo, uma lufada de ar fresco para esperança que sempre se
sustenta na fé
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