Numa escrita
arguta e decisiva.
Esquerda,
Irão e Venezuela
Reina o
silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. A Dra. Leitão não parece preocupada. A
morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser
politicamente excitante.
OBSERVADOR, 15 jan. 2026, 00:20107
Há muito que a esquerda portuguesa desistiu de compreender o mundo. Mas
raramente o fez com a alegria performativa destes últimos dias. Na última
semana voltou a cumprir a sua função essencial de se manifestar com solenidade
moral, linguagem indignada e completo alheamento da realidade. Em Lisboa e
noutras capitais europeias, desfilou indignada “contra a
agressão à Venezuela e ao Direito Internacional”, empunhando faixas, berrando slogans e
exibindo a mesma convicção com que, há poucos meses, marchava mascarada de
tartaruga ninja do Hamas, melancias à lapela, keffiyehs ao
pescoço, como se o ridículo resolvesse os problemas do mundo.
O embaraço
começou quando a encenação deu de caras com venezuelanos reais e não os
indivíduos abstractos da bolha ideológica. Gente que fugiu. Gente que
atravessou fronteiras a pé. Gente que deixou filhos, pais, casas e mortos para
trás. E que, em vez de se juntar ao protesto contra a “agressão”, festejava. Festejava a captura de Nicolás
Maduro, criatura que, no léxico progressista, é simultaneamente uma vítima do
imperialismo e uma “figura complexa”. Como todos os ditadores e torcionários, desde que
façam as suas malvadezas em nome de uma causa que agrade à esquerda zangada.
Mas convém começar pela
realidade, lugar que esta gente raramente frequenta. Nicolás Maduro
(des)governou a Venezuela durante mais de uma década, dando continuidade ao
“milagre” socialista de Hugo Chávez, e conseguiu transformar um dos países mais
ricos da América Latina numa experiência de miséria estrutural. Hiperinflação, fome, colapso
dos serviços públicos, eleições de faz-de-conta, opositores presos, exilados ou
mortos. Sete a oito milhões de venezuelanos fugiram. Um detalhe!
O importante
é denunciar “a agressão”. Sempre a agressão. Do agressor certo. O padrão
repete-se, com notável coerência, no rectângulo à beira-mar plantado. Em Lisboa, a Dra. Leitão, do Partido
Socialista, decidiu patrocinar um voto de protesto pela morte de uma cidadã
americana numa operação policial nos Estados Unidos. A cidadã, numa decisão
trágica, investiu com o carro contra um agente armado que bloqueava a viatura.
O agente disparou.
As opiniões
divergem: legítima defesa ou uso excessivo da força? O que não diverge é a existência, nos
Estados Unidos, de um sistema judicial funcional, capaz de investigar, julgar e
condenar, se for caso disso. Um sistema que dispensa as lições de Direito dadas
pela Dra. Leitão e pela ala vigilante da esquerda
lisboeta.
Mas enquanto
em Lisboa se sinaliza virtude, no Irão morre-se sem cerimónia. Centenas, talvez
milhares, de iranianos e iranianas foram mortos deliberadamente pelo regime
teocrático. Não por erro. Não por acidente. Mas porque ousaram sair à rua e
pedir liberdade. Execuções sumárias, tortura, prisões arbitrárias. Aqui não há
ambiguidades. Aqui há repressão nua e crua. E, no entanto, reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma
vigília. Nenhum acampamento universitário. A Dra. Leitão não parece preocupada.
A morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser
politicamente excitante.
A estridência
vem sempre do mesmo lado. Da esquerda profissional da indignação, instalada nas
universidades, nas ONG subsidiadas, nos partidos que vivem do protesto. Uma esquerda
que só reconhece vítimas quando estas encaixam na narrativa e só reconhece
crimes quando o alegado criminoso fala inglês ou hebraico. Uma esquerda cujo
cérebro ético tem um hemisfério inteiro paralisado, enquanto o outro se agita
em fúria selectiva.
E, no
entanto, a realidade insiste em existir. Enquanto o PS aprova votos simbólicos, no Irão sucede
algo de verdadeiramente sério. Os iranianos perderam o medo. Mulheres queimam o
véu em público. Estudantes enfrentam a polícia. Trabalhadores fazem greves.
Pessoas saem à rua sabendo que podem não regressar. Quando um povo deixa de temer a morte, nenhuma tirania
sobrevive indefinidamente. O regime dos aiatolas pode ainda impor, à bala,
parênteses de silêncio, mas não pode voltar atrás. Cada morto é uma fissura
irreparável.
O regime
iraniano não assenta em “diferenças culturais”, como gostam de
explicar os antropólogos de serviço. Assenta na
negação sistemática das liberdades humanas mais básicas.
O ícone desta
revolta, mulheres sem véu a acender um cigarro com a fotografia em chamas
do aiatola, resume tudo o que a esquerda se recusa a encarar. A liberdade começa na simples decisão de uma mulher
não ter de se esconder. E perante isto, o
feminismo institucional cala-se. Sempre pronto a protestar quando a vítima
é agredida pelo agressor “certo”,
sempre ausente quando as mulheres são esmagadas pelos homens errados.
A explicação
é simples, embora moralmente repugnante. A esquerda europeia, e a portuguesa em particular,
vivem da fantasia de que tudo o que se opõe à democracia liberal merece
indulgência. Caiu o comunismo, caiu o Muro,
e a esquerda órfã apaixonou-se
pelo islamismo político como novo símbolo de resistência ao Ocidente. O antiamericanismo tornou-se
critério de virtude. A democracia liberal, pecado original. E Israel, encarnação do mal absoluto.
Por isso,
Gaza enche avenidas e o Irão cabe à vontade na Rua da Betesga. Por isso, Israel e os Estados
Unidos são julgados com lupa, enquanto os aiatolas executam manifestantes sem
acordar ninguém no Largo do Rato, no ISCTE ou na Assembleia Municipal de Lisboa. A esquerda não escolhe causas pela justiça.
Escolhe-as pelo proveito ideológico.
Isto não é
apenas hipocrisia ocasional. É método. E enquanto persistir, continuará a distinguir vítimas
de primeira e de segunda, ditaduras toleráveis e intoleráveis, mortes que
merecem cartazes e mortes que merecem silêncio ou até aplauso, como as israelitas.
A esquerda portuguesa, entre votos simbólicos,
manifestações carnavalescas e seminários bem financiados, continua a escolher a
ignomínia. E, incrivelmente, continua a
reivindicar superioridade moral.
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