Do mais forte, obviamente, a
marcar tais discrepâncias comportamentais.
Numa visão mais optimista – para o caso português – também se pode definir tal indiferença perante o vizinho rico, como uma marca do nosso orgulho nacional, que tem os seus próprios pergaminhos, de “heróis do mar”, de “nobre povo”, de “nação valente” e de pátria de gente, afinal, de qualidade que “da ocidental praia partiu, “por mares nunca dantes navegados”, mares mais quentes, propícios a evasão - os mares do norte puxando mais ao recolhimento das casas aquecidas, proporcionando estudos e outros comportamentos de ilustração… Quanto à Espanha, voltada sobre um mar interior menos extenso, ela própria proporcionando-se mais estudos que originaram a universalidade os seus escritores de pinta. Daí a sua autoridade, pois não precisam dos nossos – escritores, digo – para nada, basta-lhes, por vezes, o espaço terreno, a apoiar o seu. Por isso investem por cá, na descontracção.
Por que razão Espanha investe em
Portugal, mas Portugal não investe em Espanha?
Um paradoxo
explicado por diferenças estruturais, não por incompetência.
Manuel
Peres Alonso
Nasceu na Galiza, filho de pais espanhóis. Vive em Portugal há 50 anos. Tem mestrado e doutoramento em Engenharia Física
OBSERVADOR, 08 jan. 2026, 00:16
«Há 50 anos que vivo entre Portugal e
Espanha. Nasci em Espanha, mas escolhi Portugal a qualquer custo. Ao longo
destas cinco décadas, observei um fenómeno económico que me intriga e preocupa
profundamente: as empresas espanholas investem agressivamente em
Portugal, expandem-se rapidamente, geram lucros substanciais e repatriam o
dinheiro para Madrid. As
empresas portuguesas, por sua vez, hesitam em expandir-se em Espanha,
deparam-se com barreiras sistemáticas e, frequentemente, acabam por abandonar o
projecto.
Quero ser claro desde o início: não
se trata de uma questão de falta de competência portuguesa. Os portugueses são
tão capazes, tão inteligentes e tão empreendedores quanto os espanhóis. O
problema não está nas pessoas. O problema é estrutural.
Os
números confirmam esta percepção de forma esmagadora. Espanha
investiu 30,7 mil milhões de euros em Portugal até
2024. Repito: trinta
vírgula sete mil milhões. Enquanto isso, Portugal investiu uma fracção muito menor em Espanha. A proporção entre os dois é de cerca de 8
para 1. Isto não é uma tendência. É um desequilíbrio estrutural.
O
Paradoxo Estatístico
Começo pelos números que revelam a
magnitude deste desequilíbrio.
Existem cerca de 2.400 empresas espanholas em Portugal com
investimentos estáveis e operações contínuas. Isto significa que não se trata de
visitas ocasionais, mas sim de empresas
com escritórios registados, funcionários, infraestruturas e uma presença
duradoura. Portugal tem registadas cerca de 6.289 empresas
exportadoras para Espanha, mas a
presença física consolidada é extremamente limitada. Espanha
tem dez vezes mais operações estruturadas em Portugal do que o inverso.
No que diz respeito ao comércio
bilateral, Portugal exporta para Espanha 5,35 mil milhões de euros. Este valor representa 26,8% de todas as
exportações portuguesas. Em suma, mais de
um quarto de tudo o que Portugal vende ao mundo é destinado a Espanha. Espanha é o nosso cliente número um, sem margem para
dúvidas. No
entanto, Portugal
importa de Espanha entre 16 a 17 mil milhões de euros, o que representa 30% ou
mais de todas as importações portuguesas. Em suma,
Portugal compra muito mais a Espanha do que Espanha compra a Portugal.
No sector bancário, este
número é particularmente revelador. A partir do primeiro trimestre de 2025, o
banco espanhol BBVA controla 23% de toda a quota de mercado de crédito
português. Isto significa que, quando uma família portuguesa solicita um
crédito hipotecário, há uma probabilidade de um em quatro de o banco escolhido
ser o BBVA. Quando uma empresa portuguesa procura uma linha de
crédito, há uma probabilidade significativa de a decisão ser do BBVA. Além disso, o BBVA reporta para Madrid,
não para Lisboa. As decisões financeiras que moldam a economia
portuguesa são frequentemente tomadas
por conselheiros em escritórios espanhóis e não por autoridades portuguesas.
Um exemplo concreto torna isto ainda
mais tangível. A Mercadona é
uma cadeia de supermercados espanhola. Esta única empresa do sector da
mercearia tem um volume de investimento acumulado de aproximadamente um mil
milhões de euros em Portugal. Tem entre
350 e 400 lojas espalhadas pelo país. Em 2024, a Mercadona obteve um lucro de 100 a 150 milhões de euros em
Portugal, o qual foi integralmente repatriado para Espanha. Sozinha,
uma cadeia de supermercados espanhola representa 3,3% de todo o investimento directo estrangeiro recebido por
Portugal desde 1985. Isto é, para uma única cadeia de retalho, um valor
extremamente significativo.
Este desequilíbrio não é acidental.
Não resulta do azar ou de circunstâncias aleatórias. Tem raízes profundas no modo como os dois países funcionam, em como as
pessoas pensam, e em como as organizações estão estruturadas.
As
Razões Estruturais: para Além dos Números
Após
um exame rigoroso de dados, de estudos académicos e de cinco décadas de
observação quotidiana entre dois países, identifiquei quatro factores
estruturais que explicam por que razão Espanha prospera em Portugal, enquanto
Portugal não consegue reciprocidade. Estes factores
não são óbvios à primeira vista, mas revelam-se ao observador atento e ao
analista paciente.
Psicologia
Colectiva: a Indiferença versus o Receio
Este é o factor mais subtil, mas
possivelmente o mais importante. Trata-se de uma diferença
de mentalidades tão profunda que moldou séculos de história ibérica.
Espanha olha para Portugal com indiferença. Não com desprezo, mas
sim com indiferença. Nos
currículos escolares espanhóis, Portugal passa despercebido. Os meios de
comunicação espanhóis têm pouca informação sobre Portugal. Ainda que exista,
essa presença é mínima, o que indica que Portugal não desperta curiosidade ou
interesse. Para um espanhol Portugal é “aquele país lá no cantinho”.
Portugal olha para Espanha com um
tipo de receio particular. Nos currículos escolares portugueses, a Batalha de Aljubarrota não é ensinada como
um evento histórico, mas sim como prova viva de independência e de defesa
contra um vizinho mais poderoso. A história de Portugal é
frequentemente narrada como uma história de resistência à invasão ou dominação. Este
receio está profundamente enraizado na psicologia colectiva dos portugueses. Existe uma consciência ancestral de que
existe um vizinho maior e de que é necessário permanecer vigilante para não
“ceder a Espanha”.
Quais são as consequências
económicas?
Quando um empresário espanhol pensa em
expandir-se para Portugal, não pensa
em “conquistar” ou “dominar” o mercado português. Pensa simplesmente: “Há um mercado perto de Espanha, com
consumidores e espaço para crescimento. Vou investir.” Não há carga
emocional. Apenas um cálculo racional.
Por outro lado, quando um
empresário português pensa em expandir-se para Espanha, enfrenta uma
resistência psicológica silenciosa, que não é expressa em reuniões de negócios,
mas que existe: “Vou entrar
num mercado controlado por alguém maior e mais poderoso. Conseguirei, de facto,
ganhar aqui ou estarei a entrar num território onde nunca terei verdadeiro
poder?” Esta dúvida paira, invisível, como um fio que puxa para
trás.
Esta diferença psicológica traduz-se directamente na velocidade de
decisão. A indiferença significa uma acção
rápida e pragmática, sem segundas reflexões. O receio
traduz-se em hesitação, análise excessiva, necessidade de consultoria adicional
e demoras. Os espanhóis agem. Os portugueses pensam se devem agir.
Estruturas
Organizacionais: Resultados versus Relacionalismo
Há uma diferença fundamental na forma
como os dois países seleccionam, promovem e recompensam os líderes
empresariais. Esta diferença tem raízes culturais tão profundas que moldou
décadas de dinâmica organizacional.
Em Espanha, a promoção dentro das
estruturas empresariais é predominantemente baseada em resultados. Um gestor que apresente resultados
robustos é promovido, independentemente de desagradar aos colegas, de ter uma
personalidade agressiva ou de não se dar bem com a “velha guarda”. Se um gestor
com 35 anos conseguir aumentar a margem de lucro da empresa em 20%, sobe
rapidamente para a direcção executiva. Isto cria um ambiente meritocrático, mas
também disruptivo e frequentemente conflituoso.
Em Portugal, a promoção está muito
mais condicionada pela integração relacional. A
compatibilidade pessoal, a lealdade a longo prazo e a capacidade de se “encaixar”
no grupo existente são aspectos que contam muito. Um gestor
que apresente bons resultados, mas que “não se integre culturalmente” e que
desafie as formas tradicionais, ficará preso em hierarquias não explícitas. Esta
situação torna as organizações portuguesas mais humanizadas, com menos conflito
superficial, mas também mais lentas a decidir e menos tolerantes com uma
inovação verdadeiramente disruptiva.
Recentemente, quando estava de visita à
Galiza, encontrei alguns amigos dos tempos do liceu em Lisboa. Um deles tinha
trabalhado como consultor de grandes empresas em Espanha durante muitos anos.
Perguntei-lhe qual era a diferença fundamental que tinha observado entre o modo
de funcionamento das empresas espanholas e das portuguesas. A sua resposta foi
reveladora e memorável.
Disse-me que, nas empresas
espanholas, os presidentes ou vice-presidentes são, habitualmente, muito
afáveis, amigos dos seus amigos e conhecidos e muito ligados às suas origens. Porém, à volta desse presidente, há um
conjunto de administradores que não são amigos de ninguém, que só olham para os
números e para os objectivos da empresa e que tomam decisões duras sem se
importarem com ninguém em particular. Concluiu que é difícil
compreender como a cultura dos proprietários das empresas pode ser tão
diferente da dos seus administradores mais próximos.
Esta é a estrutura espanhola em
essência: uma liderança humanizada, mas uma execução brutal e
meritocrática. Em Portugal,
esta separação não existe. O padrão é mais uniforme: relacionalismo no topo e
na base da organização, com harmonia em toda a empresa.
A implicação é concreta: as
empresas espanholas conseguem contratar e promover talentos “fora da caixa”, ou
seja, pessoas disruptivas que não se enquadram necessariamente na cultura dominante,
mas que obtêm resultados extraordinários. Em
Portugal, esses talentos ficam presos em hierarquias informais. Quando um
talento disruptivo português não consegue progredir na sua própria empresa
porque não “se encaixa”, acaba por emigrar. Tal criou um fenómeno de “fuga de
cérebros” que beneficia a Europa, mas enfraquece Portugal.
(CONTINUA)
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