quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

É A LEI


 Do mais forte, obviamente, a marcar tais discrepâncias comportamentais.

Numa visão mais optimista – para o caso português – também se pode definir tal indiferença perante o vizinho rico, como uma marca do nosso orgulho nacional, que tem os seus próprios pergaminhos, de “heróis do mar”, de “nobre povo”, de “nação valente” e de pátria de gente, afinal, de qualidade que “da ocidental praia partiu, “por mares nunca dantes navegados”, mares mais quentes, propícios a evasão - os mares do norte puxando mais ao recolhimento das casas aquecidas, proporcionando estudos e outros comportamentos de ilustração… Quanto à Espanha, voltada sobre um mar interior menos extenso, ela própria proporcionando-se mais estudos que originaram a universalidade os seus escritores de pinta. Daí a sua autoridade, pois não precisam dos nossos – escritores, digo – para nada, basta-lhes, por vezes, o espaço terreno, a apoiar o seu. Por isso investem por cá, na descontracção.

Por que razão Espanha investe em Portugal, mas Portugal não investe em Espanha?

Um paradoxo explicado por diferenças estruturais, não por incompetência.

Manuel Peres Alonso

Nasceu na Galiza, filho de pais espanhóis. Vive em Portugal há 50 anos. Tem mestrado e doutoramento em Engenharia Física

OBSERVADOR, 08 jan. 2026, 00:16

«Há 50 anos que vivo entre Portugal e Espanha. Nasci em Espanha, mas escolhi Portugal a qualquer custo. Ao longo destas cinco décadas, observei um fenómeno económico que me intriga e preocupa profundamente: as empresas espanholas investem agressivamente em Portugal, expandem-se rapidamente, geram lucros substanciais e repatriam o dinheiro para Madrid. As empresas portuguesas, por sua vez, hesitam em expandir-se em Espanha, deparam-se com barreiras sistemáticas e, frequentemente, acabam por abandonar o projecto.

Quero ser claro desde o início: não se trata de uma questão de falta de competência portuguesa. Os portugueses são tão capazes, tão inteligentes e tão empreendedores quanto os espanhóis. O problema não está nas pessoas. O problema é estrutural.

Os números confirmam esta percepção de forma esmagadora. Espanha investiu 30,7 mil milhões de euros em Portugal até 2024. Repito: trinta vírgula sete mil milhões. Enquanto isso, Portugal investiu uma fracção muito menor em Espanha. A proporção entre os dois é de cerca de 8 para 1. Isto não é uma tendência. É um desequilíbrio estrutural.

O Paradoxo Estatístico

Começo pelos números que revelam a magnitude deste desequilíbrio.

Existem cerca de 2.400 empresas espanholas em Portugal com investimentos estáveis e operações contínuas. Isto significa que não se trata de visitas ocasionais, mas sim de empresas com escritórios registados, funcionários, infraestruturas e uma presença duradoura. Portugal tem registadas cerca de 6.289 empresas exportadoras para Espanha, mas a presença física consolidada é extremamente limitada. Espanha tem dez vezes mais operações estruturadas em Portugal do que o inverso.

No que diz respeito ao comércio bilateral, Portugal exporta para Espanha 5,35 mil milhões de euros. Este valor representa 26,8% de todas as exportações portuguesas. Em suma, mais de um quarto de tudo o que Portugal vende ao mundo é destinado a Espanha. Espanha é o nosso cliente número um, sem margem para dúvidas. No entanto, Portugal importa de Espanha entre 16 a 17 mil milhões de euros, o que representa 30% ou mais de todas as importações portuguesas. Em suma, Portugal compra muito mais a Espanha do que Espanha compra a Portugal.

No sector bancário, este número é particularmente revelador. A partir do primeiro trimestre de 2025, o banco espanhol BBVA controla 23% de toda a quota de mercado de crédito português. Isto significa que, quando uma família portuguesa solicita um crédito hipotecário, há uma probabilidade de um em quatro de o banco escolhido ser o BBVA. Quando uma empresa portuguesa procura uma linha de crédito, há uma probabilidade significativa de a decisão ser do BBVA. Além disso, o BBVA reporta para Madrid, não para Lisboa. As decisões financeiras que moldam a economia portuguesa são frequentemente tomadas por conselheiros em escritórios espanhóis e não por autoridades portuguesas.

Um exemplo concreto torna isto ainda mais tangível. A Mercadona é uma cadeia de supermercados espanhola. Esta única empresa do sector da mercearia tem um volume de investimento acumulado de aproximadamente um mil milhões de euros em Portugal. Tem entre 350 e 400 lojas espalhadas pelo país. Em 2024, a Mercadona obteve um lucro de 100 a 150 milhões de euros em Portugal, o qual foi integralmente repatriado para Espanha. Sozinha, uma cadeia de supermercados espanhola representa 3,3% de todo o investimento directo estrangeiro recebido por Portugal desde 1985. Isto é, para uma única cadeia de retalho, um valor extremamente significativo.

Este desequilíbrio não é acidental. Não resulta do azar ou de circunstâncias aleatórias. Tem raízes profundas no modo como os dois países funcionam, em como as pessoas pensam, e em como as organizações estão estruturadas.

As Razões Estruturais: para Além dos Números

Após um exame rigoroso de dados, de estudos académicos e de cinco décadas de observação quotidiana entre dois países, identifiquei quatro factores estruturais que explicam por que razão Espanha prospera em Portugal, enquanto Portugal não consegue reciprocidade. Estes factores não são óbvios à primeira vista, mas revelam-se ao observador atento e ao analista paciente.

Psicologia Colectiva: a Indiferença versus o Receio

Este é o factor mais subtil, mas possivelmente o mais importante. Trata-se de uma diferença de mentalidades tão profunda que moldou séculos de história ibérica.

Espanha olha para Portugal com indiferença. Não com desprezo, mas sim com indiferença. Nos currículos escolares espanhóis, Portugal passa despercebido. Os meios de comunicação espanhóis têm pouca informação sobre Portugal. Ainda que exista, essa presença é mínima, o que indica que Portugal não desperta curiosidade ou interesse. Para um espanhol Portugal é “aquele país lá no cantinho”.

Portugal olha para Espanha com um tipo de receio particular. Nos currículos escolares portugueses, a Batalha de Aljubarrota não é ensinada como um evento histórico, mas sim como prova viva de independência e de defesa contra um vizinho mais poderoso. A história de Portugal é frequentemente narrada como uma história de resistência à invasão ou dominação. Este receio está profundamente enraizado na psicologia colectiva dos portugueses. Existe uma consciência ancestral de que existe um vizinho maior e de que é necessário permanecer vigilante para não “ceder a Espanha”.

Quais são as consequências económicas?

Quando um empresário espanhol pensa em expandir-se para Portugal, não pensa em “conquistar” ou “dominar” o mercado português. Pensa simplesmente: “Há um mercado perto de Espanha, com consumidores e espaço para crescimento. Vou investir.” Não há carga emocional. Apenas um cálculo racional.

Por outro lado, quando um empresário português pensa em expandir-se para Espanha, enfrenta uma resistência psicológica silenciosa, que não é expressa em reuniões de negócios, mas que existe:Vou entrar num mercado controlado por alguém maior e mais poderoso. Conseguirei, de facto, ganhar aqui ou estarei a entrar num território onde nunca terei verdadeiro poder?Esta dúvida paira, invisível, como um fio que puxa para trás.

Esta diferença psicológica traduz-se directamente na velocidade de decisão. A indiferença significa uma acção rápida e pragmática, sem segundas reflexões. O receio traduz-se em hesitação, análise excessiva, necessidade de consultoria adicional e demoras. Os espanhóis agem. Os portugueses pensam se devem agir.

Estruturas Organizacionais: Resultados versus Relacionalismo

Há uma diferença fundamental na forma como os dois países seleccionam, promovem e recompensam os líderes empresariais. Esta diferença tem raízes culturais tão profundas que moldou décadas de dinâmica organizacional.

Em Espanha, a promoção dentro das estruturas empresariais é predominantemente baseada em resultados. Um gestor que apresente resultados robustos é promovido, independentemente de desagradar aos colegas, de ter uma personalidade agressiva ou de não se dar bem com a “velha guarda”. Se um gestor com 35 anos conseguir aumentar a margem de lucro da empresa em 20%, sobe rapidamente para a direcção executiva. Isto cria um ambiente meritocrático, mas também disruptivo e frequentemente conflituoso.

Em Portugal, a promoção está muito mais condicionada pela integração relacional. A compatibilidade pessoal, a lealdade a longo prazo e a capacidade de se “encaixar” no grupo existente são aspectos que contam muito. Um gestor que apresente bons resultados, mas que “não se integre culturalmente” e que desafie as formas tradicionais, ficará preso em hierarquias não explícitas. Esta situação torna as organizações portuguesas mais humanizadas, com menos conflito superficial, mas também mais lentas a decidir e menos tolerantes com uma inovação verdadeiramente disruptiva.

Recentemente, quando estava de visita à Galiza, encontrei alguns amigos dos tempos do liceu em Lisboa. Um deles tinha trabalhado como consultor de grandes empresas em Espanha durante muitos anos. Perguntei-lhe qual era a diferença fundamental que tinha observado entre o modo de funcionamento das empresas espanholas e das portuguesas. A sua resposta foi reveladora e memorável.

Disse-me que, nas empresas espanholas, os presidentes ou vice-presidentes são, habitualmente, muito afáveis, amigos dos seus amigos e conhecidos e muito ligados às suas origens. Porém, à volta desse presidente, há um conjunto de administradores que não são amigos de ninguém, que só olham para os números e para os objectivos da empresa e que tomam decisões duras sem se importarem com ninguém em particular. Concluiu que é difícil compreender como a cultura dos proprietários das empresas pode ser tão diferente da dos seus administradores mais próximos.

Esta é a estrutura espanhola em essência: uma liderança humanizada, mas uma execução brutal e meritocrática. Em Portugal, esta separação não existe. O padrão é mais uniforme: relacionalismo no topo e na base da organização, com harmonia em toda a empresa.

A implicação é concreta: as empresas espanholas conseguem contratar e promover talentos “fora da caixa”, ou seja, pessoas disruptivas que não se enquadram necessariamente na cultura dominante, mas que obtêm resultados extraordinários. Em Portugal, esses talentos ficam presos em hierarquias informais. Quando um talento disruptivo português não consegue progredir na sua própria empresa porque não “se encaixa”, acaba por emigrar. Tal criou um fenómeno de “fuga de cérebros” que beneficia a Europa, mas enfraquece Portugal.

(CONTINUA)

 

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