quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Páginas da História de hoje

 

Um mundo que parece bem tramado

Na questão da pureza dos conceitos e o mais que virá em consequência…

Marcelo aproveitou palco europeu para deixar recados a Ventura e a Trump

RUI PEDRO ANTUNES (EM ESTRASBURGO): TEXTO

DIOGO VENTURA (EM ESTRASBURGO):FOTOGRAFIA

Presidente foi a palco europeu reiterar o que tinha dito no 10 de Junho: "Não há portugueses puros". Marcelo deixou ainda avisos a Trump e ouviu elogios do rei de Espanha.

21 jan. 2026, 14:3724

Marcelo Rebelo de Sousa garante que não se vai imiscuir na segunda volta das eleições presidenciais, mas aproveitou o seu último discurso no Parlamento Europeu para voltar a criticar o conceito de ser português do candidato André Ventura e do Chega. Na sessão comemorativa dos 40 anos da adesão de Portugal e Espanha à União Europeia, em Estrasburgo, o Presidente da República puxou das raízes mescladas entre portugueses e espanhóis para atirar contra nacionalismos e extremismos e proclamou do púlpito: “Não há portugueses puros, há portugueses diversos, na sua riqueza cultural.”

Minutos antes, o rei espanhol tinha-se dirigido a “todos os portugueses” em português para que ficasse registado: “Juntos, demos mais um passo histórico na nossa longa história comum.” Marcelo também retribuiria a simpatia ibérica, após firmar que Portugal nasceu em 1143, dizendo uma frase em espanhol, para homenagear as vítimas da tragédia ferroviária em Espanha.

Marcelo lembrou que as relações com Espanha nem sempre foram boas, já que “com os vizinhos”, que também “eram  parentes, conquistámos independência, guerreámos para a mantermos, perdemo-la e recuperámo-la.” Se Filipe VI ignorou os períodos turbulentos da relação entre os dois povos, Marcelo fez questão de o recordar. Disse, inclusive, que até ao século XVII foi “um desassossego constante” entre Portugal e Espanha — que só parou verdadeiramente com a integração europeia comum. “O que há de verdadeiramente diferente e notável é que a integração europeia do século XX, que culminou na adesão há quarenta anos, no mesmo dia da Espanha, com papel cimeiro de Mário Soares e Felipe Gonzalez, veio mudar a História. Não só a História europeia, mas também a História nas relações com o vizinho único por terra.”

O Presidente da República diz que agora é “moda do momento, esquecer, minimizar, diminuir a Europa e o seu papel no mundo”, mas pede que não se siga o caminho da autoflagelação, já que a Europa é o espaço de mais liberdade, democracia, Estado de Direito, além de estar num “lugar cimeiro do Desenvolvimento Humano e dos padrões de igualdade social” e de ser um dos maiores mercados do mundo. Admite, porém que “tudo isto não basta” e que é urgente fazer mais e melhor, incluindo promover uma “mudança dos nossos sistemas políticos, económicos e sociais”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

 

O rei espanhol explicou que “a adesão à Europa foi um factor decisivo na transformação de Espanha”, mas lembrou que o processo “foi recíproco”. Filipe VI recordou que Espanha também contribuiu — e até liderou — a integração europeia em muitas áreas”, referindo-se “à cidadania, à política de coesão, ao desenvolvimento do pilar social, à área da liberdade, segurança e justiça, à recente utilização de mecanismos de dívida conjunta, à Vizinhança Meridional/Vizinhança Mediterrânica e — juntamente com Portugal — à ênfase na importância estratégica da América Latina e das Caraíbas”.

Além das referências simpáticas e fraternas a Portugal, Filipe VI também alinhou com Marcelo ao defender uma Europa mais forte. “Nunca antes, como nestes tempos sombrios, a ideia de Europa foi tão crucial, porque representa a procura da razão. É esta Europa que, em tempos turbulentos, permanece uma referência ética e política, afirmou.

Filipe VI mostrou-se ainda preocupado com o posicionamento dos EUA, pedindo que “continuemos a trabalhar na nossa defesa, na nossa autonomia estratégica, no reforço do pilar europeu no seio da Aliança Atlântica. É uma necessidade urgente. E, ao mesmo tempo, é a melhor forma de preservar um vínculo transatlântico baseado no respeito e na lealdade que tanto nos proporcionou. Sem este vínculo, caminharemos para um mundo mais incerto, mais instável e mais perigoso.”

António Costa, minutos antes, também falaria uma parte do seu discurso em português para lembrar “os 40 anos da adesão de Portugal e Espanha à Europa”, não deixando de notar que “partilham a língua com os países do 56.

 Costa lembrou ainda que “a adesão dos dois países foi também a vitória da democracia sobre décadas de ditadura na Península Ibérica”. E lembrou que o que se celebrava ali não era apenas “o sucesso de Portugal e Espanha, mas o sucesso da Europa”, aproveitando para puxar por futuros alargamentos: “Reafirmamos o compromisso com a Ucrânia, a Moldávia e os seis países dos Balcãs ocidentais”.

 

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Marcelo puxa da história para fazer avisos a Trump (e a Putin e Xi)

Na perspectiva do Presidente da República portuguesa, a reconstruída Europa que propõe deve ser autosuficiente, mas não deve isolar-se do mundo. E questiona, de forma retórica: “Temos aliados?” Para logo responder: “Temos. Para além da União Europeia, Portugal tem o Reino Unido, há mais de 650 anos, e preferiríamos que estivesse ainda mais com a União Europeia do muito que está.”

Marcelo chega depois ao aliado que está em risco nessa qualidade, puxando da história para lembrar a Washington que, excluindo o engagé Paris, Lisboa foi quem na Europa primeiro reconheceu a independência dos EUA.Temos os EUA, cuja independência Portugal foi o primeiro Estado europeu, salvo a França, ou seja, neutral, a reconhecer”, lembra. Para logo, atirar-se à imprevisibilidade de Donald Trump: “Preferiríamos que fôssemos sempre  aliados a 100% e não com hiatos, intermitências ou estados de alma.”

O Presidente português aconselha a Europa a avançar sem complexos e sem medos porque “os aliados e os parceiros, que desejamos, virão, como sempre vieram, quando entenderem que não há senhores únicos do globo, nem poderes eternos. E que as nossas alianças e parcerias valem mais do que a espuma, mesmo sedutora de cada dia.

Puxando novamente das lições da história, Marcelo faz novo aviso a Trump, que também se estende a Putin e Xi: “Não há quem consiga hoje refazer pela força a divisão de hemisférios do passado e sonhar controlar o seu hemisfério, ou resolver problemas universais por si sóFalhará quem o tente no século XXI, como falharam outros no século XX.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O Rei de Espanha falou em português e chama Portugal de “nação irmã

Filipe VI discursou na mesma sessão perante os eurodeputados e disse estar honrado por estar a comemorar os 40 anos, destacando o “imenso prazer de o fazer ao lado do meu querido e admirado Presidente Marcelo Rebelo de Sousa — da República de Portugal, nossa nação irmã.

O rei espanhol explicou que “a adesão à Europa foi um factor decisivo na transformação de Espanha, mas lembrou que o processo “foi recíproco”. Filipe VI recordou que Espanha também contribuiu — e até liderou — a integração europeia em muitas áreas”, referindo-se “à cidadania, à política de coesão, ao desenvolvimento do pilar social, à área da liberdade, segurança e justiça, à recente utilização de mecanismos de dívida conjunta, à Vizinhança Meridional/Vizinhança Mediterrânica e — juntamente com Portugal — à ênfase na importância estratégica da América Latina e das Caraíbas”.

Além das referências simpáticas e fraternas a Portugal, Filipe VI também alinhou com Marcelo ao defender uma Europa mais forte. “Nunca antes, como nestes tempos sombrios, a ideia de Europa foi tão crucial, porque representa a procura da razão. É esta Europa que, em tempos turbulentos,

Aliança Atlântica. É uma necessidade urgente. E, ao mesmo tempo, é a melhor forma de preservar um vínculo transatlântico baseado no respeito e na lealdade que tanto nos proporcionou. Sem este vínculo, caminharemos para um mundo mais incerto, mais instável e mais perigoso.   poupados com a  

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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