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Entre
Seguro, Ventura e Passos
Se nada de excepcional acontecer, o gravíssimo erro deste PSD e a
desunião das direitas ditarão a eleição de um Presidente socialista e, simultaneamente,
o maior resultado de sempre de André Ventura.
ANDRÉ AZEVEDO ALVES Professor do
Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa
jan. 2026, 00:1865
Confirmando o que a generalidade das sondagens apontavam, a segunda
volta vai mesmo ser disputada entre António José Seguro e André Ventura. A
excepção foi a última sondagem pré-eleitoral da Intercampus, publicada no dia
14 de Janeiro, que notavelmente — e em
completo contraciclo com as restantes sondagens relativas ao mesmo espaço
temporal — colocava Marques Mendes na segunda posição e, ainda mais
notavelmente, relegava Seguro para a quarta posição com um resultado mais de
15 pontos percentuais abaixo da votação que efectivamente veio a ter nas urnas
no dia 18 de Janeiro.
Os resultados da primeira volta
confirmaram o tremendo erro estratégico que foi a insistência por parte da
actual liderança do PSD na candidatura de Marques Mendes. Forçar a candidatura de Marques Mendes contra todos os
alertas (externos mas também internos no próprio PSD) foi um erro grave que
terá consequências profundas e duradouras. A confirmação da previsível passagem de André
Ventura à segunda volta faz com que os resultados da primeira volta assumam
muito provavelmente um carácter decisivo, com a (ainda) muito
elevada taxa de rejeição de Ventura a deixar o caminho aberto
para uma vitória mais ou menos folgada do seu opositor — neste
caso António José Seguro.
O espectáculo — entre o
trágico e o cómico — a que temos assistido desde a noite
eleitoral de colagem apressada (e em alguns casos desesperada) ao provável futuro Presidente da República
por parte de um vasto conjunto de figuras semi-públicas do regime diz mais
sobre essas figuras do que sobre Seguro, mas creio que em nada ajudam à sua
eleição. Pelo contrário, os apelos à constituição de uma vasta frente
anti-fascista para “defender a democracia”, além de serem em si mesmos
ridículos, validam o discurso anti-sistema de Ventura e fornecem-lhe a
plataforma ideal para crescer na segunda volta face ao resultado da
primeira. Como
bem salientou Alberto Gonçalves:
“É curioso ver o mítico
“sistema” unido de forma quase unânime em volta do dr. Seguro. E é ainda mais
curioso perceber a latitude do “sistema”, que vai do prof. Cavaco à dra.
Catarina Martins, do dr. Portas ao dr. Rui Tavares, de pessoas civilizadas a
apoiantes do Hamas. É
impossível que toda esta gente queira o mesmo de um PR, mas é garantido que não
querem o dr. Ventura em Belém. Ao fazê-lo, estão a reconhecer implicitamente que o
dr. Ventura até pode ter razão não só quando identifica o “sistema”, mas
sobretudo quando diz que o “sistema”, inchado de presunção falsamente
democrática e desprovido de escrúpulos, não se recomenda.”
De facto, em particular para
quem afirma situar-se à direita (ou, para usar uma expressão manifestamente em
voga por estes dias, no espaço “não socialista”), vir gritar alarmado que está
em causa a democracia ao mesmo tempo que se alinha sem pestanejar numa frente
comum com comunistas e bloquistas é, no mínimo, peculiar. Pela minha parte, notei
com especial estupefacção que houve até figuras destacadas da IL mais solícitas
e empenhadas no apoio a António José Seguro do que foram no apoio a João Cotrim
Figueiredo. Mas importa não
confundir estes alarmados sistémicos em bicos dos pés com quem está desde a
primeira hora ao lado da candidatura de Seguro. Sendo que neste grupo
se incluem figuras respeitáveis ao centro e centro-esquerda — como Rita Saias,
Bernardo Ivo Cruz, Júlio Pedrosa ou Guilherme Oliveira Martins — mas também
figuras à direita como Jorge Marrão, Nuno Palma, Nuno Gonçalo Poças, Pedro
Gomes Sanches e até Vasco Rato, um dos mais lúcidos intérpretes entre
nós da Administração Trump.
Um desses apoiantes de
direita e que esteve desde a primeira hora com Seguro, Pedro Gomes
Sanches, resumiu
exemplarmente o que está em causa e como o histerismo
“anti-fascista” pode até prejudicar o resultado de Seguro na segunda volta:
“Repito: cheguei à decisão de apoiar António José Seguro antes do
PS, antes da oligarquia do PS, antes da esquerda do voto útil, antes da
extrema-esquerda, antes do ‘statu quo’, antes de Cotrim anunciar a sua
candidatura. Fi-lo, obviamente, não pela
“candidatura da esquerda” e muito menos pela “salvação do PS”. Estou-me nas
tintas para a esquerda e para a salvação do PS. Não são assuntos meus. Fi-lo em
função de António José Seguro, um homem então só, alguém em quem nunca votaria
em eleições legislativas, mas que tinha (e tem), de entre os candidatos, o
perfil que me parece necessário em Belém: institucionalista, capaz de
equilíbrios sensatos, de “baixar a temperatura” num palco político a arder, de
ouvir respeitosamente todas as partes, independente sem viés partidário,
decente sem interesses ocultos. Nada disto – como tenho explicado –
tem a ver com esquerda/direita. Esta candidatura, como a vi e como me
foi assegurado, não é uma candidatura de “Passionárias”, de combate contra o
“fascismo” ou de passado. Esta candidatura, como a vi, como a vejo e como me
tem sido assegurado, é uma candidatura de esperança, de racionalidade, de
equilíbrio democrático, de coesão nacional, de presente e de futuro.
Disse-o na noite das eleições: nada está ganho até estar ganho. Por cada “Passionária” histérica a bramir
contra os “fascistas” que a ela se juntar, dois cidadãos darão um passo atrás.”
Seguro, com seu perfil de
sobriedade, serenidade e moderação, está longe de ser o adversário ideal para
Ventura conseguir a união das direitas contra uma hipotética “ameaça
socialista”. Ironicamente,
caso tivesse pela frente um socialista mais radical — como Ana Gomes ou Sampaio da Nóvoa — Ventura teria fortes possibilidades de
conseguir vencer estas presidenciais. Contra Seguro, só um (improvável) cenário de forte
desmobilização ao centro e centro-direita dará a Ventura reais hipóteses de
vencer. Ainda assim, importa que
a sua candidatura esteja alerta para esse risco de desmobilização — e que se
distancie também o mais possível de discursos simplistas e intolerantes que
demonizam o eleitorado que pensa de forma diferente. Como Alberto
Gonçalves brilhantemente explicou partindo de um
episódio particularmente infeliz e grotesco protagonizado por Sérgio Sousa
Pinto:
“E não se trata apenas de uma questão ideológica. Está em jogo uma
dimensão clínica. Com ponderação, Sérgio Sousa Pinto garante que somente os
“atrasados mentais” [sic] hesitam entre o partido do Outro e o PS, leia-se
entre o Outro e o dr. Seguro. Além de ninguém desejar ser fascista,
ninguém deseja ser atrasado mental, pelo que não há hesitação possível quanto
ao caminho a trilhar. Não basta não votar
no Outro, é preciso votar no dr. Seguro. E não basta votar no dr. Seguro: é
preciso anunciá-lo ao mundo (ou aos espectadores da Sic, vá) com toda a força
que o desrespeito pelos pulmões e o respeito pelas instituições nos conferem.
Temos a obrigação cívica de espalhar o anúncio através dos meios que pudermos,
nas televisões, nas rádios, nos jornais, nos cafés, nos escritórios, nos
autocarros e nos jantares em família. Devemos
gritar nas ruas (até às dez da noite, por causa dos vizinhos e da polícia) que
estamos perante a eleição mais importante desde a insurreição de Viriato e que
o voto em Seguro é decisivo para impedir que em dois meses Portugal se
transforme na Alemanha de 1933. Ou no Portugal de 1973. Ou na América de 2026.”
Tudo aponta para que no próximo
dia 8 de Fevereiro, apesar da ampla maioria de direita hoje existente em
Portugal, a Presidência da República vá ficar nas mãos do Partido Socialista. É
certo que tal deverá acontecer através de uma das figuras mais respeitáveis (ou,
como está por estes dias na moda dizer, menos “indecentes”) que o actual PS
pode apresentar, mas que ninguém
duvide que tal terá implicações profundas para os próximos cinco (possivelmente
dez) anos. Seguro e quem o apoiou desde a primeira hora têm o mérito de
ter tido a coragem de avançar quando as possibilidades de vitória pareciam
relativamente remotas e até uma parte importante e influente do próprio
PS tentava activamente sabotar a sua
candidatura. Mas a vitória do
candidato socialista seria impossível sem o fraccionamento à direita que
resulta da falta de uma liderança clara e abrangente. O elefante ausente da
sala nestas presidenciais é, obviamente, Pedro Passos Coelho. Como bem realçou Miguel Santos Carrapatoso:
“Pedro Passos Coelho é um dos grandes vencedores destas eleições
presidenciais. Por várias razões. A mais evidente: o seu silêncio tornou-se
um dos temas principais da campanha e ajudou a detonar a já frágil candidatura
de Luís Marques Mendes. Passos é o
grande vilão do montenegrismo; Mendes era o candidato do montenegrismo; Mendes
e o montenegrismo foram copiosamente derrotados nestas eleições presidenciais;
Passos, que há muito tornou claro que não quer ter nada que ver com este PSD,
ganhou. Ponto final, parágrafo.”
Se nada de excepcional
acontecer, o gravíssimo erro estratégico da actual liderança do PSD e a
desunião das direitas ditarão no próximo dia 8 de Fevereiro a eleição de um
Presidente socialista e, simultaneamente, o maior resultado de sempre de André
Ventura. Será mais um passo importante para que a liderança da direita
portuguesa seja entregue ao líder do Chega. Só
um homem parece capaz de o evitar: Pedro Passos Coelho. Mas não é neste momento
sequer certo que tencione voltar à política activa.
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