Um mundo que parece bem tramado
Na questão da
pureza dos conceitos e o mais que virá em consequência…
Marcelo aproveitou palco europeu para
deixar recados a Ventura e a Trump
RUI PEDRO
ANTUNES (EM ESTRASBURGO): TEXTO
DIOGO VENTURA (EM
ESTRASBURGO):FOTOGRAFIA
Presidente foi a palco europeu reiterar o que tinha dito no 10 de
Junho: "Não há
portugueses puros".
Marcelo deixou ainda avisos a Trump e ouviu elogios do rei de Espanha.
21 jan. 2026, 14:3724
Marcelo Rebelo de Sousa
garante que não se vai imiscuir na segunda volta das eleições presidenciais,
mas aproveitou o seu último discurso
no Parlamento Europeu para voltar a criticar o
conceito de ser português do candidato André Ventura e do Chega. Na
sessão comemorativa dos 40 anos da adesão de Portugal e Espanha à União
Europeia, em Estrasburgo, o Presidente da República puxou das raízes
mescladas entre portugueses e espanhóis para atirar
contra nacionalismos e extremismos e proclamou do púlpito:
“Não há portugueses puros, há portugueses diversos, na sua riqueza
cultural.”
Minutos antes, o rei espanhol
tinha-se dirigido a “todos os portugueses” em português para que ficasse
registado: “Juntos, demos mais um passo histórico na nossa longa história
comum.” Marcelo também retribuiria a simpatia
ibérica, após firmar que Portugal
nasceu em 1143, dizendo uma frase em espanhol, para homenagear as vítimas da tragédia ferroviária em
Espanha.
Marcelo lembrou que as relações
com Espanha nem sempre foram boas, já que “com os vizinhos”, que também “eram parentes, conquistámos
independência, guerreámos para a mantermos, perdemo-la e recuperámo-la.” Se
Filipe VI ignorou os períodos turbulentos da relação entre os dois povos, Marcelo fez questão de o recordar.
Disse, inclusive, que até ao século XVII foi “um desassossego
constante”
entre Portugal e Espanha — que só
parou verdadeiramente com a integração europeia comum. “O que há de
verdadeiramente diferente e notável é que a integração europeia do século XX,
que culminou na adesão há quarenta anos, no mesmo dia da Espanha, com papel cimeiro de Mário Soares e Felipe Gonzalez, veio
mudar a História. Não só a História europeia, mas também a História nas
relações com o vizinho único por terra.”
O Presidente da República diz que agora
é “moda do momento, esquecer,
minimizar, diminuir a Europa e o seu papel no mundo”,
mas pede que não se siga o caminho da autoflagelação, já que a
Europa é o espaço de mais liberdade, democracia, Estado de Direito, além de
estar num “lugar cimeiro do Desenvolvimento Humano e dos padrões de igualdade
social” e de ser um dos maiores mercados do mundo. Admite, porém que “tudo isto não basta” e
que é urgente fazer mais e melhor, incluindo promover uma “mudança dos nossos
sistemas políticos, económicos e sociais”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O
rei espanhol explicou que “a adesão à Europa foi um factor decisivo na
transformação de Espanha”, mas lembrou que o processo “foi recíproco”. Filipe
VI recordou que Espanha também contribuiu — e até liderou — a integração
europeia em muitas áreas”, referindo-se “à cidadania, à política de coesão, ao
desenvolvimento do pilar social, à área da liberdade, segurança e justiça, à recente
utilização de mecanismos de dívida conjunta, à Vizinhança Meridional/Vizinhança
Mediterrânica e — juntamente com Portugal — à ênfase
na importância estratégica da América Latina e das Caraíbas”.
Além das referências simpáticas e fraternas a Portugal, Filipe VI também
alinhou com Marcelo ao defender uma Europa mais forte. “Nunca antes, como nestes tempos
sombrios, a ideia de Europa foi tão crucial, porque representa a procura da
razão. É esta Europa que, em tempos turbulentos, permanece uma referência ética
e política”, afirmou.
Filipe VI mostrou-se ainda
preocupado com o posicionamento dos EUA, pedindo que “continuemos a trabalhar na nossa defesa, na nossa autonomia
estratégica, no reforço do pilar europeu no seio da Aliança Atlântica. É uma
necessidade urgente. E, ao mesmo tempo, é a melhor forma de preservar um
vínculo transatlântico baseado no respeito e na lealdade que tanto nos
proporcionou. Sem este vínculo, caminharemos para um mundo mais incerto, mais
instável e mais perigoso.”
António Costa, minutos antes, também falaria uma parte do seu
discurso em português para lembrar “os 40
anos da adesão de Portugal e Espanha à Europa”, não deixando de notar que
“partilham a língua com os países do 56.
Costa lembrou ainda que “a adesão dos dois países foi também a
vitória da democracia sobre décadas de ditadura na Península Ibérica”. E
lembrou que o que se celebrava ali não era apenas “o sucesso de Portugal e
Espanha, mas o sucesso da Europa”, aproveitando para puxar por futuros
alargamentos: “Reafirmamos o compromisso com a Ucrânia, a Moldávia e os seis
países dos Balcãs ocidentais”.
PARLAMENTO EUROPEU
UNIÃO EUROPEIA
EUROPA MUNDO
PRESIDENCIAIS 2026 ELEIÇÕES
POLÍTICA
Marcelo puxa da história para fazer
avisos a Trump (e a Putin e Xi)
Na perspectiva do Presidente da
República portuguesa, a reconstruída Europa que propõe deve ser autosuficiente,
mas não deve isolar-se do mundo. E questiona, de forma retórica: “Temos aliados?” Para logo responder: “Temos. Para além da União Europeia, Portugal
tem o Reino Unido, há mais de 650 anos, e preferiríamos que estivesse ainda
mais com a União Europeia do muito que está.”
Marcelo chega depois ao aliado que
está em risco nessa qualidade, puxando da história para lembrar a Washington
que, excluindo o engagé Paris, Lisboa foi quem na Europa primeiro reconheceu a independência
dos EUA. “Temos os EUA, cuja independência Portugal
foi o primeiro Estado europeu, salvo a França, ou seja, neutral, a reconhecer”,
lembra. Para logo, atirar-se à
imprevisibilidade de Donald Trump: “Preferiríamos que fôssemos sempre aliados
a 100% e não com hiatos, intermitências ou estados de alma.”
O Presidente português aconselha a Europa a avançar sem complexos e sem
medos porque “os aliados e os parceiros, que desejamos, virão, como sempre vieram, quando entenderem que não há senhores únicos do globo, nem poderes eternos. E que as nossas alianças e parcerias valem mais
do que a espuma, mesmo sedutora de cada dia.”
Puxando novamente das lições da
história, Marcelo faz novo aviso
a Trump, que também se estende a Putin
e Xi: “Não
há quem consiga
hoje refazer pela força a divisão de hemisférios do passado e sonhar
controlar o seu hemisfério, ou resolver problemas universais por si só. Falhará quem o tente no século
XXI, como falharam outros no século XX.”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O Rei de Espanha falou em português e
chama Portugal de “nação irmã”
Filipe VI discursou na mesma
sessão perante os eurodeputados e disse estar honrado por estar a comemorar
os 40 anos, destacando o “imenso prazer de o fazer ao lado do meu querido
e admirado Presidente Marcelo Rebelo
de Sousa — da República de Portugal, nossa nação irmã.”
O rei espanhol explicou que “a adesão
à Europa foi um factor decisivo na transformação de Espanha”,
mas lembrou que o processo
“foi recíproco”. Filipe
VI recordou que Espanha
também contribuiu — e até liderou — a integração europeia em muitas áreas”,
referindo-se “à cidadania, à política de coesão, ao desenvolvimento do pilar
social, à área da liberdade, segurança e justiça, à recente utilização de
mecanismos de dívida conjunta, à Vizinhança Meridional/Vizinhança Mediterrânica
e — juntamente com Portugal — à ênfase na importância
estratégica da América Latina e das Caraíbas”.
Além das referências
simpáticas e fraternas a Portugal, Filipe VI também alinhou com Marcelo ao defender uma Europa mais forte. “Nunca
antes, como nestes tempos sombrios, a ideia de Europa foi tão crucial, porque
representa a procura da razão. É esta Europa que, em tempos turbulentos,
Aliança Atlântica. É uma
necessidade urgente. E, ao mesmo tempo, é a melhor forma de preservar um
vínculo transatlântico baseado no respeito e na lealdade que tanto nos
proporcionou. Sem este vínculo, caminharemos para um mundo mais incerto, mais
instável e mais perigoso. poupados
com a
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
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