Para um amanhã imprevisível, o BEM e o MAL dando-se as mãos, lutando
entre si - ontem, hoje e amanhã… Pesem, embora, os contrastes, que a nossa
mente estranha, infalivelmente, na emoção das lembranças, mas aprendendo - até
na História Universal – tantos dos podres que igualmente provaram as inépcias
que sempre a atravessaram, vindas das mãos provocadoras do Homem, ou até de uma
Natureza involuntariamente – (ou não?) - mas perversamente desconcertante. Não há
que estranhar, embora haja que temer.
O mundo de ontem?
Um denso nevoeiro baixou sobre o mundo onde
costumávamos viver. O de ontem. E quem diria que tal como Stefan Zweig eu
poderia vir um dia a dizer com alta verosimilhança, o meu “mundo de ontem”?
MARIA JOÃO
AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 07 jan. 2026, 00:2214
1Estamos entre um tempo e
outro. Desfasados, portanto do que já não é
e ainda não é. Com surpresa – para uns mais, para outros
menos – eis os nossos instrumentos de
observação e análise a embater brutalmente com os procedimentos – todos
os procedimentos e não só os geoestratégicos – que têm feito uma “fracassante” entrada em cena: disruptiva
na sua imprevisibilidade anunciada (não é um paradoxo) e ostensiva
na desenvoltura com que ousa – e usa – a imprevisibilidade e a arrogância.
Mesmo
que aquilo a que assistimos com pasmo tenha já acontecido no passado – até em
piores condições como no Panamá e escolho apenas este exemplo –,
estando já inscrito na História, talvez nada tenha porém acontecido
“assim”. E por isso nos seja tão estranho este
tempo novo
onde o ar foi tomado por um confuso desnorteio. Balança-se entre a certeza dos factos e a dúvida arrastada pela incerteza: o que
aconteceu hoje com (estarrecedora)
naturalidade poderá amanhã ter a condição de tábua de lei? Aniquilar-se-ão os tempos e modos eleitos como
decentes e por isso por nós escolhidos e praticados? Duvido
– que outro verbo usar? – que alguém
esteja municiado para responder e depois
para agir por entre o denso nevoeiro que baixou sobre o mundo onde costumávamos
viver. O de ontem. (Quem diria que tal como Stefan Zweig eu poderia vir um dia a dizer,
com alta verosimilhança, o meu “mundo de ontem”? )
2Parece que só falo da
“Venezuela” sem falar da Venezuela. Não é bem assim: o choque pelo rapto de Nicolás Maduro
foi impressivo e nada o diminuirá, muito menos as boas intenções. Sucede porém que tudo o que tornou
possível esta “Venezuela” com que convivemos intimamente há dias, já estava em
curso; a estranheza vinha fazendo um caminho, as
regras, os códigos e os comportamentos desviavam-se do praticado há décadas; a perplexidade expectante perante avisos de
“intervenções” e anúncios de “sujeições” adensava-se como o nevoeiro que agora
desceu.
3Um começo de ano duríssimo. Atordoam-nos
com o “já vimos isto, já aconteceu isto,
já vivemos isto”, mas houve algo de novo
pelo que revelou: uma
infinita capacidade de arrogância – eu sei, eu quero, eu posso, eu mando; a
exibição não menos forte nem infinita de uma segurança pessoal acima de leis,
países e gentes; uma cada vez mais reiterada humilhação daquilo que somos,
representamos e defendemos como participantes e praticantes da Europa.
4Não que eu não esteja
consciente do enquadramento que “recomendou” esta acção norte
americana: da realidade
letal da droga naquelas paragens que incessantemente transita para dentro dos
Estados Unidos; da dependência malsã de
Cuba da Venezuela; da indispensabilidade de um “sinal” à China de que os
Estados Unidos podem e sabem fazer o que fizeram. Não desconheço obviamente que Maduro é porventura o pior dos homens, o mais abjecto dos
presidentes, o mais temível dos torturadores, o mais indecente protector,
traficante e mandante de carteis da droga; ou que
ignorasse que a Venezuela se tornara um dos países mais pobres e esfaimados do
mundo depois de ter sido um dos mais ricos. Mas.
5E tudo o resto agora são perguntas
sem respostas. Podemos não vir a gostar delas ou não saber vir a lidar com
elas: muito provavelmente não serão do
nosso mundo.
Não
me ocorre outra condição de mim mesma neste momento senão a de uma espécie de quase sem abrigo de propósito e destino: o nevoeiro não deixa ver nem um nem
outro.
PS1: A Federação pela Vida enviou recentemente a nove dos
candidatos às próximas eleições presidenciais, um questionário com onze perguntas
sobre questões ditas “fracturantes”: aborto, eutanásia, a maternidade em risco, barrigas de
aluguer, além de outras sobre educação e liberdade de consciência.
Como escrevia a Federação em comunicado, trata-se de “questões
estruturantes que nos últimos 30 anos têm galvanizado o debate político na
sociedade portuguesa e internacional. E que continuam na ordem do dia.” É
tudo verdade. Sucede porém – e por isso deixo notícia – que nenhum dos
candidatos respondeu a não ser Gouveia e Melo, que respondeu a dizer
que… não respondia. A mudez
foi mais forte que os muitos contactos institucionais e pessoais levados a cabo
durante semanas para que as respostas dos candidatos vissem a luz do dia. Não viram. Mau sinal. E por isso,
só relembro isto: talvez ninguém tenha dado por isso no ar da media e no céu do
país, mas houve pelo menos um milhão – eu diria mais ainda – de portugueses
que votaram não no referendo sobre o aborto. Ou que nunca se viram representados por alguém que, como eles, não
concordasse com o sim a uma boa soma de aprovações em matérias de facto
fracturantíssimas na sociedade portuguesa. Cada um interpretará o
silêncio dos corredores à meta presidencial como quiser. A notícia
é que nenhum respondeu. Não por falta de tempo. Ainda menos por acaso.
PS2: É capaz
de ser de facto inquantificável o que o PSD deve a Conceição Monteiro. Lealíssima, fidelíssima, perspicaz, atenta,
disponível non-stop, bem-disposta.
E justa: acolhedora com a gente boa e a gente séria, severa com os
vendilhões do templo. Foi muito mais, mil vezes mais, que uma
secretária, condição em que começou a trabalhar no gabinete de Francisco Sá
Carneiro no início do então PPD: foi uma colaboradora permanente, ou melhor foi
“a” colaboradora de todas as horas. Dotada de invulgar perspicácia,
excelente observadora, conhecia a natureza humana como a palma da sua mão,
lidando com ela com também invulgar – e invejável – mestria. Era os olhos e os ouvidos do fundador e primeiro líder do PSD, a
confiança entre ambos nunca conheceu a mácula nem teve intervalos. E
assim a Conceição se manteve, sempre de pé como um cipreste, na glória
das vitórias, na aspereza das traições, no infortúnio das derrotas, na rotina
dos dias, até a morte de Sá Carneiro.
Lembrando se de tudo isto com a sua memória de elefante, e atento ao mérito da
história pessoal e política desta mulher de excelência, o Presidente da
República condecorou há dias Conceição Monteiro. Cerimónia íntima e
familiar antes do mais, ternura no
olhar do Marcelo – há quanto tempo não se conhecem ambos? – emoção e gratidão no sorriso de Conceição.
Eu agradeço-lhe: testemunhei muito, vi do que foi capaz, admirei-a em
muitíssimas ocasiões. Devia-lhe estas linhas também elas contagiadas pela
emoção do que me trouxe a memória ao escrevê-las. Querida Conceição.
COMENTÁRIOS (14)
Nuno Chambel
Lima: Muito obrigado pela sua crónica. Não é tanto o
quid quanto o modus; não é tanto a acção dada pelo verbo quanto o advérbio que
- ainda que imperceptivelmente, ainda que a mais modesta das componentes da
língua - a qualifica, lhe dá o tom e a matiz, a modula, abre toda uma outra
atmosfera. De facto, é como diz, podem dizer-nos tudo, apresentar-nos as razões
mais plausíveis, com muitas das quais até concordamos; mas algo nos escapa,
algo de ainda inapreensível pesa sobre o horizonte; et was Unheimliches, de
ominoso, que parece aguardar eclosão. Graciete
Madeira: Mais
uma oportuna crónica de M. João Avillez. Francisco Almeida: Salvam-se, com muito mérito, os dois P.S.. Nevoeiro pode dever-se a muitas coisas, desde
cataratas a degenerescência macular da idade. Metaforicamente, também acontece
quando se percebe que o poder com que sempre se conviveu, começa a perder o pé. Manuel Magalhaes: Pois é Maria João o nevoeiro persiste e pior
adensa-se, o que virá é uma incógnita do tamanho do Mundo… PS. bonita e
merecida homenagem à Conceição, valha-nos isso!!! Nuno Abreu: Conceição
Monteiro merecia. Aplaudo. Manuel Gonçalves: Maria João Avilez a revelar mais uma vez
uma enorme elevação de carácter e capacidade de percepção política.
Relativamente às posições de grande parte da direita portuguesa, dou aqui por
reproduzido o meu comentário de IG a publicação recente do Miguel Morgado, que
repete, com erudição, mas sem capacidade de antecipação essas asserções gerais,
que são assim por mim questionadas “Duas falhas descomunais no seu raciocínio,
o que é de todo inadmissível para a posição elevada de pensamento político em
que se pretende colocar, e está muito em linha com o deslumbramento de parte da
direita portuguesa com a doutrina Don Roe, que bem pode ser designada Don
Corleone: - a atitude predatória, reforço, de verdadeiro predador, da
administração Trump face aos recursos e territórios dos outros países - esta
é uma nova questão fulcral da ordem mundial, que é difícil perceber como
esquece numa abordagem de longuíssimos minutos; - por que ordem de razão
a Europa está condenada a não ter a sua própria esfera de influência, obviamente
com os seus fortes valores democráticos? - as Coligações de Vontade,
formadas sob a liderança europeia, para as quais os EUA estão a ser arrastados
na Ucrânia, apontam claramente na emergência de um novo estatuto da Europa, que
o Miguel Morgado não lobriga na sua exposição, diminuindo profundamente o
alcance da mesma.” Manuel
Gonçalves > antonyo antonyo: Não, o Trump actualizou para Don Roe, de
Donald. É tão ridículo que nem parece verdade.
Ricardo Ferreira: Convém
dizer que as perguntas da federação pela vida eram perguntas abertas e estava a
exigir as respostas "sim ou não". Quanto a esta arrogância de se
entrar num Estado soberano para raptar pessoas, vale para o rapto do Eichmann
pela Mossad? Américo
Silva: Ontem o mandatário americano comunicou a Delcy
Rodríguez que a Venezuela entregará aos Estados Unidos entre 30 e 50 milhões de
barris de petróleo, enquanto Rubio admite comprar a Gronelândia. ana rita:
Resumo: Este Trump é mesmo mau. Veio acabar com o
mundo como eu o conhecia. Até já sinto saudades do “abjecto” e
“torturador” ditador Maduro. Américo
Silva: Nada
como votar seguramente. Carlos Chaves: Caríssima Maria João Avillez, agradeço mais esta sua crónica e desta
vez apenas comento o seu P.S. Obrigado, por nos dar a conhecer que temos
candidatos presidenciais, mudos, e que um até certifica a sua mudez! Ainda
nenhum foi eleito e já tem este inaceitável e incompreensível comportamento,
imaginemos como será o comportamento daquele/a que venha a ser Presidente!
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