quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cansaço

 

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Entre Seguro, Ventura e Passos

Se nada de excepcional acontecer, o gravíssimo erro deste PSD e a desunião das direitas ditarão a eleição de um Presidente socialista e, simultaneamente, o maior resultado de sempre de André Ventura.

ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

 jan. 2026, 00:1865

Confirmando o que a generalidade das sondagens apontavam, a segunda volta vai mesmo ser disputada entre António José Seguro e André Ventura. A excepção foi a última sondagem pré-eleitoral da Intercampus, publicada no dia 14 de Janeiro, que notavelmente — e em completo contraciclo com as restantes sondagens relativas ao mesmo espaço temporal — colocava Marques Mendes na segunda posição e, ainda mais notavelmente, relegava Seguro para a quarta posição com um resultado mais de 15 pontos percentuais abaixo da votação que efectivamente veio a ter nas urnas no dia 18 de Janeiro.

Os resultados da primeira volta confirmaram o tremendo erro estratégico que foi a insistência por parte da actual liderança do PSD na candidatura de Marques Mendes. Forçar a candidatura de Marques Mendes contra todos os alertas (externos mas também internos no próprio PSD) foi um erro grave que terá consequências profundas e duradouras. A confirmação da previsível passagem de André Ventura à segunda volta faz com que os resultados da primeira volta assumam muito provavelmente um carácter decisivo, com a (ainda) muito elevada taxa de rejeição de Ventura a deixar o caminho aberto para uma vitória mais ou menos folgada do seu opositor — neste caso António José Seguro.

O espectáculo — entre o trágico e o cómico — a que temos assistido desde a noite eleitoral de colagem apressada (e em alguns casos desesperada) ao provável futuro Presidente da República por parte de um vasto conjunto de figuras semi-públicas do regime diz mais sobre essas figuras do que sobre Seguro, mas creio que em nada ajudam à sua eleição. Pelo contrário, os apelos à constituição de uma vasta frente anti-fascista para “defender a democracia”, além de serem em si mesmos ridículos, validam o discurso anti-sistema de Ventura e fornecem-lhe a plataforma ideal para crescer na segunda volta face ao resultado da primeira. Como bem salientou Alberto Gonçalves:

É curioso ver o mítico “sistema” unido de forma quase unânime em volta do dr. Seguro. E é ainda mais curioso perceber a latitude do “sistema”, que vai do prof. Cavaco à dra. Catarina Martins, do dr. Portas ao dr. Rui Tavares, de pessoas civilizadas a apoiantes do Hamas. É impossível que toda esta gente queira o mesmo de um PR, mas é garantido que não querem o dr. Ventura em Belém. Ao fazê-lo, estão a reconhecer implicitamente que o dr. Ventura até pode ter razão não só quando identifica o “sistema”, mas sobretudo quando diz que o “sistema”, inchado de presunção falsamente democrática e desprovido de escrúpulos, não se recomenda.”

De facto, em particular para quem afirma situar-se à direita (ou, para usar uma expressão manifestamente em voga por estes dias, no espaço “não socialista”), vir gritar alarmado que está em causa a democracia ao mesmo tempo que se alinha sem pestanejar numa frente comum com comunistas e bloquistas é, no mínimo, peculiar. Pela minha parte, notei com especial estupefacção que houve até figuras destacadas da IL mais solícitas e empenhadas no apoio a António José Seguro do que foram no apoio a João Cotrim Figueiredo. Mas importa não confundir estes alarmados sistémicos em bicos dos pés com quem está desde a primeira hora ao lado da candidatura de Seguro. Sendo que neste grupo se incluem figuras respeitáveis ao centro e centro-esquerda — como Rita Saias, Bernardo Ivo Cruz, Júlio Pedrosa ou Guilherme Oliveira Martins — mas também figuras à direita como Jorge Marrão, Nuno Palma, Nuno Gonçalo Poças, Pedro Gomes Sanches e até Vasco Rato, um dos mais lúcidos intérpretes entre nós da Administração Trump.

Um desses apoiantes de direita e que esteve desde a primeira hora com Seguro, Pedro Gomes Sanches, resumiu exemplarmente o que está em causa e como o histerismo “anti-fascista” pode até prejudicar o resultado de Seguro na segunda volta:

Repito: cheguei à decisão de apoiar António José Seguro antes do PS, antes da oligarquia do PS, antes da esquerda do voto útil, antes da extrema-esquerda, antes do ‘statu quo’, antes de Cotrim anunciar a sua candidatura. Fi-lo, obviamente, não pela “candidatura da esquerda” e muito menos pela “salvação do PS”. Estou-me nas tintas para a esquerda e para a salvação do PS. Não são assuntos meus. Fi-lo em função de António José Seguro, um homem então só, alguém em quem nunca votaria em eleições legislativas, mas que tinha (e tem), de entre os candidatos, o perfil que me parece necessário em Belém: institucionalista, capaz de equilíbrios sensatos, de “baixar a temperatura” num palco político a arder, de ouvir respeitosamente todas as partes, independente sem viés partidário, decente sem interesses ocultos. Nada disto – como tenho explicado – tem a ver com esquerda/direita. Esta candidatura, como a vi e como me foi assegurado, não é uma candidatura de “Passionárias”, de combate contra o “fascismo” ou de passado. Esta candidatura, como a vi, como a vejo e como me tem sido assegurado, é uma candidatura de esperança, de racionalidade, de equilíbrio democrático, de coesão nacional, de presente e de futuro.
Disse-o na noite das eleições: nada está ganho até estar ganho. Por cada “Passionária” histérica a bramir contra os “fascistas” que a ela se juntar, dois cidadãos darão um passo atrás.”

Seguro, com seu perfil de sobriedade, serenidade e moderação, está longe de ser o adversário ideal para Ventura conseguir a união das direitas contra uma hipotética “ameaça socialista”. Ironicamente, caso tivesse pela frente um socialista mais radical — como Ana Gomes ou Sampaio da NóvoaVentura teria fortes possibilidades de conseguir vencer estas presidenciais. Contra Seguro, só um (improvável) cenário de forte desmobilização ao centro e centro-direita dará a Ventura reais hipóteses de vencer. Ainda assim, importa que a sua candidatura esteja alerta para esse risco de desmobilização — e que se distancie também o mais possível de discursos simplistas e intolerantes que demonizam o eleitorado que pensa de forma diferente. Como Alberto Gonçalves brilhantemente explicou partindo de um episódio particularmente infeliz e grotesco protagonizado por Sérgio Sousa Pinto:

 E não se trata apenas de uma questão ideológica. Está em jogo uma dimensão clínica. Com ponderação, Sérgio Sousa Pinto garante que somente os “atrasados mentais” [sic] hesitam entre o partido do Outro e o PS, leia-se entre o Outro e o dr. Seguro. Além de ninguém desejar ser fascista, ninguém deseja ser atrasado mental, pelo que não há hesitação possível quanto ao caminho a trilhar. Não basta não votar no Outro, é preciso votar no dr. Seguro. E não basta votar no dr. Seguro: é preciso anunciá-lo ao mundo (ou aos espectadores da Sic, vá) com toda a força que o desrespeito pelos pulmões e o respeito pelas instituições nos conferem. Temos a obrigação cívica de espalhar o anúncio através dos meios que pudermos, nas televisões, nas rádios, nos jornais, nos cafés, nos escritórios, nos autocarros e nos jantares em família. Devemos gritar nas ruas (até às dez da noite, por causa dos vizinhos e da polícia) que estamos perante a eleição mais importante desde a insurreição de Viriato e que o voto em Seguro é decisivo para impedir que em dois meses Portugal se transforme na Alemanha de 1933. Ou no Portugal de 1973. Ou na América de 2026.”

Tudo aponta para que no próximo dia 8 de Fevereiro, apesar da ampla maioria de direita hoje existente em Portugal, a Presidência da República vá ficar nas mãos do Partido Socialista. É certo que tal deverá acontecer através de uma das figuras mais respeitáveis (ou, como está por estes dias na moda dizer, menos “indecentes”) que o actual PS pode apresentar, mas que ninguém duvide que tal terá implicações profundas para os próximos cinco (possivelmente dez) anos. Seguro e quem o apoiou desde a primeira hora têm o mérito de ter tido a coragem de avançar quando as possibilidades de vitória pareciam relativamente remotas e até uma parte importante e influente do próprio PS tentava activamente sabotar a sua candidatura. Mas a vitória do candidato socialista seria impossível sem o fraccionamento à direita que resulta da falta de uma liderança clara e abrangente. O elefante ausente da sala nestas presidenciais é, obviamente, Pedro Passos CoelhoComo bem realçou Miguel Santos Carrapatoso:

“Pedro Passos Coelho é um dos grandes vencedores destas eleições presidenciais. Por várias razões. A mais evidente: o seu silêncio tornou-se um dos temas principais da campanha e ajudou a detonar a já frágil candidatura de Luís Marques Mendes. Passos é o grande vilão do montenegrismo; Mendes era o candidato do montenegrismo; Mendes e o montenegrismo foram copiosamente derrotados nestas eleições presidenciais; Passos, que há muito tornou claro que não quer ter nada que ver com este PSD, ganhou. Ponto final, parágrafo.”

Se nada de excepcional acontecer, o gravíssimo erro estratégico da actual liderança do PSD e a desunião das direitas ditarão no próximo dia 8 de Fevereiro a eleição de um Presidente socialista e, simultaneamente, o maior resultado de sempre de André Ventura. Será mais um passo importante para que a liderança da direita portuguesa seja entregue ao líder do Chega. Só um homem parece capaz de o evitar: Pedro Passos Coelho. Mas não é neste momento sequer certo que tencione voltar à política activa.

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