quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A transitar sempre

 

Para um amanhã imprevisível, o BEM e o MAL dando-se as mãos, lutando entre si - ontem, hoje e amanhã… Pesem, embora, os contrastes, que a nossa mente estranha, infalivelmente, na emoção das lembranças, mas aprendendo - até na História Universal – tantos dos podres que igualmente provaram as inépcias que sempre a atravessaram, vindas das mãos provocadoras do Homem, ou até de uma Natureza involuntariamente – (ou não?) - mas perversamente desconcertante. Não há que estranhar, embora haja que temer.

O mundo de ontem?

Um denso nevoeiro baixou sobre o mundo onde costumávamos viver. O de ontem. E quem diria que tal como Stefan Zweig eu poderia vir um dia a dizer com alta verosimilhança, o meu “mundo de ontem”?

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 07 jan. 2026, 00:2214

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1Estamos entre um tempo e outro. Desfasados, portanto do que já não é e ainda não é. Com surpresa – para uns mais, para outros menos – eis os nossos instrumentos de observação e análise a embater brutalmente com os procedimentostodos os procedimentos e não só os geoestratégicos – que têm feito uma “fracassante” entrada em cena: disruptiva na sua imprevisibilidade anunciada (não é um paradoxo) e ostensiva na desenvoltura com que ousa – e usa – a imprevisibilidade e a arrogância.

Mesmo que aquilo a que assistimos com pasmo tenha já acontecido no passado – até em piores condições como no Panamá e escolho apenas este exemplo –, estando já inscrito na História, talvez nada tenha porém acontecido “assim”. E por isso nos seja tão estranho este tempo novo onde o ar foi tomado por um confuso desnorteio. Balança-se entre a certeza dos factos e a dúvida arrastada pela incerteza: o que aconteceu hoje com (estarrecedora) naturalidade poderá amanhã ter a condição de tábua de lei? Aniquilar-se-ão os tempos e modos eleitos como decentes e por isso por nós escolhidos e praticados? Duvido – que outro verbo usar? – que alguém esteja municiado para responder e depois para agir por entre o denso nevoeiro que baixou sobre o mundo onde costumávamos viver. O de ontem. (Quem diria que tal como Stefan Zweig eu poderia vir um dia a dizer, com alta verosimilhança, o meu “mundo de ontem”? )

2Parece que só falo da “Venezuela” sem falar da Venezuela. Não é bem assim: o choque pelo rapto de Nicolás Maduro foi impressivo e nada o diminuirá, muito menos as boas intenções. Sucede porém que tudo o que tornou possível esta “Venezuela” com que convivemos intimamente há dias, já estava em curso; a estranheza vinha fazendo um caminho, as regras, os códigos e os comportamentos desviavam-se do praticado há décadas; a perplexidade expectante perante avisos de “intervenções” e anúncios de “sujeições” adensava-se como o nevoeiro que agora desceu.

3Um começo de ano duríssimo. Atordoam-nos com o “já vimos isto, já aconteceu isto, já vivemos isto”, mas houve algo de novo pelo que revelou: uma infinita capacidade de arrogância – eu sei, eu quero, eu posso, eu mando; a exibição não menos forte nem infinita de uma segurança pessoal acima de leis, países e gentes; uma cada vez mais reiterada humilhação daquilo que somos, representamos e defendemos como participantes e praticantes da Europa.

4Não que eu não esteja consciente do enquadramento que “recomendou” esta acção norte americana: da realidade letal da droga naquelas paragens que incessantemente transita para dentro dos Estados Unidos; da dependência malsã de Cuba da Venezuela; da indispensabilidade de um “sinal” à China de que os Estados Unidos podem e sabem fazer o que fizeram. Não desconheço obviamente que Maduro é porventura o pior dos homens, o mais abjecto dos presidentes, o mais temível dos torturadores, o mais indecente protector, traficante e mandante de carteis da droga; ou que ignorasse que a Venezuela se tornara um dos países mais pobres e esfaimados do mundo depois de ter sido um dos mais ricos. Mas.

5E tudo o resto agora são perguntas sem respostas. Podemos não vir a gostar delas ou não saber vir a lidar com elas: muito provavelmente não serão do nosso mundo.

Não me ocorre outra condição de mim mesma neste momento senão a de uma espécie de quase sem abrigo de propósito e destino: o nevoeiro não deixa ver nem um nem outro.

PS1: A Federação pela Vida enviou recentemente a nove dos candidatos às próximas eleições presidenciais, um questionário com onze perguntas sobre questões ditas “fracturantes”: aborto, eutanásia, a maternidade em risco, barrigas de aluguer, além de outras sobre educação e liberdade de consciência. Como escrevia a Federação em comunicado, trata-se de “questões estruturantes que nos últimos 30 anos têm galvanizado o debate político na sociedade portuguesa e internacional. E que continuam na ordem do dia.” É tudo verdade. Sucede porém – e por isso deixo notícia – que nenhum dos candidatos respondeu a não ser Gouveia e Melo, que respondeu a dizer que… não respondia. A mudez foi mais forte que os muitos contactos institucionais e pessoais levados a cabo durante semanas para que as respostas dos candidatos vissem a luz do dia. Não viram. Mau sinal. E por isso, só relembro isto: talvez ninguém tenha dado por isso no ar da media e no céu do país, mas houve pelo menos um milhão – eu diria mais ainda – de portugueses que votaram não no referendo sobre o aborto. Ou que nunca se viram representados por alguém que, como eles, não concordasse com o sim a uma boa soma de aprovações em matérias de facto fracturantíssimas na sociedade portuguesa. Cada um interpretará o silêncio dos corredores à meta presidencial como quiser. A notícia é que nenhum respondeu. Não por falta de tempo. Ainda menos por acaso.

PS2: É capaz de ser de facto inquantificável o que o PSD deve a Conceição Monteiro. Lealíssima, fidelíssima, perspicaz, atenta, disponível non-stop, bem-disposta. E justa: acolhedora com a gente boa e a gente séria, severa com os vendilhões do templo. Foi muito mais, mil vezes mais, que uma secretária, condição em que começou a trabalhar no gabinete de Francisco Sá Carneiro no início do então PPD: foi uma colaboradora permanente, ou melhor foi “a” colaboradora de todas as horas. Dotada de invulgar perspicácia, excelente observadora, conhecia a natureza humana como a palma da sua mão, lidando com ela com também invulgar – e invejável – mestria. Era os olhos e os ouvidos do fundador e primeiro líder do PSD, a confiança entre ambos nunca conheceu a mácula nem teve intervalos. E assim a Conceição se manteve, sempre de pé como um cipreste, na glória das vitórias, na aspereza das traições, no infortúnio das derrotas, na rotina dos dias, até a morte de Sá Carneiro.
Lembrando se de tudo isto com a sua memória de elefante, e atento ao mérito da história pessoal e política desta mulher de excelência, o Presidente da República condecorou há dias Conceição Monteiro. Cerimónia íntima e familiar antes do mais, ternura no olhar do Marcelo – há quanto tempo não se conhecem ambos? – emoção e gratidão no sorriso de Conceição.
Eu agradeço-lhe: testemunhei muito, vi do que foi capaz, admirei-a em muitíssimas ocasiões. Devia-lhe estas linhas também elas contagiadas pela emoção do que me trouxe a memória ao escrevê-las. Querida Conceição.

VENEZUELA           MUNDO

 

COMENTÁRIOS (14)

Nuno Chambel Lima: Muito obrigado pela sua crónica. Não é tanto o quid quanto o modus; não é tanto a acção dada pelo verbo quanto o advérbio que - ainda que imperceptivelmente, ainda que a mais modesta das componentes da língua - a qualifica, lhe dá o tom e a matiz, a modula, abre toda uma outra atmosfera. De facto, é como diz, podem dizer-nos tudo, apresentar-nos as razões mais plausíveis, com muitas das quais até concordamos; mas algo nos escapa, algo de ainda inapreensível pesa sobre o horizonte; et was Unheimliches, de ominoso, que parece aguardar eclosão.                  Graciete Madeira: Mais uma oportuna crónica de M. João Avillez.                  Francisco Almeida: Salvam-se, com muito mérito, os dois P.S.. Nevoeiro pode dever-se a muitas coisas, desde cataratas a degenerescência macular da idade. Metaforicamente, também acontece quando se percebe que o poder com que sempre se conviveu, começa a perder o pé.               Manuel Magalhaes: Pois é Maria João o nevoeiro persiste e pior adensa-se, o que virá é uma incógnita do tamanho do Mundo… PS. bonita e merecida homenagem à Conceição, valha-nos isso!!!               Nuno Abreu: Conceição Monteiro merecia. Aplaudo.                Manuel Gonçalves: Maria João Avilez a revelar mais uma vez uma enorme elevação de carácter e capacidade de percepção política. Relativamente às posições de grande parte da direita portuguesa, dou aqui por reproduzido o meu comentário de IG a publicação recente do Miguel Morgado, que repete, com erudição, mas sem capacidade de antecipação essas asserções gerais, que são assim por mim questionadas “Duas falhas descomunais no seu raciocínio, o que é de todo inadmissível para a posição elevada de pensamento político em que se pretende colocar, e está muito em linha com o deslumbramento de parte da direita portuguesa com a doutrina Don Roe, que bem pode ser designada Don Corleone: - a atitude predatória, reforço, de verdadeiro predador, da administração Trump face aos recursos e territórios dos outros países - esta é uma nova questão fulcral da ordem mundial, que é difícil perceber como esquece numa abordagem de longuíssimos minutos; - por que ordem de razão a Europa está condenada a não ter a sua própria esfera de influência, obviamente com os seus fortes valores democráticos? - as Coligações de Vontade, formadas sob a liderança europeia, para as quais os EUA estão a ser arrastados na Ucrânia, apontam claramente na emergência de um novo estatuto da Europa, que o Miguel Morgado não lobriga na sua exposição, diminuindo profundamente o alcance da mesma.”                   Manuel Gonçalves > antonyo antonyo: Não, o Trump actualizou para Don Roe, de Donald. É tão ridículo que nem parece verdade.     Ricardo Ferreira: Convém dizer que as perguntas da federação pela vida eram perguntas abertas e estava a exigir as respostas "sim ou não". Quanto a esta arrogância de se entrar num Estado soberano para raptar pessoas, vale para o rapto do Eichmann pela Mossad?   Américo Silva: Ontem o mandatário americano comunicou a Delcy Rodríguez que a Venezuela entregará aos Estados Unidos entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo, enquanto Rubio admite comprar a Gronelândia.          ana rita: Resumo: Este Trump é mesmo mau. Veio acabar com o mundo como eu o conhecia. Até já sinto saudades do “abjecto” e “torturador” ditador Maduro.                       Américo Silva: Nada como votar seguramente.               Carlos Chaves: Caríssima Maria João Avillez, agradeço mais esta sua crónica e desta vez apenas comento o seu P.S. Obrigado, por nos dar a conhecer que temos candidatos presidenciais, mudos, e que um até certifica a sua mudez! Ainda nenhum foi eleito e já tem este inaceitável e incompreensível comportamento, imaginemos como será o comportamento daquele/a que venha a ser Presidente!           

 

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